sexta-feira, 23 de junho de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Matadouros e açougues

Nestes tempos em que o mercado de carnes tem sido alvo de discussões em razão das medidas sanitárias cobradas para o setor, fica-se a pensar que agora as exigências são maiores. Certamente, pelo avanço científico, muitas práticas aceitas no passado hoje são condenadas e as adequações são sempre necessárias para garantir a qualidade dos produtos e a seriedade dos que os ofertam aos consumidores. 

As Posturas Municipais adotadas em 20 de fevereiro de 1895, durante a administração do intendente David Soares de Barcellos, em seu capítulo XV, que trata de matadouros e açougues, dizem o seguinte:

Art. 131 - Os matadouros particulares serão situados nos lugares que a Intendencia designar; a carne sera conduzida com a necessaria limpeza para o acougue em que tem de ser talhada, e todo serviço sujeito á immediata inspeção dos agentes, os quaes communicarão a Intendencia qualquer irregularidade prejudicial a salubridade publica, afim de ser o marchante punido com a pena de 30$000 rs de multa senão attender á correcção exigida.
Art. 132 - Ninguem poderá estabelecer acougue sem previa licença da municipalidade. Pena 20$000 de multa. 
Art. 133 - Os acougues e seus utensis serão conservados com a necessaria limpeza que será feita diariamente depois de concluir o talho da carne. Pena de 10$000 de multa.
Art. 134 - E' prohibido conservar em acougues carne, couros, entranhas e cabeças de rez desde que comece a se decompor a exhalar mau cheiro. Pena 10$000 rs de multa.
Art. 135 - E' prohibido cortar ou talhar rez cansada ou doente desde que sua magreza indique o seu estado morboso. O contraventor incorrerá na multa de 30$000 rs, e a perda da carne que ja tiver vendido recebendo esta para ser igualmente inutilisada. 
Art. 136 - Os ossos das rezes que se talharem nos acougues serão serrados com serrote, e não picados a machado e a carne partida com instrumento cortante bem afiado. Pena de 5$000 de multa ao contraventor. 
Art. 137 - Toda carne vendida será pesada a vista do comprador em balanças e pesos aferidos. O contraventor incorrerá na multa de 10$000. Se dér, porém, carne de menos, ou tiver pesos ou balanças destinadas para o furto ao comprador, além de outras penas em que incorra, e da obrigação de indemnisar pagará 30$000 rs de multa.
Art. 138 - Os acougueiros são obrigados a vender pelo preço corrente, a quem quizer comprar carne e pagar a vista. Pena de 10$000 de multa.
Art. 139 - Quem abrir acougue para talhar carne de porco de ovelha ou de cabra fica sujeito a todas as condições contidas neste capitulo.

Livro IM/GI/DA/ADLR-001 - Código de Posturas 1895
- Acervo documental Arquivo Histórico

 Passa o tempo, mudam as regras. O que não muda - ou não deveria mudar - é a preocupação com a saúde pública e com o disciplinamento da oferta de bens e serviços, o que gera segurança para todos, sejam eles comerciantes ou consumidores.


(MR)
sexta-feira, 16 de junho de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Corpo de Deus

A comunidade católica realiza a festa religiosa de Corpus Christi (Corpo de Cristo, em latim) para celebrar o mistério da eucaristia e como a hóstia representa o corpo e o sangue de Cristo.

A festa é marcada no calendário 60 dias depois do Domingo de Páscoa, ou na quinta-feira seguinte ao domingo que celebra a Santíssima Trindade, aludindo à Quinta-feira Santa, quando Jesus instituiu o sacramento da eucaristia.

As cidades de tradição portuguesa, como é o caso de Cachoeira, costumam marcar o dia de Corpus Christi confeccionando tapetes em lugares públicos por onde costumam passar os fiéis na procissão religiosa. 

Há 100 anos, a imprensa, através do jornal O Commercio, não falava em tapetes pelas ruas, mas ressaltava a beleza e bom gosto de ornamentação nos quatro altares erguidos pelo trajeto. Notava-se, também, o grande envolvimento das entidades e associações religiosas, bem como das autoridades municipais. 

Notícia publicada n'O Commercio
- Coleção de Imprensa do Arquivo Histórico

Procissão do Corpo de Deus

Foi imponente a procissão do Corpo de Deus, realizada nesta cidade, domingo ultimo, apezar do vento molesto que com impetuosidade fez levantar grande quantidade de pó pelas ruas.
Acabada a missa das 9 1/2 horas, o revmo. padre Luiz Scortegagna fez breve allocução sobre a alta importancia dessa procissão, appellando para os exemplos de fé que deram varões illustres na historia, como São Luiz, Rei de França, Thomaz Moro, chanceller da Inglaterra, etc.
A procissão obedeceu á ordem indicada; iam á frente os Irmãos da Irmandade de N. S. do Rosario, os collegios publicos e particulares, seguindo-se as diversas associações religiosas, Apostolado da Oração, Congregação Mariana, a Irmandade Conjuncta com as respectivas insignias e o Pallio, sob o qual ia o S. S. Sacramento. As varas do Pallio eram empunhadas pelos srs. dr. Quintiliano de Mello e Silva, capitão Francisco Fontoura Nogueira da Gama, coronel Horacio Gonçalves Borges, capitão Sebastião da Silva Barros, dr. Aurelio Castello Branco e capitão Rodolpho Motta, coadjuvados por outros cavalheiros.
Symbolos bem expressivos eram levados por gentis meninas de vestidos brancos, outras representavam anjos. Os 4 altares improvisados em differentes pontos do trajeto, rivalisavam em belleza e bom gosto de ornamentação. Em cada altar foi dada a benção solemne do S. S. Sacramento, assistindo todos os fieis com a maior devoção, de joelhos, como deve ser.
Antes de dar a ultima benção no altar improvisado á porta da igreja matriz, o vigario da parochia, não podendo deixar de externar sua commoção pela viva demonstração de fé, felicitou ás autoridades, aos collegios, ás corporações religiosas e civis e ao povo em geral, implorando de Jesus, presente na Sagrada Hostia, paz e felicidade sobre todos, sobre o municipio de Cachoeira, sobre todo o Estado e sobre todo o nosso paiz.
O côro do Apostolado, com os seus melodiosos canticos apropriados em louvor do S. S. Sacramento, concorreu muito para a imponencia da procissão, a par da Banda Estrella Cachoeirense, que, apresentando-se de uniforme novo, fez ouvir selectas peças de seu vasto repertorio.
A Irmandade Conjuncta foi incançavel na ornamentação das ruas, levantando arcos etc.; por isso o vigario da parochia dirigiu á mesa administrativa da mesma Irmandade um officio de agradecimento e de louvor, para ser lido na primeira sessão e transcripto no livro competente. 

(Jornal O Commercio, Cachoeira, edição de 13 de junho de 1917, p. 2, Coleção de Imprensa do Arquivo Histórico).

Autoridades municipais presentes à procissão de Corpus Christi
- Fototeca Museu Municipal

Nos dias de hoje, ainda que a grandiosidade da festa de Corpus Christi não se reproduza, ganha força a cada ano a tradição dos tapetes, superando-se os artífices em expressar com delicadeza, arte e beleza a sua fé.

(MR)
segunda-feira, 5 de junho de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Do tempo dos lampiões

Há muito tempo atrás, quando a luz elétrica ainda não havia chegado por aqui, os recursos para iluminação das casas e ruas eram as lamparinas e lampiões. Nas ruas principais da cidade, havia maior profusão de lampiões, rareando os focos de luz conforme os caminhos conduziam para os arrabaldes.

Registros fotográficos dos últimos lampiões - fototeca Museu Municipal

Em 1911, um recibo do tesoureiro da Intendência da Cachoeira atesta que havia sido gasta a quantia de quinze mil e quinhentos réis com o trabalho de acendimento dos nove lampiões da avenida na Praça José Bonifácio, no período dos 31 dias do mês de julho, ao custo de 500 réis por noite. O acendedor, que se chamava João José Rodrigues, era também o jardineiro da Intendência. Provavelmente, para engrossar os rendimentos de jardineiro, João José se desdobrava trabalhando também à noite no acendimento dos lampiões...

Recibo de pagamento do acendedor de lampiões
- IM/RP/SF/D-102
Aliás, os lampiões desapareceram no tempo, substituídos pela energia elétrica, mas algumas das árvores plantadas nas praças de Cachoeira, especialmente na Praça José Bonifácio, pelo jardineiro João José, ainda se mantêm, testemunhando trabalho praticamente anônimo.

Praça José Bonifácio provavelmente ajardinada por João José Rodrigues
- fototeca Museu Municipal

Em agosto de 1911, outra despesa relativa ao serviço de iluminação tem o comprovante preservado na documentação histórica, desta vez no montante de 270 mil réis e relativa ao custeio de cem lampeões da illuminação publica desta cidade, quantia paga a João Henrique de Carvalho. Em 31 de outubro, a despesa de 302.400 réis já dava um total de 112 lampiões.

Como se vê, os gastos com a manutenção dos lampiões se ampliava conforme o crescimento de seu número, pois a cidade em expansão necessitava também promover o alcance da iluminação pelos novos rumos que se abriam.

O trabalho de acendimento - e de extinção das chamas dos lampiões - exigia a contratação constante de mão de obra, pois uma única pessoa não tinha condições de dar conta sozinha da exaustiva e, aos olhares de hoje, tão obsoleta tarefa.

EM TEMPO: Nosso atento leitor, colaborador e pesquisador dos acervos de documentos e imprensa do Arquivo Histórico, Hilberto Prochnow, fez importante observação sobre a postagem Do tempo dos lampiões, que registramos aqui. Intervenções como esta são importantíssimas para acrescentar e retificar informações, indo ao encontro do compromisso do Arquivo Histórico em difundir a história de Cachoeira com isenção, comprometimento e fidedignidade.

Hilberto Prochnow chama a atenção que o recibo assinado pelo jardineiro João José Rodrigues na verdade foi feito a rogo de Luiz Affonso, este sim o acendedor de lampiões. Provavelmente analfabeto, Luiz Affonso, na companhia do amigo jardineiro, dirigia-se ao tesoureiro da Intendência para o recebimento da soma que lhe era devida, para o que João José dava o recibo.

Para enriquecer ainda mais as observações feitas, o colaborador Hilberto Prochnow informa que João José Rodrigues, o jardineiro da Intendência, era português, nascido em 15 de janeiro de 1850 e falecido aos 88 anos, em 30 de março de 1938.

Muito obrigada, Hilberto! A postagem segue na íntegra para que os leitores possam perceber as observações feitas.

(MR)
sexta-feira, 26 de maio de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Imagem de Nossa Senhora no frontispício da Igreja Matriz

As obras de pintura da Catedral Nossa Senhora da Conceição, no Centro Histórico, ocupam a atenção da comunidade. Com a restauração do Paço e do Château d'Eau, os olhares agora se voltam para os detalhes que a rica arquitetura do templo revela sob a camada nova de tinta e, especialmente, sobre a imagem da Nossa Senhora que domina o frontispício.

Catedral em processo de pintura - foto Ione M. S. Carlos

As remodelações do templo foram muitas ao longo de sua história, mas a mais radical foi a iniciada em março de 1929, quando houve a decisão de mudar o aspecto externo, enriquecendo a simples arquitetura colonial militar de sua fachada com detalhes barrocos e substituindo a cruz que encimava o frontispício por uma imagem de Nossa Senhora.

Fachada original da Igreja Matriz - fototeca Museu Municipal
Na edição do jornal O Commercio, de 1.º de janeiro de 1929, detalhes da solene bênção da imagem da padroeira e inauguração das torres:

Como dissemos em nossa edição anterior, effectuou-se, na manhã de domingo ultimo, a solemnidade da benção do monumento votado a Nossa Senhora da Conceição, que encima o frontispicio remodelado da Igreja Matriz.
A missa das 9 horas, que precedeu a solemnidade, congregou grande massa de fiéis no templo catholico, ficando muitas pessoas postadas á frente, por não conseguirem logar no interior.
Proximo á porta de sahida, do lado esquerdo da igreja, um grupo de gentis senhoritas vocalisou canticos liturgicos, com acompanhamento, ao orgão, pela senhorita Alda Eggers.
A missa terminou ás 10 horas, começando, após, a reunião de povo emfrente ao templo, e ficando tomado o espaço desde a escada de acesso ao Chateau d'eau.
Nessa occasião, o revmo. monsenhor Luiz Scortegagna, Governador Geral do Bispado de Santa Maria, benzeu o monumento e inaugurou as duas torres novas da igreja, emquanto, no interior da mesma, a senhorita Carmen Barbosa vocalisava uma bella Ave Maria.
Serviram de paranymphos do acto, segurando em longas tiras de fita azul, as exmas. sras. dd. Carlinda Brandes, Brizabella Machado, Elizabeth Carvalho, Dora Mello de Barros, Azhyr Fontoura de Barcellos, Euphrasia Figueiredo, senhoritas Herminia Vieira da Cunha, Alice Abreu, Catharina de Franceschi e Olga Motta, as 5 ultimas, pelo Apostolado da Oração e pela Congregação Mariana; e os srs. Antonio Cauduro, José Carlos Barbosa, dr. David F. de Barcellos, Luiz Carvalho, João Franceschi (representando seu pai, sr. Maximiliano de Franceschi), Augusto Rossi, Nicolau Salzano e Virgilio Carvalho Bernardes.
Terminada a benção, que constituiu uma cerimonia emocionante, monsenhor Luiz Scortegagna subiu a um automovel que estava postado na praça, proferindo a seguinte oração:
Cerimonia simples e commovente, commovente e significativa esta que acaba de realizar-se.
Cachoeira, a catholica Cachoeira, está aqui dignamente representada por todos Vós  que constituis a concentração das energias do progresso social e religioso.
Cachoeira bella e forte, tu não poderias te gloriar com o nobre titulo de Princesa do Jacuhy, se a tua praça mais pittoresca não fosse aformoseada com um templo digno de tua crença, digno de tua excelsa protectora, da Immaculada Conceição, de accordo com o hodierno evoluir artistico.
Meus senhores! E' nesta hora que a digna commissão, depositaria do arduo encargo de transformar o antigo templo em alegre Domus Dei - casa do Senhor, Vos convidou para solemnisar a primeira etapa de sua actividade, a saber, a inauguração das alterosas torres com suas cruzes, as quaes, perfurando o espaço, symbolisam a nossa Fé e o nosso trabalho.

E o monsenhor prosseguiu em exaltações às ofertas para a realização da obra, terminando por referir-se ao arquiteto e a quem o templo é dedicado:

Honra ao celebrisado architecto sacro sr. Vitorino Zani, pela feliz produção artistica, honra á sua firma commercial pelo primoroso material fornecido; honra, outrosim, ao habil executor dos trabalhos, sr. Fortunato. E neste momento, com os olhos levantados para o céo, demos graças ao Altissimo pela insigne felicidade de, nesses trabalhos tão perigosos e arriscados, não ter havido nenhum incidente ou desastre grave a lamentar.
Animados pela fé trabalhemos pela remodelação da Igreja Matriz. - Igreja Matriz! isto é, Igreja mãe! sim, é este templo comum a todos nós.
É o lugar sagrado onde Deus habita na Sagrada Hostia; é o santuario onde temos colloquios com o Creador pela oração; é o lugar onde a maioria de Vós foi pacificada da mancha do pecado original, onde recebestes a santificação do vosso amor conjugal; onde tantas vezes recebestes o perdão dos vossos peccados e onde tantas vezes encontrastes consolo nas vossas tristezas;
Onde são encommendados os corpos inanimados;
Onde suffragamos as almas de nossos paes, parentes e amigos e onde um dia será suffragada a nossa alma.
E a quem é dedicado este templo?
A' creatura incomparavel, á mais pura e santa, á Medianeira de todas as graças, á Immaculada Virgem Maria, Padroeira do Brasil.


Nossa Senhora - foto Renato F. Thomsen
- pontedepedra.blogspot.com.br

Sua imagem, que acaba de ser inaugurada, repousa dia e noite no frontispicio do templo. Para vigiar e proteger a Vós todos, ahi a vêdes. Está ahi para fazer constatar aos peregrinos, aos viajantes das varzeas e das cochilhas vizinhas e aos que transitam pela linha ferrea, a vossa fé a vossa cultura.
Facto este que demonstra claramente que á S. S. Virgem Immaculada são consagrados os Cachoeirenses e que da sua protecção aguardam elles paz na vida, tranquilidade na lucta e completa felicidade no céo. Disse.
(...)
O orador foi muito applaudido e felicitado pelos conceitos que externou.
Tambem foi muito felicitada a commissão das obras de remodelação, constituida dos srs. Virgilo Carvalho de Abreu, Manoel Fialho de Vargas e Achylles Lima Figueiredo.
Em seguida começou a dispersão do povo, entronado ainda muitas pessoas na Igreja Matriz e na sachristia, onde se conservaram reunidas por algum tempo, em expansões de alegria.

Em maio de 2017, com a nova roupagem que a imagem de Nossa Senhora recebeu, ressaltando o azul de seu manto e os detalhes que identificam a sua representação, talvez a dúvida que assalte a todos de ser ela a Imaculada Conceição ou a Nossa Senhora das Graças esteja resolvida pelas palavras do monsenhor Scortegagna: 

A' creatura incomparavel, á mais pura e santa, á Medianeira de todas as graças, á Immaculada Virgem Maria, Padroeira do Brasil.

Com esta frase ele define Nossa Senhora como a mais pura e santa, a imaculada, independente das diversas nomenclaturas que recebe...

(MR)
sábado, 20 de maio de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Renúncia do Intendente de Cachoeira

Corria o ano de 1912. Em julho, pelas eleições, o Coronel Isidoro Neves da Fontoura, concluindo mandato iniciado em 1908 à frente da Intendência, tinha o apoio do Partido Republicano para seguir no comando da administração municipal. E assim foi eleito. Mas desavenças políticas entre ele e o presidente do Partido Republicano Rio-Grandense, Dr. Antônio Augusto Borges de Medeiros, fizeram-no recusar o cargo para o qual havia sido reeleito.

Em carta enviada ao Conselho Municipal (correspondente, à época, da Câmara de Vereadores) o Coronel Isidoro Neves justificou o porquê de não ter assumido as funções de intendente:


Isidoro Neves (penúltimo) dentre membros do Partido Republicano cachoeirense
- fototeca Museu Municipal
Ata da eleição do Cel. Isidoro Neves - 20/7/1912
- IM/CM/AE-Atas - Cx. 2

Srs. MEMBROS DO CONSELHO MUNICIPAL

Tenho a subida honra de comunicar-vos que renuncio hoje ao cargo de Intendente Municipal, cargo este que eu devera desempenhar durante o periodo de 20 de Setembro deste anno a 20 de Setembro do anno de 1916, de accôrdo com a eleição effectuada a 20 de Julho do corrente anno, se não fôra o meu precario estado de saúde.

Cachoeira, 21 de Outubro de 1912.

(ass.) I. Neves da Fontoura


Carta de Isidoro renunciando ao cargo de intendente
- 20/10/1912 - IM

Seu sucessor deveria ser o Dr. Balthazar de Bem, que também recusou assumir a Intendência, recaindo sobre o Dr. Alfredo Xavier da Cunha o compromisso de gerir os negócios municipais.

A imprensa de Porto Alegre, pelo jornal Correio do Povo, publicou o seguinte a respeito do fato, notícia reproduzida na edição d'O Commercio do dia 11 de setembro de 1912:

Politica da Cachoeira
A proposito da desintelligencia que sobre a politica local houve, em dias da semana finda, entre os srs. dr. Borges de Medeiros e coronel Izidoro Neves, o filho deste ultimo, sr. dr. João Neves da Fontoura, correspondente telegraphico do Correio do Povo, nesta cidade, passou áquella folha os telegrammas que abaixo estampamos:

Cachoeira, 3. - O coronel Izidoro Neves da Fontoura telegraphou ao dr. Borges de Medeiros, renunciando, irrevogavelmente, a chefia do partido republicano local e communicando ter passado o governo municipal ao seu substituto legal, dr. Balthazar de Bem.
Este, não querendo assumir a referida investidura, officiou ao segundo substituto, capitão Alfredo Cunha.
Sei que o coronel Izidoro reunirá, depois d'amanhã, o Conselho Municipal, afim de renunciar o cargo de intendente, e não assumirá o mesmo cargo, no proximo quatriennio para o qual já foi eleito, em hypothese alguma.
Consta que o coronel Izidoro abandonará definitivamente a politica.
- Posso affirmar que estão rompidas as relações politicas entre o dr. Borges de Medeiros, chefe do partido republicano, e o coronel Izidoro. 
Taes relações politicas datam desde a ultima decada da monarchia, e em que ambos pertenceram ao club republicano 6 de Novembro e juntos percorreram este municipio, disputando pleitos, como o do vereador republicano Antonio Nelson da Cunha, que saiu victorioso das urnas e outros.

Cachoeira, 4. - O Rio Grande, orgam do partido republicano local, assim explica o motivo do rompimento entre o coronel Izidoro Neves da Fontoura e o dr. Borges de Medeiros, chefe do partido republicano:
"Por motivos que affectam á sua autoridade, o coronel Izidoro Neves da Fontoura passou, hontem, ao seu substituto legal, a administração do municipio.
Na mesma data, o coronel Izidoro Neves deixou a direcção do partido republicano local e renunciará, hoje, perante o Conselho Municipal, ao seu mandato intendencial.
Tendo o dr. Balthazar de Bem, vice-intendente, se recusado a acceitar a investidura, assumiu o cargo de intendente o capitão Alfredo Xavier da Cunha, sub-intendente da séde.
Hontem, á noite, o dr. Borges de Medeiros telegraphou ao coronel Izidoro concitando-o a manter-se em suas posições.
O coronel Izidoro respondeu dizendo, mais uma vez, ser irrevogavel a sua resolução.
A' residencia do coronel Izidoro tem affluido grande numero de pessoas amigas, que o interrogam sobre os motivos da sua resolução.



Residência do Cel. Isidoro Neves - Rua 7 de Setembro - fototeca Museu Municipal

S. s. respondeu dizendo ter sido desconsiderado por seu velho amigo dr. Borges de Medeiros.
O sub-intendente da séde sómente assumiu o governo municipal a conselho do coronel Izidoro, afim de não ficar a administração acephala, e de não serem creadas difficuldades na vida do municipio.
O capitão Alfredo Cunha convocou o Conselho Municipal a se reunir, amanhã, em sessão extraordinaria, para receber a renuncia do coronel Izidoro.
Este tem recebido, de todo o municipio, muitos protestos de solidariedade, entre os quaes se conta um do coronel Horacio Borges, tio do dr. Borges de Medeiros, e que é a maior influencia politica do interior do municipio.

No dia seguinte, 5 de setembro, o Conselho Municipal foi reunido e o Coronel Isidoro Neves apresentou a sua renúncia, que foi aceita. O conselheiro Arlindo Leal pediu a palavra, dizendo que a renúncia vinha ocasionar uma crise politica no seio do partido republicano local, fazendo votos pela continuação da concórdia da família republicana, no que foi apartado pelo conselheiro Horacio Borges, que disse ser impossivel evitar a discordia no seio do partido. O conselheiro tenente-coronel Antonio Antunes de Araujo declarou que fiel aos seus principios, a situação actual não modificaria o seu procedimento, continuando a stygmatisar a situação dissolvente da politica nacional, em que ambiciosos sem idéas assaltaram as altas posições do poder nacional constituindo-se em um complot. Si a sua posição de retraimento soffresse uma solução de continuidade no caso local, só aconteceria na hypothese do successor do coronel Izidoro ser um homem com o seu pensar e com as suas idéas. Assim pensava desde que teve a necessidade de ir á praça publica, fazer um meeting de protesto contra essa anarchisada ordem de cousas.

Feitos os pronunciamentos, Alfredo Cunha tomou posto do cargo de vice-intendente em exercício e oficiou ao presidente do estado, Dr. Carlos Barbosa, dando-lhe ciência da posse. Concluiu dizendo: Serei nos poucos dias de governo um fiel cumpridor da lei e servidor leal de s. exe.

Alfredo Xavier da Cunha - fototeca Museu Municipal

Alfredo Xavier da Cunha administrou o município por pouco tempo. Em 20 de setembro de 1912, no salão principal da Intendência Municipal, segundo relata o jornal O Commercio, de 23 de setembro daquele ano, com a presença de co-religionarios e amigos, e dos conselheiros municipaes srs. coronel Manoel de Carvalho Prates, majores Felippe Moser e Paulino Breton, Pedro Stringuini e Emilio Barz teve lugar, á noite de ante-hontem, a posse do vice-intendente nomeado, sr. coronel Horacio Borges.  Paulino Breton, presidente do Conselho, fez o Coronel Horacio Borges pronunciar as palavras usuais da posse, tendo sido lavrada uma ata. Depois houve pronunciamento do secretário do município, Odon Cavalcanti. O jornal concluiu a notícia dizendo:

- Em virtude da renuncia do coronel Isidoro Neves, o coronel Horacio administrará o municipio até que seja eleito e empossado o novo intendente, cuja eleição, ao que sabemos, realizar-se-á no dia 25 de Novembro proximo, o mesmo que está fixado para a eleição do futuro presidente do Estado.

Cel. Horácio Borges - fototeca Museu Municipal

Isidoro Neves honrou sua palavra: nunca mais voltou à política, embora tenha deixado como herdeiro político o seu filho João Neves da Fontoura que, anos mais tarde, por aconselhamento do próprio Borges de Medeiros, assumiu a intendência de Cachoeira...

A história prova que o passado se repete. Por isto é preciso sempre - e cada vez mais - a sociedade inteirar-se de sua história e reconhecer nos fatos, mesmo que pareçam novidades, os traços indeléveis que carregam de ações pretéritas.

(MR)
sexta-feira, 12 de maio de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Pela liberdade dos escravos

A Câmara Municipal de Cachoeira, como de resto de outras cidades, foi destinatária de correspondência do Directorio do Centro Abolicionista em Porto Alegre, datada de 24 de maio de 1885, firmada por Joaquim Pedro Salgado, presidente, Joaquim de Salles Torres Homem, 1.º secretário, e pelos diretores Achylles Porto Alegre, João Duval, Julio Cezar Leal, Severino F. Prestes, Damasceno Vieira, João Theophilo V. da Cunha, Ignacio de Vasconcellos Ferreira, Aurelio Virissimo de Bittencourt, Antonio Candido da Silva Job e Candido Antonio da Costa.




O teor da correspondência reveste-se de significação maior ainda quando revela o quanto a propaganda abolicionista estava fortalecida no breve tempo que então antecedia a assinatura da lei áurea, ato da Princesa Isabel a 13 de maio de 1888, demonstrando também o quanto ainda estava por ser feito. Os seus signatários confirmam o peso que o movimento obteve junto a lideranças intelectuais. Nomes como o de Acchylles Porto Alegre, escritor, jornalista e educador de renome, e Damasceno Vieira, jornalista, poeta, dramaturgo e historiador, dão conta disto.

Acchylles Porto Alegre - Wikipédia
Eis o texto da correspondência:

Havia apenas um anno se encetára a propaganda propriamente abolicionista na provincia do Rio Grande do Sul, e já todos os seus habitantes comprehendiam, em Agosto de 1884, que a escravidão era uma causa de atrazo para a prosperidade do paiz, um factor deleterio para a raça e a civilisação, finalmente um indigno attentado contra a liberdade e a personalidade humanas.

Uma pronta e nunca assás applaudida resolução do povo d'esta terra exprimio, em face do paiz inteiro, o genuino voto do patriotismo, da intelligencia e da humanidade, que sempre distinguiram, nos grandes commettimentos sociaes, a gente do Rio Grande.

Até o fim do glorioso anno de 1884, em cinco mezes a provincia vio libertarem-se cerca de cincoenta mil escravos. Grande numero de cidades e muitos municipios ficaram expurgados da odiosa instituição do captiveiro dos homens. Em todas as localidades, sem exceçpção, a idéa redemptora agitava o espirito publico e ia fazendo ceder as fracas resistencias.

Entrando no presente anno de 1885, poucos esforços mais foi preciso empregar em alguns municipios, para libertarem-se todos os seus escravos.

Em outras localidades restam, porém, homens ainda captivos, por cuja liberdade intercedemos fervorosamente, junto aos seus senhores e a todos os bons cidadãos.

Temos a convicção profunda de que trabalhamos em bem da Patria e da Humanidade, e escudamo-nos na confiança, que sempre inspiraram-nos os generosos sentimentos dos habitantes do Rio Grande do Sul.

Imploramos os senhores dos escravos, em nome de tudo quanto ha de mais sagrado, nas idéas e nos sentimentos dos homens: a justiça, a moral, a religião, a misericordia, que só teem uma voz para condemnar o captiveiro do homem pelo homem!

Rogamos aos cidadãos, amantes da sua patria e da sua provincia natal, e que são dignos de sentir commiseração pelas creaturas fracas e infelizes, de porem ao serviço da causa do resgate dos captivos todo o seu prestigio pessoal, a influencia das suas relações, o seu talento, as suas virtudes e a sua infatigavel dedicação, com o fim de soltar o ultimo escravo, que ainda geme na noite do captiveiro!

As benemeritas associações de patriotas e de estrangeiros amantes d'esta terra, que têem-se formado nos differenttes pontos da provincia, sob a bandeira abolicionista, permittam-nos que lhes dirijamos tambem um apello fraternal. Redobrem de esforços, sustentem a brilhante posição, em que já tantos louros colheram, na cruzada humanitaria.

A imprensa continúa a derramar luz, sobre a escuridão do captiveiro do trabalhador.

Unamo-nos em nome da Patria, da Justiça e da Humanidade, e proclamemos a libertação total dos escravos, na provincia do Rio Grande do Sul!

E' da nossa honra e do nosso dever satisfazer, quanto antes, este compromisso.

Foi chamado a occupar posição conspicua no novo ministerio 6 de Maio um illustre representante do Rio Grande do Sul, na pessoa de quem consagrou o chefe do Estado o momento abolicionista da provincia, pois que a libertação dos escravos, é, hoje, a idéa capital do programma do governo.

Trata-se tambem de fazer uma lei sobre a emancipação servil, na qual só não serão contempladas as provincias, que já tiverem libertado voluntariamente seus escravos.

O Rio Grande reflicta: si pela permanencia, em seu sólo, de alguns poucos milhares de escravos, elle deve perder o beneficio de sua nobre conducta, no resgate de outros cincoenta mil captivos, e soffrer a imposição de uma lei, que só é feita para obrigar a vontade dos homens, que não são capazes de guiarem-se espontaneamente pela vóz da sua razão e a bondade de seus sentimentos!

Poucos instantes temos para reflectir: resolvamo-nos já!

A correspondência acima foi impressa tipograficamente. Uma anterior, datada de 27 de abril daquele ano, manuscrita pelo 1.º secretário do Centro Abolicionista, rogava que os vereadores não desamparassem a sagrada causa de restituir à liberdade creaturas humanas e afirmava que não recebendo há muito tempo qualquer comunicação sobre as alforrias de escravos na Cachoeira, o Centro Abolicionista pede á VVSS.ªs que se dignem informar-nos acerca do numero de libertos, desde Julho do anno ultimo de 1884, bem como, sobre as causas que porventura tenham retardado o movimento libertador d'essa localidade.

Sem a resposta aguardada, em 3 de agosto do mesmo ano, mais uma vez o 1.º secretário dirigiu-se à Câmara solicitando [...] informar-nos a cerca do numero das libertações effectuadas n'esse municipio, bem como os escravos ainda existentes. 

Segundo o historiador Aurélio Porto, existiam em Cachoeira até 1.º de junho de 1884, 1.305 escravos tendo, por conta da propaganda abolicionista, sendo libertos 441, de 1.º de junho a 31 de outubro, e 178, de 1.º de novembro de 1884 a 15 de março de 1885, perfazendo 619 cativos libertos.

Documentos como estas correspondências resguardadas no rico acervo do Arquivo Histórico conseguem, ainda que decorridos 129 anos desde 13 de maio de 1888, causar desconforto e reflexão pela dura realidade que reproduzem.

(MR)
sexta-feira, 28 de abril de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

1.º de Maio - Dia do Trabalho

Não passará despercebido entre nós o dia de hoje, o popular 1.º de maio, consagrado por todos os operarios do mundo civilizado á glorificação do trabalho.
As dignas sociedades "Liga Operaria Internacional Cachoeirense e Beneficente 1.º de Maio" festejal-o-ão devidamente, bem como a laboriosa classe operaria desta cidade.


A nota acima, extraída da edição do jornal O Commercio do dia 1.º de maio de 1901, dá mostras de que Cachoeira, então com duas entidades ligadas aos trabalhadores, não deixava passar em branco o Dia do Trabalho. A Sociedade Beneficente Liga Operária Cachoeirense foi fundada em 1.º de novembro de 1897 e a União Operária 1.º de Maio em 25 de fevereiro de 1900; ambas possuíam, em seu quadro de associados, trabalhadores oriundos de diferentes categorias, como indústria, comércio, profissionais liberais, pequenos proprietários, advogados, médicos, militares.


Maestro Roberto Silva
- fundador e 1.º presidente da Liga Operária Internacional Cachoeirense
- gentileza Sérgio  M. da Silva Pacheco

Um livro de contribuições de sócios da Sociedade Beneficente União Operária 1.º de Maio, com registros a partir de 1910, doado ao Arquivo Histórico, confirma a natureza diversa dos associados, verificando-se na listagem, além de operários, nomes de comerciantes, médicos, farmacêuticos, criadores, bancários e outros.

Livro de contribuições de sócios da Sociedade Beneficente União Operária 1.º de Maio
-  acervo Arquivos Particulares do Arquivo Histórico - 

Segundo Ícaro Bittencourt, em seu trabalho O Mutualismo Operário em Cachoeira (1897-1923): o Caso das Sociedades Beneficentes Liga Operária Cachoeirense e União Operária 1.º de Maio*, UFSM, Santa Maria, 2008, as comemorações do 1.º de Maio em Cachoeira começaram em 1899, ano em que a Liga Operária instituiu em ata a celebração da data com festividades. No ano seguinte, o jornal O Commercio registrou que a classe operária da cidade não deixou passar despercebido o tradicional 1.º de Maio, dando a entender que se tratava de comemoração levada a efeito com regularidade. Segundo a análise de Ícaro, a nota publicada em 1901 fornece elementos interessantes para a percepção da representação da data na Cachoeira do início do século XX, quando em outras cidades as manifestações já começavam a se revestir do propósito de protesto e contestação das condições dos operários:

(...) a partir do adjetivo "popular" é destacado o caráter de aceitação da data entre a sociedade cachoeirense além de, com ele, retirar o caráter classista do dia. Corroborando também essa noção, está a expressão que afirma ser o 1.º de Maio "consagrado à glorificação do trabalho", atribuindo-se a este uma sacralidade, afastando-se da realidade histórico-cultural de exploração. Além disso, os adjetivos "civilizado" e "dignas" e o advérbio "devidamente" representam os horizontes de conduta a serem seguidos pelos operários. A palavra "devidamente" provavelmente indica a comemoração como festa e não como protesto, como acontecia em outras cidades do Rio Grande do Sul e do Brasil nesses anos, ou seja, quem não comemorasse a data devidamente não era integrante do "mundo civilizado". Também a expressão classe operária é adjetivada como "laboriosa", podendo indicar que existissem, dentro da compreensão do jornal, operários que não trabalhassem ou que, provavelmente, fossem desordeiros.

Os tempos mudaram, as classes operárias se fortaleceram, especialmente com a legislação que ora rege o mundo do trabalho e, na esteira disto, as relações entre patrões e empregados passaram por diferentes momentos. Contudo, ambas as entidades operárias de Cachoeira - a Sociedade Beneficente Liga Operária Cachoeirense, com sede na Rua Saldanha Marinho, e a União Operária 1.º de Maio, com sede na Rua Andrade Neves, seguem como bastiões de uma história que teima em subsistir.

*Ícaro Bittencourt utilizou-se da coleção de O Commercio para subsidiar sua pesquisa.

(MR)