sexta-feira, 24 de julho de 2020 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Um livro para o centenário de Cachoeira

Em 1920, ano do primeiro centenário da instalação do município, uma das pretendidas formas de comemorar vinha do conhecido pesquisador Aurélio Porto, filho de Cachoeira e por muitos anos residente e atuante na vida local.

O jornal O Commercio, de 28 de julho de 1920, traz a seguinte notícia:

Centenário de Cachoeira.- Esteve na capital o coronel Aurelio Porto, obtendo os ultimos dados, no Archivo e outras repartições publicas, para a terminação de um livro de sua lavra sobre historia e geographia deste municipio.
Essa incumbencia foi commettida ao coronel Aurelio, pela commissão central do centenario desta cidade, a ser commemorado em 12 de outubro vindouro.
A obra, que conterá de 250 a 300 paginas, será illustrada, com retratos dos vultos de maior destaque da historia cachoeirense, abordando, em minucioso estudo, todas as phases da evolução historica deste municipio, desde as mais remotas noticias de sua fundação, em 1735.

A obra pretendida por Aurélio Porto para comemorar o primeiro centenário de Cachoeira não foi ao prelo, mas é provável que parte da pesquisa que ele empreendeu para a publicação tenha sido aproveitada dois anos depois, quando Benjamin Camozato lançou o Grande Álbum de Cachoeira. Em comemoração ao primeiro centenário da independência do Brasil, o álbum começa com o Cachoeira. Resumo Historico por Aurelio Porto (do Instituto Histórico e Geographico do R. G. do Sul).

Grande Álbum de Cachoeira, de Benjamin Camozato - 1922
A comissão que havia encomendado a publicação a Aurelio Porto era composta por: Dr. Annibal Loureiro, presidente; Dr. Balthazar de Bem, Dr. João Neves da Fontoura, Padre Luiz Scortegagna, Manoel Fialho de Vargas, David Soares de Barcellos, Isidoro Neves da Fontoura, Francisco F. N. da Gama, Dr. Arlindo Leal e Pedro Werlang, secretário geral. Seu propósito maior era envolver toda a comunidade em festejos que salientassem Cachoeira, culminando com uma grande exposição industrial marcada para 12 de outubro.

Membros da Comissão Diretora das Comemorações do 1.º Centenário:
1 - Dr. Annibal Loureiro, 2 - Dr. Balthazar de Bem, 3 - Dr. João Neves da Fontoura,
4 - Pe. Luiz Scortegagna, 5 - Manoel Fialho de Vargas, 6 - David Soares de Barcellos,
7 - Isidoro Neves da Fontoura, 8 - Francisco Fontoura Nogueira da Gama.
- Fototeca Museu Municipal
O resumo histórico feito por Aurélio Porto, ainda que em texto reduzido, reflete uma grande pesquisa. Transcorridos cem anos, suas informações seguem norteando o entendimento do processo que conduziu Cachoeira à sua emancipação e instalação como município.

MR
sexta-feira, 10 de julho de 2020 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

A inauguração da Estação Rodoviária

Com apreensão a comunidade cachoeirense recebeu a notícia de encerramento das atividades da Estação Rodoviária de Cachoeira do Sul, cujas instalações próprias foram inauguradas em 1976, constituindo-se, à época, uma grande e celebrada conquista.

Notícia da inauguração - JP, 26/2/1976, p. 1

O Jornal do Povo do dia 26 de fevereiro de 1976 estampou em sua primeira página a notícia: Nova rodoviária inaugura hoje como velho desafio que Cachoeira atende.

A partir das 10 horas de hoje, Cachoeira do Sul passará a contar com nova estação rodoviária, onde o requinte anda de par até mesmo com as necessidades futuras dos usuários. E quando o município atende um desafio de muitos anos, dentro das prioridades comunitárias e destes três anos de progresso da administração Pedro Germano, o terminal rodoviário lá está para retratar dois fatos incontestes: o trabalho de anos do concessionário Arno Radünz (e esposa Judith Heloísa Engler Radünz) e o esmero que Augusto de Lima - Arquitetura e Construções (Comércio e Indústria da Construção Civil) emprestou à construção.

O ato inaugural terá as presenças do secretário Otávio Germano, do Interior, Desenvolvimento Regional e Obras Públicas; secretário Firmino Girardello, dos Transportes; Edmar José Lerry, diretor geral do Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (DAER); dos deputados cachoeirenses Geraldo Germano e Carlos Augusto de Souza; e, ainda, de outras personalidades estaduais e municipais, com estas lideradas pelo prefeito Pedro Germano.

Resumidamente, o programa inaugural da rodoviária prevê o descerramento de placa comemorativa, às 10 horas, seguido do corte da fita, benção do padre Orestes Trevisan e alocução oficial do vice-prefeito Julio Cezar Caspani, em nome da comunidade.

Tudo terá continuidade com a visitação às dependências gerais, durante a qual se inaugurará (no complexo administrativo) os retratos dos fundadores José e Irma Engler, pelo primeiro funcionário e hoje diretor da Imobiliária Rodrigues, Osvaldo Rodrigues de Figueiredo.

Arquiteto confere tudo
Diretor da firma cachoeirense que construiu tudo, o arquiteto Augusto César Mandagaran de Lima pode justificar toda a euforia atual pela consciência de ter feito o melhor. Tanto pelas linhas arquitetônicas como pela utilidade presente e futura (muitos anos adiante) do empreendimento.

Após ter empregado pouco mais de 700 dias (obra iniciou em dezembro de 73) e média diária de 80 homens trabalhando em dois turnos (só na concretagem de lajes e vigas empregou mais porque aí deve haver continuidade de até 72 horas ininterruptas e utilizou quatro turmas de 30 homens cada uma), Mandagaran de Lima tem reais motivos de contentamento.

A matéria do jornal segue explicando que a rodoviária inaugurada pertencia à chamada categoria especial, como a de Porto Alegre. O arquiteto Augusto de Lima esclareceu que desenvolveu para a rodoviária local uma projeção que está 20 vezes acima das necessidades atuais de Cachoeira. como no caso do equipamento público (saguão, venda de passagens, despachos, restaurante, sanitários e escritórios). Só os boxes estão três vezes superiores ao exigido, para evitar uma área ali ociosa.

A edição do Jornal do Povo também estampou em letras garrafais o convite feito pelo concessionário para os atos inaugurais:

Convite para inauguração - JP, 26/2/1976, p. 1

A obra inaugurada no verão de 1976, considerada a primeira etapa da construção, suplantou o valor de cinco milhões de cruzeiros e dotou Cachoeira do Sul de uma das mais modernas estações rodoviárias de seu tempo. Por ocasião do início das obras, a inquietação da cidade era a sua localização, considerada à época muito distante do centro, o que se constituiu em mais um desafio vencido pelos empreendedores.

Aspecto da Estação Rodoviária de Cachoeira do Sul - Facebook

Transcorridos 44 anos da inauguração da Estação Rodoviária, o projetado crescimento esbarrou em uma série de fatores que acabaram por enfraquecer o transporte rodoviário interurbano, agravados agora pelos nefastos efeitos provocados pela pandemia do coronavírus.

A história da concessão do serviço iniciou com José Engler em 1941, persistindo com seus descendentes por quase 80 anos. Nesse período, mais de uma geração da família seguiu prestando relevantes serviços, embarcando e desembarcando milhares de passageiros em chegadas ou partidas da Capital Nacional do Arroz.

MR
sexta-feira, 3 de julho de 2020 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Auxiliares de Comércio 1940

Vez ou outra doações de documentos despertam curiosidades que levam a interessantes achados. Na semana que corre, duas páginas que integravam um álbum de formatura foram doadas ao Arquivo Histórico, e despertaram a atenção quando passaram por análise:

Capa do álbum de diplomandas de 1940

Uma das páginas corresponde à capa do álbum de diplomandas de 1940 do curso de Auxiliares de Comércio do Instituto de Ensino Comercial "Roque Gonzalez", de Cachoeira. Abaixo, a fotografia do prédio do Colégio Imaculada Conceição. Como assim? A formatura era do Roque e a foto do Imaculada???

Um dos recursos para desvendar situações como esta é recorrer ao histórico das instituições para verificar se há informação a respeito ou buscar na imprensa da época notícia correspondente. Como o Arquivo Histórico dispõe de acervo de jornais, buscou-se os exemplares do Jornal do Povo e do O Comércio do ano de 1940. Desvendado o mistério.

No O Comércio, consta o seguinte, edição do dia 18 de dezembro de 1940:

Instituto Roque Gonçalves - Formatura das diplomandas de 1940
Depois de uma missa em acção de graças, celebrada na Igreja de Santo Antonio, terça-feira, 10 do andante, realizou-se, ás 9 horas da manhã, no Salão Nobre do Collegio Immaculada Conceição, localisado no pitoresco Bairro Fialho, a cerimonia e festividades correspondentes á collação de gráu das novas Auxiliares de Commercio do Instituto Roque Gonçalves, das quaes foram: paranimpho, o revmo. Sr. Bispo, D. Antonio Reis, da Diocese de Santa Maria, e homenageados os srs.: revmo. padre, dr. Leonardo do Soccorro Eckl, C. SS. R.; Pedro Affonso Gregory, Inspector do ensino do Gymnasio Roque Gonçalves, e Julio Castagnino.

O trecho acima desvendou o porquê da foto do Colégio Imaculada Conceição em capa de álbum do então Instituto Roque Gonçalves, hoje Colégio Marista Roque. E também identificou a foto que consta no verso da capa:

O paraninfo da turma, Bispo D. Antonio Reis, e os homenageados
Julio Castagnino, Pe. Leonardo Eckl e Pedro A. Gregory
Na outra folha, aparecem as formandas deste que foi o primeiro curso do então Instituto Roque Gonçalves a receber alunas, uma vez que a escola, instalada em Cachoeira no ano de 1929, foi inicialmente destinada só a alunos. A primeira aluna registrada foi Clotilde Martinez, formada guarda-livros pelo Instituto no ano de 1935 em uma turma de nove formandos.

As oito formandas daquele ano de 1940 e, no detalhe, Iris Dicklhuber, a quem pertencia o álbum
Mais uma vez a notícia do O Comércio foi fundamental para chegar-se aos nomes das moças que se formaram naquele ano: 

(...) Encerrando o acto da formatura das que vão prestar o seu decidido e valioso concurso na vida commercial, D. Antonio Reis usou da palavra, tecendo bellas considerações e dizendo da sua congratulação em ver realizado o esforço da dedicada turma, a qual se achava integrada das seguintes senhoritas:
Clara Rodrigues, Clecy Maria Magalhães Pires, Helena Rocha de Teixeira, Iris Dicklhuber, Maria Amelia Carvalho, Noemy Silveira, Patricia E. Guardiola e Ruth Boer. 

O desafio agora é identificar sete das oito formandas, ou seja, saber qual daqueles rostos corresponde aos nomes referidos pela notícia. A única exceção é Iris Dicklhuber, que aparece, ao centro, no primeiro plano da fotografia, dona do álbum original, cujas páginas avulsas chegaram ao Arquivo por doação de seu filho, Dr. Carlos Eduardo Dicklhuber Florence.

Formanda Iris Dicklhuber

Esta é uma das tantas missões das instituições que trabalham com memória: buscar fragmentos, encontrar pistas que levem ao desvendamento de uma página da história que chegou aos nossos dias fragmentada. E que missão compensadora quando o resultado é atingido!

Aguarda-se, agora, que algum atento leitor do blog ajude nossa equipe a nominar com precisão cada um dos rostos da bela fotografia de formandas.

MR

A postagem já recebeu a primeira colaboração para identificação das formandas. Rosecler Pozzer Kühleis identificou Noemy Silveira, sua sogra. É a segunda em pé, da esquerda para a direita.
A segunda colaboração vem de Miriam Leipnitz e Mayra Strohschoen, que identificaram Ruth Böer como a terceira em pé, da esquerda para a direita, localizada às costas de Íris Dicklhuber.
A terceira colaboração vem de Terezinha Nogueira Lopes, afilhada de Patricia Eugênia Guardiola, que a identificou como a primeira em pé, da esquerda para a direita.
sexta-feira, 26 de junho de 2020 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Gafanhotos!

As últimas notícias que dão conta de uma imensa nuvem de gafanhotos que se aproxima do Rio Grande do Sul tem posto em alvoroço as autoridades e a população. Em época de pandemia e de economia combalida, tudo o que não poderia acontecer é uma destruição massiva das culturas que estão em nossos campos.

Nuvens de gafanhotos não são acontecimentos inéditos, embora menos comuns nos dias de hoje. Há relatos nos jornais e documentação no Arquivo sobre sucessivos ataques e os meios utilizados para conter a sanha destrutiva destes insetos.

O Comércio de 23 de setembro de 1906, em sua primeira página, traz a seguinte notícia:

Jornal O Commercio, 26/9/1906, p. 1

Extincção dos gafanhotos
Por intermedio das intendencias municipaes, a Estação Agronomica do Estado tem distribuido um folheto em portuguez, italiano e allemão, contendo instrucções sobre a extincção dos gafanhotos, as quaes se reduzem ao seguinte:
Desova. - Na época da desova convém espantar os gafanhotos, afim de que se reunam, possivelmente, em logares sem vegetação, accessiveis ao trabalho do arado.
Todo e qualquer sitio, onde ha desova, deve ser assignalado com estacas ou marcos.
Para destruir os ovos depostos, empregam-se varios meios, o melhor, porém consiste, quando as condições do terreno o permittem, de lavrar com um bom arado a terra, a uma profundidade de 15 cms, pelo menos. O arado Sack presta-se perfeitamente a esse fim.
Em terras nas quaes não é possivel applicar-se o arado, este serviço se faz com a pá, virando completamente a leiva, na profundidade acima indicada.
Tambem se aconselha o pisoteio com animaes cavallares.
A incubação dura de accordo com a temperatura da estação: assim pode-se admittir que os ovos postos no mez de agosto levam 50 dias para incubar; os que forem postos em setembro, 45 dias; em outubro, 40 dias; em novembro, 30 dias; e em dezembro e janeiro, 20 a 25 dias.
A destruição do ovo é de uma importancia extrema, pois, ás vezes, num metro quadrado de superficie, existem depostos cerca de cem mil ovos de gafanhotos.
Extincção dos saltões. - Do ovo nasce um insecto se azas que na primeira idade toma o nome de saltão.
O saltão para criar azas emprega de 45 a 50 dias.
A vida do saltão se divide em tres periodos.
No primeiro periodo o insecto come pouco e sempre se agrupa em montões. Esse periodo dura oito dias, até o gafanhoto effectuar a 1.ª muda. Nesse estado extingue-se com o pisoteio, com insecticidas, com o fogo, com o reviramento da terra e com outros meios rudimentares, que estiverem ao alcance da gente. 
No segundo periodo, que dura até o insecto completar a 2.ª muda, que de ordinario se dá 20 dias depois de ter nascido, para destruil-o applicam-se pela manhã e pela tarde os processos que se empregam no primeiro periodo. Nos logares incultos, porém, aconselha-se empregar as barreiras e os vallos que se adoptam no terceiro periodo.
Este terceiro periodo dura até o gafanhoto criar azas, isto é, 25 a 30 dias depois da segunda muda. Durante esse tempo, o gafanhoto come com uma voracidade espantosa, marcha em grandes bandos e produz os maiores prejuizos.
Afóra outros meios de extincção, recommenda-se, como o mais vantajoso, o emprego das barreiras articuladas metalicas e os vallos.
As barreiras metalicas são folhas de ferro ou zinco, da altura de 35 cms, reunidas entre si com ganchos.
Estas barreiras, collocadas de pé, não permittem que o saltão passe d'um logar para outro; ellas aliás servem para levar os insectos a fossos escavados de antemão, onde, cahindo, são em seguida enterrados. Estes fossos ordinariamente têm 1 metro de largura, 1 a 1,m50 de profundidade e 2 a 4 metros de comprimento.
O gafanhoto voador. - O gafanhoto voador extingue-se com o fogo e com outros meios mais praticos que vêm á mão. Quando apparece em bandos, para impedir que pouse nas lavouras, fazem-se fogueiras com macega, galhos verdes, capim, procurando fazer muita fumaça, de modo que o vento a leve em direcção ás lavouras que se deseja preservar da invasão do gafanhoto. E' muito conveniente, n'um caso destes, lançar sobre a fogueira enxofre: a fumaça que se desprende afugenta o insecto até onde ella chega.

Gafanhoto - http://denizdalgasi.blogcu.com/kaplanla-cekirge/258253

Nos dias que correm, apesar dos recursos destrutivos de variados produtos químicos, a natureza massacrada pelo homem ainda é capaz de provocar surpresas assustadoras como esta da invasão de uma grande nuvem de gafanhotos, nascidos pelas condições favoráveis do descontrole climático e da falta de predadores.

MR
sexta-feira, 19 de junho de 2020 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Análise das águas do rio Jacuí e do arroio Amorim


Em 1911, respondendo a um ofício da Intendência Municipal de Cachoeira, a Diretoria de Higiene do Estado do Rio Grande do Sul apresentou o resultado da análise de quatro garrafas de água retiradas do rio Jacuí e do arroio Amorim:

Ofício de resposta da Diretoria de Higiene -
IM/HA/SA/Ofícios - 3/8/1911
Pelas amostras encaminhadas para o laboratório da Diretoria de Higiene, as águas apresentavam as seguintes características: 

Rio Jacuí                                                                                           Arroio Amorim
Resíduo fixo a + 110º por litro - 0,115                                                         0,064
Perdas ao rubro por litro - 0,030                                                                 0,019
Dureza total em CaO por 100 litros - 1,6008                                                1,0670
Dureza temporal em CaO por 100 litros - 0,5338                                         0,2666
Dureza permanente em CaO por 100 litros - 1,0670                                     0,8004
Dureza total em CO3Ca  por 100 litros - 2,8927                                           1,9285
Dureza temporal em CO3Ca por 100 litros - 0,9642                                     0,4822
Dureza permanente em CO3Ca por l00 litros - 1,9285                                  1,4463
Matéria orgânica avaliada em miligramas de oxigênio por litro - meio ácido: Jacuí - 2,6/Amorim - 5,
Matéria orgânica avaliada em miligramas de oxigênio por litro - meio alcalino: Jacuí - 6,8/Amorim - 2,4
Amônia: Jacuí - não/Amorim - não
Nitratos e nitritos: Jacuí - não/Amorim - não

Em 1911, o intendente Isidoro Neves da Fontoura, preocupado em dotar a cidade de um serviço de abastecimento de água, encomendou ao Dr. Benito Ilha Elejalde, engenheiro da Escola de Engenharia de Porto Alegre, projeto para construção de uma hidráulica que captasse, decantasse e distribuísse água, assim como estabelecimento de rede de esgotos. Para isto, o Dr. Elejalde esteve em Cachoeira na segunda quinzena de junho de 1911 para fazer os primeiros estudos, conforme noticiou o jornal Rio Grande de 29 de junho:

(...) O dr. Benito Elejalde depois de examinar o Jacuhy e diversas vertentes que formam o arroio Amorim, concluiu seus estudos preliminares. Em uma das vertentes foi encontrada a descarga de 45 litros por segundo e na outra de 20 litros, o que é mais que sufficiente pois para o abastecimento da cidade são necessarios somente 15 litros. O illustre profissional, que regressou terça-feira ultima para a capital, levou duas amostras das aguas do Jacuhy e Amorim, para serem analysadas pelo laboratorio chimico de Porto Alegre. (...) Ficou constatado que em qualquer forma a agua será elevada por meio de bombas. Dentro em breve pois, este util melhoramento se tornarà realidade, satisfazendo ás aspirações do povo desta prospera cidade.


Dr. Benito Elejalde (n.º 5), dentre ilustres de sua época
- www.profciriosimon.blogspot.com

A hidráulica pretendida por Isidoro Neves da Fontoura não se concretizou na sua administração,  embora também tenha vindo a Cachoeira, por parte do Dr. Benito Elejalde, o engenheiro Alois Strimitzer para levantar a planta e o nivelamento da cidade como complemento do projeto hidráulico (Rio Grande de 20 de julho de 1911). Esta parece ter sido a última ação da projetada hidráulica. 

Dez anos depois, em 20 de setembro de 1921, quando era intendente Aníbal Lopes Loureiro, foi finalmente inaugurada a primeira hidráulica de Cachoeira, cujos serviços de instalação couberam aos construtores José Mariné e Justo Martinez, sob a direção do Dr. João Protásio Pereira da Costa, engenheiro-chefe da Seção de Obras Públicas do município.

Primeira hidráulica - COMPAHC

Relembrando esta história, lançam-se saudações às obras de recuperação da importante ponte sobre o arroio Amorim.

MR
sexta-feira, 5 de junho de 2020 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

A chegada do telefone


O telefone, aparelho inventado por Graham Bell em 1876, chegou a Cachoeira no ano de 1904, quando aqui se instalou a empresa de Emilio Guardiola, denominada Telephone Commercial. Ainda era uma operação bem rudimentar, se comparada com o avanço que a telefonia atingiu nos últimos tempos, especialmente no que se refere a telefones móveis, impensáveis no começo do século XX. Aqueles eram tempos em que o máximo de modernidade estava atrelada à telefonia fixa, comandada por uma telefonista, a quem os usuários solicitavam a operação de localizar, chamar o número pretendido e estabelecer a ligação.

Os aparelhos da época, último lançamento, tinham o formato de castiçal e eram acionados por uma manivela, acessando a telefonista que completava a ligação. O processo às vezes era demorado e regularmente apresentava falhas devido a problemas operacionais.

Telefone tipo castiçal, modelo 1904 - Pinterest

Em abril daquele ano, o empreendedor Emilio Guardiola esteve na cidade para dar início à instalação da rede, conforme noticiou O Comércio, edição do dia 25:

Empresa telephonica: - Acha-se nesta cidade o sr. Emilio Guardiola, que aqui trata de estender uma rede telephonica. Será, sem duvida, um melhoramento que concorrerá para o progresso da localidade. 


O Comércio, 25/4/1904

O mesmo jornal, no dia 1.º de junho de 1904, publicou:

Telephone. - Tiveram inicio os trabalhos da collocação da rede telephonica, que vai ser installada nesta cidade pelo pelo sr. Emilio Guardiola, em empresa particular sob a denominação de Telephone Commercial. A iniciativa daquelle operoso cidadão tem encontrado lisongeiro acolhimento.

Em 1909 havia, em todo o município de Cachoeira, 69 aparelhos telefônicos que faziam em média 110 ligações diárias e, em 1911, conforme o jornal Rio Grande de 23 de abril:

 Linha telephonica - Já se acham promptas 5 leguas da linha telephonica que partindo desta cidade vae a colonia Serro Branco. Dentro em breve estará prompta esta linha, preenchendo grande lacumna em nosso meio commercial.




Jornal Rio Grande, 23/4/1911

Em 20 de março de 1912, Emilio Guardiola & Filho escreveram ao Intendente Isidoro Neves da Fontoura solicitando dispensa do pagamento do imposto de Indústrias e Profissões, por terem cedido gratuitamente ao município três aparelhos telefônicos, o que pela tabela então em vigor correspondia à quantia muito superior ao imposto. O intendente atendeu à solicitação, o que parece ter deixado a empresa satisfeita porque, em 13 de abril do ano seguinte, o subintendente do 7.º distrito de Cachoeira, Athayde Quilião, comunicava ter sido instalada na subintendência a linha telefônica que partia da central localizada na casa de Antonio Posselt.

Em 1915, depois da morte de Emilio Guardiola, a empresa então chamada Viúva Guardiola & Filhos, representada por Álvaro Cunha e Aristides Guardiola, dirigiu-se a Porto Alegre para tratar com Juan Ganzo Fernandez, diretor da Companhia Telephonica Rio Grandense, a fusão de ambas. O negócio foi procedido e, em 1916, a Intendência renovou seu contrato de telefonia com a referida companhia, tendo em vista que a então firma Viúva Guardiola & Filhos tinha sido a única empresa a apresentar proposta ao edital de exploração do serviço no município. Como havia sido incorporada pela Companhia Telephonica Rio Grandense, o contrato foi assinado pelo vice-intendente Francisco Fontoura Nogueira da Gama e por Juan Ganzo Fernandez, diretor da Telephonica. O contrato previa um serviço de comunicações aperfeiçoado e permanente, ramificado a todos os distritos e com a condição de gratuidade a todas as repartições da municipalidade, conforme publicou O Comércio de 5 de abril de 1916. Um ano depois, Cachoeira estava ligada a Porto Alegre por via telefônica.

Juan Ganzo Fernandez - http://familiaganzo.blogspot.com/

Em linhas gerais foram estes os primeiros avanços da telefonia em Cachoeira, município que no início do século XX se destacava dentre os demais do estado do Rio Grande do Sul em termos de modernidade e serviços.

MR
sexta-feira, 29 de maio de 2020 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Uma escola noturna

No ano de Cachoeira do Sul bicentenária, sempre oportuno relembrar páginas do passado, de onde podem ser extraídas lições e exemplos. Coincidentemente os tempos são de pandemia, momento em que se vê brotarem ações de solidariedade que pareciam andar rareando. E a página que será aberta aqui hoje rememora iniciativa de gênese duplamente significativa, pois propiciou ensino aos sedentos por conhecimento, estendendo braço para parcela desvalida da população da Cachoeira do final dos anos 1920, início dos 1930, constituindo-se em verdadeiro exemplo de solidariedade.

Em 1928, o intendente de Cachoeira, José Carlos Barbosa, autorizou o auxílio de um conto e 200 mil réis à direção da Escola Noturna da União de Moços Católicos em parcelas mensais de 100 mil réis, desde que a matrícula excedesse a 25 alunos. Como a escola era gratuita, a subvenção municipal foi determinante para a entidade seguir ofertando ensino aos necessitados:

Autorização de subvenção municipal - 29/11/1928 - IM/CM/AL/L-011 


A União de Moços Católicos, fundada em 15 de junho de 1924, era uma entidade com fins religiosos, culturais e sociais da juventude católica, voltada para o atendimento dos interesses dos sócios, mas também com objetivos cristãos de amparo. Diante da carência de ofertas de ensino à parcela da população que não tinha condições de frequentar aulas diurnas, em razão de trabalho, bem como pela falta de recursos financeiros, a União fundou uma escola noturna, inicialmente funcionando nos salões de sua sede, na Rua Sete de Setembro.

Prédio (1850) onde funcionou a União de Moços Católicos e a escola noturna
- foto Renato F. Thomsen


A procura foi tão grande, que o espaço disponível tornou-se acanhado. Por notícia do jornal O Comércio, de 29 de julho de 1931, sabe-se sobre a  troca de endereço e como se apresentavam as aulas desenvolvidas:

O Comércio, 29/7/1931, p. 3


Desde muito tempo que a União de Moços Católicos desta cidade vinha mantendo em sua sede social uma escola noturna gratuita, onde cerca de 100 alunos recebiam instrução. Tornando-se pequeno o vasto salão para conter o grande número de alunos que dia-a-dia vinha aumentando, a diretoria da União resolveu localizá-la em outro prédio que foi feito em dias da semana transata. Instalada em o prédio n.º 600 da Rua 7 de Setembro, tivemos ocasião de visitar esta escola. que se acha sob a competente direção do Sr. Francisco Terencio da Costa que por muitos anos exerceu o magistério público estadual, no 4.º distrito deste município. 
O que ali encontramos então excedeu a nossa expectativa. Cerca de 140 pessoas, compostas de meninos, mocinhos, e até militares, quase na sua totalidade gente pobre, que vivendo do seu trabalho não pode frequentar as aulas diurnas, ali estavam entregues aos estudos. Recebidos gentilmente, palestramos ligeiramente com o Sr. Francisco Terencio da Costa, que nos informou que apesar daquele avultado número de alunos, a Escola havia recusado receber cerca de vinte, dada a impossibilidade de acomodá-los nos dois salões da Escola. 
De fato, examinando os salões verificamos que todos os lugares estavam totalmente preenchidos por carteiras e mesinhas, todas ocupadas pelos alunos. Isto demonstra o quanto havia falta de escolas noturnas nesta cidade, e por outro lado revela a boa vontade da mocidade em estudar e aprender. 
Sendo essa escola frequentada na sua quase totalidade por pessoas pobres que não podem cursar os estabelecimentos diurnos, fácil é calcular os grandes benefícios que a União dos Moços Católicos presta à mocidade cachoeirense, com a manutenção dessa escola noturna que, como dissemos, é dirigida pelo professor Francisco Terencio da Costa, cujos esforços e dedicação no desempenho de seu cargo são dignos de louvores.


Parte da relação de alunos em junho de 1929
- IM/RP/SF/D-229


A notícia expõe drama vivido pela cidade naqueles tempos, qual seja o de suprir a carência de ensino para aqueles que não podiam frequentar escolas durante o dia. Ao confrontar-se o exemplo do passado com os dias que correm, oportuno ressaltar o quanto houve de evolução, uma vez que atualmente a população interessada em alargar seus conhecimentos e melhorar seu desempenho tem à disposição oferta de cursos noturnos nas redes de ensino.

A iniciativa da União de Moços Católicos foi ao mesmo tempo inspirada por outras e incentivadora, pois a história de Cachoeira do Sul pode recuperar outras páginas de igual valor, quando cidadãos e entidades tomaram para si o compromisso de colaborar com a ilustração de interessados em aprendizado e qualificação. Qualificar o cidadão era e é a maneira mais sólida de qualificar a sociedade em que se vive.

Captura de imagens de documentos e imprensa: Neiva E. C. Köhler

MR