Pular para o conteúdo principal

Venda de ovos de gafanhotos!

Sub-intendencia do 6.º Districto* da Cachoeira, 4 de outubro de 1906.

Illmo. Snr. Dr. Candido Alves Machado de Freitas
M. D. Vice-intendente em exercicio.

Attendendo a numerosas reclamações d'esta colonia no sentido de auxiliar-se, na extinção da praga de gafanhotos que de maneira descumunal assoalhouçe n'este districto deitando sobre o solo uma quantidade espantosa de óvos; lembro a V.S. que alem de outros meios ja cunhecidos deve-se effetuar a compra dos ditos óvos, não, ao preço de mil reis o Kilo, como consta estar pagando outros municipios, porem que se pague a cem ou dusentos reis, ésta medida é uma das de mais proveito pelo motivo dos colonos não perderem o tempo, e sim empregarem na colheta de óvos o serviço das crianças que com a maior facilidade colhem grande quantidade durante o dia, trasendo para colonia um proveito adimirável, antes de gerar-se o novo gafanhoto.
Esta semanna o Snr. Augusto Scheffel, negociante nesta Colonia, anunciou a compra, óvos de gafanhoto, e como de facto comprou e pagou a quantidade de cento e dois k.ºs fasendo logo apos atto, em vista da grande freguesia que lhe accudia carregada de óvos, por não ter elle consultado ao governo do municipio previamente, rezolveu sustar seu procedimento, no entre-tanto deixa patente a medida acertadissima de compra de óvos, ficando incinerado em sera cusa cerca de quatrocentos milhões de gafanhotos!!!
A ésta repartição tambem tem sido apresentada latas de querosene cheias de óvos.
Julgando uma verdadeira guerra de exterminio este meio alem de outros ja conhecidos ha ésta horrivel praga que ja tantos prejuisos tem causado a lavoura; espero que V.S. resolva de forma ha satisfaser esta colonia ja um tanto desanimada.

Saude e fraternidade.
Dionysio da Fonseca Reys
Subintendente.


Saude e fraternidade



IM/OPV/AOP/Ofícios/Caixa 21

Que estranhamento inicial causa a leitura da correspondência acima transcrita pelo inusitado da proposta! Mas, ao mesmo tempo, o quão efetiva parece ter sido a medida sugerida de empregar pessoas, especialmente crianças, na coleta de ovos de gafanhotos e depois vendê-los! Em tempos de expansão das fronteiras agrícolas e da eliminação de ecossistemas, o homem se vê cada vez mais premido pela natureza que precisa buscar soluções para o seu descompasso! Como num ciclo, voltam ao homem os danos que ele mesmo causou à natureza! E acostumar a população a lucrar com coleta de ovos ou desinfecção de ambientes talvez fosse, se possível, uma boa solução para efetivamente combater o aedes egypt.

Recentemente a imprensa cachoeirense referiu o aparecimento de nuvens de gafanhotos em algumas zonas da cidade, motivado o fenômeno pelas grandes enchentes que se abateram sobre os lugares de habitat destes insetos, ou pelo uso de defensivos agrícolas, expulsando-os para outros ambientes. Sem os predadores naturais, as invasões podem se tornar verdadeiras pragas, como acontecia na Cachoeira de 110 anos atrás e em outras cidades. As autoridades da época empregavam todos os esforços para debelar as pragas de gafanhotos, devastadoras das lavouras e da economia dos municípios... Por mais inusitados que pareçam aos olhos de hoje!

6.º Distrito: correspondia, em 1906, a Santo Ângelo, hoje a principal parte o município de Agudo.

(MR)

Comentários

  1. E não é? Há outros documentos tratando do assunto que foi levado muito a sério há 110 anos. O passado, como sempre, nos dando lições.

    ResponderExcluir
  2. Fantástico prima, me lembrou um dos causos do Romualdo do João Simões Lopes Neto, em que ele contratava sucessivamente partidas e partidas de animais e depois pessoas para livrar-se desses, como sempre te superas e nos encantas.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Casa da Aldeia: uma lenda urbana

Uma expressão que se tornou comum em nossos dias é a da "lenda urbana", ou seja, algo que costuma ser afirmado pelas pessoas como se verdade fosse, no entanto, paira sobre esta verdade um quê de interrogação!  Pois a afirmação inverídica de que a Casa da Aldeia é a mais antiga da cidade é, pode-se dizer, uma "lenda urbana". Longe de ser a construção mais antiga da cidade, posto ocupado pela Catedral Nossa Senhora da Conceição (1799), a Casa da Aldeia, que foi erguida pelo português Manoel Francisco Cardozo, marido da índia guarani Joaquina Maria de São José, é mais recente do que se supunha. Até pouco tempo, a época tida como da construção da casa era dada a partir do requerimento, datado de 18 de abril de 1849, em que Manoel Francisco Cardozo: querendo elle Suppl. Edeficar umas Cazas no lugar da Aldeia ecomo Alli seaxe huns terrenos devolutos na Rua de S. Carlos que faz frente ao Norte efundos ao Sul fazendo canto ao este com a rua principal cujo n...

O nascimento da Ponte do Fandango

Era prefeito municipal o jovem advogado Liberato Salzano Vieira da Cunha e um dos grandes clamores da Cachoeira do Sul de seu tempo era a construção de uma ponte que transpusesse o Jacuí. Imbuído do objetivo de encontrar solução  para concretização deste anseio, Liberato Salzano embarcou para a capital federal, então a cidade do Rio de Janeiro, para tentar junto à Presidência da República meios de construir a ponte. No retorno da viagem, cheio de entusiasmo, o prefeito, que também era um dos diretores do Jornal do Povo , mereceu foto na primeira página e a manchete: Será Construida a Ponte Sôbre o Rio Jacuí .  Dr. Liberato S. Vieira da Cunha - MMEL Logo abaixo da manchete, a chamada:   Melhoria nas Condições de Navegabilidade no Mesmo Rio - Obtidas Verbas de Duzentos Mil Cruzeiros, Respectivamente Para a Construção de Uma Escola de Artes e Oficios Para as Obras da Casa da Criança Desamparada - Início da Construção das Casas Populares - Departamento de Fomento à ...

Série: Centenário do Château d'Eau - as esculturas

Dentre os muitos aspectos notáveis no Château d'Eau estão as esculturas de ninfas e Netuno. O conjunto escultórico, associado às colunas e outros detalhes que tornam o monumento único e marcante no imaginário e memória de todos, foi executado em Porto Alegre nas famosas oficinas de João Vicente Friedrichs. Château d'Eau - década de 1930 - Acervo Orlando Tischler Uma das ninfas do Château d'Eau - foto César Roos Netuno - foto Robispierre Giuliani Segundo Maria Júlia F. de Marsillac*, filha de João Vicente, com 15 anos o pai foi para a Alemanha estudar e lá se formou na Academia de Arte. Concluído o curso, o pai de João Vicente, Miguel Friedrichs, enviou-lhe uma quantia em dinheiro para que adquirisse material para a oficina que possuía em Porto Alegre. De posse dos recursos, João Vicente aproveitou para frequentar aulas de escultura, mosaico, galvanoplastia** e de adubos químicos, esquecendo de mandar notícias para a família. Com isto, Miguel Friedrichs pediu à polícia alemã...