Pular para o conteúdo principal

Transporte coletivo urbano

Em 9 de maio de  1954, o Jornal do Povo noticiava que a Empresa Nossa Senhora das Graças era a nova concessionária de transportes coletivos para Cachoeira do Sul, substituindo a Empresa Marabá, então a detentora da concessão.

Na notícia veiculada à época, depois de considerações sobre a controversa rescisão de contrato da Empresa Marabá, o Jornal do Povo resumiu a situação que levou à abertura de concorrência para exploração do serviço de transporte coletivo na cidade:

(Início da transcrição)

Nova concessionária de transportes coletivos

inaugurado ontem o serviço, com a bênção das novas unidades

Consoante já é do conhecimento público, em fins do ano passado a Emprêsa Marabá, então concessionária local dos serviços de transporte coletivo urbano e suburbano em auto-ônibus, por motivos que foram na época sobejamente controvertidos por esta fôlha, rescindiu contrato firmado com o poder municipal para a exploração comercial dos serviços em referência.

Em conseqüência, foi aberta concorrência pública para a escôlha do novo concessionário, uma vez que a emprêsa rescisória parecia não mais se interessar pelo assunto.

Como resultado da concorrência então aberta apresentaram-se dois candidatos; a própria Emprêsa Marabá e o sr. Rafik Germano, que há cêrca de dois anos vinha explorando, concomitantemente, o serviço de transporte coletivo urbano em camionetas-lotações, com evidentes benefícios para a coletividade cachoeirense.

A proposta vencedora

Postas em discussão por uma douta comissão integrada por elementos representativos do comércio, indústria e outras classes sociais, para tal fim indicada pelo Exmo. Sr. Prefeito Municipal, sr. Virgilino Jayme Zinn, depois de controvertida a matéria, foi considerada vencedora, pela soma de vantagens que oferecia, a proposta do sr. Rafik Germano.

O contrato

Depois de detido e acurado estudo da matéria pelo Exmo. Sr. Prefeito Municipal e de satisfeitas pela firma vencedora tôdas as formalidades regulamentares, foi assinado, finalmente, em 8 de março último, o contrato para exploração, por 5 anos, dos serviços de transporte coletivo em ônibus e camionetas-lotações.

Camionetas-lotação de Rafik Germano - AHMCS

O contrato assinado em 8 de março dava o prazo de 60 dias para a firma vencedora assumir os serviços em tela, prazo êsse que foi expirado.

A Nova Emprêsa

A nova emprêsa de transportes coletivos urbanos e suburbanos de Cachoeira do Sul passou a girar  sob a razão de "Emprêsa Nossa Senhora das Graças", numa justa homenagem àquela Santa, cuja festa ontem se comemorava.

Inicialmente entraram em tráfego 5 modernos e confortáveis ônibus, recentemente construídos, e 4 camionetas-lotações, duas das quais já se achavam em tráfego.

Assim, a partir das 6 horas de ontem, a população de Cachoeira do Sul passou a contar com um perfeito serviço, à altura de suas mais prementes e inadiáveis necessidades, com o que estão de parabens todos quantos se utilizam dêsse meio de transporte.

O batismo dos novos carros

[..] por volta das 10 horas os novos ônibus foram retirados da circulação por espaço de quase uma hora e enfileirados defronte a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, onde, com a presença do Exmo. Sr. Prefeito Municipal, Sr. Carlos Barcelos de Souza, Secretario do Governo do Municipio, Dr. Farid Germano, advogado da nova empresa, diversas outras autoridades municipais, funcionarios da nove empresa e muitas outras pessoas gradas, se procedeu ao batismo das unidades presentes. [...]

(Término da transcrição do Jornal do Povo de 9/5/1954, p. 6)

Batismo dos cinco novos veículos defronte à Igreja Matriz (em obras de pintura) - 8/5/1954 - AHMCS

A matéria do Jornal do Povo prossegue com outros detalhes, dentre eles a de que a fabricante dos cinco novos veículos modernos e confortáveis era a "conceituada e poderosa firma 'ELIZIARIO', estabelecida na capital do Estado e considerada a pioneira da fabricação de carrocerias de ônibus no Brasil.

Ônibus fabricados pela firma Eliziario, de Porto Alegre - década 1950 - AHMCS

Passados os cinco primeiros anos da concessão, a Prefeitura Municipal renovou, em 9 de março de 1959, o contrato do serviço de transporte coletivo urbano com a Empresa Nossa Senhora das Graças, ficando acordado o que segue:

(Início da transcrição do Livro de Contrato 1955 a 1967 N.º 2, fls. 87v e 88 - Prefeitura Municipal - sem codificação)

Têrmo de Renovação.

Do contrato de concessão da exploração do serviço de transporte coletivo de passageiros na cidade de Cachoeira do Sul que fazem a Prefeitura Municipal de Cachoeira do Sul e o Sr. Taufik [sicGermanos.

Aos nove (9) dias do mês de março do ano de mil novecentos e cinquenta e nove (1959), na Secretaria do Govêrno Municipal, presentes o Sr. Arnoldo Paulo Fürstenau, Prefeito do Municipio, como "concedente", e o Sr. Taufick Germanos, como "concessionário" do serviço de transporte coletivo urbano e suburbano da cidade, foi lavrado o presente têrmo de renovação do referido contrato conforme as seguintes condições: Cláusula Primeira. - Fica renovado o contrato da concessão dos serviços de transporte coletivo urbano e suburbano da cidade efetuada pela Emprêsa Nossa Senhora das Graças, vencido no dia oito (8) de março de mil novecentos e cinquenta e nove (1959), por mais cinco (5) anos como possibilitam os têrmos da Lei 733, de 5 de janeiro de 1959. Cláusula Segunda. Ficam alterados os prêços das passagens da referida Emprêsa para as seguintes bases: Passagem comum = quatro cruzeiros (Cr$ 4,00); Passagem para operário e colegial - dois cruzeiros  e cinquenta centavos (Cr$ 2,50); Passagem lotação - cinco (Cr$ 5,00). 
E por estarem assim ambas as partes de pleno e comum acôrdo foi lavrado o presente têrmo, do qual extrairam-se duas cópias datilografadas, de igual teôr e forma.
Secretaria do Govêrno Municipal de Cachoeira do Sul, 9 de Março de 1959.

Arnoldo Paulo Fürstenau                                                                       Taufik Germanos
   Prefeito-concedente                                                                              Concessionário.
Testemunhas.
[assinatura ilegível]                                                                                Pedro Otto Machado

Primeiro termo de renovação do contrato de concessão - 9/3/1959 - Livro de Contrato 1955 a 1967 N.º 2, fls. 87v e 88 - Prefeitura Municipal (sem codificação)

Mais de sete décadas depois, a Transportes Nossa Senhora das Graças deixa de ser a concessionária, entrando em seu lugar, em caráter emergencial, uma empresa catarinense. E como a história gosta de se repetir, coincidentemente a tradicional concessionária do transporte coletivo em Cachoeira do Sul iniciou com cinco veículos, o mesmo número dos que estavam circulando no encerramento da concessão.

Contribuiu para esta publicação o material de uma antiga exposição histórico-fotográfica realizada pelo Arquivo Histórico em 2001, intitulada "Do Auto-bonde ao Mais Rápido".

Mirian Ritzel

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O nascimento da Ponte do Fandango

Era prefeito municipal o jovem advogado Liberato Salzano Vieira da Cunha e um dos grandes clamores da Cachoeira do Sul de seu tempo era a construção de uma ponte que transpusesse o Jacuí. Imbuído do objetivo de encontrar solução  para concretização deste anseio, Liberato Salzano embarcou para a capital federal, então a cidade do Rio de Janeiro, para tentar junto à Presidência da República meios de construir a ponte. No retorno da viagem, cheio de entusiasmo, o prefeito, que também era um dos diretores do Jornal do Povo , mereceu foto na primeira página e a manchete: Será Construida a Ponte Sôbre o Rio Jacuí .  Dr. Liberato S. Vieira da Cunha - MMEL Logo abaixo da manchete, a chamada:   Melhoria nas Condições de Navegabilidade no Mesmo Rio - Obtidas Verbas de Duzentos Mil Cruzeiros, Respectivamente Para a Construção de Uma Escola de Artes e Oficios Para as Obras da Casa da Criança Desamparada - Início da Construção das Casas Populares - Departamento de Fomento à ...

Série: Centenário do Château d'Eau - as esculturas

Dentre os muitos aspectos notáveis no Château d'Eau estão as esculturas de ninfas e Netuno. O conjunto escultórico, associado às colunas e outros detalhes que tornam o monumento único e marcante no imaginário e memória de todos, foi executado em Porto Alegre nas famosas oficinas de João Vicente Friedrichs. Château d'Eau - década de 1930 - Acervo Orlando Tischler Uma das ninfas do Château d'Eau - foto César Roos Netuno - foto Robispierre Giuliani Segundo Maria Júlia F. de Marsillac*, filha de João Vicente, com 15 anos o pai foi para a Alemanha estudar e lá se formou na Academia de Arte. Concluído o curso, o pai de João Vicente, Miguel Friedrichs, enviou-lhe uma quantia em dinheiro para que adquirisse material para a oficina que possuía em Porto Alegre. De posse dos recursos, João Vicente aproveitou para frequentar aulas de escultura, mosaico, galvanoplastia** e de adubos químicos, esquecendo de mandar notícias para a família. Com isto, Miguel Friedrichs pediu à polícia alemã...

Casa da Aldeia: uma lenda urbana

Uma expressão que se tornou comum em nossos dias é a da "lenda urbana", ou seja, algo que costuma ser afirmado pelas pessoas como se verdade fosse, no entanto, paira sobre esta verdade um quê de interrogação!  Pois a afirmação inverídica de que a Casa da Aldeia é a mais antiga da cidade é, pode-se dizer, uma "lenda urbana". Longe de ser a construção mais antiga da cidade, posto ocupado pela Catedral Nossa Senhora da Conceição (1799), a Casa da Aldeia, que foi erguida pelo português Manoel Francisco Cardozo, marido da índia guarani Joaquina Maria de São José, é mais recente do que se supunha. Até pouco tempo, a época tida como da construção da casa era dada a partir do requerimento, datado de 18 de abril de 1849, em que Manoel Francisco Cardozo: querendo elle Suppl. Edeficar umas Cazas no lugar da Aldeia ecomo Alli seaxe huns terrenos devolutos na Rua de S. Carlos que faz frente ao Norte efundos ao Sul fazendo canto ao este com a rua principal cujo n...