sexta-feira, 29 de maio de 2020 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Uma escola noturna

No ano de Cachoeira do Sul bicentenária, sempre oportuno relembrar páginas do passado, de onde podem ser extraídas lições e exemplos. Coincidentemente os tempos são de pandemia, momento em que se vê brotarem ações de solidariedade que pareciam andar rareando. E a página que será aberta aqui hoje rememora iniciativa de gênese duplamente significativa, pois propiciou ensino aos sedentos por conhecimento, estendendo braço para parcela desvalida da população da Cachoeira do final dos anos 1920, início dos 1930, constituindo-se em verdadeiro exemplo de solidariedade.

Em 1928, o intendente de Cachoeira, José Carlos Barbosa, autorizou o auxílio de um conto e 200 mil réis à direção da Escola Noturna da União de Moços Católicos em parcelas mensais de 100 mil réis, desde que a matrícula excedesse a 25 alunos. Como a escola era gratuita, a subvenção municipal foi determinante para a entidade seguir ofertando ensino aos necessitados:

Autorização de subvenção municipal - 29/11/1928 - IM/CM/AL/L-011 


A União de Moços Católicos, fundada em 15 de junho de 1924, era uma entidade com fins religiosos, culturais e sociais da juventude católica, voltada para o atendimento dos interesses dos sócios, mas também com objetivos cristãos de amparo. Diante da carência de ofertas de ensino à parcela da população que não tinha condições de frequentar aulas diurnas, em razão de trabalho, bem como pela falta de recursos financeiros, a União fundou uma escola noturna, inicialmente funcionando nos salões de sua sede, na Rua Sete de Setembro.

Prédio (1850) onde funcionou a União de Moços Católicos e a escola noturna
- foto Renato F. Thomsen


A procura foi tão grande, que o espaço disponível tornou-se acanhado. Por notícia do jornal O Comércio, de 29 de julho de 1931, sabe-se sobre a  troca de endereço e como se apresentavam as aulas desenvolvidas:

O Comércio, 29/7/1931, p. 3


Desde muito tempo que a União de Moços Católicos desta cidade vinha mantendo em sua sede social uma escola noturna gratuita, onde cerca de 100 alunos recebiam instrução. Tornando-se pequeno o vasto salão para conter o grande número de alunos que dia-a-dia vinha aumentando, a diretoria da União resolveu localizá-la em outro prédio que foi feito em dias da semana transata. Instalada em o prédio n.º 600 da Rua 7 de Setembro, tivemos ocasião de visitar esta escola. que se acha sob a competente direção do Sr. Francisco Terencio da Costa que por muitos anos exerceu o magistério público estadual, no 4.º distrito deste município. 
O que ali encontramos então excedeu a nossa expectativa. Cerca de 140 pessoas, compostas de meninos, mocinhos, e até militares, quase na sua totalidade gente pobre, que vivendo do seu trabalho não pode frequentar as aulas diurnas, ali estavam entregues aos estudos. Recebidos gentilmente, palestramos ligeiramente com o Sr. Francisco Terencio da Costa, que nos informou que apesar daquele avultado número de alunos, a Escola havia recusado receber cerca de vinte, dada a impossibilidade de acomodá-los nos dois salões da Escola. 
De fato, examinando os salões verificamos que todos os lugares estavam totalmente preenchidos por carteiras e mesinhas, todas ocupadas pelos alunos. Isto demonstra o quanto havia falta de escolas noturnas nesta cidade, e por outro lado revela a boa vontade da mocidade em estudar e aprender. 
Sendo essa escola frequentada na sua quase totalidade por pessoas pobres que não podem cursar os estabelecimentos diurnos, fácil é calcular os grandes benefícios que a União dos Moços Católicos presta à mocidade cachoeirense, com a manutenção dessa escola noturna que, como dissemos, é dirigida pelo professor Francisco Terencio da Costa, cujos esforços e dedicação no desempenho de seu cargo são dignos de louvores.


Parte da relação de alunos em junho de 1929
- IM/RP/SF/D-229


A notícia expõe drama vivido pela cidade naqueles tempos, qual seja o de suprir a carência de ensino para aqueles que não podiam frequentar escolas durante o dia. Ao confrontar-se o exemplo do passado com os dias que correm, oportuno ressaltar o quanto houve de evolução, uma vez que atualmente a população interessada em alargar seus conhecimentos e melhorar seu desempenho tem à disposição oferta de cursos noturnos nas redes de ensino.

A iniciativa da União de Moços Católicos foi ao mesmo tempo inspirada por outras e incentivadora, pois a história de Cachoeira do Sul pode recuperar outras páginas de igual valor, quando cidadãos e entidades tomaram para si o compromisso de colaborar com a ilustração de interessados em aprendizado e qualificação. Qualificar o cidadão era e é a maneira mais sólida de qualificar a sociedade em que se vive.

Captura de imagens de documentos e imprensa: Neiva E. C. Köhler

MR
sexta-feira, 22 de maio de 2020 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Escola Estadual Cândida Fortes Brandão - 90 anos

E.E.E.F. Cândida Fortes Brandão - Rua Pinheiro Machado, 2343
- escolacandidda.blogspot.com

No dia 21 de maio de 1930, foi criado o Grupo Escolar Alto dos Loretos que, por decreto de 16 de outubro de 1940, passou a se chamar Grupo Escolar Cândida Fortes Brandão, homenageando uma das mais prestigiadas professoras cachoeirenses.

Professora Cândida Fortes Brandão - patrona da escola
- Museu Municipal

O jornal O Comércio, em sua edição de 17 de julho de 1929, noticiou o seguinte:

Grupo Escolar. - Foi escolhido o edificio em que actualmente funcciona o Club União Familiar, á Avenida Brasil, no arrabalde do Alto, para nelle funccionar um grupo escolar. Afim de inspeccionar o referido edificio, em que serão realizados trabalhos de adaptação, esteve nesta cidade o dr. Freitas de Castro, diretor geral da instrucção publica do Estado.


O Comércio, 17/7/1929
A instalação do Grupo Escolar ocorreu no dia 26 de maio de 1930, abrigando cerca de 200 alunos.

Professora Corina F. Carvalho e seus alunos - 1932 - AP Arquivo Histórico
Novo prédio para o Grupo Escolar "Cândida Fortes Brandão". Conforme autorização já concedida pelo Secretário da Educação do Estado para construir um prédio para um grupo escolar de 200 alunos nesta cidade, terão início dentro de poucos dias as respectivas obras, que orçarão em 84 contos de réis, aproximadamente. O Grupo Escolar "Cândida Fortes Brandão" será localizado no alinhamento da Avenida Brasil, num dos pontos mais altos e aprazíveis do Alto dos Loretos. (Jornal do Povo, 5 de janeiro de 1941). A inauguração oficial, com a presença do Secretário de Estado da Educação, Dr. Coelho de Souza, ocorreu em agosto de 1944.

Jornal do Povo, 5/1/1941

Prédio da Rua Pinheiro Machado - escolacandidda.blogspot.com


Em 14 de outubro de 1980, a Escola Cândida Fortes Brandão recebeu autorização para instalar e pôr em funcionamento uma classe especial para deficientes auditivos, a primeira do gênero no município de Cachoeira do Sul, contando com profissionais habilitados em Libras, que é a Língua Brasileira de Sinais.

Em 26 de março de 1987, foi criada a Associação de Pais e Amigos dos Deficientes Auditivos - APADA, sediada na escola.

Cândida Fortes Brandão - a patrona da Escola

A cachoeirense Cândida Fortes Brandão, batizada como Cândida de Oliveira Fortes, foi a primeira professora com diploma da Escola Normal na história de Cachoeira do Sul. Professora particular e pública, foi a primeira diretora do Colégio Elementar Antônio Vicente da Fontoura, fundado em 1915. Mas sua vida não foi somente dedicada ao magistério, mas também às letras. Em tempo em que as mulheres raramente conseguiam espaço nos jornais para publicações, Cândida já despontava como uma das mais frequentes com poemas e artigos no O Comércio e Rio Grande, de Cachoeira. Também colaborou com várias publicações no país e em Portugal, tendo publicado um único livro, Fantasia, de 1897, editado pelas oficinas do Correio do Povo, de Porto Alegre, dividido em duas partes: Revérberos, de versos, e Contos às minhas irmãs, em prosa.

Folha de rosto do livro Fantasia - Museu Municipal

Cândida, que nasceu em 24 de abril de 1862, faleceu com 60 anos no dia 4 de novembro de 1922, sem filhos, deixando o marido Augusto César Brandão.

A equipe do Arquivo Histórico saúda os 90 anos desta importante e histórica instituição educacional, bem como a 24.ª Coordenadoria de Educação pelos seus 55 anos de funcionamento e coordenação do ensino público estadual.

Pesquisa no Acervo de Imprensa: Neiva E. C. Köhler

MR
sexta-feira, 8 de maio de 2020 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Fritz Strohschoen - 100 anos

8 de maio de 1920 - 8 de maio de 2020, dia de relembrar o historiador Fritz Strohschoen pelo centenário de seu nascimento e de celebrar todos os seus feitos em prol da conservação da memória histórica de Cachoeira do Sul; dia de reverenciar o cidadão que contribuiu para o crescimento de sua cidade, seja como professor, contabilista, advogado, vereador, como pai de família e liderança comunitária.

Participação de nascimento - O Comércio, 12/5/1920


Dr. Fritz Strohschoen - Acervo familiar


Fritz Strohschoen nasceu na Cachoeira que estava prestes a comemorar seu primeiro centenário, cuja legitimidade da data histórica - 5 de agosto de 1820 - vinha sendo discutida desde o ano anterior. Naquele tempo, o historiador Aurélio Porto prestou-se a elucidar com seu amplo conhecimento a importância do dia 5 de agosto, pondo fim aos questionamentos de então. Por estas coincidências inexplicáveis, coube a Fritz, 64 anos depois, retomar e endossar a defesa feita por Aurélio Porto para corrigir a data que constava do brasão do município.

Aurélio Porto sempre foi inspiração para o historiador que Fritz se tornou. Como ele, Fritz também se debruçou sobre a vasta documentação produzida desde a instalação do município, dando corpo e divulgação a fatos e personagens que escreveram as primeiras páginas da Vila Nova de São João da Cachoeira. E fazia isto nas madrugadas, em seu escritório, lendo, analisando e transcrevendo volumes de atas e outros documentos que trazia da velha Prefeitura. Alguns destes documentos, ao passarem por suas mãos, ganharam a oportunidade da conservação, uma vez que ainda não existia um arquivo histórico que lhes desse o tratamento devido. A paixão pela pesquisa era tanta, que nem a deficiência visual que portava desde a adolescência o impediu de levar a termo as leituras e transcrições em letra caprichada e criteriosa organização.

Mas Fritz Strohschoen não foi só um perscrutador e divulgador da história, foi também professor admirado por seus alunos no noturno do "Colégio dos Padres", hoje Colégio Marista Roque, onde concluiu o curso ginasial em 1935. Ele guardava agradáveis lembranças do educandário onde atuou por 33 anos, assim como das outras experiências profissionais, incluindo a de perito grafólogo no Fórum. Foi também instruído e atilado vereador, chegando à presidência da Câmara por mais de uma vez e ocupando o cargo de chefe do Executivo em três ocasiões, em razão do afastamento do prefeito Arnoldo Paulo Fürstenau. Abraçou também, com a tenacidade que lhe caracterizava, várias causas comunitárias, algumas delas significativas na área da educação.

Como forma de homenagear e agradecer o excepcional serviço que Fritz Strohschoen prestou à sua terra natal, especialmente na conservação e divulgação da história, a sala de pesquisa do Arquivo Histórico recebeu o seu nome em 27 de agosto de 1996.

Sala Dr. Fritz Strohschoen - Arquivo Histórico


Fritz Strohschoen faleceu em 14 de janeiro de 2011 e, em dezembro daquele ano, o Arquivo Histórico e o Museu Municipal lançaram o Caderno de História n.º 7 - Fritz Strohschoen, em reconhecimento ao inestimável serviço que prestou ao ofício das duas instituições.

Falar do homem, do pai da família que constituiu com Olga Stallbaum, formada por Marly, Mário, Mirna, Milda e Mayra, do profissional, do cidadão engajado e do historiador pode ser muito bem arrematado com uma frase que ele gostava muito de repetir e que dimensiona o seu compromisso e o rico currículo de realizações em prol da sua terra: "Cachoeira gosta de mim, e eu dela."

Fritz e Olga Strohschoen - Arquivo Histórico

Com esta postagem o Arquivo Histórico relembra o historiador Fritz Strohschoen em seu centenário de nascimento, cumprimentando todos seus descendentes e demais familiares.

MR
sábado, 21 de março de 2020 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Chalés contaminados

Ainda em relação ao aparecimento de focos de peste bubônica em 1920, a Intendência Municipal teve que tomar a medida extrema de mandar atear fogo em  quatro chalés de madeira, residências que estavam contaminadas.

Os chalés pertenciam a D.ª Amanda Campos que, legalmente, tinha direito à indenização de suas perdas. Como todos os processos que envolvem o poder público são caracterizados pela morosidade, somente no final de 1924 o intendente foi autorizado pelo Conselho Municipal a efetuar o pagamento de três contos e quinhentos mil réis à proprietária.

Pela Lei n.º 184, de 23 de dezembro de 1924, o pagamento da indenização estava autorizado, conforme ficou registrado no volume das Leis do Conselho Municipal Promulgadas em 1924 - Orçamento para o Exercicio de 1925 e Instrucções para sua Execução:

Francisco Fontoura Nogueira da Gama, Intendente do Municipio de Cachoeira, Estado do Rio Grande do Sul.

Faço saber, em cumprimento do disposto no art. 17, n.º 4, da Lei Organica, que o Conselho Municipal approvou, em sessão ordinaria de 22 do corrente, e eu promulgo a seguinte resolução:
Art. 1.º - Fica o Intendente Municipal auctorisado a effectuar o pagamento da quantia de 3:500$000 a D.ª Amanda Campos, como indemnisação de quatro chalets de madeira, de sua propriedade, queimados por ordem do director da Hygiene Municipal, afim de extinguir um fóco de peste bubonica, irrompido nos mesmos, em 1922.
Art. 2.º - Revogam-se as disposições em contrario.
Intendencia Municipal de Cachoeira, 23 de Dezembro de 1924.

Francisco Gama

Nesta Secretaria do Municipio de Cachoeira, foi registrada e publicada a presente lei, aos 23 dias do mez de Dezembro de 1924.

Emiliano Antonio Carpes
Secretario do Municipio

IM/CM/AL/L-007

Como se vê, foi no ano de 1920 que ocorreu o foco de peste bubônica nos chalés, levando as autoridades sanitárias do município à medida extrema da sua incineração. A partir disto, foram necessários quatro anos para aprovação da indenização das perdas da proprietária, sendo efetuado o pagamento somente em 1925! Uma peste ou epidemia, mesmo contida, no passado ou no presente, estende suas consequências ainda por um longo tempo...

MR

Devido à pandemia de Coronavírus - Covid 19 e, por determinação da Prefeitura Municipal de Cachoeira do Sul, o Arquivo Histórico permanecerá fechado até segunda ordem. Recomenda-se atenção às orientações das autoridades para que em breve a vida de todos retorne à normalidade.

sexta-feira, 6 de março de 2020 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

1878 - Medidas para controle de pestes

Ainda sobre momentos de epidemias, é interessante destacar que a municipalidade, na medida de suas possibilidades e do que havia disponível em cada época, sempre tentou tomar as providências cabíveis para controlar a situação.

Uma circular do Palácio do Governo, em Porto Alegre, remetida à Câmara de Cachoeira em 26 de novembro de 1878, informa o que era recomendado naqueles tempos:

Circular de 26/11/1878 - CM/S/SE/CR-Caixa 19

Transmitto a Vm.cês dez exemplares impressos do Decreto n.º 7027 de 6 de Setembro deste anno, contendo instrucções sobre desinfecção das casas ou estabelecimentos publicos e particulares desse municipio em que se derem casos de molestias contagiosas ou transmissiveis, e conselhos sanitarios ao povo para as occasiões de epidemia; os quaes devem Vm.cês mandar distribuir gratuitamente, como recommenda o Snr. Ministro do Imperio em Aviso circular n.º 3410 de 30 de Setembro ultimo.

Deus Guarde a Vm.cês

Snrs. Presidente e mais Vereadores da Camara Municipal da Cachoeira.

O Decreto citado na circular trata sobre a desinfecção das casas e estabelecimentos públicos ou particulares em que houvesse ocorrência de casos de moléstias contagiosas e traz as seguintes orientações:

- sempre que houver casos de doenças transmissíveis, como febre amarela, cólera, varíola, escarlatina, tifo e outras da mesma natureza, os moradores ou responsáveis, tanto de residências quanto de estabelecimentos públicos, deveriam proceder à desinfecção de todos os aposentos, segundo as orientações da Junta de Higiene; a desinfecção seria estendida aos prédios e lugares próximos ao foco toda vez que a autoridade sanitária julgasse conveniente;

- quando a contaminação atingisse pessoa sem condições para proceder ao tratamento, as autoridades deveriam ser imediatamente comunicadas, para providenciar na remoção do doente ou no sepultamento imediato, em caso de morte; a desinfecção da casa correria por conta do Estado;

- em caso de descumprimento, os moradores, donos ou arrendatários de habitações infectadas seriam multados em 30 mil réis; a falta de comunicação às autoridades redundaria em multa de 20 mil réis; em caso de reincidência, o dobro do valor.

Pelo sim pelo não, tais medidas foram tentativas de conter a propagação de doenças contagiosas em tempos de poucos recursos médicos e da precariedade de um país continental e ainda parco em desenvolvimento.

As medidas adotadas no século XIX ainda guardam similaridade às recomendadas no século XXI, apesar do imenso avanço da medicina e do poder da comunicação. Ainda a lamentar as carências do país que segue continental em extensão e com condições sanitárias díspares entre as diversas regiões.

MR   
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Peste

Em tempos de sobressaltos em razão de nova peste que espreita a humanidade, o coronavírus, batizado de Covid-19, é bom lembrar que momentos como este já foram vividos inúmeras vezes.

Há 100 anos, o jornal O Commercio noticiava foco de peste bubônica na cidade, pondo em alerta as autoridades sanitárias e o povo:

Infelizmente a peste bubonica, que fôra considerada extincta nesta cidade, reappareceu n'um novo fóco á rua Moron, nos predios n.os 57 e 59.
Esses predios ficam muito proximos ao do sr. José Nunes de Castro, á mesma rua, onde enfermaram gravemente, de peste bubonica, em Janeiro, o sr. Aristodemo Accorsi e sua exma. esposa, que felizmente se restabeleceram.
A nova irrupção da peste nos predios n.os 57 e 59 foi precedida de grande mortandade de ratos e gatos. O primeiro doente atacado de peste nesse predio foi d. Justina Peres, a qual foi attendida pelo dr. José Felix Garcia, e falleceu no 3.º dia depois de ter adoecido. Dias depois enfermou a senhorita Luiza Wolff, de 18 annos de idade, que foi medicada pelo dr. Ricardo d'Elia, sendo tambem attendida em conferencia pelo dr. Bruno de Campos. Essa desventurada moça, attingida pela peste em plena saúde e na flôr da idade, tambem falleceu no 3.º dia de molestia. No mesmo predio residia a preta Rosalina dos Santos, a qual, atacada pela peste na semana ultima, falleceu no domingo, tendo sido tratada pelo dr. Alberto Gradim. Ainda no mesmo predio existe atacado pela peste, em estado grave, o joven Gustavo Wolff, de 16 annos de idade, irmão da finada Luiza Wolff, já victimada pela referida molestia.
Como se vê, o novo fóco já atacou a quatro pessoas, tres das quaes falleceram, estando o outro enfermo em perigo de vida, sob o tratamento do dr. Balthazar.
O governo do Estado e o do municipio, informados do occorrido, determinaram energicas providencias, afim de debellar o mal, não permittindo que Cachoeira hospede a bubonica em estado chronico, como, infelizmente, tem acontecido em outras cidades.
Chegou de Porto Alegre, no dia 7, um desinfectador da hygiene, que tem distribuido veneno para ratos e pó de mosquito á população. Os predios, onde ocorreram casos de peste, serão demolidos, caso não permittam, pelas suas más  condições, uma perfeita impermeabilisação do sólo.
Não podemos regatear applausos á autoridade sanitaria nas medidas de rigor a serem tomadas. Cachoeira infelizmente ainda possue, no seu centro mais povoado, velhissimos predios, incompativeis com o nosso gráu de progresso, , e que, pelas suas pessimas condicções de asseio, são verdadeiros  viveiros de ratos, promptos a tornarem-se, n'uma circumstancia como a actual, em terriveis fócos de peste, a diffundir a epidemia pela cidade. E, por uma estranha circumstancia, pertencem elles a pessôas abastadas, que, pela sua conservação, estão impedindo o progresso da cidade e constituindo uma ameaça á saúde publica.
Felizmente, ao que sabemos, o illustre dr. intendente municipal tomou severas medidas para que taes predios, muitos delles já ameaçando ruinas, sejam immediatamente demolidos. O governo do Estado, por sua vez, está seriamente empenhado para que rigorosas medidas de saneamento libertem o Rio Grande do flagello da peste.
Cumpre que a nossa população auxilie a acção dos poderes publicos. É sabido que o rato é o primeiro animal atacado pela peste. Infeccionado este, a pulga, que elle sempre hospeda, passa ao homem que é por sua vez infeccionado. Tudo, portanto, que contribuir para matar os ratos e as pulgas, deve ser feito. As casas devem ser trazidas no mais rigoroso asseio, lavadas com agua creolinada. Deve ser distribuido veneno aos ratos, podendo as pessoas pobres procural-o na intendencia municipal. Com a acção conjuncta dos poderes publicos e da população, esperamos que a bubonica desappareça para sempre de Cachoeira. 


O Commercio, 10/3/1920, p. 1

Como costuma acontecer com epidemias, as primeiras medidas sempre devem partir da população, no sentido de manter o asseio pessoal e de suas habitações. Com a terrível Covid-19 não é diferente. Casos como da peste bubônica, da gripe espanhola, do H1N1 e do próprio coronavírus, ainda que paire sobre eles uma grande distância de tempo, guardam a mesma essência: seu combate começa pela higiene e medidas de prevenção.

MR
sábado, 22 de fevereiro de 2020 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

O carnaval de 1920

Há 100 anos o carnaval de Cachoeira, a julgar pelas notícias n'O Commercio, foi bem animado! Eram tempos de ruidosos grupos mascarados que saíam às ruas incitando todos à alegria e jogando muito lança-perfume, confete e serpentina.

Naquele ano  a novidade foi o surgimento do "Bloco Almofadinhas", que com um ruidoso "Zé Pereira" todas as noites assaltava as principais casas de diversões sob a batuta do maestro "Caturrita".

Na tarde e noite de domingo, 15 de fevereiro,  segundo o jornal, diversos grupos de mascarados percorreram, a pé e em vehiculos, algumas ruas da cidade. 
O "Blóco Almofadinhas", que já havia sahido em noites anteriores, sahiu, á tarde e á noite, com o seu ruidoso Zé Pereira, apresentando-se em diversos pontos.

Durante a noite de 16 do corrente houve grande reunião de povo na Avenida das Paineiras, jogando-se- animadamente, lança-perfume, confetti e serpentinas.
Á tarde de 17 o commercio local fechou as suas portas e pelas 5 horas começou a affluencia de povo á Avenida das Paineiras, que, ao anoitecer, estava repleta.
Embora não houvesse uma sociedade carnavalesca, nem commissão organisadora de festejos, áquella hora houve, na Avenida, muito transito de automoveis e carros alguns enfeitados e conduzindo senhoritas e cavalheiros com trajes de phantasia.
Entre os passageiros dos carros e os transeuntes do passeio da Avenida houve forte jogo de serpentinas, confetti e lança-perfumes, brincadeira que, quando desappareceram os vehiculos, ainda prolongou-se até ás 11 horas da noite.

Trecho da Avenida das Paineiras (atual Rua 7 de Setembro)
- Museu Municipal

Á noite de segunda-feira penultima effectuou-se um baile burlesco nos vastos salões do Club Renascença, cujas dependencias estiveram repletas de exmas. familias e cavalheiros.
A diversão começou pelas 10 horas, prolongando-se, por entre vivas e reciprocas expansões de alegria e cordialidade, até ás primeiras horas da madrugada de 17.
Nos intervallos da dança houve animado jogo de lança-perfume, confetti e serpentinas.

Em a noite de sabbado, 21 do corrente, o Club 7 de Setembro tambem realizou um baile burlesco.
As 10 horas os cavalheiros phantasiados partiram do Hotel do Commercio, precedidos de musica e do Zé-Pereira, estacando á frente da residencia do sr. Hercules Vasconcellos, onde receberam as phantasiadas do bello sexo, fazendo uma passeata pela rua 7 de Setembro, que, principalmente na Avenida das Paineiras, estava repleta de curiosos.
Chegando ao edificio social, á rua São João, este ficou cheio de exmas. familias e cavalheiros.
(...)
Tocaram, alternadamente, a Banda Musical Estrella Cachoeirense e orchestra do Quartetto Viennense, dirigida pelo maestro Frederico Hintze.
A diversão prolongou-se, sempre muito animada, até ás 5 horas da manhã de domingo.

Clube Sete de Setembro - O Rio Grande do Sul, de Alfredo R. da Costa (1922)

Pelo jornal é possível perceber que o carnaval de 1920 foi bastante festejado, seja através dos grupos e blocos que desfilavam pelas ruas, animados pelos Zé Pereiras, em que os confetes, serpentinas e os hoje proibidos lança-perfumes faziam a alegria dos foliões. Os clubes chamavam os bailes de carnaval de burlescos, iniciados por cortejo que percorria a pé o trajeto até a sede social. 

Os tempos mudaram, os festejos de carnaval também. Confetes e serpentinas seguem, bem menos efusivos em bailes adultos e ainda bem utilizados nos infantis. E os Zé Pereiras? Por aqui nem se ouve mais falar deles... Pelo menos com este nome!

*Zé Pereira: grupo de foliões que saíam às ruas munidos de bumbos animando blocos carnavalescos.

MR