sexta-feira, 14 de dezembro de 2018 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Museu Municipal - 40 anos

O Arquivo Histórico presta homenagem à instituição co-irmã, o Museu Municipal de Cachoeira do Sul - Patrono Edyr Lima, pelos 40 anos de fundação. 

Museu Municipal - foto Mirian Ritzel

Em 15 de dezembro de 1978, por iniciativa do Prefeito Julio Cezar Mandagaran Caspani, com o apoio de sua Secretária de Educação Marisa Timm Sari e a escolha da diretora Lya Wilhelm, nascia aquela que seria a segunda instituição municipal de cultura e faria companhia à Biblioteca Pública.

Com a criação e instalação do Museu Municipal, a história de Cachoeira do Sul recebeu novo olhar, ganhando materialização através do garimpo e exposição de acervos. A partir da sua existência e organização foi possível oferecer à comunidade uma oportunidade até então inédita: a divulgação de fatos e personagens que compõem o cenário político, econômico, social e cultural de Cachoeira do Sul, tornando a história local acessível a todos.

A programação comemorativa dos 40 anos do Museu Municipal revestiu-se de momentos de muito significado para a memória não só da instituição como da cidade, com destaque para a escolha do nome da professora e museóloga Lya Wilhelm, organizadora e primeira diretora, para patrona da Sala dos Primórdios. Esta homenagem homologa e soleniza a importância que ela teve para o cenário cultural de Cachoeira do Sul, cujo legado merece ser lembrado e citado como exemplo de profissionalismo, amor e dedicação.

Lya Wilhelm
- organizadora e 1.ª diretora do Museu Municipal
Outro momento marcante do 40.º aniversário do Museu Municipal foi a reintegração ao acervo da primeira planta de Cachoeira, trabalho executado pelo agrimensor e engenheiro alemão Johann Martin Buff em 1850 e que desde 2008 estava em processo de restauro por profissional especializada de Porto Alegre. Confira em https://arquivohistoricodecachoeiradosul.blogspot.com/2016/05/a-vila-retratada-por-johann-martin-buff.html

Planta da cidade da Cachoeira - Johann Martin Buff - 1850

Parabéns a todos que ajudaram a escrever a história do Museu Municipal de Cachoeira do Sul - Patrono Edyr Lima! Congratulações à equipe que leva adiante o seu trabalho, oferecendo à comunidade a materialidade da nossa história.

Servidores de ontem e hoje do Museu Municipal com o fundador Julio Cezar Caspani

Vida longa, Museu!

MR
sexta-feira, 7 de dezembro de 2018 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

1910 - uma festa de aniversário

Comemorações de aniversários são comuns e se conservam através dos anos. Como tudo, também estas festas sofrem influência do tempo, da moda e das tendências típicas de cada época. Como se organizavam tais eventos em 1910? Uma notícia do jornal O Commercio, edição de 2 de fevereiro, além de mostrar o apreço de proeminentes membros da sociedade mercantil de Cachoeira a um aniversariante médico, traz detalhes sobre a ocasião:

Por motivo de seu anniversario natalicio, occorrido domingo ultimo, foi muito cumprimentado o illustrado clinico dr. Guilherme Ovalle*, que, além de outras muitas outras felicitações, recebeu um valioso presente, constante de uma caneta de ouro. (...) 

A caneta vinha acompanhada de um cartão impresso em letras douradas em que constavam as seguintes palavras:

Exmo. Sr. Dr. Guilherme Ovalle
Os vossos amigos e admiradores das qualidades moraes que exornam o vosso caracter, sentindo intenso jubilo no dia do vosso natalicio, que hoje commemoram, offerecem-vos como pequena lembrança, o modesto presente que este acompanha. 
Cachoeira, 23 de Janeiro de 1910. 
Francisco Timotheo da Cunha, Oscar Pötter, Bruno Lorenz, Raphael Godinho, Rodolpho Homrich, Pedro Stringuini, Alberto Zimmer, Jacques Bidone, Carlos Zimmer, Pedro Fortunato Baptista.

Para retribuir o presente, o aniversariante ofereceu aos seus convivas um jantar no Hotel do Comércio, que provavelmente lhe servia de residência e onde dava consultas. O Hotel do Comércio, conforme anunciava Nicolau Roos, seu proprietário, dispunha de excelente cozinha.

Hotel do Comércio - Rua Sete de Setembro - começo do século XX
- Fototeca Museu Municipal

No local do Hotel do Comércio, esquina da Rua Sete de Setembro com atual Presidente Vargas, hoje está um posto de combustíveis.

O jornal noticiou: Pelas 6 horas da tarde o anniversariante offereceu, aos seus amigos e admiradores, um jantar no Hotel do Commercio, sendo devoradas as iguarias constantes do menú abaixo:
1 Canja
2 Mayonaise de Lagosta
3 Filet a petit pois
4 Perú com farofa
5 Leitão com salada
6 Gallinha assada e arroz 

SOBREMEZA
Pudim á la major
Fructas em calda
Fromage
Liquidos á vontade dos distinctos assistentes
Café. Chartreuse. Charutos

No decorrer do jantar, que correu sempre entre manifestações de alegria e cordialidade, discursaram os srs. Pedro Fortunato Baptista e Antonio Antunes de Araujo, o nosso companheiro Virgilio de Abreu e o amphytrião, sendo também erguidos brindes e vivas pelos srs. Guido Kurth, major Arthur Ferreira de Macedo, dr. Max Lubke, Francisco Antunes da Cunha, Oscar Pötter e outros.

Terminou a commemoração depois da meia noite, hora em que retiraram-se os ultimos assistentes, levando as mais gratas impressões do cavalheiresco trato que lhes foi dispensado pelo distincto chileno, cavalheiro muito sympathico em nosso meio social.

A notícia do jornal revela o tipo de cardápio servido em um jantar comemorativo, constante de uma canja de entrada, seguida de maionese de lagosta e os demais pratos com diferentes tipos de carne. Na sobremesa, além das tradicionais frutas em calda e do pudim, queijo, café e Chartreuse, um tradicional licor de ervas. Arrematando o jantar, charutos para os convivas.

Trés chic!, para usar expressão bem típica daquela época, quando a cultura francesa ditava a moda no mundo.

*Dr. Guilherme Ovalle: médico-operador e parteiro formado pela Universidade de Santiago do Chile. Oferecia seus serviços profissionais em chamados a qualquer hora do dia ou da noite, podendo ser procurado no Hotel do Comércio ou na Farmácia Cunha.

MR
sexta-feira, 30 de novembro de 2018 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Movimentos emancipatórios

Por ocasião da instalação do município de Cachoeira, em 5 de agosto de 1820, o território da Vila Nova de São João da Cachoeira era o maior do Rio Grande do Sul. Ainda no século XIX, por lei de 12 de novembro de 1832, começaram as emancipações de distritos submetidos política e administrativamente a Cachoeira, tendo início com a separação de Alegrete, que levou consigo Livramento, e Caçapava com São Gabriel. Santa Maria seguiu os demais em 1857. Em 1859, quando Cachoeira foi elevada ao foro de cidade, na mesma data também obteve esta concessão o município de Bagé, oriundo também da grande Vila Nova de São João da Cachoeira.

O território da Vila Nova de São João da Cachoeira - 1822


Na segunda metade do século XX, o processo de emancipação de distritos ganhou força política e popular. No ano de 1959, os distritos de Faxinal do Soturno, Agudo e Restinga Seca separaram-se de Cachoeira do Sul, constituindo novos municípios. Mas o processo começou bem antes, com discussões comunitárias, pressões políticas e finalmente plebiscitos.

Há 60 anos, no dia 30 de novembro de 1958, o Jornal do Povo publicou: Hoje o Plebiscito Para Decidir as Emancipações de Três Distritos. Diz a notícia:

Jornal do Povo, edição de 30/11/1958, p. 1

Conforme é do conhecimento público, realizam-se, hoje, nos distritos de Agudo, Dona Francisca e Restinga Sêca, as consultas populares para opção pela emancipação ou não dêsses distritos do Município de Cachoeira do Sul. 

As discussões estavam grandes, prova disto é que o Jornal do Povo enviou um repórter para cada distrito a fim de colher as manifestações das pessoas envolvidas, sendo que prevalecia a vontade pela emancipação. O clima em Agudo e Restinga Seca estava tranquilo, o mesmo não acontecendo em Dona Francisca:

O plebiscito para a decisão da sorte dêsses três distritos não tem problema algum, exceto no distrito de Dona Francisca, onde a escôlha da sede do futuro Município criou um sério problema com a divisão de opiniões. Como se sabe, Dona Francisca, Faxinal do Soturno e São João do Polêsine disputam a primazia da sede e uma intensa e agitada campanha vem se desenvolvendo nesse sentido, o que veio dar outro colorido ao movimento emancipacionista, já que não existe a identidade de pontos de vista e opiniões registrados em Restinga Sêca e Agudo.

Na mesma edição do Jornal do Povo, na página 5, foi estampado o mapa do futuro município de Restinga Sêca, com a seguinte legenda:

Êste mapa encerra uma rica zona que compreende o 4.º distrito de Cachoeira do Sul que nesta data histórica atinge a sua emancipação política através da Consulta Plebiscitária que hoje se realiza no Estado.


Mapa do futuro município de Restinga Seca - Jornal do Povo, 30/11/1958, p. 5

Pela redação da nota fica claro que a vitória da emancipação era certa, o que acabou por se concretizar para Restinga Seca oficialmente em 25 de março de 1959.

Na página seguinte, o mesmo Jornal do Povo estampa: O Centenário Agudo Deverá Tornar-se Município. Arroz, Fumo e Banha, a base da economia agudense - Sua pujança reserva-lhe grande futuro.

Agudo conquistaria a emancipação em 16 de fevereiro de 1959, precedido de Faxinal do Soturno em 12 de fevereiro do mesmo ano. Na esteira destes distritos, Paraíso do Sul e Cerro Branco se emanciparam de Cachoeira do Sul no final da década de 1980, ambos em 12 de maio de 1988, concluindo com Rincão dos Cabrais em 22 de outubro de 1995.

E Dona Francisca? Dona Francisca, que disputava com Faxinal do Soturno e São João do Polêsine ser a cabeça de novo município só conseguiu se emancipar de Faxinal do Soturno, o vencedor da disputa do final dos anos 1950, em 17 de julho de 1965, sendo instalado em 19 de fevereiro de 1967.

Como apropriadamente escreveu o Jornal do Povo quando apresentou o mapa de Restinga Seca, os distritos emancipados encerravam "uma rica zona" de produção. Hoje é possível verificar que suprimindo a rica zona de produção, Cachoeira do Sul teve que amargar perda de influência, de importância política e um consequente enfraquecimento econômico.

MR
sexta-feira, 23 de novembro de 2018 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Diploma de vereador - 1947

O título da postagem "Diploma de vereador - 1947" pode parecer pouco atrativo ao leitor. No entanto, poder acessar o documento que chancelou a posse de um representante do poder legislativo depois de um período de dez anos de fechamento das câmaras municipais no país é a comprovação material de um momento intrincado da política nacional.

O diploma em questão pertenceu ao vereador Antonio De Franceschi Sobrinho, cidadão que integrou a Câmara na legislatura que antecedeu o fechamento das câmaras municipais, o que foi cumprido em 11 de novembro de 1937, e que voltou 10 anos depois a desempenhar a mesma função.

Getúlio Vargas, que havia assumido o governo do país em 3 de novembro de 1930, instituindo o Governo Provisório da República dos Estados Unidos do Brasil, passou a ser o chefe dos poderes executivo e legislativo, dissolvendo todos os órgãos legislativos do país. Por aquele ato, os municípios seriam regidos por um prefeito nomeado pelo interventor estadual, cabendo ao mandatário municipal as funções executivas e legislativas. Quando houve a promulgação da Constituição, em 16 de julho de 1934, foi assegurado aos municípios "a eletividade do prefeito e dos vereadores da Câmara Municipal."

Getúlio Vargas - Wikipédia

Assim, em Cachoeira, foram eleitos para a legislatura de 1935-1937, nove vereadores: Virgílio Carvalho de Abreu (presidente), Edwaldo Marcílio Rohde, Ricardo Müller, Antonio De Franceschi Sobrinho, Felipe Roberto Matte, Ernesto Pertille Filho, José Patrício de Albuquerque, Arnoldo Paulo Fürstenau e Carlos Germano Stecker. Com o falecimento de Virgílio Carvalho de Abreu (7/5/1937), assumiu o seu lugar o suplente Jeronimo Carlos Brandes, cabendo a presidência a Antônio De Franceschi Sobrinho.

Getúlio Vargas permaneceria no poder até 1938, mas em 10 de novembro de 1937, outorgou nova Constituição, instituindo o Estado Novo e permanecendo no poder. A Constituição de 1937 estabeleceu novamente a dissolução de todos os órgãos legislativos do país.

Em 18 de setembro de 1946, outra Constituição Federal foi promulgada, sendo retomada a separação e harmonia entre os três poderes. Nascia então a 1.ª Legislatura pós-Estado Novo, sendo eleitos vereadores para 15 cadeiras, com mandato de 18 de dezembro de 1947 a 30 de dezembro de 1951. Antonio De Franceschi Sobrinho, cujo mandato havia sido interrompido em 11 de novembro de 1937, ainda que com um grande intervalo de tempo e uma considerável modificação do panorama político do país, pôde reassumir as funções do passado. Seu diploma, emitido em 23 de novembro de 1947, mais do que um documento que integra o acervo do Arquivo Histórico, é o comprovante da história de um homem que perdeu e retomou o democrático exercício da cidadania.

Diploma do vereador Antonio De Franceschi Sobrinho - 159 votos
- Coligação UDN-Libertadores - 23/11/1947 - AP

MR
quarta-feira, 14 de novembro de 2018 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Um registro escolar de 100 anos

No dia 14 de novembro de 1918, em uma escola localizada na localidade de São Lourenço, município de Cachoeira, a professora Vicentina Fontoura produziu uma caprichada lista com a matrícula anual dos alunos que frequentaram sua aula durante aquele ano da graça de 1918.

IM/S/SI/Listas - Caixa 11
Dos 26 alunos que constam da lista, percebe-se que vários irmãos frequentavam a mesma aula, sendo que a faixa etária variava de 7 a 13 anos e o grau de adiantamento era medido por três classes - 1.ª, 2.ª e 3.ª , estando 12 deles na 1.ª, nove na 2.ª e cinco na 3.ª. Predominavam os meninos na turma, com 14 indivíduos.

Dentre as famílias com vários membros frequentando o ambiente escolar, destaque para os Fontoura, filhos de Felippe Fontoura, Moraes, filhos de Alfredo e Nelson Moraes, os Marques, filhos de Dico Marques, os Herbstrith, filhos de Juvencio Herbstrith e os Rosa, filhos de Damasceno da Rosa.

De todos os 26 alunos da turma, o de nome Abilio L. de Carvalho permite uma progressão temporal. Seus pais, José Affonso de Carvalho e Engracia de Lima, tiveram vários outros filhos, dentre eles Philadelphia, que se casou com Achylles Figueiredo, pais de Jenny, que por sua vez casou com Liberato Salzano Vieira da Cunha, cujo busto habita a Praça Dr. Balthazar de Bem.

Busto de Liberato S. Vieira da Cunha - Fototeca Museu Municipal
O tempo passa, mas deixa seus vestígios. Persegui-los leva sempre a descobertas!

MR
sexta-feira, 9 de novembro de 2018 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

A espanhola

Há 100 anos a grande preocupação dos habitantes do município de Cachoeira era com o surto de gripe espanhola, ou influenza espanhola, a epidemia mais mortal da história. No Brasil, nos dois anos em que ela grassou, morreram dezenas de milhares de pessoas, dentre elas o presidente da República, Rodrigues Alves. Por sua rápida e abrangente disseminação, a gripe espanhola foi reconhecida como pandemia.

O jornal O Commercio daquele ano de 1918, em sua edição de 6 de novembro, traz uma coluna intitulada Influenza hespanhola?

O Commercio - 6-11-1918, p. 1

Influenza? Positivamente sim. Hespanhola? cremos que não. Porque, na verdade, a molestia que Cachoeira hospeda, desde alguns dias, em nada difere da nossa conhecida grippe de todos os annos. E' essa, pelo menos, a opinião do corpo medico local.
A molestia que recebeu na Europa o nome de influenza hespanhola e correu o velho continente fazendo uma larga colheita de vidas perdeu, ao passar para a America, o seu poder aggressivo. A não ser no Rio de Janeiro, onde, por circumstancias ainda mal esclarecidas, a molestia manifestou-se com certa gravidade, em todas as outras cidades do Brazil tem ella evoluido com benignidade. Pelos jornaes de Buenos Ayres e Montevidéo vemos que ali tambem a influenza evolue com insignificante mortalidade. E' por isso que dizemos que a epidemia que actualmente Cachoeira hospeda em nada differe da grippe vulgar.
Os principaes symptomas da molestia são: arrepios de frio, febre alta, dores geraes no corpo, e, sobretudo, na cabeça, dor na garganta, tosse, vermelhidão no rosto; ás vezes apparecem alguns escarros de sangue, delirio, vomitos, etc.
O doente deve ficar na cama, tomando um purgativo qualquer. Durante a molestia, o doente deve beber agua fresca, fervida, á vontade, ou aguas mineraes, Caxambú, Lambary, etc. O matte é uma excellente bebida, quente ou frio. Como alimento, caldos de cereaes ou de fructas.
A molestia dura geralmente de 4 a 6 dias. O quarto onde estiver o doente deve estar arejado. Sempre que seja possivel, o medico deve ser ouvido. A não ser em doentes enfraquecidos por molestias anteriores, a doença termina pela cura.
Ao serem aqui conhecidos os primeiros casos, o intendente municipal tomou varias providencias de ordem hygienica. A cidade foi dividida em 3 zonas para serem feitas visitas domiciliares, sendo nomeados fiscaes os srs. Amedeu Falkenbach, Francisco Lucas e Luiz Teixeira. É de esperar que a nossa população auxilie a municipalidade no sentido de manter os quintaes e pateos de suas habitações no mais rigoroso estado de limpeza.
Por ordem do governo do Estado foram fechados os collegios.
A municipalidade tem fornecido gratuitamente todos os medicamentos de que carecem os doentes pobres. O Hospital pôz á disposição da intendencia todos os leitos disponiveis para abrigar os enfermos indigentes.
A molestia, que aqui já está bastante disseminada, tem tido uma evolução muito benigna, não tendo havido nenhum caso fatal até á hora em que escrevemos estas linhas.

A história acabou por desmentir a notícia d'O Commercio, cuja próxima edição, do dia 13 de novembro de 1918, registrou uma das primeiras vítimas na cidade, Zoé Barreto Carlos, jovem esposa de Cyro da Cunha Carlos, futuro prefeito de Cachoeira:

Durante a semana finda, a influenza continuou na sua faina de invadir as casas da cidade, levando ao leito familias inteiras.
O corpo local tem prestado os seus serviços com uma actividade e solicitude dignas de registro e de louvor. 
De manhã á noite os automoveis com os medicos percorrem as ruas, do centro da cidade aos pontos mais afastados, ministrando os soccorros indispensaveis aos enfermos, cujo numero, agora, já seria bem difficil dar com exactidão pois que é de muitas centenas. 
(...)
(...) deram-se, na semana finda, dois obitos em consequencia da molestia: o da exma. sra. d. Zoé Barreto Carlos, esposa do sr. Cyro Carlos, residente á rua Moron; e o do sr. Francisco Alves, á rua 7 de Setembro. Essas duas victimas succumbiram em consequencia da grippe pulmonar.

As descrições do jornal se estendem para o panorama em Porto Alegre e Rio de Janeiro (capital federal à época). Em Porto Alegre, onde o número de vítimas só crescia, até os médicos se contaminaram nos atendimentos aos doentes, reduzindo ainda mais os socorristas; lá também a chefatura de polícia exercia censura à imprensa, como forma de garantir a tranquilidade pública. Quanto menos informado o povo, menos tumulto haveria!

Porto Alegre - setembro de 1918  - www.prati.com.br

Já na capital federal, apesar de haver declinado o número de atingidos, as casas de mantimentos se conservavam fechadas, faltando toda espécie de gêneros alimentícios à população. Quase todas as farmácias também cerraram as portas por terem sido acometidos do mal os farmacêuticos! Para minimizar a situação, o governo mandou vir 100 profissionais de São Paulo e, em poucos dias, 30 deles haviam caído enfermos.

Rio de Janeiro - 1918 - rioquemoranomar.blogspot.com

O panorama em dezembro de 1918 era de cerca de 3.000 atingidos pela epidemia em Cachoeira, com o saldo de 29 óbitos. A escassez de medicamentos era grande e o corpo médico desdobrava-se em atendimentos, tendo os clínicos Balthazar de Bem, Milan Kras, Silvio Scopel, Marajó de Barros e Augusto Priebe empregado todos os seus esforços para atender à massa de infectados.

Como foi possível constatar pelas notícias do O Commercio, o que começou a ser tratado como uma simples e corriqueira gripe, acabou por se transformar em notícia quase diária, dimensionada pelo temor e insegurança da tal espanhola...

MR
quinta-feira, 1 de novembro de 2018 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Indústrias e profissões na Cachoeira de 1891

Cachoeira em 1891 tinha na agricultura, no comércio e na prestação de serviços farta fonte de recursos para a Junta Municipal, como era chamada a comissão de cidadãos que gerenciava a vida político-administrativa e os negócios municipais no momento que sucedeu a proclamação da República (15 de novembro de 1889). O Mercado Público, ao centro da Praça José Bonifácio, com seus quase dez anos de funcionamento, oferecia uma numerosa gama de produtos e serviços aos seus frequentadores, polo que atraía os moradores da zona colonial e outras do interior do município, pulsando em conversas animadas, negócios e apregoações.

Na indústria, destaque para as cervejarias, tamancarias, fábricas de sabão, de banha, de melado  e rapaduras. Na organização administrativa e burocrática, no setor das finanças municipais, então denominado de Seção de Recebedoria e Pagadoria, vários livros de registro de receita e despesa recebiam todas as anotações necessárias para garantir o efetivo controle de entradas e gastos.

Um destes volumes traz o lançamento de impostos sobre indústrias e profissões e é excelente fonte para conhecimento das atividades desenvolvidas, os nomes das pessoas e profissionais existentes e os seus locais de desempenho.

Folha de rosto dos lançamentos - JM/Po/DRD/B-001

Uma das constatações que o documento permite é a localização dos principais negociantes ser na Rua Sete de Setembro. Nesta via, até hoje a mais importante da cidade, conviviam pequenos,  médios e grandes estabelecimentos comerciais, indústrias e escritórios, locais de serviços diversos, como funilarias, relojoarias, padarias, alfaiatarias, sapatarias e hotéis, para citar somente alguns. Nomes conhecidos através do tempo, pelo protagonismo histórico, também surgem, como os de Isidoro Neves da Fontoura, um dos mais importantes políticos do século XX e que, num futuro próximo àquela época, ocuparia a chefia do Partido Republicano local e a Intendência Municipal.

Isidoro Neves da Fontoura - estabelecido com casa de negócio em 1891
Outra personalidade da época, Crescêncio da Silva Santos, construtor do Mercado Público, aparece na lista estabelecido como marceneiro na Rua Moron. Alfredo Xavier da Cunha, futuro intendente do município, mantinha açougue no Mercado e Raphael Riccardi, italiano que se celebrizou trabalhando com sapatos, tinha uma sapataria e casa de negócios na Rua 15 de Novembro.

O documento revela também profissões que desapareceram - ou quase - com o tempo e a modernização da sociedade: pipeiros (os vendedores de água em pipas), mascates, seleiros, curtidores de couro, fabricantes de tamancos e outras. 

Os menores valores pagos ficavam na cifra de cinco mil réis (5$000), taxa aplicada para quem possuía carroças particulares, pipas d'água, chegando ao máximo de 60 mil réis (60$000) para proprietários de algumas casas de negócio.

Manusear documentos conservados em arquivos é mais do que viajar no tempo, é buscar neles peças para compor o imenso quebra-cabeças que constitui a história.

MR