sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Homenagem a Tupinambá Pinto de Azevedo

O Arquivo Histórico do Município de Cachoeira do Sul registra, com pesar, o falecimento do Dr. Tupinambá Pinto de Azevedo, advogado, promotor e professor universitário que não era cachoeirense (Tupanciretã, 1942), mas amou e legou à cidade um trabalho de pesquisa que resultou na obra Cachoeira do Sul Comarca - 150 anos de história, lançada originalmente em 1985 e reeditada em 1994, constituindo-se em fonte imprescindível quando o assunto é a história da comarca local.

Dr. Tupinambá Pinto de Azevedo

Cachoeira do Sul Comarca - 150 anos de história
2.ª edição - 1994

Tupinambá de Azevedo, quando jovem, colaborou com as páginas literárias do Jornal do Povo, participando de uma coluna intitulada NG, por onde desfilaram talentos das letras, como Sérgio Lezama, Pedro Port, A. C. J. Cunha, Cláudio Trarbach, N. J. Estrázulas, para citar alguns.

Em sua homenagem, buscou-se na coleção de imprensa do Arquivo Histórico um dos textos por ele produzidos e que foi publicado na edição de 14 de julho de 1964 do Jornal do Povo:

NG - Jornal do Povo - coleção de imprensa do Arquivo Histórico

A Trági-Comédia
Carnaval & Revolução apresentam o mesmo aspecto dúplice: tragédia e comédia. A festa (comédia) é celebrada abaixo de sangue, e a côr que a identifica não poderia ser outra, o vermelho. Já o lado trágico se mostra nas atitudes pretenso-puritanas de alguma facção revolucionária. Para êstes, a revolução é um rito, e se exige pompa para celebrá-lo. É o polo negro.
Le rouge e le noir, o vermelho e o negro, coexistindo em tôda insurreição armada.
Tomemos as três grandes revoluções da História: a inglêsa de 1642, a francêsa e a russa.
Os vermelhos de Cromwell* eram os seus soldados, os Independentes, de vermelho colête e estranhas atitudes. Excluiam de seu meio tudo que fôsse mundano; bebidas, o canto, mulheres, e mesmo as imprecações. Os alojamentos semelhavam templos ou oratórios e os sargentos tinham ares de pregadores. Atrás dessas características se escondiam temíveis combatentes.
E o negro? Puritanos inglêses  que se ocultavam sob pretos dominós, falavam uma linguagem impregnada de ódio, citavam sempre os mais cruéis textos do Velho Testamento, e queriam a vida sem alegria e prazer. Mandavam fustigar os atôres e assistiam ao castigo. Sádicos e moralistas. Eram o complemento dos vermelhos.
Na revolução francesa identificamos os vermelhos nos que seguiam Danton* no dizer de Ferdinandy*: o grande ator barroco da revolução, para quem só a violência contava.
De outro lado, os moralistas estilo - Saint Just*, que justificam os crimes com a necessidade de tornar pura a vida. Le noir. É aqui que encontramos também Robespierre*.
Mas, tanto o vermelho quanto o negro, e quaisquer outras facções que participavam da luta, se deslocavam num palco gigantesco que era a própria França, ou antes, era o "Terreur". Uma grande festa em que cada qual se julgava herói. O francês de 1789 vivia dias históricos, tinha consciência de sua participação no heroismo.
Sua linguagem tinha toques ridículos, era um falar empolado cheio de citações clássicas; as golas escondiam o pescoço e avançavam sôbre o rosto; gravatas, elas cobriam todo o peito.
E o chapéu! Triangular, também enorme, com penas coloridas. Eram atores e faziam questão de se pavonear...
A face vermelha da Saturnália* russa é óbvia. Representam-na os Soldados Vermelhos, chamados pelo povo de "Juventude de Lênin*".
Não apenas nas atitudes pareciam como que embriagados; a própria vestimenta lembrava personagens de peças bufas. Traziam o peito coberto de medalhas, insígnias, faixas coloridas, emblemas, fitas; portavam com acinte baionetas e pistolas. Mas eram comediantes temíveis, se despertavam jocosidade, mêdo também.
E o lado prêto? Está no ambiente solene e de puritana respeitabilidade com que se comemorou a vitória: Cita-se uma festa, durante a qual o Regimento Vohlhynico* deu um concêrto em benefício das vítimas da Revolução. 
No camarote do Czar* depôsto se acotovelavam agora umas 30 pessoas, marcadas pela dor e seriedade, gente do povo, alguns até há pouco banidos na Sibéria.
Representam a vitória.
Uma das mulheres que se achava no camarote desceu ao palco e iniciou a leitura de uma longa lista. Enumerou os mortos, os que estão na Sibéria, enfim, as vítimas do levante.
Como uma ladainha.
Quando finda a leitura há no teatro um "toque de pena, melancolia, resignação" (Paléologue*).
Ao lado do sangue a revolução exige ritos.
Nas Saturnálias havia um rei-de-mentira; no Carnaval, Momo; na Inglaterra, Cromwell; em França, Robespierre; na Rússia, Lênin. Até que ponto se empenharam êstes três últimos, na representação de seus papéis? Até que ponto usaram máscaras?

O texto de Tupinambá traz as reflexões de um jovem que vivenciava e procurava entender os primeiros tempos pós-revolução de 1964, estabelecendo relações com movimentos e personagens revolucionários icônicos da história mundial.

*
Thomas Cromwell -  ministro do rei Henrique VIII.
Georges Jacques Dantonum dos líderes da Revolução Francesa.
Georges Ferdinandy, escritor húngaro exilado na França.
Louis Antoine León de Saint-Just, pensador e político revolucionário francês.
Maximilien de Robespierrelíder radical da Revolução Francesa.
Vladimir Iliych Ulyanov, Lenin, um dos principais líderes da Revolução Russa de 1917.
Saturnália: festival romano antigo de culto a Saturno.
Regimento Vohlhynico: de Volhynia, província russa.
Czar Nicolau II, último imperador da Rússia, deposto pela revolução de 1917.
Maurice Paleólogue, embaixador francês na Rússia durante a revolução de 1917.

MR
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Cadeia empestada

A obra de restauração do prédio construído para sede da Casa de Câmara, Júri e Cadeia tem trazido à luz várias histórias relacionadas aos tempos em que ainda desprovidas das comodidades de um espaço para abrigar os vereadores e suas alfaias, a justiça e suas varas e a cadeia e seus presos as autoridades necessitavam recorrer à locação de casas. Tais casas, quase sempre inadequadas, serviam mal e insatisfatoriamente - e a um preço alto - às necessidades e aos objetivos de seus ocupantes. De longe a que abrigava a cadeia era a mais preocupante, pois além das condições mínimas para acomodar pessoas, a casa precisava oferecer segurança suficiente para evitar a evasão dos condenados.

Com o término da construção da Casa de Câmara, Júri e Cadeia, o primeiro espaço a ser ocupado foi o da cadeia, situado nos fundos do térreo do sobrado. A transferência dos presos para a "nova" prisão se deu em 16 de março de 1865. Aqueles detentos acompanharam ainda os ultimatos da obra e dividiram com os doentes abrigados na enfermaria militar que fora ali instalada, por sugestão do Imperador Pedro II, a condição de primeiros a se servirem do prédio que hoje se desvenda em muitas histórias.

Um documento de fevereiro de 1888 revela uma faceta deplorável do mundo vivenciado pelos detentos, dispostos em celas que então já contavam quase um quarto de século de ocupação. Trata-se de um ofício de Manoel Gomes Fialho, suplente em exercício do delegado de polícia, remetido à Câmara cobrando as responsabilidades do médico, Dr. Affonso Pereira da Silva, com o tratamento de um preso doente que estava exalando máu cheiro, infestando (...) as prizões:

Delegacia de Policia do Termo da Cidade da Cachoeira, 14 de Fevereiro de 1888.

                                                                       Illmºs. Snrs.

Achando=se recolhido por ordem do Delegado o preto João miseravel percizando dos auxilios da muita digna Camará como seja medico e botica pesso mandar o medico da Camara fazer a vesita visto que o dito preto acha-se em estado deploravel, exalando máu cheiro, infestando assim talvez as prizões e mais compartimentos da cadeia civil onde se acha recolhido.

Pesso mais a dieta para o dito preto; por espero que mande fazer a vesita, por um empregado da Camará.
                                                                     Deus guarde á VV.ªs SSª.

Illmºs. Snrs. Prisidente e mais Veriadores
da Camara Municipal desta Cidade.

                                                                     Mel Gomes Fialho
                                                            Delegado Suplente em exzercicio

Ofício do Suplente de Delegado - CM/S/SE/CR-018

A correspondência do delegado suplente foi acolhida em sessão da Câmara e providências foram cobradas do médico que prestava assistência aos doentes pobres e presos da cadeia, o Dr. Affonso Pereira da Silva. Uma longa carta foi remetida à Câmara pelo médico naquele mesmo dia 14 de fevereiro:

Respondendo ao officio de V.S.ª de hoje dactado, no qual se me ordena que preste as informações necessarias, á vista das reclamações do Sr. Suplente da Delegacia, em exercicio, contidas no officio que junto se me remete; tenho a informar o seguinte: Não é exacto que o preto João, recluso na cadeia civil d'esta cidade, esteja sem minha assistencia medica, porque, alem da minha affirmativa, encontrão-se na referida Cadeia os medicamentos por mim prescritos no dia 12 d'este, devendo tambem existir na Pharmacia a receita, que os pedio. Entre os medicamentos está a agua phenicada para com elle proceder á desinfecção das feridas roupa e aposento. É este um dos medicamentos apropriados para tal fim e não as fumigações de assucar, como hoje verifiquei, e ervas e rezinas aromaticas e não sei - quaes mais - no entender d'essa authoridade, que para tanto carece de authoridade. O que ella devia fazer, conforme muito recommendei, ao carcereiro, era mudar o doente do aposento em que se acha, e que é justamente o mais improprio para o cazo de que se trata, por não se prestar a ventilação, para outro que melhor se prestasse a renovação do ar. Quanto ao necessario para sustento do referido doente João, nada posso informar positivamente por ignorar as condicções pelas quaes obteve a sua alforria. Junto devolvo a V.S. o officio do Sr. Supplente da Delegacia, em exercicio, de hoje datado, e que versa sobre o assumpto d'esta. 

                                                                     Deus Guarde a V.S.

Illm.ºSr. Presidente da Camara
Municipal d'esta Cid.e

                        Cachoeira 14 de fevereiro de 1888
                                O Medico da Camara
                                Dr. Affonso Per. da S.


Resposta do médico - CM/S/SE/CR-018

Como se vê pelos documentos acima transcritos, a solicitação do delegado à Câmara foi no mesmo dia atendida, mostrando uma diligência hoje incomum; por outro lado, revelam as condições totalmente insalubres das prisões, o estado subumano do enfermo que ao se livrar dos grilhões da escravidão pela alforria viu-se preso às malhas da justiça, permite a observação do confronto entre os medicamentos prescritos pelo médico e as práticas populares empregadas nos tratamentos e, por fim, alfinetadas entre a autoridade policial e a autoridade médica...

MR
segunda-feira, 23 de janeiro de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Espertezas do passado

Em 10 de dezembro de 1888, o cidadão Miguel C. Dias de Moura encaminhou à Câmara Municipal uma solicitação de que fosse certificado se o actual carcereiro - José Candido Alves Brilhante - tem ou não recebido d'essa Illustrissima Camara os dinheiros necessarios ao pagamento das despesas feitas com o aceio interno da Cadêa civil d'esta cidade; e, em caso affirmativo, qual a importancia recebida pelo mencionado carcereiro durante o tempo em que se acha elle no exercicio do respectivo cargo.

Requerimento de Miguel Dias de Moura
- 10/12/1888 - CM/S/SE/CR-018

No dia 26 de dezembro de 1888, a mesma Câmara foi destinatária de uma declaração do mesmo Miguel Dias de Moura dizendo que lhe constando existir uma petição assignada com o nome do Supp.e - sobre negocios da Cadeia; vem declarar a esta Illmª Camara, que nada tem relativamente sobre tal petição, visto não ter assignado papél algum q, disto tratasse. 


Declaração de Miguel Dias de Moura
26/12/1888 - CM/S/SE/CR-018

Então, o que se pode deduzir do fato se os documentos enviados à Câmara são conflitantes, embora emitidos no mesmo nome, e as assinaturas não conferem?

O fato é que em 29 de janeiro de 1889 o delegado de Polícia, Hilario Jozé de Barcellos, oficiou ao presidente da Câmara, Francisco Gomes Porto, dizendo que:

Ofício do Delegado de Polícia
- 29/1/1889 - CM/S/SE/CR-019

Tendo VSª se dignado communicar-me que a Illmª Camara Municipal nomeara uma commissão para examinar se o Carcereiro cumpre com as obrigações de sêo emprego, em relação ao que está afecto a essa Municipalid.e, ordenei ao referido empregado pª franquear o edificio da cadeia a commissaõ nomeada, a qualquer hora do dia ou da noite.

Tal documento denota que a Câmara Municipal procurou assegurar a veracidade dos fatos e para tanto nomeou uma comissão composta pelos vereadores Antonio Nelson da Cunha, Ismael Alves d'Almeida e João Thomaz de Menezes Junior para examinar detidamente o cumprimento das obrigações a que está sugeito para com a Camara o Carcereiro da Cadêa Civil desta Cidade. O delegado foi comunicado, franqueando o acesso da dita comissão à cadeia.

Na dúvida, melhor verificar os fatos. Transparência ontem, hoje e sempre!

MR
segunda-feira, 16 de janeiro de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

A Comissão Rockfeller em Cachoeira

Em 1913 foi criada, nos Estados Unidos, a Fundação Rockfeller, entidade que tinha por missão promover ações de melhoria da saúde pública, estimulando o ensino, a pesquisa e a filantropia em países subdesenvolvidos. No Brasil, a Fundação Rockfeller estabeleceu sucursal no Rio de Janeiro em 1916 e na década de 1920 espalhou-se por outros estados, inclusive no Rio Grande do Sul, promovendo pesquisas científicas e incentivando a profilaxia das doenças endêmicas de então. Naqueles anos, em associação com o Departamento Nacional de Saúde Pública, a Comissão Rockfeller, nome adotado, focou sua ação no combate à ancilostomose, uncinariose ou amarelão, doença parasitária infecciosa intestinal causada por vermes que têm seu ciclo de desenvolvimento na terra, aonde chegam através das fezes humanas, infectando pessoas e animais. Como o saneamento básico era praticamente inexistente e não havia rede de tratamento de esgotos, a doença parasitária atacava a população em elevadas proporções.

Um dos grandes propagadores das medidas profiláticas para combate à doença foi o escritor Monteiro Lobato, criador do personagem Jeca Tatu que apresentava os sintomas clássicos da doença parasitária, como desânimo, perda de apetite, diarreia e vômito justamente por andar descalço, com rachaduras nos calcanhares, e não adotar medidas higiênicas capazes de evitar a proliferação dos vermes causadores da doença. A transformação do Jeca Tatu em sujeito disposto ao trabalho e participativo se deu quando ele passou a calçar sapatos e a adotar hábitos saudáveis. Tal história foi tão difundida que a moléstia acabou chamada popularmente de doença do Jeca Tatu.



Focando sua ação na profilaxia da doença, a Comissão Rockfeller começou a atuar em Cachoeira auxiliando o Posto de Prophylaxia Rural - Combate á Uncinariose em 1925, como atesta um recibo emitido em papel timbrado onde se lê Combate á Uncinariose - Posto em Cachoeira:

IM/RP/SF/D - Caixa 9

Recebi da Intendencia Municipal de Cachoeira, a quantia acima de trezentos e cincoenta mil reis (350$000) proveniente da subvenção votada para auxiliar a manutenção da "Comissão Rockfeller" e relativa ao mez de Novembro p. findo.

Cachoeira, 30 de Novembro 1925.
Dr. Francisco Salzano
Medico-chefe do Posto

O pagamento do valor de 350.000 réis solicitado pela Comissão Rockfeller foi autorizado em 12 de dezembro de 1925 pelo intendente João Neves da Fontoura e pago em 15 daquele mês.

Na década de 1940, a Fundação Rockfeller retirou-se do país, assumindo as funções o Serviço Especial de Saúde Pública.

Cachoeira foi um dos primeiros municípios do Rio Grande do Sul a fazer grandes investimentos no saneamento básico, trabalho que começou em 1921, com a construção da primeira hidráulica, na Praça Itororó, governo Aníbal Loureiro, seguiu em 1923/1924 com o início do lançamento da rede de esgotos, sob a administração do intendente Francisco Fontoura Nogueira da Gama, e culminou com o grande projeto que ampliou a distribuição de água com o complexo da segunda hidráulica, da qual faziam parte o Château d'Eau e o R2 da Praça Borges de Medeiros, durante o governo João Neves da Fontoura.

MR
sexta-feira, 6 de janeiro de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Moção de Cumprimentos ao Arquivo Histórico

A equipe do Arquivo Histórico sentiu-se lisonjeada e agradecida pela distinção que teve da legislatura anterior da Câmara de Vereadores de Cachoeira do Sul, através da apresentação de uma Moção de Cumprimentos dos vereadores, aprovada por unanimidade, parabenizando a instituição pelo excelente trabalho desenvolvido junto aos prédios históricos em processo de manutenção e restauro, como o da Câmara de Vereadores, o do Château d'Eau e o Paço Municipal, prédios estes de grande relevância para preservação e valorização da memória de Cachoeira do Sul.


Moção de Cumprimentos recebida em 28/12/2016

A Moção de Cumprimentos da Câmara de Vereadores ao Arquivo Histórico, iniciativa do então vereador presidente Homero Tatsch, valoriza as ações de guarda, organização e difusão da história político-administrativa de Cachoeira do Sul, redimensiona o papel que os documentos históricos preservados têm e podem oferecer e aumenta a responsabilidade de todos os profissionais envolvidos no criterioso trabalho de preservação da memória histórica local. 

Este reconhecimento tem que ser dividido também com o Conselho Municipal do Patrimônio Histórico-Cultural - COMPAHC,  sediado em suas reuniões e rotinas administrativas pelo Arquivo Histórico, e com o Movimento pela Recuperação do Paço Municipal, grupo de voluntários que lideram, junto com o Executivo Municipal, as obras de restauro daquele importante bem do patrimônio histórico-cultural cachoeirense. Para o COMPAHC e o Movimento, o Arquivo Histórico tem-se prestado como fonte de consulta para o levantamento histórico dos bens patrimoniais.

Encerrar um ano de trabalho com o reconhecimento público é encher-se de ânimo e otimismo para o ano que se inicia.

MR
sexta-feira, 30 de dezembro de 2016 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Devastação das matas ciliares

Cachoeira do Sul foi castigada pelas intempéries como nunca nos anos de 2015 e 2016. Enchentes, vendavais, granizo... fenômenos que desafiam o homem e ressaltam a sua impotência diante da força da natureza. 

Da mesma forma que o homem é sujeito das intempéries, ele também é agente de desajustes ambientais. E a preocupação com as ações humanas sobre a natureza, ao contrário do que possa parecer, não é própria dos tempos atuais, mas motivo de inquietação para muitos que ao longo dos tempos tiveram conhecimento e sensibilidade para perceber os efeitos funestos de determinadas práticas. Foi assim com José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência e patrono da principal praça de Cachoeira do Sul, com o conterrâneo Ramiro Fortes de Barcellos e com Antônio Augusto Borges de Medeiros, para citar algumas personalidades históricas que viram o meio ambiente com olhar de cuidado.

Borges de Medeiros, grande líder na política rio-grandense, como se vê pela circular que remeteu aos dirigentes municipais em 6 de maio de 1901, demonstrava grande percepção da importância das matas ciliares, o que para Cachoeira sempre foi fundamental, uma vez que a cidade tem no rio Jacuí uma fonte de riqueza imprescindível. As recomendações que fez, apesar da distância temporal, ainda são necessárias:


Circular n.º 742, de 6/5/1901
- IM/GI/DA/CR - Cx. 1

... recommendo-vos que prohibaes o córte de madeira nas florestas marginaes dos rios navegaveis e seus affluentes, dentro da faixa de 7 braças contadas do ponto médio das enchentes ordinarias para o interior, mesmo em mattos de propriedade privada, pois essa faixa é considerada de servidão publica, nos termos das leis civis em vigor, estando, portanto, o seu uso subjeito á fiscalisação do poder publico.

De 1901 a 2016, a legislação ambiental evoluiu muito, as discussões tornaram-se frequentes, inclusive em âmbito internacional, e muitas organizações civis foram criadas visando a proteção dos recursos naturais. No entanto, pouco ou quase nada resolveram... Localmente o rio Jacuí, apesar dos esforços de alguns e da legislação que deveria ser cumprida, já perdeu muito das suas florestas marginaes. Às gerações futuras cabe o papel de proteger o maior manancial hídrico, garantindo que ele siga sustentando e dando vida à Princesa do Jacuí.

Rio Jacuí - foto Robispierre Giuliani

MR
quarta-feira, 28 de dezembro de 2016 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Hora legal no Brasil

Todo verão, ou melhor, antes do início desta estação, o Brasil tem adotado o dito horário brasileiro de verão. Mas a que órgão compete verificar, corrigir e determinar a hora legal no Brasil? Tais questionamentos surgiram a partir da localização de um conjunto de documentos recebidos pela Intendência Municipal em março de 1914, trazendo ao conhecimento das autoridades o decreto que estabelecia a hora legal no Brasil.

Ofício n.º 279, de 13/3/1914
- IM/GI/DA/ADR - Cx. 1

A hora legal no Brasil, como atesta o ofício acima, foi determinada pelo Decreto n.º 10.546, de 5 de novembro de 1913. Pela lei n.º 2.784, de 18 de junho de 1913, o Observatório Nacional, no Rio de Janeiro, seria o encarregado da determinação da hora, bem como a sua transmissão, para fins geographicos ou maritimos, pelo telegrapho commum e sem fios e pelo "Balão" ou Ttme-baloon, de accordo com o regulamento vigente e as convenções internacionaes que vigorarem.



Anexos ao ofício n.º 279, de 13/3/1914
- IM/GI/DA/ADR - Cx. 1

Hoje a Divisão Serviço da Hora do Observatório Nacional (DSHO) é uma unidade de pesquisa do Ministério da Ciência e Tecnologia e suas atribuições são desenvolver atividades de pesquisa, ensino e serviços nas áreas de Astronomia, Geofísica e Metrologia de Tempo e Frequência, sendo legalmente responsável pela geração, conservação e disseminação da Hora Legal no Brasil, cujo parâmetro é o horário de Brasília, Distrito Federal. (http://pcdsh01.on.br)

Eis o quadro das correções para aplicar aos relógios,  marcando o tempo médio local das capitais do Brasil em 1913, documento que estava anexado ao ofício n.º 279:

Quadro das correções aos relógios das capitais em 1913
- IM/GI/DA/ADR - Cx. 1

Quanto ao horário de verão (http://pcdsh01.on.br/HistoricoHV.html), ele foi instituído pela primeira vez no Brasil em 1931, com fins de economizar a energia elétrica. Era chamado naquele tempo de Hora de economia de luz no verão. Passados 85 anos, a justificativa para adoção do horário de verão segue a mesma... Como se vê, o passado ainda dita - e muito - o nosso presente!

MR