sábado, 20 de maio de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Renúncia do Intendente de Cachoeira

Corria o ano de 1912. Em julho, pelas eleições, o Coronel Isidoro Neves da Fontoura, concluindo mandato iniciado em 1908 à frente da Intendência, tinha o apoio do Partido Republicano para seguir no comando da administração municipal. E assim foi eleito. Mas desavenças políticas entre ele e o presidente do Partido Republicano Rio-Grandense, Dr. Antônio Augusto Borges de Medeiros, fizeram-no recusar o cargo para o qual havia sido reeleito.

Em carta enviada ao Conselho Municipal (correspondente, à época, da Câmara de Vereadores) o Coronel Isidoro Neves justificou o porquê de não ter assumido as funções de intendente:


Isidoro Neves (penúltimo) dentre membros do Partido Republicano cachoeirense
- fototeca Museu Municipal
Ata da eleição do Cel. Isidoro Neves - 20/7/1912
- IM/CM/AE-Atas - Cx. 2

Srs. MEMBROS DO CONSELHO MUNICIPAL

Tenho a subida honra de comunicar-vos que renuncio hoje ao cargo de Intendente Municipal, cargo este que eu devera desempenhar durante o periodo de 20 de Setembro deste anno a 20 de Setembro do anno de 1916, de accôrdo com a eleição effectuada a 20 de Julho do corrente anno, se não fôra o meu precario estado de saúde.

Cachoeira, 21 de Outubro de 1912.

(ass.) I. Neves da Fontoura


Carta de Isidoro renunciando ao cargo de intendente
- 20/10/1912 - IM

Seu sucessor deveria ser o Dr. Balthazar de Bem, que também recusou assumir a Intendência, recaindo sobre o Dr. Alfredo Xavier da Cunha o compromisso de gerir os negócios municipais.

A imprensa de Porto Alegre, pelo jornal Correio do Povo, publicou o seguinte a respeito do fato, notícia reproduzida na edição d'O Commercio do dia 11 de setembro de 1912:

Politica da Cachoeira
A proposito da desintelligencia que sobre a politica local houve, em dias da semana finda, entre os srs. dr. Borges de Medeiros e coronel Izidoro Neves, o filho deste ultimo, sr. dr. João Neves da Fontoura, correspondente telegraphico do Correio do Povo, nesta cidade, passou áquella folha os telegrammas que abaixo estampamos:

Cachoeira, 3. - O coronel Izidoro Neves da Fontoura telegraphou ao dr. Borges de Medeiros, renunciando, irrevogavelmente, a chefia do partido republicano local e communicando ter passado o governo municipal ao seu substituto legal, dr. Balthazar de Bem.
Este, não querendo assumir a referida investidura, officiou ao segundo substituto, capitão Alfredo Cunha.
Sei que o coronel Izidoro reunirá, depois d'amanhã, o Conselho Municipal, afim de renunciar o cargo de intendente, e não assumirá o mesmo cargo, no proximo quatriennio para o qual já foi eleito, em hypothese alguma.
Consta que o coronel Izidoro abandonará definitivamente a politica.
- Posso affirmar que estão rompidas as relações politicas entre o dr. Borges de Medeiros, chefe do partido republicano, e o coronel Izidoro. 
Taes relações politicas datam desde a ultima decada da monarchia, e em que ambos pertenceram ao club republicano 6 de Novembro e juntos percorreram este municipio, disputando pleitos, como o do vereador republicano Antonio Nelson da Cunha, que saiu victorioso das urnas e outros.

Cachoeira, 4. - O Rio Grande, orgam do partido republicano local, assim explica o motivo do rompimento entre o coronel Izidoro Neves da Fontoura e o dr. Borges de Medeiros, chefe do partido republicano:
"Por motivos que affectam á sua autoridade, o coronel Izidoro Neves da Fontoura passou, hontem, ao seu substituto legal, a administração do municipio.
Na mesma data, o coronel Izidoro Neves deixou a direcção do partido republicano local e renunciará, hoje, perante o Conselho Municipal, ao seu mandato intendencial.
Tendo o dr. Balthazar de Bem, vice-intendente, se recusado a acceitar a investidura, assumiu o cargo de intendente o capitão Alfredo Xavier da Cunha, sub-intendente da séde.
Hontem, á noite, o dr. Borges de Medeiros telegraphou ao coronel Izidoro concitando-o a manter-se em suas posições.
O coronel Izidoro respondeu dizendo, mais uma vez, ser irrevogavel a sua resolução.
A' residencia do coronel Izidoro tem affluido grande numero de pessoas amigas, que o interrogam sobre os motivos da sua resolução.



Residência do Cel. Isidoro Neves - Rua 7 de Setembro - fototeca Museu Municipal

S. s. respondeu dizendo ter sido desconsiderado por seu velho amigo dr. Borges de Medeiros.
O sub-intendente da séde sómente assumiu o governo municipal a conselho do coronel Izidoro, afim de não ficar a administração acephala, e de não serem creadas difficuldades na vida do municipio.
O capitão Alfredo Cunha convocou o Conselho Municipal a se reunir, amanhã, em sessão extraordinaria, para receber a renuncia do coronel Izidoro.
Este tem recebido, de todo o municipio, muitos protestos de solidariedade, entre os quaes se conta um do coronel Horacio Borges, tio do dr. Borges de Medeiros, e que é a maior influencia politica do interior do municipio.

No dia seguinte, 5 de setembro, o Conselho Municipal foi reunido e o Coronel Isidoro Neves apresentou a sua renúncia, que foi aceita. O conselheiro Arlindo Leal pediu a palavra, dizendo que a renúncia vinha ocasionar uma crise politica no seio do partido republicano local, fazendo votos pela continuação da concórdia da família republicana, no que foi apartado pelo conselheiro Horacio Borges, que disse ser impossivel evitar a discordia no seio do partido. O conselheiro tenente-coronel Antonio Antunes de Araujo declarou que fiel aos seus principios, a situação actual não modificaria o seu procedimento, continuando a stygmatisar a situação dissolvente da politica nacional, em que ambiciosos sem idéas assaltaram as altas posições do poder nacional constituindo-se em um complot. Si a sua posição de retraimento soffresse uma solução de continuidade no caso local, só aconteceria na hypothese do successor do coronel Izidoro ser um homem com o seu pensar e com as suas idéas. Assim pensava desde que teve a necessidade de ir á praça publica, fazer um meeting de protesto contra essa anarchisada ordem de cousas.

Feitos os pronunciamentos, Alfredo Cunha tomou posto do cargo de vice-intendente em exercício e oficiou ao presidente do estado, Dr. Carlos Barbosa, dando-lhe ciência da posse. Concluiu dizendo: Serei nos poucos dias de governo um fiel cumpridor da lei e servidor leal de s. exe.

Alfredo Xavier da Cunha - fototeca Museu Municipal

Alfredo Xavier da Cunha administrou o município por pouco tempo. Em 20 de setembro de 1912, no salão principal da Intendência Municipal, segundo relata o jornal O Commercio, de 23 de setembro daquele ano, com a presença de co-religionarios e amigos, e dos conselheiros municipaes srs. coronel Manoel de Carvalho Prates, majores Felippe Moser e Paulino Breton, Pedro Stringuini e Emilio Barz teve lugar, á noite de ante-hontem, a posse do vice-intendente nomeado, sr. coronel Horacio Borges.  Paulino Breton, presidente do Conselho, fez o Coronel Horacio Borges pronunciar as palavras usuais da posse, tendo sido lavrada uma ata. Depois houve pronunciamento do secretário do município, Odon Cavalcanti. O jornal concluiu a notícia dizendo:

- Em virtude da renuncia do coronel Isidoro Neves, o coronel Horacio administrará o municipio até que seja eleito e empossado o novo intendente, cuja eleição, ao que sabemos, realizar-se-á no dia 25 de Novembro proximo, o mesmo que está fixado para a eleição do futuro presidente do Estado.

Cel. Horácio Borges - fototeca Museu Municipal

Isidoro Neves honrou sua palavra: nunca mais voltou à política, embora tenha deixado como herdeiro político o seu filho João Neves da Fontoura que, anos mais tarde, por aconselhamento do próprio Borges de Medeiros, assumiu a intendência de Cachoeira...

A história prova que o passado se repete. Por isto é preciso sempre - e cada vez mais - a sociedade inteirar-se de sua história e reconhecer nos fatos, mesmo que pareçam novidades, os traços indeléveis que carregam de ações pretéritas.

(MR)
sexta-feira, 12 de maio de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Pela liberdade dos escravos

A Câmara Municipal de Cachoeira, como de resto de outras cidades, foi destinatária de correspondência do Directorio do Centro Abolicionista em Porto Alegre, datada de 24 de maio de 1885, firmada por Joaquim Pedro Salgado, presidente, Joaquim de Salles Torres Homem, 1.º secretário, e pelos diretores Achylles Porto Alegre, João Duval, Julio Cezar Leal, Severino F. Prestes, Damasceno Vieira, João Theophilo V. da Cunha, Ignacio de Vasconcellos Ferreira, Aurelio Virissimo de Bittencourt, Antonio Candido da Silva Job e Candido Antonio da Costa.




O teor da correspondência reveste-se de significação maior ainda quando revela o quanto a propaganda abolicionista estava fortalecida no breve tempo que então antecedia a assinatura da lei áurea, ato da Princesa Isabel a 13 de maio de 1888, demonstrando também o quanto ainda estava por ser feito. Os seus signatários confirmam o peso que o movimento obteve junto a lideranças intelectuais. Nomes como o de Acchylles Porto Alegre, escritor, jornalista e educador de renome, e Damasceno Vieira, jornalista, poeta, dramaturgo e historiador, dão conta disto.

Acchylles Porto Alegre - Wikipédia
Eis o texto da correspondência:

Havia apenas um anno se encetára a propaganda propriamente abolicionista na provincia do Rio Grande do Sul, e já todos os seus habitantes comprehendiam, em Agosto de 1884, que a escravidão era uma causa de atrazo para a prosperidade do paiz, um factor deleterio para a raça e a civilisação, finalmente um indigno attentado contra a liberdade e a personalidade humanas.

Uma pronta e nunca assás applaudida resolução do povo d'esta terra exprimio, em face do paiz inteiro, o genuino voto do patriotismo, da intelligencia e da humanidade, que sempre distinguiram, nos grandes commettimentos sociaes, a gente do Rio Grande.

Até o fim do glorioso anno de 1884, em cinco mezes a provincia vio libertarem-se cerca de cincoenta mil escravos. Grande numero de cidades e muitos municipios ficaram expurgados da odiosa instituição do captiveiro dos homens. Em todas as localidades, sem exceçpção, a idéa redemptora agitava o espirito publico e ia fazendo ceder as fracas resistencias.

Entrando no presente anno de 1885, poucos esforços mais foi preciso empregar em alguns municipios, para libertarem-se todos os seus escravos.

Em outras localidades restam, porém, homens ainda captivos, por cuja liberdade intercedemos fervorosamente, junto aos seus senhores e a todos os bons cidadãos.

Temos a convicção profunda de que trabalhamos em bem da Patria e da Humanidade, e escudamo-nos na confiança, que sempre inspiraram-nos os generosos sentimentos dos habitantes do Rio Grande do Sul.

Imploramos os senhores dos escravos, em nome de tudo quanto ha de mais sagrado, nas idéas e nos sentimentos dos homens: a justiça, a moral, a religião, a misericordia, que só teem uma voz para condemnar o captiveiro do homem pelo homem!

Rogamos aos cidadãos, amantes da sua patria e da sua provincia natal, e que são dignos de sentir commiseração pelas creaturas fracas e infelizes, de porem ao serviço da causa do resgate dos captivos todo o seu prestigio pessoal, a influencia das suas relações, o seu talento, as suas virtudes e a sua infatigavel dedicação, com o fim de soltar o ultimo escravo, que ainda geme na noite do captiveiro!

As benemeritas associações de patriotas e de estrangeiros amantes d'esta terra, que têem-se formado nos differenttes pontos da provincia, sob a bandeira abolicionista, permittam-nos que lhes dirijamos tambem um apello fraternal. Redobrem de esforços, sustentem a brilhante posição, em que já tantos louros colheram, na cruzada humanitaria.

A imprensa continúa a derramar luz, sobre a escuridão do captiveiro do trabalhador.

Unamo-nos em nome da Patria, da Justiça e da Humanidade, e proclamemos a libertação total dos escravos, na provincia do Rio Grande do Sul!

E' da nossa honra e do nosso dever satisfazer, quanto antes, este compromisso.

Foi chamado a occupar posição conspicua no novo ministerio 6 de Maio um illustre representante do Rio Grande do Sul, na pessoa de quem consagrou o chefe do Estado o momento abolicionista da provincia, pois que a libertação dos escravos, é, hoje, a idéa capital do programma do governo.

Trata-se tambem de fazer uma lei sobre a emancipação servil, na qual só não serão contempladas as provincias, que já tiverem libertado voluntariamente seus escravos.

O Rio Grande reflicta: si pela permanencia, em seu sólo, de alguns poucos milhares de escravos, elle deve perder o beneficio de sua nobre conducta, no resgate de outros cincoenta mil captivos, e soffrer a imposição de uma lei, que só é feita para obrigar a vontade dos homens, que não são capazes de guiarem-se espontaneamente pela vóz da sua razão e a bondade de seus sentimentos!

Poucos instantes temos para reflectir: resolvamo-nos já!

A correspondência acima foi impressa tipograficamente. Uma anterior, datada de 27 de abril daquele ano, manuscrita pelo 1.º secretário do Centro Abolicionista, rogava que os vereadores não desamparassem a sagrada causa de restituir à liberdade creaturas humanas e afirmava que não recebendo há muito tempo qualquer comunicação sobre as alforrias de escravos na Cachoeira, o Centro Abolicionista pede á VVSS.ªs que se dignem informar-nos acerca do numero de libertos, desde Julho do anno ultimo de 1884, bem como, sobre as causas que porventura tenham retardado o movimento libertador d'essa localidade.

Sem a resposta aguardada, em 3 de agosto do mesmo ano, mais uma vez o 1.º secretário dirigiu-se à Câmara solicitando [...] informar-nos a cerca do numero das libertações effectuadas n'esse municipio, bem como os escravos ainda existentes. 

Segundo o historiador Aurélio Porto, existiam em Cachoeira até 1.º de junho de 1884, 1.305 escravos tendo, por conta da propaganda abolicionista, sendo libertos 441, de 1.º de junho a 31 de outubro, e 178, de 1.º de novembro de 1884 a 15 de março de 1885, perfazendo 619 cativos libertos.

Documentos como estas correspondências resguardadas no rico acervo do Arquivo Histórico conseguem, ainda que decorridos 129 anos desde 13 de maio de 1888, causar desconforto e reflexão pela dura realidade que reproduzem.

(MR)
sexta-feira, 28 de abril de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

1.º de Maio - Dia do Trabalho

Não passará despercebido entre nós o dia de hoje, o popular 1.º de maio, consagrado por todos os operarios do mundo civilizado á glorificação do trabalho.
As dignas sociedades "Liga Operaria Internacional Cachoeirense e Beneficente 1.º de Maio" festejal-o-ão devidamente, bem como a laboriosa classe operaria desta cidade.


A nota acima, extraída da edição do jornal O Commercio do dia 1.º de maio de 1901, dá mostras de que Cachoeira, então com duas entidades ligadas aos trabalhadores, não deixava passar em branco o Dia do Trabalho. A Sociedade Beneficente Liga Operária Cachoeirense foi fundada em 1.º de novembro de 1897 e a União Operária 1.º de Maio em 25 de fevereiro de 1900; ambas possuíam, em seu quadro de associados, trabalhadores oriundos de diferentes categorias, como indústria, comércio, profissionais liberais, pequenos proprietários, advogados, médicos, militares.


Maestro Roberto Silva
- fundador e 1.º presidente da Liga Operária Internacional Cachoeirense
- gentileza Sérgio  M. da Silva Pacheco

Um livro de contribuições de sócios da Sociedade Beneficente União Operária 1.º de Maio, com registros a partir de 1910, doado ao Arquivo Histórico, confirma a natureza diversa dos associados, verificando-se na listagem, além de operários, nomes de comerciantes, médicos, farmacêuticos, criadores, bancários e outros.

Livro de contribuições de sócios da Sociedade Beneficente União Operária 1.º de Maio
-  acervo Arquivos Particulares do Arquivo Histórico - 

Segundo Ícaro Bittencourt, em seu trabalho O Mutualismo Operário em Cachoeira (1897-1923): o Caso das Sociedades Beneficentes Liga Operária Cachoeirense e União Operária 1.º de Maio*, UFSM, Santa Maria, 2008, as comemorações do 1.º de Maio em Cachoeira começaram em 1899, ano em que a Liga Operária instituiu em ata a celebração da data com festividades. No ano seguinte, o jornal O Commercio registrou que a classe operária da cidade não deixou passar despercebido o tradicional 1.º de Maio, dando a entender que se tratava de comemoração levada a efeito com regularidade. Segundo a análise de Ícaro, a nota publicada em 1901 fornece elementos interessantes para a percepção da representação da data na Cachoeira do início do século XX, quando em outras cidades as manifestações já começavam a se revestir do propósito de protesto e contestação das condições dos operários:

(...) a partir do adjetivo "popular" é destacado o caráter de aceitação da data entre a sociedade cachoeirense além de, com ele, retirar o caráter classista do dia. Corroborando também essa noção, está a expressão que afirma ser o 1.º de Maio "consagrado à glorificação do trabalho", atribuindo-se a este uma sacralidade, afastando-se da realidade histórico-cultural de exploração. Além disso, os adjetivos "civilizado" e "dignas" e o advérbio "devidamente" representam os horizontes de conduta a serem seguidos pelos operários. A palavra "devidamente" provavelmente indica a comemoração como festa e não como protesto, como acontecia em outras cidades do Rio Grande do Sul e do Brasil nesses anos, ou seja, quem não comemorasse a data devidamente não era integrante do "mundo civilizado". Também a expressão classe operária é adjetivada como "laboriosa", podendo indicar que existissem, dentro da compreensão do jornal, operários que não trabalhassem ou que, provavelmente, fossem desordeiros.

Os tempos mudaram, as classes operárias se fortaleceram, especialmente com a legislação que ora rege o mundo do trabalho e, na esteira disto, as relações entre patrões e empregados passaram por diferentes momentos. Contudo, ambas as entidades operárias de Cachoeira - a Sociedade Beneficente Liga Operária Cachoeirense, com sede na Rua Saldanha Marinho, e a União Operária 1.º de Maio, com sede na Rua Andrade Neves, seguem como bastiões de uma história que teima em subsistir.

*Ícaro Bittencourt utilizou-se da coleção de O Commercio para subsidiar sua pesquisa.

(MR)
quinta-feira, 20 de abril de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

21 de abril: dia para lembrar Tiradentes

Vem de tempos a associação de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, à ideia de liberdade e independência. Aguerrido e impetuoso, foi alçado à condição de herói por suas ações contrárias ao estabelecido na época em que o Brasil sequer tinha a condição de país.

Joaquim José da Silva Xavier - o Tiradentes - opiniaoenoticia.com.br

Muito tempo depois da execução de Tiradentes como criminoso, ocorrida no dia 21 de abril de 1792, é que sua morte foi tida como heroica. Na esteira do engrandecimento de sua figura, veio a determinação do dia 21 de abril como feriado nacional. A Lei n.º 1266, de 8 de dezembro de 1950, consagrou a data "à glorificação de Tiradentes e anseios de independência do País e liberdade individual."

Imagem: Faculdade Jangada

Recorreu-se ao acervo de imprensa do Arquivo Histórico para buscar notícias relacionadas ao dia 21 de abril, extraindo-se uma de época anterior e outra da primeira vez que a comunidade cachoeirense gozou o feriado de Tiradentes.

O jornal Rio Grande, em sua edição de 23 de abril de 1908, traz a seguinte nota:

21 de Abril. Passou ante-hontem, a data consagrada aos precursores da Republica, symbolisados em Tiradentes.

21 de Abril sempre disperta na alma nacional um toque de enthusiasmo "patrio", relembrando paginas sagradas da historia, escriptas com sangue, mas redivivas e brilhantes, attestando o surto de uma nacionalidade incipiente para a liberdade e para a luz.

Tiradentes revive nos corações genuinamente republicanos que sabem medir do quanto seria capaz aquella alma votada para o bem e para a liberdade patrios.

Apezar de passar despercebida essa data gloriosa, intimamente o coração republicano se eleva atè à memoria do inconfidente, abençoando-a e cobrindo-a das flores que o seu amor à Patria faz hoje desabrochar.

A lembrança da data, a julgar pela redação da notícia, certamente estava associada ao ideário do jornal Rio Grande, que era órgão do Partido Republicano.

O Jornal do Povo, volume de 1951, primeiro ano em que seria comemorado o feriado de Tiradentes a partir da lei que o instituiu, publicou uma pequena nota de alerta destinada especialmente aos trabalhadores da indústria e comércio:

O Feriado de Sábado. Informa a Associação do Comércio e Indústria que o próximo sábado, dia 21, é feriado nacional, consagrado à memória de Tiradentes, o mártir da liberdade.

Não será, pois, permitida, nesse dia, a atividade no comércio e indústria, em todo o território nacional.

O feriado, novidade que era, mereceu da redação do Jornal do Povo também um aviso aos seus leitores:

JORNAL DO POVO. AVISO. Em virtude do feriado de sábado próximo não se trabalhará nas diversas secções desta folha, motivo por que o JORNAL DO POVO não circulará em sua edição habitual de domingo, voltando a fazê-lo sómente terça-feira próxima, com maior número de páginas.

(MR)
quinta-feira, 13 de abril de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

A Semana Santa de 100 anos atrás

A edição do jornal O Commercio do dia 11 de abril de 1917, assim registrou as atividades da Semana Santa:

Semana Santa. - Como era de esperar, revestiram-se de muito esplendor as solemnidades da Semana Santa.

Quinta-feira Santa, na occasião da missa cantada, mais de 300 pessoas de todas as classes sociaes receberam a santa communhão. A' tarde, querendo commemorar o facto essencialmente caridoso de Jesus Christo na vespera de sua morte ter lavado os pés aos doze apostolos, para mostrar aos homens a necessidade de amor reciproco, o vigario da parochia, acolytado por dous sacerdotes, praticou a cerimonia de lavar os pés a doze meninos devidamente preparados em bancos sobre estrados. Acabado o acto, o revmo. padre Feliciano* pronunciou eloquente discurso sobre a caridade christã.

Sexta-feira Santa foram feitas, de manhã, todas as cerimonias religiosas prescriptas, sendo cantada a Paixão de Nosso Senhor.

A's 17,20 sahiu a procissão do encontro, que foi extraordinariamente concorrida. Os dous andores, que levavam as imagens de Nosso Senhor e de N. Senhora das Dôres, encontraram-se na Avenida das Paineiras, occasião em que o revmo. padre Feliciano, da sacada da casa da exma. sra. d. Ignacia Amelia de Oliveira, prendeu por uns quinze minutos a attenção de todos os circumstantes, fazendo innumeras pessoas derramar lagrimas.

Casa de Ignacia Oliveira, à esquerda, na Rua 7 de Setembro - sem data
- fototeca Museu Municipal


Sabbado santo começaram as respectivas cerimonias ás 8 horas e só ás 10 horas os sinos da igreja matriz deram alegremente o signal do alleluia.

Igreja Matriz em flagrante de procissão religiosa - sem data
- fototeca Museu Municipal

Tanto nesse, como nos dias precedentes, a concurrencia de fieis foi numerosissima.

Domingo da Resurreição, na missa das 8 horas, houve communhão geral.

A's 10 horas a missa solemne foi cantada pelo vigario da parochia, servindo de diacono o revmo. padre Feliciano e de subdiacono o revmo. padre Angelo Ceresér. Ao Evangelho o revmo. padre Feliciano, subindo á tribuna, pronunciou o discurso de occasião, em que procurou demonstrar a realidade do facto da resurreição, refutando as pretendidas objecções dos incredulos. Os canticos da missa e de todas as festividades da semana foram magistralmente executados pelo côro do Apostolado, com o auxilio benevolo dos srs. Affonso Gregory e Alexandre Santini.

Na mesma edição do jornal, uma nota sobre as celebrações da Páscoa entre os luteranos e os metodistas:

Pelos templos. - Perante crescida assistencia de crentes effectuou-se. á noite de sexta-feira da paixão, a cerimonia da santa ceia no templo da Communidade Evangelica, situado no Bairro Rio Branco.

Domingo ultimo, ás 9 1/2 horas da manhã, ainda houve bem concorrido culto divino no mesmo templo, officiando o sr. pastor Germano Dohms, director espiritual daquella communidade.

- No templo da Igreja Methodista, á rua Moron, ralizaram-se cultos divinos em a noite de sexta-feira e na manhã de domingo, sendo celebrante o sr. pastor Eduardo M. Barreto Jayme.

Antigo prédio da Igreja Metodista - sem data - fototeca Museu Municipal

O jornal de 1917, além do distanciamento temporal de cem anos, expresso na diferença de grafia e de costumes, revela também uma diferença abissal na forma como nossos antepassados viviam a Semana Santa e celebravam a Páscoa...

*Pe. Feliciano Yagüe.

(MR)
sexta-feira, 7 de abril de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

60 Anos sem Liberato e Jenny

Há exatos 60 anos perecia em pavoroso acidente de avião, no aeroporto de Bagé, o jovem e promissor político cachoeirense Dr. Liberato Salzano Vieira da Cunha, então no desempenho das importantes funções de Secretário de Educação e Cultura do Rio Grande do Sul, no governo de Ildo Meneghetti. Pereceram com ele a esposa Jenny Figueiredo Vieira da Cunha, além de outras 38 pessoas que estavam a bordo do Curtiss-Comander C-46, prefixo PP-VCF, da Viação Aérea Riograndense - VARIG.


Liberato S. Vieira da Cunha
20/12/1920 - 7/4/1957
- Arquivo particular João Carlos A. Mór
Jenny F. Vieira  da Cunha
14/11/1922 - 7/4/1957
- Arquivo particular João Carlos A. Mór
Naturais de Cachoeira, Liberato nasceu em 20 de dezembro de 1920, filho de Antônio Peixoto Vieira da Cunha e Angelina Salzano Vieira da Cunha. Jenny, nascida em 14 de novembro de 1922, era filha do comerciante Achylles de Lima Figueiredo e Filadélfia Carvalho de Figueiredo. O casal deixou na orfandade quatro filhos menores: Liberato, Miriam, Maria Bernadete e Eduardo.

A Tremenda Catástrofe, como noticiou o Jornal do Povo, edição do dia 9 de abril de 1957, enlutou não somente as famílias, mas o próprio jornal, do qual Liberato e o irmão Paulo eram então diretores.

Capa do Jornal do Povo de 9/4/1957 - acervo de imprensa do Arquivo

Por todos os recantos do estado e mesmo do país, o acidente produziu tristeza. De Bagé, os corpos foram levados para a capital. No salão nobre do Palácio Piratini, aconteceram exéquias oficiais, com missa celebrada por D. Vicente Scherer. Apesar da chuva que caía naquele 8 de abril, em Porto Alegre, grande acompanhamento teve o cortejo fúnebre até a estação Diretor Pestana, onde os ataúdes foram embarcados para Cachoeira do Sul. 

O povo consternado pranteou a morte do Secretário de Educação, dizia a manchete de contracapa do Jornal do Povo de 9 de abril. Uma multidão superior a cinco mil pessoas, segundo a notícia, tributou homenagens derradeiras ao casal desaparecido, em Cachoeira. De Porto Alegre, vieram acompanhar o cortejo o arcebispo metropolitano, D. Luiz Vitor Sartori, o governador e seu secretariado. Houve discursos no pórtico da Igreja Matriz, onde foi celebrada missa de corpo presente pelo arcebispo, e no Cemitério das Irmandades, onde uma multidão tentara acompanhar os sepultamentos. Finalizou as manifestações, em nome das famílias Figueiredo e Vieira da Cunha, o jornalista e irmão de Liberato, Carlos Salzano Vieira da Cunha. 

Manchete do jornal O Comércio de 10/4/1957 - acervo de imprensa do Arquivo

Na edição de O Comércio, de 10 de abril, a manchete dizia: Enlutada Cachoeira do Sul com o pavoroso acidente aviatório em Bagé. Na recepção aos corpos, na Estação Ferroviária, registrou: Cerca das 15 horas, um trem minuano duplo deu entrada na gare, trazendo os corpos do infortunado casal cachoeirense. Junto veio a comitiva oficial composta de um número aproximado de 100 pessoas, altas autoridades civis, militares e eclesiásticas. (...) Formou-se então, na Estação da Viação Férrea, o imenso cortejo fúnebre em direção à Matriz de N. Senhora da Conceição.

A carreira política de Liberato estava em ascensão. O jovem Secretário de Educação e Cultura era cogitado para candidato ao governo do estado após o mandato de Ildo Meneghetti. Mas quis o destino que tal não se concretizasse.

Cachoeira do Sul mandou erigir, e foi inaugurado no primeiro aniversário da morte do casal, um busto de Liberato, na Praça Dr. Balthazar de Bem, trabalho do conceituado escultor Fernando Corona. Também uma rua e uma escola têm Liberato Salzano como patrono. Jenny dá nome a uma escola na localidade de Forqueta.

Busto na Praça Dr. Balthazar de Bem - obra de Fernando Corona

Passados 60 anos do trágico acidente, o Arquivo Histórico, servindo-se de seu acervo de imprensa, buscou ilustrar um pouco da grande comoção que tomou conta da cidade, do estado e do país, repercutindo dolorosamente o desaparecimento de conterrâneos que ainda muito poderiam ter colaborado para os anseios de seus familiares, amigos e comunidade gaúcha.

(MR)
quinta-feira, 6 de abril de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Reiniciados os trabalhos da parceria Arquitetura UFSM/Arquivo Histórico

Foram retomadas as atividades dos acadêmicos do Curso de Arquitetura da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM, Campus Cachoeira do Sul, no trabalho de seleção e identificação do acervo cartográfico e de plantas arquitetônicas do Arquivo Histórico.

Os acadêmicos assessorados pela pesquisadora Mirian Ritzel

Os acadêmicos Andreza Oliveira Nunes, Gustavo Severo e Schayane Dias, sob a coordenação da Prof.ª Ms. Letícia de Castro Gabriel e acompanhamento das assessoras do Arquivo Histórico, tiveram o primeiro encontro da segunda etapa de trabalho na última terça-feira, dia 4, quando se depararam com plantas arquitetônicas bastante significativas, como as do engenheiro-arquiteto alemão Júlio Rieth, responsável por um bom número de residências construídas em Cachoeira, onde morou com a família, e outras de casas e espaços ainda existentes.



O trabalho tem sido de grande valia, ainda que não concluído, porque já permitiu mostras da riqueza do material que em breve poderá ser disponibilizado para consultas da comunidade.

Para saber mais: Parceria Arquitetura UFSM/Arquivo Histórico

(MR)