Pular para o conteúdo principal

Marista Roque: de quartel da Guarda a Ginásio Municipal

O Colégio Marista Roque está a um ano de completar seu 90.º aniversário. No ano anterior, 1928, às vésperas do início efetivo de seu funcionamento, importantes medidas foram tomadas para que Cachoeira ganhasse, a exemplo do que já havia em Santa Maria, um ginásio que oferecesse aos estudantes do município a oportunidade de optarem por um curso comercial ou ginasial que também lhes permitisse prestar exames de preparatórios para cursos superiores.

Colégio Marista Roque - colegiomarista.org.br

A primeira tentativa de estabelecimento de uma escola de orientação marista se deu em 1907, quando Irmão Climaco e Irmão Geraldo estiveram em visita a Cachoeira para escolher um local para abertura de um ginásio. No ano seguinte, foi fundado por eles o Colégio Nossa Senhora da Conceição, na Rua Saldanha Marinho, com funcionamento regular até 1914.

A segunda tentativa, muito bem sucedida, começou com a assinatura de um contrato entre a Associação Champagnat, mantenedora dos maristas, e a Intendência Municipal para cessão do prédio do antigo quartel da Intendência, erguido em 1895 na Rua Saldanha Marinho. O contrato, de 12 cláusulas, assinado em 9 de janeiro de 1928 pelo intendente em exercício João Neves da Fontoura e pelo irmão Weibert, representante do irmão provincial Geraldo, previa, dentre outras coisas, a construção pela Intendência de duas salas para aulas e fazer as reparações necessarias no predio. Enquanto funcionasse, o estabelecimento de ensino seria isento de taxas e impostos municipais e do pagamento do abastecimento de água e esgotos, correndo por conta da Associação as construcções e installações dos serviços que se fizerem. 

Ginásio Municipal Roque Gonzales  - antigo quartel da Guarda Municipal
- Fototeca Museu Municipal

Para garantir a manutenção do ginásio, a Intendência comprometeu-se a dar uma subvenção annual de treis contos de reis, desde a installação do Collegio e durante os primeiros cinco annos, podendo esta subvenção ser prorrogada por mais tempo, no todo ou em parte, se assim o entender a Municipalidade, o que ficou acertado na cláusula terceira.

A cláusula seguinte estabelecia um compromisso duplo: No decurso de dez annos, a Intendencia Municipal obriga-se a vender a Associação Champagnat pelo preço de cem contos de reis (100:000$000) o predio de que trata o presente contracto, o que veio a se concretizar em 1.º de setembro de 1938, mas não como compra e venda, mas em forma de doação da Prefeitura Municipal, representada pelo Prefeito Reynaldo Roesch, à União Sul-Brasileira de Educação e Ensino, representada pelo irmão Afonso, provincial dos maristas.

Reynaldo Roesch - Galeria de Prefeitos

A cláusula sétima do contrato determinava à Associação Champagnat a obrigação de instituir e manter, com o número necessario de professores, um curso commercial identico ao que mantem o Gymnasio Municial Santa Maria e um curso Gymnasial até o 3.º anno inclusive, de modo a que os alumnos possam prestar exames finaes de preparatorios, para cursos superiores, de accordo com a legislação correspondente, como filial do alludido Gymnasio de S. Maria. Esta cláusula foi cumprida regiamente até 1994, quando foi extinto o então curso Técnico em Contabilidade. 

As demais cláusulas previam a manutenção e conservação do prédio pela Associação, incluindo as instalações sanitárias exigidas, o estabelecimento de um internato, desde que fosse ministrado o ensino gratuitamente a dez alumnos indicados pelo Intendente Municipal, dos quaes dois internos, quando houver internato e definiam a obrigação dela installar o Collegio em março de 1929, devendo funccionar todos os cursos desde que haja matricula correspondente de 20 alumnos, pelo menos. O que foi igualmente cumprido, entrando o Gymnasio  Municipal Roque Gonzales em funcionamento a partir de 21 de janeiro de 1929. A escola mantém, até os dias de hoje, bolsas de estudos e projetos gratuitos para crianças e jovens da comunidade.

Pátio interno do colégio - aproximadamente 1929
- Acervo Colégio Marista Roque

Para as obras de adaptação do antigo prédio da Guarda Municipal para nele funcionar o ginásio a Intendência assinou, em 27 de setembro de 1928, contrato com a firma Scarano & Filhos para o serviço de construcção de um augmento no predio á rua Saldanha Marinho, destinado ao Gymnasio Municipal.

A assinatura foi firmada por José Carlos Barbosa, intendente municipal, e Miguel Scarano, sócio principal de Scarano & Filhos, vencedores da concorrência pública. O prazo estipulado para a conclusão da obra era o de 120 (cento e vinte) dias decorridos da assignatura do presente contracto, sob pena de multa de 20% sobre o seu valor.

O Colégio Marista Roque é responsável pela formação de muitas gerações de cachoeirenses e nome de referência na história da educação em Cachoeira do Sul. Mas chegou a esta condição graças às reiteradas tentativas dos irmãos maristas e à boa acolhida dos gestores municipais. Seguiram a máxima de uma antiga casa comercial - a Casa Augusto Wilhelm - que dizia: Insista, periga ter!

Fonte: IM/G/AB/C-004, pp. 34v. a 35v. e 50 a 51v.

MR

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O nascimento da Ponte do Fandango

Era prefeito municipal o jovem advogado Liberato Salzano Vieira da Cunha e um dos grandes clamores da Cachoeira do Sul de seu tempo era a construção de uma ponte que transpusesse o Jacuí. Imbuído do objetivo de encontrar solução  para concretização deste anseio, Liberato Salzano embarcou para a capital federal, então a cidade do Rio de Janeiro, para tentar junto à Presidência da República meios de construir a ponte. No retorno da viagem, cheio de entusiasmo, o prefeito, que também era um dos diretores do Jornal do Povo , mereceu foto na primeira página e a manchete: Será Construida a Ponte Sôbre o Rio Jacuí .  Dr. Liberato S. Vieira da Cunha - MMEL Logo abaixo da manchete, a chamada:   Melhoria nas Condições de Navegabilidade no Mesmo Rio - Obtidas Verbas de Duzentos Mil Cruzeiros, Respectivamente Para a Construção de Uma Escola de Artes e Oficios Para as Obras da Casa da Criança Desamparada - Início da Construção das Casas Populares - Departamento de Fomento à ...

Série: Centenário do Château d'Eau - as esculturas

Dentre os muitos aspectos notáveis no Château d'Eau estão as esculturas de ninfas e Netuno. O conjunto escultórico, associado às colunas e outros detalhes que tornam o monumento único e marcante no imaginário e memória de todos, foi executado em Porto Alegre nas famosas oficinas de João Vicente Friedrichs. Château d'Eau - década de 1930 - Acervo Orlando Tischler Uma das ninfas do Château d'Eau - foto César Roos Netuno - foto Robispierre Giuliani Segundo Maria Júlia F. de Marsillac*, filha de João Vicente, com 15 anos o pai foi para a Alemanha estudar e lá se formou na Academia de Arte. Concluído o curso, o pai de João Vicente, Miguel Friedrichs, enviou-lhe uma quantia em dinheiro para que adquirisse material para a oficina que possuía em Porto Alegre. De posse dos recursos, João Vicente aproveitou para frequentar aulas de escultura, mosaico, galvanoplastia** e de adubos químicos, esquecendo de mandar notícias para a família. Com isto, Miguel Friedrichs pediu à polícia alemã...

A Ponte do Passo Geral do Jacuí

O Passo Geral do Jacuí, localizado a 30 km da cidade de Cachoeira do Sul, pela estrada de rodagem e, cerca de 40 km pelo leito do rio Jacuí, foi um dos caminhos de ligação entre Rio Pardo e a Região da Fronteira Oeste e Planalto, em tempos de paz e de Guerra Farroupilha. Terminada a Revolução Farroupilha, com a pacificação de Ponche Verde, a Província, governada por Caxias, volta-se para as obras e a prosperidade do Rio Grande do Sul. Em 8 de abril de 1846, por decreto, é apresentado o projeto para esse desenvolvimento e nele incluída a construção de uma ponte sobre o Passo Geral do Jacuí. Uma obra necessária e vital para agilizar a ligação entre os principais núcleos urbanos, servidos pelo rio Jacuí e a comercialização dos produtos e riquezas entre regiões Leste e Oeste da Província. Sua construção foi contratada pelo empreiteiro Ferminiano Pereira Soares, em 1848, pela quantia de 250 contos de réis, paga em seis prestações e num prazo contratual de cinco anos. (Ferminian...