segunda-feira, 8 de outubro de 2018 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Parece, mas não é...

Os jornais locais do começo do século XX traziam diferentes assuntos para os seus leitores, até porque uma cidade interiorana não produzia notícias suficientes para encher uma edição. Poemas, artigos, novidades do comércio e da indústria, chegadas e partidas de cachoeirenses e visitantes, conselhos médicos, anúncios comerciais, forasteiros oferecendo toda sorte de produtos e serviços, festas, casamentos, variadas notas fazem dos exemplares d'O Commercio uma deliciosa leitura.

Na edição do dia 30 de outubro de 1901, à página 2, um cidadão que se assinava Urbano Duarte publicou um texto que deve ter produzido boas discussões e até risadas entre os leitores. Ei-lo:

O Comércio, 30/10/1901, p. 2

Os Nomes
Si o nome é uma voz com que se dão a conhecer as cousas, com certeza não é uma voz com que se dêm a conhecer as pessoas. Olhem que parece mesmo de proposito! Vou tratar com um Cordeiro, já sei que me sae um sujeito rispido e raivoso; travo conhecimento com fulano de tal Leão, tenho quasi certeza de encontrar um cavalheiro timido, macio, encalistrado, suave nos modos.
Conheci um individuo por nome Cordeiro Leão, que tinha alma de pomba e coração de tatú; em minha terra havia um Thomaz "Rola", assassino de profissão, caudilho de uma tropa de bandidos, que saqueava as fazendas circumvizinhas.
Quasi todos os "Valentes" sentem frio nos intestinos a qualquer signal de alarma; e sei de um Sebastião "Bravo" que apanha constantemente surras da mulher sem reagir.
Quando me apresentaram o Dr. "Rosado", reparei um semblante côr de cera derretida. Ha dias sentei-me no bond junto de um individuo que tresandava escandalosamente a suores pouco odoriferos. D'ahi a pedaço ouvi o companheiro tratal-o pelo nome. Chamava-se Flores.
O cabello do Sr. Jeronymo Penteado, Official de Justiça, jamais viu pente, e o meu amigo Frederico Barbado tem o cuidado de escanhoar o queixo todas as manhãs.
Desconfio sempre dos Benignos, dos Benedictos, dos Benevenutos e dos Bernardos; mas em compensação não me arreceio dos Crespos nem dos Espinheiros, que quasi sempre são pessoas trataveis.
Os Bastos, que parecem "bastos", quasi sempre são delgados e espigadinhos; e quanto aos Santos, conheço alguns levados dos diabos. Prazeres é nome de preto velho da Bahia, armador de defuntos.
Recebi ha tempos o cartão de um homem que precisava falar-me: "Palmeira Ayrosa Junior". Fui procural-o, e pelo apelido de um sujeito alto, airoso elegante. Pois sahiu-me uma pipa.
Quanto ás mulheres, é a mesma coisa. toda Clara é morena, toda Margarida é preta e as Angelicas são ás vezes diabolicas. As Candinhas, as Virginias e as Purezas polulam em certos recantos, onde se dá tanta importancia á pureza virginal como um cordeiro. De tilbury á divina comedia".
Urbano Duarte

Depois deste escrito antigo, agora em diante os nomes certamente serão vistos sob outro prisma... Ah, os nomes... Neologismos não permitem esta jocosa comparação!

MR
sexta-feira, 28 de setembro de 2018 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

E.M.E.F. Dr. Baltazar de Bem - 60 anos

Há 60 anos a administração do município inaugurava o Grupo Escolar Dr. Baltazar de Bem, instituição que posteriormente se transformou em uma das maiores escolas da rede municipal de ensino.

E.M.E.F. Dr. Baltazar de Bem - foto www.escolabaltazardebem.blogspot.com
O Jornal do Povo, em sua edição do dia 28 de setembro de 1958, primeira página, publicou que A Municipalidade Inaugura Hoje Novas Escolas, referindo que três estabelecimentos de ensino seriam abertos, sendo um em Agudo, um em Dona Francisca e o terceiro na Vila Marina, periferia da cidade de Cachoeira do Sul:

Jornal do Povo de 28/9/1958, p. 1

Na Vila Marina. Ainda hoje, domingo, às 16 horas, nesta cidade, a Prefeitura procederá à inauguração do G.E. "Dr. Baltazar de Bem", na Vila Marina, cujo prédio, ostentando requisitos em instalações e comodidades, alvo já de uma reportagem dêste jornal, será entregue à população escolar dessa populosa zona.
As solenidades inaugurais contarão com a presença de pessoas da família do saudoso Dr. Baltazar de Bem, cujos membros muito colaboraram para a concretização dêste empreendimento ao ceder parte do terreno onde está erigida a nova escola.
Esperam ainda as autoridades municipais contar com a presença do Secretário de Educação e Cultura do Estado, Dr. Adroaldo Mesquita da Costa, ao qual foi endereçada uma mensagem, convidando-o para êste ato.
Autoridades e convidados serão obsequiados com um coquetel após as solenidades de praxe.

A notícia refere que a família do Dr. Balthazar de Bem doou parte do terreno para que a escola fosse construída, o que se explica pelo fato de que a então Vila Marina foi assentada em terras que constituíam a Granja da Penha, propriedade rural pertencente aos de Bem. Na Granja da Penha, Balthazar de Bem, dentre outras atividades, criava gado Devon, raça de que foi o introdutor e grande incentivador no município.

Dr. Baltazar de Bem - foto Benjamin Camozato

O nome do Bairro Marina, onde se localiza a escola, também está associado à família do Dr. Balthazar. Trata-se de homenagem à sua esposa, Marina Matos de Bem.

Balthazar (sentado) e família, vendo-se Marina postada atrás
- Fototeca Museu Municipal

Balthazar de Bem era um homem de múltiplas facetas: médico, político, fazendeiro e industrial. Uma de suas últimas iniciativas - de efetivo sucesso - foi a aquisição da indústria conhecida como Charqueada do Paredão, em 1921, por uma sociedade em comandita por ações da qual ele era o diretor. Denominado Estabelecimento Paredão, o complexo industrial que já tinha sido portentoso entre o final do século XIX e início do século XX, ganhou sob a administração de Balthazar de Bem & Cia. um importante produto: o Alimento Fabini, composto de carne integral hidrocarbonada, comercializado para todo o país e exterior. Balthazar, como médico, recomendava o produto para o fortalecimento de crianças, adultos e idosos que não podiam comer carne! Venda certa!

Alimento Fabini - produto da Charqueada Paredão
- Grande Álbum de Cachoeira, de Benjamin Camozato

Na política, Balthazar foi deputado estadual por duas vezes, intendente de Cachoeira entre 1912 e 1916 e vice-intendente eleito em 1924, cargo que não chegou a desempenhar em razão de ter sido morto em 10 de novembro de 1924, em um levante militar no Barro Vermelho.

Além da E.M.E.F. Dr. Baltazar de Bem, o município de Cachoeira do Sul homenageia este importante personagem histórico com a denominação da Praça Dr. Balthazar de Bem, um dos mais visitados e fotografados pontos da cidade.

Parabéns à E.M.E.F. Dr. Baltazar de Bem pelos 60 anos de existência, levando luz a crianças, jovens e adultos do importante Bairro Marina.

MR
sexta-feira, 21 de setembro de 2018 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Anulação de eleição

O  Brasil está às portas de importante eleição. Momentos como este, fundamentais para o exercício da democracia e para definição dos rumos da política, nunca foram amenos. Em todas as instâncias governamentais as disputas acirradas muitas vezes ganharam contornos violentos e dramáticos. Alguns contendores, embora este não devesse ser o termo empregado, melhor seria dizer disputantes de cargos públicos, fazem uso de subterfúgios e artimanhas para garantirem a vitória nos pleitos, tanto nos dias que correm como nos que já fazem parte do passado.

Cachoeira, no começo do século XX, quando a política local era fortemente dominada pelo Partido Republicano Rio-Grandense - PRR e, logicamente, com a devida oposição, também foi palco de situações pouco democráticas. A imprensa da época tinha órgãos representativos de partidos e bandeiras políticas e as páginas dos seus respectivos jornais estampavam francas e diretas acusações. As lideranças faziam uso da imprensa para o ataque e a defesa de suas ideias e de seus candidatos.

Em 1904 se renhia mais uma disputa eleitoral na cidade da Cachoeira, mas dessa feita envolvendo uma dissidência dentro do majoritário Partido Republicano Rio-Grandense. O jornal O Commercio trazia artigos e manifestações favoráveis aos dois candidatos que se apresentavam: Dr. Nelson Coelho Leal e Coronel David Soares de Barcellos. O detalhe interessante é que o candidato de preferência do todo-poderoso da política local, o Coronel Isidoro Neves da Fontoura, era o engenheiro Nelson Coelho Leal.

O operariado de Cachoeira, a quem David Soares de Barcellos prestava apoio, lançou nas páginas do jornal um manifesto Ao operariado do municipio que finalizava assim:

Um voto dos companheiros da briosa, unida e progressista classe operaria para o devotado e popular filho desta terra, coronel David S. de Barcellos, é simplesmente o testemunho da nossa gratidão. Liberdade, Concordia e União - é a nossa sacrosanta bandeira. A's urnas, pois. Cachoeira, 19 de Junho de 1904. 
(Assinam) Diversos operarios.

O Comércio, 22/6/1904, p. 2

Na mesma edição d'O Commercio, Isidoro Neves da Fontoura, em sessão intitulada Tribuna do Povo, escreveu aos Illustres Co-Religionarios:

(...)
O simples enunciado de pleito a ferir-se, estou certo que interessar-vos-á, despertando a cooperação espontanea de vossos esforços no sentido de serem eleitos co-religionarios, cujos nomes constituam proveitoso e seguro penhor de uma boa administração municipal. Assim pensando, com assentimento e applausos de co-religionarios prestantes, resolvi sujeitar á apreciação e escolha do sr. Dr. Antonio Augusto Borges de Medeiros, eminente chefe do nosso partido o nome do illustre sr. Dr. Nelson Coelho Leal, para ser suffragado pelo eleitorado republicano e independente ao cargo de intendente municipal. Este distincto engenheiro civil possúe um conjuncto de qualidades e virtudes que asseguram ao nosso municipio uma administração fecunda em melhoramentos materiaes, progressista, systematica e garantidora do bem estar de nossos co-municípes. (...) Crente de que concorrereis pressurosos ás urnas, votando neste candidato e assim prestando valioso auxilio para fortalecerem-se os laços de disciplina de nossa aggremiação politica, bem como para o engrandecimento de nosso municipio, subscreve-me co-religionario 
Att.º Am.º e Obr.º 
Isidoro Neves da Fontoura.
Cachoeira, 17 de Junho de 1904.

Este manifesto do Coronel Isidoro foi vertido para o idioma alemão, publicado ao lado do original em português.

O Comércio, 22-6-1904, p. 2

Diversos distritos apoiavam o nome do Coronel David Soares de Barcellos para o cargo de intendente e também se serviam das páginas do jornal para defenderem seu candidato.

Na edição de 13 de julho de 1904, O  Commercio publicou o Decreto n.º 734, de 8 de julho daquele ano em que o governo do estado declarava inconstitucionais e alterava algumas disposições da lei eleitoral do município de Cachoeira. Dias depois, um telegrama do presidente do estado adiou a eleição para 20 de agosto. Mas um contratempo acabou por mudar o rumo das candidaturas: a desistência de concorrer do Cel. David Soares de Barcellos. A União Republicana, associação política fundada meses antes, indicou para o lugar do Cel. Barcellos o nome de Carlos Pötter como candidato do Partido Republicano, permanecendo Isidoro Neves, chancelado por Borges de Medeiros, a apoiar a candidatura de Nelson Coelho Leal.

Finalmente, em 20 de agosto, ocorrida a eleição, saiu vencedor Carlos Pötter, o candidato dos dissidentes do PRR, com 833 votos, conquistando Nelson Coelho Leal 435. Mas eis que uma correspondência do presidente do estado, Dr. João Abbott, anulou o pleito: 



IM/CM/SE/CR-Caixa 9
Estado do Rio Grande do Sul
Secretaria de Estado dos Negocios do Interior e Exterior
            Porto Alegre, 16 de setembro de 1904.
Aos Sr.s Presidente e membros do conselho municipal da Cachoeira:
Communico-vos, para os devidos effeitos, que o Sr. Presidene do Estado lançou, a 12 do corrente mez, o seguinte despacho no recurso que lhe apresentaram os cidadãos Antonio Antunes de Araujo e Virgilio Carvalho de Abreu contra a apuração que esse conselho fez da eleição de intendente e conselheiros – ahi effectuada a 20 de agosto findo: “Tendo a juncta apuradora decretado a nullidade das 8.ª e 16.ª secções, pelo facto de conter a acta d’aquella duas assignaturas escriptas com tinta differente e ter sido a acta d’esta fírmada por pessoa extranha e somente competente para a sua transcripção no livro respectivo; e, considerando nullas as eleições das 2.ª, 17.ª e 18.ª secções, em que deixou de ser observado o voto a descoberto; a da 12.ª, por terem sido interrompidos os seus trabalhos, contra expressa disposição do artigo 74 da lei eleitoral do Estado; a da 14.ª, por não estar devidamente concertada a acta, que não foi transcripta no respectivo livro; a da 15.ª, por não ter a eleição se effectuado no edificio préviamente designado, deixando de se observar o disposto nos §§ 3.º e 4.º do artigo 51; feita a exclusão dos votos recebidas n’essas secções, chega-se á conclusão de que o resultado final da votação soffre completa alteração, ficando em minoria o candidato mais votado para intendente nos termos, pois, do numero 5 do artigo 96 da lei de 12 de janeiro de 1877, declaro nulla a eleição de intendente e conselheiros municipaes, effectuada a 20 de agosto proximo findo, e determino que se proceda a nova eleição, com observancia das formalidades legaes.”
Saude de fraternidade.
Dr. João Abbott

Por denúncia de irregularidades apontadas por Antonio Antunes de Araujo e Virgilio Carvalho de Abreu, houve então a anulação da eleição. Entre a denúncia e a chegada da correspondência do presidente do estado ao Conselho Municipal, até banquete comemorativo da vitória de Carlos Pötter aconteceu. Artigos de celebração de sua vitória também estamparam várias páginas do jornal O Commercio, bem como protestos pela anulação quando esta chegou ao conhecimento público.

Cachoeira viveu dias de tumulto na política até que, em 20 de setembro, foi nomeado para dirigir o município o médico Viriato Gonçalves Vianna, cujo nome parece ter posto fim às desavenças das duas facções que se formaram dentro do Partido Republicano, como bem retrata a primeira página da edição do jornal do dia 21 de setembro de 1904, pulsante de homenagens, traduzidas sinteticamente em uma das frases publicadas:

Succede, felizmente, ao digno coronel David Soares de Barcellos, na gestão dos negocios municipaes, um cidadão de alta competencia, de virtudes civicas e privadas que muito o recommendam á estima de seus patricios, e que são penhor seguro de uma nova phase de ordem e de paz, de progresso e de concordia.



O Comércio, 21/9/1904, p. 1

Viriato Gonçalves Vianna ficaria em uma espécie de mandato de conciliação entre os republicanos até ser eleito dois meses depois. Sua administração ficou marcada pelo incentivo à instalação do primeiro hospital de Cachoeira, obra também abraçada e levada adiante pelo seu sucessor, médico Cândido Alves Machado de Freitas.

MR
sexta-feira, 14 de setembro de 2018 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Mulher que desconhece nome do marido

CM/S/SE/CR-Caixa 21

A documentação do Arquivo Histórico, como já dito em outras oportunidades, oferece um universo de possibilidades, seja no campo da informação histórica, na descrição dos espaços e vivências dos cidadãos, bem como na forma de interação com o meio e com os indivíduos, o que traduz, em suma, os traços culturais do lugar em que foi produzida.

Um requerimento apresentado em 14 de março de 1887 traz um conteúdo no mínimo inusitado, uma vez que a requerente, uma alemã de nome Guilhermina [Foese?], solicita que seja verificado no registro de casamentos acatólicos (protestantes) qual o nome de seu marido:

Illmo. Sr. Presidente e mais Vereadores da Camara
Municipal da Cachoeira

Diz Guilhermina Foese, residente na ex-Colonia de Santo Angelo, que tendo se propalado ser a Suppte. - que é Protestante - casada com Henrique ou como outros dizem Luiz Kazulke, preciza a bem de seus direitos, que revendo o respectivo Secretario d'esta Camara o registro dos cazamentos acatholicos lhe declare por certidão si ha n'aquelles assentos alguma couza relativa ao pretendido cazamento da Suppte seja com um dos acima mencionados Individuos ou com outro qualquer de nome parecido.
N'estes Termos requer a Suppte deferimento

Cachoeira 14 de Março de 1887 
Por Guilhermina Foese
O Procurador Constans Josephson

O Império do Brasil não legislava sobre o matrimônio, sendo as questões relativas à união matrimonial regidas em sua integralidade pela Igreja. Com o aumento de população não católica, especialmente ocorrido com as levas de imigrantes de fé protestante, surgiu a necessidade de reconhecimento pelo Estado das uniões entre pessoas de outras religiões. Somente em 1863 foi retirada da Igreja Católica a exclusividade da realização oficial do casamento religioso. Em razão disto, em 2 de agosto de 1872 o Barão de Kalden oficiou à Câmara Municipal encaminhando um abaixo-assinado que solicitava fossem abertos livros para que o secretário neles registrasse os casamentos não católicos, ou acatólicos, como ficaram assentados. 

E foi justamente em um destes livros, o de código CM/S/SE/RC-002, à última folha, de número 148v, em último lugar, que foi localizado o assento de casamento de Wilhelmine Vöse e Ludwig Kasulke. Estava resolvida a questão: Wilhelmine, Guilhermina em português, tinha oficialmente por marido a Ludwig, Ludovico ou Luiz em português, Kasulke! Finalmente, à vista do documento, a alemã podia assegurar a todos que talvez maliciosamente lhe atribuíssem mais de um marido, que de fato tinha um, com nome e sobrenome... A diferença linguística e a dificuldade de entendimento entre brasileiros e alemães deve ter criado muitos embaraços para ambos os lados. A alemã, felizmente, pôde servir-se de um documento legal para, altiva, determinar afinal com qual dos tantos nomes pronunciados à sua volta ela realmente vivia!

CM/S/SE/RC-002, fl. 148v - 15/6/1888

MR
quinta-feira, 6 de setembro de 2018 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Tabela das Passagens de Rios

As necessárias reformas na Ponte do Fandango, neste ano de 2018, há tanto pleiteadas, têm feito os cachoeirenses conviverem com a problemática de travessia do rio Jacuí através de balsas. Os humores do rio, as mudanças climáticas típicas de inverno rigoroso, as questões burocráticas e a logística da travessia por este meio de transporte têm dominado as conversas e as notícias. 

Poucas pessoas se dão conta de que cruzar o Jacuí e seus tributários tem sido um desafio de séculos. Cachoeira se aproxima rapidamente de seus 200 anos de história oficial, descontados aí os primeiros tempos de ocupação a partir de 1750, quando o Jacuí dominou (e segue dominando) a cena, uma vez que a cidade se desenvolveu a partir de sua existência. Como a navegação comercial desapareceu da vida corrente, por vezes esquecemos do quanto ela já foi preponderante e de que justamente por isto necessitava de disciplinamento para funcionar de forma que atendesse usuários e prestadores dos serviços.

Na documentação do Arquivo Histórico há várias tabelas contendo taxas de passagens e o quanto de impostos incidia sobre o serviço. Em uma delas, de 12 de novembro de 1862, assinada pelo secretário da Câmara Municipal, Antonio Joze de Almada, tem-se uma ideia dos valores dos impostos cobrados dos diferentes veículos da época quando de sua travessia pelos rios. 

Tabella

Do imposto de paSsagem de rios
1.º De carreta ou cousa semelhante tirada por bois, carregada 2$000 reis; em meia carga 1$280 reis, e descarregada 1$000 reis.
2.º De carretilha, omnibus, ou cousa semelhante, tirada por cavallos ou bestas, metade das quantias designadas no numero acima.
3.º Por paSsar a carga de uma carreta 1$000 reis; por meia carga 500 reis. Pela de cada carretilha ou carroça metade do imposto.
4.º Por cargueiro carregado 200 reis, descarregado 100 reis.
5.º Por passar a carga de um cargueiro 120 reis.
6.º Por paSsar animal cavallar, muar ou vaccum 80 reis.
7.º Por animal ovelhum, cabrum ou suino 40 reis.
8.º Por peSsoa 80 reis.
9.º Por paSsar carreta em paSso onde não houver barca 500 reis.
10.º Por paSsar a reboque animal cavallar, muar, ou vaccum 80 reis.
11.º Por canoa que se empregar em puxar madrinha de tropa, ou em dirigir animaes soltos 400 reis.
Estando o rio cheio fora do leito serão dobradas as passagens.
Cachoeira 12 de Novembro de 1862
Conforme
O Secretario
A. J. d'Almada

Tabela de 12/11/1862 - CM/S/SE/RG-Caixa 22
Documentos, como a tabela acima, remetem-nos muito além do conteúdo que expõem. Dão-nos ideia de muitas outras coisas que o tempo levou.

MR
sexta-feira, 31 de agosto de 2018 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Materializando o passado

O passado pode se materializar quando lemos um documento produzido há muito tempo. As palavras, com sua força expressiva, são capazes de descrever cenários, desvendar sentimentos. Por isto história e literatura são tão próximas e tão parceiras na reconstituição do tempo.


Esta é a sensação despertada por uma ata de sessão extraordinária da Câmara Municipal que registrou acontecimento festivo do dia 31 de janeiro de 1830, época em que a Vila Nova de São João da Cachoeira se constituía de poucas ruas, almas* e fogos**. Naquele dia, os vereadores saíram trajados de gala e se dirigiram à Igreja Matriz, depois participaram de uma procissão pelas ruas. A descrição do secretário que lavrou a ata é destes registros que de fato permitem que o passado ganhe corpo:

Ata de sessão extraordinária de 31/1/1830 - CM/OF/A-002
- fl. 36

CM/OF/A-002, fl. 36v - Acervo documental Arquivo Histórico

[Anotado na folha 36]
SeSsão Extra-Ordinaria do dia 31 de Janeiro 1830 =

Dada a hora, e feita a chamada achárão-se presentes Seis Senhores Vereadores, faltando com causa o Senhor Pinto.

Declarou o Senhor Presidente aberta a Sessão.

Leu o Secretario a Acta da antecedente, que ficou approvada.
Seguio a Camara vestida de Grande Galla, a Igreja Matriz, por entre concurrencia de pôvo; ali postada huma Guarda do Bacthalhão e Estrangeiros Numero vinte e trez, commandada por hum Cappitam, e hum Tenente, estando toda a Tropa ricamente vestida, se fizerão as continencias do custume; e o Muito Reverendo vigario de Capa d’Aspergé, veio á porta da Igreja receber a Camara. Tomando a Camara aSsento mais se arrebatou pela concurrencia do Povo, e a parte, que tomárão neste festejo. As Auctoridades, vestidas de Galla Grande coadjuvárão ao brilho; fazendo realizar a elegancia com que esteve ornada a Igreja; as Alfaias as mais ricas; as luzentas Bambicullas, que tremião; o Throno illuminado, fazião recuar a vista, sucumbir a imaginação, e expontaneamente apparecia a saptisfação geral. Então emtrou a Missa Solemne, emtoada pelo Muito Reverendo vigario, seguido da melhor Musica de Paiz; expoz-se o Senhor no Trono; e na sua Expozição, e segundo o custume a Tropa deu quatro salvas, sendo de trez descargas cada huma. Nam houve Sermão por falta de Orador. No fim se emtrou o Te Deum, solemnisado pela orquestra, e muzica, seguido de trez descargas: não faltando no fogo artificial de ar, cujo estrepido reSsoava de continuo; cujo fumo, formava como que huma nuvem dença.
Emtam se recolhêo a Camara, adiada a Sessão, e ás quatro horas da tarde, achando-se reunida a Camara na Salla das Sessoens, se encaminhou a Igreja Matriz, e depois das Venias do custume princi-
[Anotado na folha 36v]
principiou a ProciSsão, seguida de todas as Irmandades, Clero, e Nobreza; e apoz a Camara, e a Guarda, correndo a Villa se notárão as Ruas matizadas de flores, e folhagens, e as janellas guarnecidas ricamente, e occupadas pelo bello sexo, ornado emtam com elegancia, e os ares estrepidando de continuo com o fogo artificial.
Recolhida a ProciSsão, ao emtrar do Sol, se emSserrou o Sacramento; todos se recolherão, e chegando a Camara a Salla das Sessoens, Declarou o Senhor Presidente feichada a SeSsão extraordinaria.

E para constar se lavrou esta Acta, em que assignárão.

Eu João Jozé da Silva, Secretario a escrevÿ ---
[Anotado rente à margem direita]
Jozé Custodio Coelho Leal
Ignacio Roiz’. de Carv.o
Antonio Xavier da Silva
Joze Gomes de Oliveira
Gaspar Fran.co Glz.’
Manoel Alvares dos Santos Pessôa


CM/OF/A-002, fls. 36 e 36v


Esta postagem homenageia a nossa colega Maria Lúcia Mór Castagnino, a Ucha, cuja aposentadoria se impôs, privando-nos de sua presença e precioso auxílio. Muitos dos documentos da nossa história passaram por ela, traduzindo e materializando as informações do passado.

Ucha transcrevendo documento

*almas: pessoas, habitantes
**fogos: casas, lares

MR
sexta-feira, 24 de agosto de 2018 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Arquivo sendo mais que Arquivo

Algumas cidades - e não são muitas - podem se dar ao luxo de exibir orgulhosamente um arquivo histórico. O de Cachoeira do Sul, criado em 5 de agosto de 1987, é o depositário da documentação de valor histórico, tendo como ponto de partida a data da instalação da Vila Nova de São João da Cachoeira, em 5/81820.

A rica, variada e excepcional documentação existente no Arquivo Histórico atende aos mais variados interesses e tem sido regularmente procurada por diferentes pesquisadores. Dos cidadãos comuns aos pós-doutorados, passando por professores, estudantes ou simplesmente curiosos, todos saem da instituição com alguma informação de seu interesse.

Recentemente foi localizada dentre a documentação do período Intendência Municipal uma correspondência de Bromberg & Cia., empresa que por muitos anos teve agência em Cachoeira, dirigida ao intendente municipal, em 13 de fevereiro de 1924, com a interessante informação de que o mecânico Otto Mernak tinha todas as condições de montar os filtros adquiridos pelo município:


Ofício de Bromberg  & Cia. - IM/S/SE/OR-Caixa 10
A par da informação constante no documento, hoje amplamente conhecida pela capacidade que Otto Mernak teve de instalar no município a maior fábrica de locomóveis da América Latina, pôde-se instrumentalizar um dos tantos pesquisadores que circularam pelo Arquivo Histórico na presente semana e que casualmente está empenhado na elaboração de seu TCC de graduação que versará sobre... Otto Mernak e sua indústria!

Felipe Couto - TCC de graduação
Na mesma ocasião, acadêmicos de Arquitetura da Universidade Federal de Santa Maria - Cachoeira do Sul estavam em busca de informações sobre sangas e cursos d'água e a plataforma portuária construída à margem do Jacuí.


Os acadêmicos Leonardo G. De Franceschi e Ramão C. Machado

Outro assunto de bastante interesse da comunidade acadêmica tem sido a história do distrito de Ferreira, local em que se ergue o campus da Universidade Federal de Santa Maria - Cachoeira do Sul.


 Rodrigo Pereira F.º,  Raquel Pahim, Tales Muradas e Bruno Mazuim 
- acadêmicos de Arquitetura - UFSM

A doutoranda Michele de Oliveira Casali, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, passou três dias pesquisando no Arquivo Histórico documentos do período Câmara Municipal (1820 - 1889), especialmente sobre justiça e polícia.


Doutoranda Michele de Oliveira Casali - UFRGS

Michele pesquisando em documentos e Marco A. Lemes em jornais
Outra atividade desenvolvida pelo Arquivo Histórico e de grande significado para difundir os serviços oferecidos pela instituição e o seu papel enquanto repositório da memória é a visita guiada. Recentemente um grupo de jovens do MOCOCA - Centro Comunitário estiveram conhecendo as dependências e atividades do Arquivo Histórico, ocasião em que um deles, Augusto Radkte, aproveitou para inteirar-se com Maria Lúcia Mór Castagnino sobre o serviço de genealogia.

Augusto Radtke inteirando-se sobre genealogia
com Maria Lúcia M. Castagnino

Jenifer Husek com Gabriel Luiz, Aramis N. Simões, Bruno Marcelo D. Silveira
e Augusto Radtke guiados no Arquivo Histórico por Mirian Ritzel

Arquivo sendo mais que arquivo. Instituição que guarda, preserva, disponibiliza e difunde documentos da nossa história. Uma comunidade só poderá orgulhar-se de suas instituições culturais se conhecê-las, quando então compreenderá a importância de seu trabalho e sua manutenção.

MR