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O corpo do castelhano Joze

O corpo de um castelhano chamado Joze foi encontrado no meio do mato por dois homens. Um deles, chamado Cezefredo Rodigues [sic] da Silva, de 45 anos, morador da estância do Lajeado,  procurou o juiz de paz para dar parte do acontecido. 

Era o dia 6 de outubro de 1829 quando Cezefredo dirigiu-se à morada do juiz de paz suplente, Bernardo Moreira Lirio, onde foi lavrado o termo de assentada pelo escrivão João Alvares de Almeida.

Primeira testemunha. Tratado como primeira testemunha, Cezefredo fez o juramento de praxe, prometendo dizer a verdade sobre "a morte perpetrada no Castilhano Joze". 

Contou que a mulher do castelhano, chamada Maria, dissera na quinta-feira, primeiro de outubro, que o seu marido havia saído para o campo no dia 29, a cavalo, levando consigo um facão e uma faca, não tendo retornado. Como o marido não regressou, Maria ficou com medo de passar a noite sozinha e foi pedir pouso na casa de Manoel das Armas, morador em roça vizinha. No dia seguinte, sem notícias do castelhano, Maria saiu a procurá-lo na companhia de Manoel das Armas, novamente sem encontrá-lo. Naquela noite, pousou na Estância da Capelinha. 

No mesmo dia, Cezefredo voltou para chamar o filho do castelhano que morava no posto de Jozé Carvalho da Silva. Não encontrando o rapaz, voltou para sua morada e, ao meio-dia mais ou menos, na companhia de Ignacio, "homem andante" morador da Capela de Santana, saíram a campo "quando derão com o dito corpo na pastura deitado com a cabesa para baixo ao pe de hum buraco de tatu com huma cavadeira de pau na mão esquerda cahida sobre o braço direito e o facão e faca na sintura".

Cezefredo, acompanhado de Ignacio, voltou para casa e mandou avisar a mulher do falecido, que estava na Estância da Capelinha. Não sendo encontrada, voltou Cezefredo ao campo, achando-a e comunicando que havia localizado o corpo. Maria estava acompanhada de Manoel das Armas e de dois índios, Benedito e Andre. Por ser tarde, Cezefredo voltou para casa e Maria e seus acompanhantes para a Capelinha.

No outro dia, retornaram todos ao local onde estava o corpo, inclusive o filho do falecido, encontrando-o do mesmo jeito. Examinando-o não visualizaram nenhum sinal de ferimento, supondo ter morrido de ataque do peito, mal de que sofria há tempos, além de ser homem velho. Sem condições de levar o corpo e considerando já estar morto há quatro dias, sepultaram-no ali mesmo. Feito isto, Cezefredo foi então dar parte "do que aSima declara". 

Ao final, assinou com o sinal de cruz, por não saber ler nem escrever.

Segunda testemunha. Anrique Joze, solteiro, de idade imprecisa por estar o original rasgado, morador na estância de Joze Carvalho da Silva, onde trabalhava como peão, fez os juramentos de, na presença do juiz e sobre os Santos Evangelhos, dizer a verdade. 

Relatou que sua mãe havia lhe dito que o pai tinha saído de casa no dia 29 de setembro, cedo da manhã, para "recolher a manada". Esperando sua mãe todo o dia e "vendo que não aparecia logo descomfiou que lhe cuSsedera alguma Coiza no Campo em rezão de elle ser muito atacado de molestia do peito".

Contou que no dia 1.º do mês é que foi "ter com a mai por chamado della e no dia siguinte e que forão ter com o corpo". Afirmou que avistando o corpo, ele não constatara nenhum ferimento e que estava no chão de cabeça para baixo, o pé num buraco de tatu com uma cavadeira de pau na mão esquerda caída sobre a direita. Ali mesmo lhe deram sepultura por não "estar capas de comduzirem", sendo testemunhas Manoel das Armas, Cezefredo Rodrigues da Silva, os "naturais" Benedito e Andre e a mãe dele. 

E mais não disse, deixando um sinal de cruz no lugar de seu nome "Anrique" por ser analfabeto.

Terceira testemunha. Manoel Fernandes das Armas, casado, 40 anos de idade, pouco mais ou menos, morador e agregado na estância da Capelinha, onde vivia de suas lavouras. Fez o juramento de praxe e contou que no Dia de São Miguel*, vindo da Capelinha para o seu arranchamento "mandar sua mulher adiante a caza do castilhano Józe que estava de sua caza distante meia legoa mais ou menos a mudar de cavallo emquanto ele testemunha hia para o seu ranxo isto serião mais de meia tarde". 

Na hora da Ave-Maria** sua mulher chegou em casa, dizendo que a mulher do castelhano Jozé  tinha pedido que fossem dormir lá com ela, porque estava sozinha e tinha medo de passar a noite só, pois seu marido tinha saído de manhã cedo para recolher uma manada e matar alguma caça e não havia voltado até aquelas horas, sendo "hum homem velho muito doente" e que desconfiava ter acontecido alguma coisa no campo.

Manoel disse a sua mulher que não poderia dormir lá em razão de ter de ir para seu trabalho no dia seguinte, perguntando a ela se encorajava ir buscar a mulher do castelhano em sua casa e conduzi-la para a casa deles. A mulher concordou e assim o fez. 

Ao chegar na casa deles, a mulher do castelhano contou-lhes a mesma história que a testemunha já tinha ouvido da própria mulher. Nesse meio tempo, havia chegado o natural Benedito, disposto a campear o desaparecido no dia seguinte bem cedo. Ao amanhecer, saíram todos a procurar o castelhano até meia tarde, não o achando. A mulher do castelhano pediu que ele fosse chamar o seu filho Anrique Joze, que trabalhava de peão na casa de Joze Carvalho da Silva. Feito isto, Manoel não o encontrou na casa de Joze Carvalho, sendo informado que ele havia ido para outra casa do mesmo Carvalho. 

Voltando para a fazenda, Manoel passou na casa da outra testemunha, Cezefredo Rodrigues, perguntando sobre o castelhano, quando obteve a resposta de que ele não tinha notícia, passando a relatar o que a mulher do desaparecido havia contado. Disse não duvidar do que a mulher do castelhano contara, desconfiando que alguma coisa lhe acontecera, pois era um homem velho e muito doente do peito e que quando trabalhara para ele de peão muitas vezes esteve à beira da morte. À noite retornou à fazenda, onde achou "a dita mulher e sua companheira em casa do dito Benedito".

No dia seguinte, trataram de retomar as buscas ao castelhano, sem sucesso. Ao subirem em lugar mais alto, encontraram um homem andante, do qual a testemunha ignorava o nome, que lhes disse que ele e Cezefredo já tinham encontrado o castelhano morto. Mas já era tarde e não poderiam mais fazer nada àquela hora. Subindo mais um pouco, encontraram Cezefredo que contou onde estava o corpo e que avistou o cavalo desencilhado junto a uma coxilha. Todos se retiraram às suas casas para, no outro dia, chegarem até ao corpo.

No dia seguinte, o grupo e mais algumas pessoas chegaram ao corpo. Examinando-o constataram estar de cabeça para baixo, com uma "cavadeirazinha" de pau na mão esquerda caída sobre o braço direito, com o facão no chão demonstrando ter cavado em buraco de tatu. Não acharam nenhum ferida, nem sangue, nem sinal de "o terem ofendido e axouse na sintura hum facão e huma faca e por não estar capas de transportar a otro lugar sentrarão todos de cumum acordo que se sepultace ali e se dece parte".

Declarado tudo isto, Manoel Fernandes das Armas traçou o sinal de cruz, por não saber ler nem escrever.

Quarta testemunha. Benedito Lopes, de nação guarani, casado, idade de quarenta anos, pouco mais ou menos, morador na estância da Capelinha onde vivia de peão. Juramentado como testemunha, relatou que "no dia quarta feira trinta do paSsado" soubera da boca da mulher do dito castelhano que "elle tendo hido no dia de São Miguel de manham a recolher manada e ao mesmo tempo caSsar alguma caSsa e que esperando todo dia não apareSsera" e que por ter medo de ficar sozinha, foi passar a noite na casa de Manoel das Armas. Contou que no outro dia cedo todos saíram à procura do castelhano, não o encontrando, recolhendo-se novamente à casa de Manoel das Armas, que foi procurar o filho do desaparecido.

No outro dia, saíram novamente à procura do castelhano, encontrando-o à noite. No dia seguinte, 2 de outubro, foram até o corpo do dito castelhano, não achando sinal algum de ferimento. Portanto, ele supunha que tinha morrido pelos ataques de peito que costumava ter. O corpo tinha um facão e uma faca na cintura e foi sepultado ali mesmo por não estar em "forma de se poder conduzir para outro lugar".

E mais não disse, deixando o sinal de cruz.

Quinta testemunha. Andre Ferreira Luiz da Silva, casado, de idade trinta anos pouco mais ou menos, agregado da estância da Capelinha, onde vivia de domar animais xucros. 

Depois de fazer os juramentos, disse que estando em sua casa foram convidá-lo, "por parte da mulher do dito castelhano", para ir campeá-lo. Andando todo dia, à tarde encontraram Cezefredo e um homem andante, de quem não sabia o nome, que lhes disseram ter encontrado o castelhano Joze já morto, mostrando o lugar. Mas por ser tarde, deixaram para voltar no dia seguinte.

No outro dia, ele e a mulher do castelhano e outras pessoas, às quais se somaram outras, examinaram o corpo do castelhano que estava deitado de cabeça para baixo, com uma cavadeirazinha de pau na mão esquerda caída sobre o braço direito e com a cara no chão. O pé estava em um buraco de tatu. Não havia ferimento algum no corpo, tendo à cintura um facão e uma faca. Como não puderam conduzi-lo, providenciaram a sepultura ali mesmo.

Andre também deixou o desenho de cruz como assinatura de seu testemunho.

O documento é finalizado pela conclusão do juiz.

Início da transcrição da conclusão:

Concluzão

Aos sete dias do mez de outubro de mil oito centos e vinte nove annos Nesta Freguezia de noSsa Senhora da ConSseição da Cachoeira em meu Cartorio faso constar estas Comcluzoes ao Juiz de Paz Suplente o Capitão Bernardo Moreira Lirio E para Constar para este termo Eu João Alvares de Almeida Escrivão do Juizo de Paz que o Escrevÿ -

Concluzos ao Juiz

Concluzos ao Juiz de Páz Suplente Capitão Bernardo Moreira Lirio em 7 de 8br.º de 1829


O Escrivão fara remesa deste Auto di Corpo de de lito ao Meretissimo Juis Ordinario desta Villa.

Caxr. 7 de 8br.º de 1829./

Lirio.

Fim da transcrição da conclusão do Auto de Corpo de Delito no Castelhano Joze - Pasta da Justiça (1820 a 1829) - sem indexação.





Parte do auto de corpo de delito indireto feito no castelhano Joze - Documentos da Justiça (sem indexação)

O documento acima resumido e retratado é composto por 10 folhas manuscritas, apresentando desgaste e rasgados em diferentes pontos. Mais do que um documento da justiça da época, retrata o panorama de um período histórico em que Cachoeira ainda não possuía uma década de emancipação político-administrativa. Afora esta questão, retrata a vida de pessoas que gravitavam em torno de duas fazendas muito conhecidas do município, em parte até hoje existentes, e que foram palco de acontecimentos ligados à Revolução Farroupilha. Portanto, a morte aqui retratada ocorreu em terrenos pertencentes a dois sítios históricos farroupilhas: as estâncias da Capelinha e do Lajeado.

Estância do Lajeado - Sítio Histórico Farroupilha - foto Renato Thomsen

Placa da Estância do Lajeado como Sítio Histórico Farroupilha - foto Renato Thomsen

Interessante ver também as ocupações dos homens que testemunharam o ocorrido, todas voltadas para as lides campeiras, seja como peões, tropeiros e domadores de animais xucros. Trabalhadores de um Rio Grande do Sul essencialmente rural e representantes das diferentes etnias que compunham seu território. Analfabetos. 

Outra constatação é a de que o corpo do castelhano Jozé, com diferentes grafias que foram consideradas como aparecem no texto original, sem sinais de agressão, levou à conclusão óbvia de todos que o conheciam. Como sofria de problemas no peito e, por repetidas vezes, esteve à beira da morte em decorrência deles, além de ser idoso, todas as testemunhas não tiveram dúvida em tomar esta condição como causa do falecimento. 

Por fim, como deviam ser poucos e vivendo uns longe dos outros, precisavam se ajudar mutuamente.

Tempos remotos que documentos como estes nos fazem reviver.

*Dia de São Miguel: 29 de setembro.

**Hora da Ave-Maria: 18 horas.

Mirian Ritzel

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