sexta-feira, 10 de agosto de 2018 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Caverna da habitação de feras

Pouco menos de 10 anos depois da instalação da Vila Nova de São João da Cachoeira, muitas das atribuições dos vereadores da Câmara Municipal, então os responsáveis pela administração e disciplinamento dos negócios, serviços e bens públicos, ainda careciam de resolução.

Segundo dispunha a Lei de 1.º de outubro de 1828, em seu artigo 56, dentro das funções municipais, os vereadores tinham que se organizar e, reunidos em sessão,  nomear uma commissão de cidadãos probos, de cinco pelo menos, a quem encarregarão a visita das prisões civis, militares, e ecclesiasticas, dos carceres dos conventos dos regulares, e de todos os estabelecimentos publicos de caridade para informarem do seu estado, e dos melhoramentos, que precisam. 

Atendendo a esta atribuição prevista na lei, na sessão do dia 15 de setembro de 1829, foram nomeados para dar cumprimento à determinação o Juiz de Paz João Nunes da Silva, o Juiz Ordinário Francisco Jozé da Silva Moura, o Juiz de Sesmaria Manoel Alvares Ferraz, o cidadão Joze Custodio Coelho Leal Filho e o licenciado (médico) Joze Francisco Alvares Malveiro. Estes cinco cidadãos tinham por encargo verificar as condições das prisões civis e militares da Vila e das que existiam nas capelas filiais que lhe eram subordinadas. Na reunião seguinte, ocorrida no dia 16 de setembro, o vereador Feliciano Pereira Fortes chamou a atenção para o fato de que os três primeiros cidadãos nomeados para integrarem a comissão não estavam em conformidade e que, apesar de probos, não poderiam desempenhar as funções por ocuparem cargos de juízes. Mesmo assim, a Câmara decidiu manter a nomeação.

Em 18 de setembro, Manoel Alvares Ferraz pediu para retirar-se da comissão, o que foi aceito, sendo nomeado em seu lugar Gonçallo Teixeira de Carvalho. Por sugestão do vereador Feliciano Pereira Fortes, em 1.º de outubro foi nomeado Ignacio Rodrigues de Carvalho como outro membro da comissão. Na mesma ocasião, o vereador solicitou que a comissão apresentasse o relatório de seus trabalhos.

Naquele outubro de 1829, um ano depois da promulgação da lei que regulava o funcionamento das Câmaras, motivados pela formação da comissão e pelos seus resultados, os vereadores cachoeirenses tomaram conhecimento das escabrosas condições das prisões existentes.  Na reunião do dia 7, foi lido o ofício com os resultados da vistoria procedida por Ignacio Rodrigues de Carvalho, Francisco Jozé da Silva Moura, Gonçallo Teixeira de Carvalho, Joze Alvares Malveiro e Joze Custodio Coelho Leal Filho, assim descrita na ata da sessão:

Ata de 7/10/1829 - CM/OF/A/002, fls. 15 a 16v

Foi presente hum Officio da Commissão emcarregada das Prisoens, Civil, e Militar, que aberto, e lido, se vio dar a seguinte emformação. = Illustrissimos Senhores = A Commissão emcarregada da visita das Cadeas, Civil, e Militar desta Villa, havendo procedido ao cumprimento do seu Emcargo, tem a honra de levar á prezença dessa respeitavel Camara Municipal a informação do estado, em que achou estas Casas de prizão.
Não he sem exactissima verdade, que a Commissão qualifica tais prisoens desta Villa, mais similhantes á huma Caverna da habitação de Feras, do que a hum edificio destinado meramente á segurança dos Individuos, que devem responder perante a Leÿ.
E que outra denominação merecerá huma caza, que, tendo de frente quarenta e dois pés, de doze pollegadas, e de fundo vinte e dous, comprehende duas prisoens, a Militar, e a Civil; mormente quando se nota, que nesta pequenissima Área ainda se acha a rezidencia do Carcereiro, e o Salão da Guarda?
Ninguem poderá cabalmente pintar o horror, que inspira a Enxovia* da Prisão Civil! Esta Furna**, tem vinte pés de frente, e onze de fundo; e neste espaço virão-se já reunidas quinze pessoas prezas. Ali de ordinario se achão comfundidos individuos de ambos os séxos, de differentes côres, de diverças comdiçoens, e de delictos mais, e menos criminais; tambem individuos detidos, por correcção somente.  
Não há uma só Tarimba***, onde repouze algum preso emfermo: o chão de pura terra está escavado em varios lugares, mostrando uma superficie escabrosa, e por isso bastante molesta á aquelles infelises. O ár infecto, que nesta masmorra se respira, a escassima luz, que lhe emtra pela pórta do Xadrêz, e o calôr intenso, que no verão a abraza, são outros tantos insoportaveis males, com que geme a humanidade neste terrivel Calabouço. A parte da Caza destinada para Prizão Militar não foi menos aquinhoada. Esta prisão he hum quadro de onze pés de frente, e outros tantos de fundo; e neste espaço, se recluzão os Militares, que se comdemnão á alguma detenção correccional. Assim appresenta em grande parte as mesmas qualidades mortiferas, que a Enxovia.
Tanto uma, como outra prizão não offerecem segurança alguma, pela sua má construcção; não sendo á principio edificada uma tal caza, para o destino, que tem tido.
A Commissão terminando tão desaggradavel exposição por seu objecto, não póde deixar de manifestar sua magoa por haver ainda emcontrado em ambas as Prizoens os medonhos instromentos da barbaridade do antigo systema, como são, o infame Tronco, os Grilhoens, e as Cadeas de ferro. Embora se queira justificar sua exhistencia, com a necessidade da segurança, que falta ás actuais Prisoens; nem por isso affligem elles menos aos Coraçoens sensiveis.
Finalmente pensa a Commissão, que se devem quanto antes promover alguns beneficios mais urgentes aos desgraçados prezos, como appromptarem-se-lhes tarimbas, onde durmão, aterrar o chão, que fique plano, e mui principalmente ampliar a Enxovia, e introduzir-lhe a competente lúz aliaz a conveniente luz, e ár, de que tanto carece: e isto emquanto senão edifica, como a humanidade instantemente reclama, uma Prizão, com aquellas particularidades, que a Constituição exige. Deus Guarde a Vossas Senhorias. Villa Nova de Sam João da Cachoeira, sete de Outubro de mil oito centos e vinte e nove. Illustrissimos Senhores Presidente, e mais Vereadores da Camara Municipal desta Villa. Ignacio Rodrigues de Carvalho = Francisco Jozé da Silva Moura = Gonçallo Teixeira de Carvalho = Joze Francisco Alvares Malveiro = Joze Custodio Coelho Leal Filho. (CM/OF/A-002, folhas 15v a 16v).

O ofício com as terríveis constatações deve ter causado mal-estar entre os vereadores, a ponto de na sessão seguinte, realizada em 8 de outubro de 1829, quando as discussões foram retomadas, o vereador Feliciano Pereira Fortes pedir a palavra para tecer suas considerações, chamando a atenção para o escândalo do uso do tronco, destacando que se seguia sendo utilizado à vista das autoridades da Vila, muito mais devia ser empregado nas capelas! Assim constou na ata:

Entrando em discução a Imformação da Commissão encarregada da visita das Prisoens, Civil, e Militar desta Villa, materia, que havia ficado addiada, foi posta á votação, e pedindo a palavra o Senhor Fortes, propoz, que na Sessão de ontem á pennas se abrio a imformação, que por Officio de sete do corrente foi enviada a Camara pelos Membros da Commissão, que ella tinha nomeado, para saptisfazerem o Artigo cincoenta e seis da Leÿ do primeiro de Outubro de mil oito centos e vinte e oito; e examinando hoje a sua materia veyo dizer a Commissão, que foi emcarregada da visita das Cadeias Civil, e Militar desta Villa, e das quais unicamente tracta. O artigo da Lei [sic] citada quando manda visitar as prisoens, Civil, e Militar, não destingue as que houverem dentro, ou fora das Villas; e sendo certo, que em todas as Capellas do termo da Villa há prisoens, onde se recolhem prezos, que pertencem á repartição, tanto judicial, como militar; quanto estas prisoens não precisarião da inspecção ocular da Commissão, e quanto esta não diria dellas, em comparação do que, com Justiça, disse das desta Villa, principalmente á respeito dessa pedra d'scandolo, chamada Tronco, que infelizmente não tendo ainda deixado a sua effetividade nesta Villa á face das Autoridades Territoriais; por infalivel consequencia muito mais deve laborar nessas Capellas. E acazo os Cidadãos, ali rezidentes, que tem a desventura de serem capturados, húas vezes justa, e outras injustamente, devem ficar escluidos de hua medida, que a Lei estabelece em beneficio commum? Não; certamente elles tem tanto direito aos Beneficios da Constituição, como os que morão dentro desta Villa.
Os Officios dirigidos aos Membros da Commissão davão-lhes este emcargo, tal qual a Lei o exprime, por que nada se lhes singularizava, o que se não conclúe das palavras = emcarregada da visita das Cadeias, Civil, e Militar desta Villa = responder-se-há, que a Commissão não podia, sem grande incomodo hir ás Capellas do Termo desta Villa, e em que gastarião muitos dias, principalmente porque o actual Juiz Ordinario, Francisco Jozé da Silva Moura, segundo a Leÿ, que regula a alternativa, entre elle, e o Juiz seu Companheiro, nam podia estar tanto tempo auzente da Villa: más eu me contentava que os Membros da Commissão nos ponderassem esta materia, ou pedissem esclarecimentos, assim como o referido Juiz Ordinario o pedio sobre o dia, em que a Commissão devia reunir-se, falo por esta forma, para que nos não accuzem de tão mesquinhos, que só olhamos para o que temos dentro do recinto da Villa.
Por tanto proponho, que se faça dar inteiro cumprimento ao Artigo cincoenta e seis da Leÿ da nossa Creação, e regimento, pelo que pertence ás Capellas do Termo desta Villa. E quanto ao que pença a Commissão, sobre os beneficios mais urgentes aos desgraçados presos, em quanto se não faz a Cadeia, que deve haver nesta Villa, não só julga muito á proposito, más exijo, que em todos os modos se faça huma Separação para a prizão das mulheres, sejão da classe, que forem, para não continuar o abuso, que notou a Commissão, o qual vai de encontro a Ordemnação Livro Primeiro, titulo trinta e trez, paragrafo quarto.
Sobre o Tronco sou de parecer, que se promova a sua extinção, visto ser Instromento que offende á Constituição, e cuja offença não póde disfarçar o colorido da necessidade da segurança, que falta á Prisão: e vista a sua materia, o Senhor Presidente pôz a discussão, e offereceo o Senhor Pessôa a seguinte emenda; que no Artigo em que diz, pro tanto proponho, que se faça dar inteiro cumprimento ao Artigo Sincoenta e seis da Leÿ da nossa Creação e regimento VS.ª = se diga = por tanto proponho, que esta Camara informe ao Concelho de Provincia na occasião, em que lhe remetter o extracto dos seus trabos [sic] [trabalhos], sobre o estado daquellas de Prisão, pertencentes ás Capellas do Termo desta Villa, não as considerando como Cadeias, e sim hum Depozito de hum, ou mais Individuos, que tem de ser remettidos para esta Villa, e que ali, só se demorão hum ou dois dias, em quanto não seguem; e vista a materia, depois de discução, foi posta á votação, e prevaleceu esta, com a emenda daquella e voltando-se á discução sobre o melhoramento da Cadeia, e instinção dos Troncos; se assuntou uniformemente, mandar-se fazer húa Tarimba, para repouso dos prezos, aterrar-se, e applanar-se o chão, e dividir-se o chadres dos homens do das mulheres, ficando esta administracção á cargo do fiscal, que de tudo ficou inteirado, e tractando-se da extinção dos Troncos ficou addiado por ser pedido adiamento pelo Senhor Presidente. (CM/OF/A-002, folhas 17 a 18)

Ata de 8/10/1829 - CM/OF/A-002, fls. 16v a 18
Quanto às Ordenações Filipinas (Portugal, 1603), citadas na ata pelo vereador Pereira Fortes, no Livro I, Título XXXIII, § 4.º, consta que: E não consentirá, que se commettam na prisão alguns maleficios, assí como jogar dados, ou cartas, nem renegar, nem que os presos, ou outros homens de fóra durmam na prisão com as mulheres presas. E dormindo o Carcereiro com alguma dellas, ou consentindo que algum com ella durma, não sendo seu marido, mandamos que morra per ello****. E se se provar, que o Carcereiro teve com alguma presa algum acto deshonesto por vontade della, assi como abraçar, ou beijar, será degradado dez annos para o Brasil. E se tentar por força dormir com presa, posto que com ella não durma, por ella se defender, ou por lho tolherem, morra per ello. 


Página de rosto (1603) das Ordenações Filipinas
- Wikipédia

Em sessão ordinária de 9 de outubro de 1829, voltando o assunto do relatório da comissão, os vereadores decidiram consultar o presidente da Província a respeito da extinção do tronco, instrumento de castigo que já então consideravam hediondo:

Voltando-se á discução da materia addiada, da emformação da Commissão emcarregada da visita das Prisões Civil, e Militar, sobre a extincçoes dos Troncos; offerecêo o Senhôr Vereador Pessôa a seguinte emenda, additiva á sua offerecida em Sessão de ontem a oppinião do Senhor Fortes = Fazendo-se vêr ao Comcelho de Provincia a impossibilidade, que há, em a Commissão ir visitar as prizoens daquellas Capellas pela desmarcada longitude: e posta a materia á votação, depois de discução, assim se assentou; officiando - digo assentou por uniformidade de votos; e tractando-se da extincção dos Troncos; se assentou informemente comsultar-se ao Excelentissimo Presidente da Provincia, sobre a forma da promoção desta estincção; cujo Officio se assignou, e seguio. (CM/OF/A/-002, folha 18v)

Quanto à cadeia, só em março de 1865 é que os presos passaram a ocupar dependências apropriadas na Casa de Câmara, Júri e Cadeia, obra concluída no ano anterior.

Antiga Casa de Câmara, Júri e Cadeia - atual Museu Municipal
- Foto de Renato F. Thomsen 

Grades da antiga prisão na Casa de Câmara, Júri e Cadeia
- Foto de Renato F. Thomsen
As "cavernas da habitação de feras" de quase duzentos anos atrás, seja pela forma de aplicação das penas ou pelos resultados alcançados, constituem ainda hoje inquietação, discussão e angústia para a sociedade.

Enxovia: cárcere térreo ou subterrâneo, escuro e úmido.
** Furna: caverna, gruta.
*** Tarimba: cama dura, desconfortável.
**** Morra per ello: antiga expressão usada para dar sentença de morte a um condenado; o mesmo que "morra por isto".

MR
sexta-feira, 3 de agosto de 2018 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

A Freguesia às portas da Vila

3 de agosto de 1820. A Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Cachoeira estava às portas do grande dia em que seria emancipada da vizinha Vila de Rio Pardo. Os preparativos já se faziam notar, especialmente pela presença do Ouvidor Geral e Corregedor da Comarca de São Pedro e Santa Catarina, Joaquim Bernardino de Senna Ribeiro da Costa, que providenciava o aparato e os documentos para a grande solenidade de instalação do município, marcada para 5 de agosto.

Uma das tarefas do Ouvidor foi a de abrir os livros competentes para o lançamento das rotinas administrativas do futuro município, com destaque para o que serviria ao registro dos termos da criação da Vila Nova de São João da Cachoeira, o mais importante dos livros abertos naquela época:

Este Livro háde servir, para nelle se lansarem os Termos da Creação da Villa Nova de São João da Cachoeira, o qual vai numerado, e rubricado por mim Ouvidor Geral, e Corregedor da Comarca, e no fim leva o seu encerramento. Cachoeira, "3 de Agosto de 1820"

Joaqm. Bernardino de Senna Ribr.º


Termo de Abertura do livro CM/OF/TA-008
Capa do livro 1.º de Criação da Vila - CM/OF/TA-008

Pouco se sabe da vida de Joaquim Bernardino de Senna Ribeiro da Costa e sequer ficou registrado  o tempo de sua permanência entre os cachoeirenses de então. Sua chegada foi bem anterior ao dia 5, como atestam os livros por ele abertos. Onde teria ficado? Que personagens daquele período histórico teriam sido seus anfitriões e auxiliares? A solenidade de instalação da Vila, constante da abertura dos pelouros e respectivos livros, eleição dos vereadores e demais cerimônias constantes do ritual devem ter demandado uma preparação, cabendo à autoridade máxima proceder à sistematização da documentação que faria os registros da história do quinto município mais antigo do Rio Grande do Sul.

É provável que o local onde se reuniu o povo para a cerimônia de instalação da Vila Nova de São João da Cachoeira tenha sido o terreno que dez anos depois receberia o nome de Praça do Pelourinho (atual Praça José Bonifácio), certamente em alusão ao espaço em que foi erguido o pelourinho, símbolo e marco da autonomia municipal.

Se de Joaquim Bernardino pouco ou quase nada se sabe, sua rápida passagem pelo município foi de suma importância para que ficasse registrado como o homem que abriu, lavrou e rubricou os primeiros instrumentos de registro da nossa história político-administrativa. Em sua memória o município nomeou a Rua Joaquim Senna Ribeiro, no Bairro Barcelos.

MR
sexta-feira, 27 de julho de 2018 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Contratos não cumpridos

Não é de hoje que a administração municipal amarga abandono de obras contratadas a quem descumpre cláusulas.

Um ofício do Intendente Annibal Loureiro, datado de 17 de novembro de 1921, dirigido ao presidente do Conselho Municipal (equivale hoje ao presidente da Câmara de Vereadores), concede informações sobre um requerimento de Francisco Biffano relativo à cobrança de valores por serviços executados no Bairro Rio Branco. A resposta do intendente demonstra que houve descumprimento de um contrato e infere que os contratados terceirizaram os serviços sem notificação para ajustamento de cláusulas. No final das contas, a municipalidade não teve a obra desejada levada a termo e nem o terceirizado o pagamento de seus supostos serviços...


17 de novembro de 1921
Illm.º Snr. Josè Carlos Barbosa.
D. D. Presidente do Conselho Municipal.

N. Cidade
Em resposta ao vosso officio n.º 5, de 8 do corrente, em o qual me solicitaes informações sobre o objecto do incluso requerimento de Francisco Biffano, cumpre-me informar-vos o seguinte: que, em 1913, não foi lavrado nenhum contracto com Pedro Sguersy e Josè Dotto, e sim em 14 de março de 1912, para execução de diversos serviços no Bairro Rio Branco, abertura de ruas e desvio do curso do arroio LAVA-PÉS;
que, iniciados os respectivos trabalhos, conforme consta nos livros daquela època, a Municipalidade effectuou diversos pagamentos aos contractantes, pelos serviços executados, e atè por adeantamento;
que os contractantes referidos abandonaram, em começo, os trabalhos, fugindo ao cumprimento de suas obrigações contractuaes;
que nesta Municipalidade não consta que Pedro Sguersy e Josè Dotto, tenham transferido o contracto firmado em 14 de março de 1912, a Francisco Biffano;
que, mesmo que a Municipalidade fosse devedora ao requerente, essa divida, contrahida em 1912, já estaria prescripta, ex-vi do Art.º 178, §10 n.º VI, do Codigo Civil Brazileiro;
que, nestas condições, são de todas inoperantes as affirmações do requerente.
Julgando ter attendido à vossa solicitação, finaliso reiterando-vos protestos de subido apreço e consideração.
Saude e fraternidade.
(ass.) Annibal Loureiro
Intendente Municipal


Ofício do Intendente Annibal Loureiro
- IM/CM/SE/CR-Caixa 9

De fato a Intendência Municipal celebrou um contrato com Pedro Sguerzi e José Dotto em 14 de março de 1912. As partes previram a execução pelos contratados das obras necessarias a abertura de ruas e prolongamento de outras, construcção de paredões de pedra, desvio do curso do arroio "Amorim" digo "Lavapés", e atulhamento da sanga do mesmo nome, tudo de accordo com o edital de concurrencia publicado no jornal "Rio Grande", desta cidade, (...).

A cláusula referente ao pagamento, a quarta, dizia: O pagamento dos serviços executados será effectuado mensalmente, conforme medição que se procederá no inicio de cada mez, ficando, porem, retidos 10% das importancias mensaes, como caução, para garantia do contracto, caução essa que será restituida aos empreiteiros após a medição final e depois de approvados e recebidos definitivamente todos os serviços executados.




Contrato celebrado entre Pedro Sguerzi e José Dotto - 14-3-1912
- IM/GI/AB/C-001, fls. 77v a 78v

Como se vê, desde muito os problemas rondam a contratação e a execução das obras públicas.

MR
sexta-feira, 20 de julho de 2018 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Barcas e problemas... História antiga!

Não é de hoje que a travessia do Jacuí oferece embaraços... Há muitas histórias, desde tempos muito afastados, envolvendo questões entre as autoridades municipais e os prestadores de serviços de traslado pelo rio e destes com as condições das embarcações ou dos passos a serem transpostos.

Uma destas histórias, de 1865, remete à preocupação das autoridades com a passagem do Imperador Pedro II pelo passo de São Lourenço, quando de sua visita a Cachoeira à época da Guerra do Paraguai. Por várias vezes antes da visita a Câmara Municipal foi instada a tomar providência para melhorar o serviço da barca disponível:

26/7/1865 - CM/OM/Ofícios-Caixa 10

Porto Alegre - Gabinete do Ministro dos Negocios da Guerra
                        em 26 de Julho de 1865

Constando estar arruinada a barca de passagem do Passo de S. Lourenço, sirva-se V.S.ª dár as devidas providencias afim de que se áquelle Passo encontre S. M. o Imperador e sua comitiva as barcas e balsas necessarias para sua passagem

Deos Guarde a V.S.ª
Angelo Moniz da S.ª Ferraz

Ao Sr. Presidente da Camara
Municipal da Cachoeira

Outra história, desta vez ocorrida no inverno de 1888, mais precisamente no dia 28 de agosto, chega até os presentes dias através de uma carta remetida por José Luiz Barrêto, administrador do serviço de barca em São Lourenço, ao presidente da Câmara, Capitão Francisco Gomes Porto, relatando problema ocorrido com uma carreta transportada:

28/8/1888 - CM/S/SE/CR-018

S. Lourenço 28 de Agosto de 1888
                                                                                    
                                                                            Illmº Senr'

Levo ao conhecimento de VS.ª que por ocazião de passar em S. Lourenço u'ma carreta,  no tirar da Barca quebrou o Cabeçalho devido a grande carga e pessima qualidade da madeira já bastante deteriorada, conforme informou pessoa abelitada por quem mandei examinar a qualidade da madeira. Mas o Carreteiro, pois duvida pagar a passagem dizendo que se julgava com direito a exegir q' lhe pagassem o prejuizo. E para que não se formasse duvidas, eu disse ao Carreteiro que ía levar ao conhecimento de V.S.ª; para conforme as suas ordens assim proceder.
Ds. G. a VS.ª

Illm.º Senr' Capm. Francisco Gomes Porto
M. D. Prezidente da Camara Municipal da Cidade da Cachoeira 


Desta feita sobre a barca do Passo do Seringa, em correspondência com data de 29 de outubro de 1888, o médico Affonso Pereira da Silva responde a questionamentos provocados por um jornal existente em Cachoeira, cujo nome era O Clarim, dando conta da perícia e/ou capacidade dos condutores da barca:

29/10/1888 - CM/S/SE/CR-018

Illmo. Snr.

Accuso o recebimento do officio de V.S.ª de 24 deste mez, em o qual manifesta o desejo de ser por mim informado - sobre as irregularidades que se dão no Passo do Seringa, apontadas em o artigo de redacção do - Clarim - de 21 tambem d'este mez. Satisfazendo ao pedido de V.S. - devo declarar que os empregados effectivos da balsa do referido Passo não estão em condicções de bem desempenhar seus encargos, por ser um d'elles - evidentemente - de menor idade, e por isso sem a necessaria robustez exigida para taes serviços, de modo que todo o trabalho recahe sobre o outro empregado. Quanto a este outro, embora me pareça menor, não o posso affirmar. Devo tambem declarar a V.S. que poucas vezes tenho encontrado o encarregado ou arrematante do Passo n'esse ponto e que uma das canôas da balsa está fazendo agua e em não pequena quantidade; quanto ás outras nada posso affirmar por não tel-as examinado. É verdade que, na occazião em que passava o Illmo. Sr. Redactor do - Clarim, a balsa, apezar de ter mais uma pessoa ao leme, não alcançando o porto, foi á margem direita entre os dois portos de desembarque. Eis, pois, o que tenho observado nas poucas vezes que tenho transitado pelo referido Passo e que, satisfazendo ao officio de V.S., levo ao vosso conhecimento.

Deus Guarde a V.S.

Illmo. Sr. Capm. Francisco Gomes Porto
Digmo. Presidte. da Camara Municipal

Cachoeira 29 de Outubro 1888.
                    Dr. Affonso Per. da S.ª

Como provam os documentos que uma sucessão de lideranças cachoeirenses entenderam por bem preservar, prova inequívoca da visão da sua importância histórica, o serviço de barcas sempre apresentou percalços. Vencer tais percalços, mesmo que em pleno século XXI, constitui-se ainda um grande desafio!

MR
sexta-feira, 13 de julho de 2018 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Bancos para a Praça do Mercado e da Igreja

Corria o ano de 1906. A Intendência Municipal, sob o comando do Dr. Cândido Alves Machado de Freitas, buscava empreender melhorias nos espaços urbanos da então acanhada cidade da Cachoeira. As duas principais praças, a da Igreja (atual Dr. Balthazar de Bem) e a do Mercado (oficialmente Praça José Bonifácio desde o século XIX), já rivalizavam em movimento. A primeira, pela vizinhança da Igreja Matriz, do prédio da Intendência e do Teatro Municipal; a segunda, pela localização do Mercado Público e de casas comerciais importantes.

Teatro e Intendência Municipal - Fototeca Museu Municipal

Igreja Matriz - Fototeca Museu Municipal
Dentre as melhorias pretendidas para as duas praças estavam a arborização e a colocação de bancos para os frequentadores. Para tanto, a Intendência passou a receber propostas de empreiteiros dispostos a fabricarem e colocarem os bancos nos jardins das praças. Apresentaram-se, em maio de 1906, João d'Araujo Bastos e Crescencio da Silva Santos, o construtor do Mercado Público (1882).

Mercado Público na Praça José Bonifácio - Fototeca Museu Municipal

As propostas eram para 12 bancos em cada praça, dispondo-se Crescencio a executá-los em madeira de lei, com pés de ferro, sendo firmes no chão, com encosto e pintados de verde. Na sua proposta consta um desenho singelo do modelo do banco a ser empregado junto ao Mercado. Custo: 500 mil réis para os da Praça da Igreja e 300 mil réis para os da Praça do Mercado.

IM/S/SE/CR-006 - 22/5/1906
A proposta de João d'Araujo Bastos, igualmente para a confecção e colocação de 12 bancos na Praça do Mercado, estabelece que seriam executados em angico e louro, ao custo individual de 35 mil réis, perfazendo um total de 420 mil réis. Na Praça da Igreja, os 12 bancos teriam pés de ferro e assentos de louro. Cada unidade sairia por 25 mil réis a um total de 300 mil réis.

IM/S/SE/CR-006 - 25/5/1906

Os tempos passaram, ambas as praças sofreram várias intervenções, restando em melhor estado a antiga Praça da Igreja, hoje Dr. Balthazar de Bem. A Praça do Mercado, paulatinamente empobrecida ao longo das décadas, nada mais guarda dos tempos em que assim era chamada. Sequer o Mercado que lhe dava nome foi mantido. 

Dos velhos bancos sonhados para as antigas praças restam apenas registros fotográficos. Tais registros, ainda que inferiores em tecnologia, mesmo assim são capazes de revelar ao nosso olhar espaços de mansidão e cuidado cada vez mais difíceis de encontrar.

Bancos na antiga Praça do Mercado - Fototeca Museu Municipal
Banco na Praça da Igreja, fronteira ao Teatro Municipal - Fototeca Museu Municipal
MR
quinta-feira, 5 de julho de 2018 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

1900 - Linguagem das Luvas

Uma diferença quase abissal separa o ano 1900 de 2018! A comunicação entre as pessoas hoje se dá majoritariamente no dedilhar em celulares e poucas não são as vezes que elas se comunicam, mesmo que lado a lado, por meio de mensagens no WhatsApp!

Imaginemos então como seria a comunicação entre homens e mulheres há 118 anos, quando ambos ensaiavam algum flerte... Flerte? Palavra também em desuso nos nossos dias. Traduzindo: aproximação, paquera... 

A moda, por incrível que pareça, também é fator de interferência nas atitudes das pessoas. Em 1900, os trajes eram recatadíssimos. Homens e mulheres deixavam entrever poucas partes de seus corpos e as luvas eram acessórios de ambos.

http://pinicando.blogspot.com/2012/11/historia-da-moda.html
https://estilocool.wordpress.com
No jornal O Commercio, em sua edição inaugural de 1.º de janeiro de 1900, página 1, um interessante texto chama a atenção, pois informa a linguagem das luvas, ensinando aos enamorados códigos para o seu entendimento íntimo:


Diz assim:

Ao Bello Sexo
Achando-se em um salão dois namorados, e querendo a namorada corresponder-se com o seu adorado, poderá, sem ser percebida pelos extranhos, executar os signaes seguintes por meio da
Linguagem das Luvas
Deixar cahir uma luva significa: Sim.
Engelhar* as luvas com a mão direita: Não.
Meia luva calçada na mão esquerda: Indifferença.
Bater no hombro esquerdo com a luva: Segue-me.
Dar com as luvas na barba: Já não te amo.
As luvas do avêsso: Odeio-te.
Dobrar as luvas com o dedo pollegar de fóra: Amas-me?
Deixar cahir as luvas: Amo-te.
Dar volta ás luvas em roda dos dedos: Tem cuidado que... [rasgado]
Bater nas mãos [rasgado] incommodada.
Pegar n'uma luva em cada mão e abrir os braços: Estou furiosa.
Engelhar as luvas com ambas as mãos: Foge que vem o papae ou a mamãe.
Atirar as luvas no ar e aparal-as com as duas mãos: Approxima-te que estou sósinha.
Morder as luvas: Quando me escreves?
Mostrar ambas as mãos com as luvas calçadas: Vou passear ou fazer visitas.
NB.) No proximo numero daremos a "Linguagem do Leque".
Cupido & Cia.

Como se vê, toda época encontra meios para, burlando a vigilância e os censuradores de plantão, exercitar em código aquilo que não deve saltar aos olhos!

*engelhar: amassar, amarrotar.

MR
sexta-feira, 29 de junho de 2018 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Bilhete de amor

Muitas vezes os livros resguardados no Arquivo documentam histórias que extrapolam o seu propósito, ou melhor, guardam em suas páginas amareladas pelo tempo rabiscos que não deveriam estar ali...

No afã da pesquisa, não raras são as vezes que surpresas interrompem a rotina do pesquisador, permitindo que ele fuja do objeto de seu trabalho para se lançar em divagações e suposições. Numa destas tão caras e importantes tarefas, eis que ao folhear um antigo livro de receita e despesa da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, ano 1834, a pesquisadora Ucha Mór localizou, dentre suas páginas, um bem dobrado bilhete escrito a lápis.

Livro 2.º de Receita e Despesa da Irmandade do Rosário

A caligrafia revela pessoa rudimentarmente iniciada no alfabeto. Trata-se de uma mulher de nome e tempo ignorados.

Bilhete manuscrito a lápis

Diz o bilhete mal traçado em um rasgo irregular de papel:

quirido velinho eu te ispereito da a tarde e tu não apareseu eu acho que ja so esquecido poz tu eu vi oje que tu esta cõm novo amor mas não a de ser nada eu sempre guardo uma esperansa que côm o tempo eu ainda eu de ser felis sim mais aseitas um beijo des-ta que não te esquese e te quer sempre

Arrematando o bilhete, escrito na parte superior do papel e na contramão do lado correto:

tomei 2 servejas para não perder o visio

O bilhete deixado no velho livro não guarda com ele nenhuma relação. A autoria, a época em que foi escrito e o motivo de estar guardado ali são incógnitas. De qualquer forma, o bilhete de amor introduzido num livro histórico, ainda que na condição de intruso, constitui-se um documento anônimo da vida de alguém - prova de uma cotidiana história dentro da história.

MR