Pular para o conteúdo principal

A primeira eleição em Cachoeira

Para a instalação da Vila Nova de São João da Cachoeira alguns requisitos eram obrigatórios, sendo um deles a eleição dos três vereadores, aqueles que iriam dirigir os destinos do novo município.

Joaquim Bernardino de Senna Ribeiro da Costa, o ouvidor geral e corregedor da Comarca de São Pedro e Santa Catarina que foi encarregado de proceder à instalação da Vila, foi quem dirigiu a eleição e empossou os eleitos, ficando o ato registrado no livro primeiro da Câmara (CM/OF/TA-008), com o título de Auto de publicação da eleição dos Vereadores, e mais Oficiais, que hão de servir o presente ano de mil oitocentos e vinte*:

Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e vinte, aos cinco dias do mês de agosto do dito ano, nesta Vila Nova de São João da Cachoeira, e Casas da Câmara dela, onde se achava o Doutor Joaquim Bernardino de Senna Ribeiro da Costa, Ouvidor Geral, e Corregedor da Comarca comigo Escrivão, Nobreza, e Povo; e sendo aí depois de se proceder à eleição na forma da Lei, e sendo convocadas as pessoas da Nobreza, e Povo da mesma, e na presença de todos foi aberta, e publicada pelo dito Ministro a eleição, e se achou estarem nomeados os seguintes = Para Vereadores João Soeiro de Almeida e Castro, Joaquim Gomes Pereira, Francisco Joze da Silva Moura, para Procurador Antonio Xavier da Silva; e saiu igualmente eleito para Tesoureiro da Câmara Francisco do Loreto. E para constar mandou o dito Ministro fazer este Auto, que assinou com os que se achavam presentes, e comigo Antonio Jozé Soares de Campos Escrivão da Ouvidoria Geral e Correição da Comarca que o escrevi. E se declara, que não se procedeu à eleição de dois Juízes Ordinários e um Juiz dos Órfãos, na conformidade do Alvará com força de Lei de vinte e seis de abril do ano passado, por haver Sua Majestade El Rei Nosso Senhor sido Servido Criar pelo Alvará com força de Lei de vinte e seis de agosto do ano passado de mil oitocentos e dezenove o Lugar de Juiz de Fora do Cível, Crime, e Órfãos nas Vilas do Rio Pardo, e Vila Nova de São João da Cachoeira. Eu sobredito Escrivão o escrevi e assinei.

Dos três vereadores eleitos, dois eram portugueses de nascimento: João Soeiro de Almeida e Castro, natural de Lamego, e Francisco Joze da Silva Moura, nascido na Freguesia de Santa Eulália da Palmeira. Joaquim Gomes Pereira era o único brasileiro, natural de Porto Alegre. A naturalidade dos vereadores dá mostras da forte presença portuguesa e das relações de poder advindas da sua condição de principais povoadores do lugar.


Assinatura do vereador João Soeiro de Almeida e Castro

Assinatura do vereador Joaquim Gomes Pereira


Assinatura do vereador Francisco Joze da Silva Moura

A posse dos eleitos foi dada igualmente pelo Dr. Joaquim Bernardino de Senna Ribeiro da Costa, procedendo os mesmos ao juramento sobre o livro dos Santos Evangelhos, em que colocaram a mão direita, comprometendo-se que verdadeiramente servissem os cargos para que foram eleitos, guardando em tudo o Serviço de El Rei Nosso Senhor e o Direito das partes.

Assim foi a primeira eleição da história do quinto município do Rio Grande do Sul.

*Transcrição com grafia atualizada.

MR

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O nascimento da Ponte do Fandango

Era prefeito municipal o jovem advogado Liberato Salzano Vieira da Cunha e um dos grandes clamores da Cachoeira do Sul de seu tempo era a construção de uma ponte que transpusesse o Jacuí. Imbuído do objetivo de encontrar solução  para concretização deste anseio, Liberato Salzano embarcou para a capital federal, então a cidade do Rio de Janeiro, para tentar junto à Presidência da República meios de construir a ponte. No retorno da viagem, cheio de entusiasmo, o prefeito, que também era um dos diretores do Jornal do Povo , mereceu foto na primeira página e a manchete: Será Construida a Ponte Sôbre o Rio Jacuí .  Dr. Liberato S. Vieira da Cunha - MMEL Logo abaixo da manchete, a chamada:   Melhoria nas Condições de Navegabilidade no Mesmo Rio - Obtidas Verbas de Duzentos Mil Cruzeiros, Respectivamente Para a Construção de Uma Escola de Artes e Oficios Para as Obras da Casa da Criança Desamparada - Início da Construção das Casas Populares - Departamento de Fomento à ...

A Ponte do Passo Geral do Jacuí

O Passo Geral do Jacuí, localizado a 30 km da cidade de Cachoeira do Sul, pela estrada de rodagem e, cerca de 40 km pelo leito do rio Jacuí, foi um dos caminhos de ligação entre Rio Pardo e a Região da Fronteira Oeste e Planalto, em tempos de paz e de Guerra Farroupilha. Terminada a Revolução Farroupilha, com a pacificação de Ponche Verde, a Província, governada por Caxias, volta-se para as obras e a prosperidade do Rio Grande do Sul. Em 8 de abril de 1846, por decreto, é apresentado o projeto para esse desenvolvimento e nele incluída a construção de uma ponte sobre o Passo Geral do Jacuí. Uma obra necessária e vital para agilizar a ligação entre os principais núcleos urbanos, servidos pelo rio Jacuí e a comercialização dos produtos e riquezas entre regiões Leste e Oeste da Província. Sua construção foi contratada pelo empreiteiro Ferminiano Pereira Soares, em 1848, pela quantia de 250 contos de réis, paga em seis prestações e num prazo contratual de cinco anos. (Ferminian...

Série: Centenário do Château d'Eau - as esculturas

Dentre os muitos aspectos notáveis no Château d'Eau estão as esculturas de ninfas e Netuno. O conjunto escultórico, associado às colunas e outros detalhes que tornam o monumento único e marcante no imaginário e memória de todos, foi executado em Porto Alegre nas famosas oficinas de João Vicente Friedrichs. Château d'Eau - década de 1930 - Acervo Orlando Tischler Uma das ninfas do Château d'Eau - foto César Roos Netuno - foto Robispierre Giuliani Segundo Maria Júlia F. de Marsillac*, filha de João Vicente, com 15 anos o pai foi para a Alemanha estudar e lá se formou na Academia de Arte. Concluído o curso, o pai de João Vicente, Miguel Friedrichs, enviou-lhe uma quantia em dinheiro para que adquirisse material para a oficina que possuía em Porto Alegre. De posse dos recursos, João Vicente aproveitou para frequentar aulas de escultura, mosaico, galvanoplastia** e de adubos químicos, esquecendo de mandar notícias para a família. Com isto, Miguel Friedrichs pediu à polícia alemã...