sexta-feira, 13 de outubro de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Encontrada a cápsula do tempo do 3.º BECmb

Na manhã do dia 6 de outubro de 2017, soldados do 3.º Batalhão de Engenharia e Combate de Cachoeira do Sul fizeram o passado emergir da terra quando localizaram a cápsula do tempo que foi depositada sob a pedra fundamental dos quartéis, festivamente lançada em 2 de abril de 1922.

Naquele dia 2 de abril, estiveram em Cachoeira o Ministro da Guerra, João Pandiá Calógeras, General Cândido Rondon, chefe da Diretoria de Engenharia do Exército, outros oficiais e representantes da Companhia Construtora de Santos, empresa executora das obras.

João Pandiá Calógeras - Ministro da Guerra
Cândido Rondon - Diretor de Engenharia do Exército

Recebidas pelo intendente Aníbal Loureiro, as autoridades foram levadas para conhecerem o terreno em que se assentariam os quartéis, cedidos pela Intendência ao Ministério da Guerra depois de terem sido adquiridos por compra a Virgílio Carvalho de Abreu e Virgilino Carvalho Bernardes.

Intendente Annibal Loureiro

O jornal O Commercio, edição de 5 de abril de 1922, traz a notícia da grande movimentação daquele dia 2:

Lançamento festivo da pedra inicial dos trabalhos da construcção do quartel de Engenharia
A visita do Ministro da Guerra

Conforme estava annunciado chegou ás 17 horas de 2, em trem especial, a esta cidade, o dr. João Pandiá Calogeras, Ministro da Guerra, que foi recebido na Estação da Via Ferrea por todas as auctoridades locaes e povo, dando-lhe as boas vindas, em nome da cidade, o dr. Annibal Loureiro, Intendente Municipal.
O dr. Calogeras viaja acompanhado de sua exma. esposa e dos snrs. Generaes Candido Rondon, Abilio Noronha e varios outros distinctos officiaes de varias patentes. Com S. Exa. tambem viajam o dr. Roberto Simonsen e exma. esposa e o dr. Ernani Azevedo, respectivamente presidente e chefe do departamento deste Estado da Companhia Constructora de Santos, sob cuja administração estão sendo construidos varios quarteis no Rio Grande, em São Paulo, S. Catharina e Matto Grosso.
Feitas as apresentações protocollares, S. Exa. o Ministro da Guerra e o dr. Annibal Loureiro, em landaulet, acompanhados de varios automoveis occupados pela comitiva ministerial, seguiram em rapido passeio pela cidade, dirigindo-se em seguida, pela rua Andrade Neves e caminho do Seringa, rumo ao terreno escolhido para construcção do quartel do 3.º Batalhão de Engenharia.
Este terreno, que é localisado proximo á cidade, em optima situação topographica, foi adquirido pela municipalidade e doado ao Governo Federal.
Após percorrer cuidadosamente todo o terreno e examinar o rio Jacuhy, S. Exa. muito bem impressionado, approvou o projecto da locação dos edificios, autorisando o inicio dos trabalhos.
Foi, então, pelo nosso amigo Emiliano Carpes, nomeado secretario ad-hoc, lavrado, em pergaminho, uma acta commemorativa do inicio dos trabalhos; após sua assignatura pelo Ministro e demais pessoas gradas o dr. Roberto Simonsen, em nome da Companhia Constructora de Santos, offereceu aos presentes uma taça de “champagne” e saudou em termos encomiasticos o sr. Ministro da Guerra pela fecunda actividade desenvolvida neste importante departamento governamental.
Terminou levantando sua taça em honra de S. Exa., no que foi correspondido por todos os presentes.
Fallou em seguida o dr. Annibal Loureiro que disse, em resumo, que a cidade se ufanava com a visita do sr. Ministro e que o municipio tinha immensa satisfação em offerecer ao Governo Federal a área de terreno necessaria á construcção de quarteis, para o abrigo de suas tropas; que era justamente proclamada e por todos reconhecida a sua extraordinaria operosidade na pasta da guerra; que a reorganisação do exercito constituia obra de tamanha magnitude que a sua realisação ou simples emprehendimento valia por um justo titulo de benemerencia publica, de admiração e reconhecimento das gerações presentes e futuras; a ella nos associariamos, com todo o ardor patriotico, prestando sincera coadjuvação; que era bem possivel que após a conflagração mundial, pela dura licção dos factos demonstrativos de que nas guerras nem mesmo a victoria por mais resplandecente que seja compensa os ingentes sacrificios despendidos, para obtel-a, venham os povos a desfructar uma longa era de pacificação; mas, emquanto a Humanidade não atingir a um elevado grau de aperfeiçoamento, pelas tristes contingencias humanas e sociaes e mesmo em face da acção pouco efficiente da Liga das Nações e dos congressos de desarmamentos, estariamos ainda, quem sabe até quando, sujeitos a uma vida de paz armada, synthetisada pelos latinos, com admiravel concisão, na maxima se vis pacem para bellum; que, por isso, a Nação que compõe o proprio exercito applaudia a sua acção e acompanhava jubilosa a sua jornada através do territorio patrio, no afan patriotico de implantar marcos que assignalariam as linhas de defesa nacional, dentro das quaes o Brasil saberia manter respeitadas a sua integridade e soberania.
Terminou, levantando sua taça em homenagem ao snr. Ministro e á grandeza e prosperidade da Patria, sendo suas ultimas palavras cobertas por uma salva de palmas.
A esta saudação respondeu o dr. Pandiá Calogeras em eloquente saudação, cuja summula deixamos de transmittir aos nossos leitores, receiosos de trahir o seu pensamento, na impossibilidade em que nos encontramos de submettel-a á sua revisão.
Recordamos, porém, que Sua Exa., agradecendo, em nome do Governo Federal, a doação feita pelo Municipio dos terrenos destinados á construcção dos quarteis, referiu-se encomiasticamente á solicitude da Municipalidade e á cooperação patriotica que, neste sentido, tem encontrado em todos os elementos sulriograndenses.
Finalisou o seu discurso, entregando as obras á actividades dos constructores, á competencia da Directoria de Engenharia do Exercito, representada naquelle acto pelo seu respeitavel chefe, General Candido Rondon e finalmente ao carinho da população de Cachoeira.     
Suas ultimas palavras provocaram na numerosa assistencia prolongados applausos.
Em seguida, dirigiram-se todos para o local do marco inicial das obras, afim de se proceder á cerimonia de sua implantação, tendo S. Exa. lançado a primeira pá de cimento.
Terminada a solemnidade, o Ministro e sua comitiva dirigiram-se para a estação da Viação Ferrea, afim de prosseguirem viagem para Rio Pardo e Caxias.
Á hora da partida, o dr. Annibal Loureiro offereceu a Mme. Calogeras um ramalhete de flores naturaes e a pequena pá de prata com que o snr. Ministro lançou a primeira argamassa de cimento sobre a pedra fundamental das obras.
Sua Exa. partiu ás 19 horas, agradavelmente impressionado não só com o acolhimento que teve como tambem com o estado de vitalidade e progresso que notou na cidade.
Á noite, em regosijo pela inauguração da construcção dos quarteis que muito contribuirão para o progresso e desenvolvimento local, o dr. Annibal Loureiro offereceu um jantar intimo a varias pessoas das suas relações, sendo ao dessert saudado pelo dr. Balthazar de Bem e advogado Antunes de Araujo, que enalteceram a sua administração.
Agradecendo, o dr. Annibal levantou o brinde de honra ao dr. Borges de Medeiros, a quem, disse, Cachoeira muito devia, no que foi calorosamente applaudido.
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As obras da construcção do quartel para o 3º Batalhão de Engenharia estão, como dissemos acima, a cargo da Companhia Constructora de Santos, estando aqui, ha varios dias, incumbidos dos trabalhos iniciaes os srs. dr. Victor Cavagnari, engenheiro, e Ernani Oliveira, almoxarife.
Estão feitos no campo todos os trabalhos de locação de edificios, que são em numero de quatorze. Muito breve serão iniciados os trabalhos de abertura dos alicerces, sendo as obras em seguida atacadas vigorosamente, pois o Ministro da Guerra pretende vel-as terminadas em Novembro proximo.

Um dos momentos daquele memorável dia, embora a notícia do O Commercio não refira, foi a colocação, junto à pedra fundamental, de uma cápsula do tempo contendo jornais e moedas da época. O incrível é que, 95 anos depois, a cápsula foi encontrada quase intacta! No interior da caixa de metal, exemplares dos jornais locais O Commerciode 15 de março de 1922, Cachoeirense, de 1.º de abril de 1922, A Palavra, de 2 de abril de 1922, A Manhã, de Porto Alegre, de 1.º de abril de 1922,  A Federação, de Porto Alegre, de 30 de março de 1922, Correio do Povo, de Porto Alegre, de 2 de abril de 1922, e Diario do Interior, de Santa Maria, de 1.º de abril de 1922. Há também, bastante deteriorada, parte do relatório da Companhia Constructora de Santos, de 1919-1920, provavelmente ilustrado com as obras empreendidas pela companhia naquele biênio.  Integravam ainda a caixa, quatro moedas de diferentes valores de réis, que era o dinheiro da época.

O conteúdo se revela

Trazida ao Arquivo Histórico por Osni Schroeder, presidente da Associação Cachoeirense de Amigos da Cultura - AMICUS, para ser analisada, a cápsula acabou revelando um conteúdo com alta significação histórica não apenas por proporcionar uma viagem no tempo, mas também por permitir que viessem à luz exemplares de jornais que se tornaram muito raros em nossos dias, caso de A Palavra, de cunho político dirigido por Fábio Leitão e de existência efêmera, como seu diretor, cuja coleção se perdeu, e o Cachoeirense, que porta um título que se repetiu na história da imprensa cachoeirense e que circulou por pouco mais de 10 anos, editado por Francisco Antônio Dias.

Osni Schroeder e a cápsula
O conteúdo da cápsula se revela
Raro jornal A Palavra
Igualmente raro jornal Cachoeirense
O Arquivo Histórico, como instituição de memória documental, agradece ao Comandante do 3.º BECmb, Coronel Guilherme Stagi Hossmann, que confiou na equipe da instituição para custodiar temporariamente o importante e inédito achado, dando-lhe o tratamento inicial conveniente.

A cápsula do tempo, tal como nos filmes de ficção científica, literalmente permite uma viagem ao passado, encontrando nele os vestígios de um dia que entrou para a história.

2/4/1922 - um dia para a história - Foto de Benjamin Camozato
- Grande Álbum de Cachoeira - 1922

MR
segunda-feira, 9 de outubro de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

60 anos do edifício-sede do Clube Comercial

No dia 5 de setembro de 2017 transcorreram os 60 anos da inauguração do edifício que serve de sede ao Clube Comercial, uma das sociedades mais tradicionais de Cachoeira do Sul.

Edifício do Clube Comercial - Rua 7 de Setembro
- foto institucional
A construção da sede própria foi sonho acalentado por gerações de associados, o que começou a se concretizar em 1945, quando um terreno e prédios localizados na Rua Sete de Setembro, esquina General Portinho foram adquiridos do casal Dr. Arthur Frederico Decker e Célia Decker. Em junho de 1949 foi lançada a pedra fundamental do edifício, com projeto desenvolvido pelo desenhista Ervino Brandt. A obra foi executada pela firma construtora Roberto Jagnow & Cia. Ltda., sob a direção técnica do engenheiro Hugo Schreiner.

Planta do edifício do Clube Comercial, projeto de Ervino Brandt
 - Acervo Arquivo Histórico
Símbolo do Clube Comercial
inserido no frontão do prédio 

Os jornais O Comércio e Jornal do Povo noticiaram largamente a movimentação local em torno das solenidades inaugurais da nova sede, marcadas para 5 de setembro de 1957:

As festividades inaugurais da nova sede do Clube Comercial. Sessão solene oficial amanhã, às 20 hs. - Banquete - Grandes bailes, dizia O Comércio, edição de 4/9/1957, p. 1.


O Comércio , edição de 4/9/1957 - Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico

Acontecimento auspicioso para Cachoeira do Sul. Imponente e Magestosa inaugura-se a nova sede social do Clube Comercial - Fruto grandioso da tenacidade, trabalho profícuo e denôdo de seus dirigentes e associados, publicou o Jornal do Povo em sua edição de 7 de setembro de 1957, p. 4, com sequência na seguinte:



Engalana-se a sociedade cachoeirense ao ensejo da festa inaugural da nova sede do CLUBE COMERCIAL. Acontecimento faustuoso de elevada significação dos anais sociais da Princesa do Jacuí - Vibram os associados comercialinos por tão grato ensejo - A programação.




O discurso inaugural foi pronunciado pelo Dr. Mário Godoy Ilha, escolhido por sua condição de mais antigo presidente vivo da sociedade. O presidente à época, Edwino Schneider, encontrava-se em excursão pela Europa. Os vice-presidentes eram Mário F. Ghignatti (1.º) e Dr. Ângelo da Cunha Carlos (2.º).

Dr. Mário Godoy Ilha - fototeca Museu Municipal

Há 60 anos o imponente prédio do Clube Comercial domina tradicional esquina da Rua Sete de Setembro. Ponto de encontro da sociedade cachoeirense por muitos anos, o endereço viveu dias de glória e encantamento, servindo suas dependências e artístico salão como cenários para momentos inesquecíveis.

Inventariado como patrimônio histórico-cultural, o prédio mantém características únicas no cenário urbano, refletindo tendências arquitetônicas próprias do final da década de 1950, início da de 1960, quando a estética da moda era a modernista, tendo Brasília como inspiração.

MR
quarta-feira, 27 de setembro de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

A escrava que foi a pé até Rio Pardo

Uma série de documentos advindos dos aparelhos da justiça, com datas anteriores à Revolução Farroupilha e que estão cuidadosamente preservados no Arquivo Histórico, começaram a passar por processo de transcrição. Sob o olhar atento da assessora Maria Lúcia Mór Castagnino, a Ucha, as urdiduras do passado têm vindo à tona. E as situações são surpreendentes e às vezes inusitadas, revelando aspectos de um tempo distante e absolutamente distinto do atual.

Ucha em atento trabalho de transcrição

O documento em transcrição é um auto cível de averiguação, datado de 16 de dezembro de 1829, cujo suplicante era Jozé Raimundo da Cunha, senhor da escrava Matildes, que estivera desaparecida desde setembro daquele ano. A audiência e lavratura dos correspondentes registros foram feitas

em caza de morada do Juis de Pás Suplente o Capitão Bernardo Moreira Lirio onde Escrivão do seu Cargo adiante nomeado e asignado foi vindo e sendo ahi tão bem prezente o Capitão Jozé Raimundo da Cunha (...). 


Primeira página dos Autos - Acervo Justiça

Perguntado pelo juiz se a escrava era sua e a quantos anos, Jozé Raimundo respondeu que Matildes era de sua propriedade há 34 anos, havida por dote de sua sogra, D. Jacinta Maria de Jesus, viúva de Antonio Simoins Teixeira, e que estava desaparecida desde setembro de 1829. Inquerido sobre o motivo da fuga,

Respondeu que sabia que Niceto Ferreira Lopes a tinha ceduzido para a fuga dizendo-lhe que ella hera Liberta no batismo que elle Aniceto tinha vendido para Porto Alegre a Jozé Francisco Duarte a certidão de edade e dinheiro que dela tinha recebido para promover a sua Liberdade.

Passando a interrogar a escrava, acompanhada pelo curador para isto nomeado, Jozé do Prado Lima, o juiz perguntou-lhe se de fato havia sido escrava do casal da

Finada dona Jacinta Maria de Jesus e se tinha passado ao poder do suplicante e como. Respondeu que tinha sido Escrava de Joze Ramos morador na Capella de Viamão que dele passou ao poder de Dona Jacinta Maria de Jesus e que desta passou ao poder do Suplicante em dote por se aver cazado com dona Angelica filha da mesma Dona Jacinta Maria de Jesus. 

O juiz perguntou ainda se durante todo esse tempo ela estava

serta de que hera captiva e como tal o servira. Respondeu que nunca duvidou do seu captiveiro e que porisso sempre servio bem a seus Senhores sem que tivese praticado alguma fuga senão a prezente. Preguntoulhe porque tendo ella sido sempre boa Escrava e servido bem a seus Senhores agora lhe tinha fugido de caza. Respondeu que tendo seu Senhor justado ao Carpinteiro Aniceto Ferreira Lopes para trabalhar nas Cazas que edeficou nesta villa e axandoce ella Interogada na mesma obra para Cuzinhar e fazer os mais serviços Nesessarios para o dito Carpinteiro e mais trabalhadores o mesmo Aniceto a entrou a ceduzir dezendo lhe que ella héra Liberta no Batismo e que elle sabe disso pela sua Certidão de Idade ese lhe oferecia para Cuidar na sua Liberdade e que por este principio lhe for alcanssando algum dinheiro que ella tinha adequirido de suas quitandas athe a quantia pouco mais ou menos de sete do Blas, e que afinal lhe dera um Papel dizendo ser asua Certidão de Batismo o qual tornou a receber no fim de tres dias a Conselhando-a que devia hir para Porto Alegre porque aqui se não poderia arumar e que ella Interogada Convencida de que odito Aniceto lhe falara verdade tratou com elle seguir para a dita Cidade e então elle lhe dice que seguice e se aprezentace a Joze Francisco Duarte que elle Aniceto Já lhe tinha enviado dinheiro e os Papeis para se lhe fazer o requerimento ao Senhor Prezidente. E que ela Interogada convencida de tudo a couza de dois mezes e meio se auzentou da Caza de seu Senhor siguindo a pé athe a Villa do Rio Pardo e dali embarcada athe Porto Alegre. 

A pobre escrava iludida foi a pé até Rio Pardo e de lá embarcou para Porto Alegre atrás da sua liberdade! Tal trajeto, certamente eivado de toda sorte de situações, ganha aos olhos de hoje um caráter fantástico. Quanto tempo teria levado para percorrer a distância entre a Vila da Cachoeira e a Vila do Rio Pardo? Que tipo de obstáculos encontrou? Como e onde dormiu? Alimentou-se de que forma? Que suspeitas despertou, sendo uma cativa? Perguntas que o documento não responde, abrindo espaço para a imaginação dos leitores.

Em seu depoimento, Matildes contou que chegando em Porto Alegre procurou o indicado Joze Francisco Duarte que disse

qui não tinha recebido papeis nem dinheiro algum e que tinha recebido uma carta mais que não a achava. E que ella Interogada entrando no conhecimento de que tinha sido Lograda só esperava o momento de vir para caza de seu Senhor por ter procurado certificarce da Verdade athé pasando a Capela de Viamão e examinando o asento do seu Batismo que veio achar na Camara Ecleziastica da mesma Cidade de Porto Alegre, e que assim desemganada e aparecendo lhe ali seu Senhor moço Zeferino Jozé da Cunha com elle voltou a caza de seu Senhor onde se acha. 

Última página dos Autos - Acervo Justiça

Triste a sina da escrava Matildes. Sonhando com a liberdade, saiu estrada afora. Frustrada em seu intento, só lhe restou voltar para casa e para o cativeiro. Mal ou bem, a casa de seu senhor era o seu único porto seguro.

Quanto ao sedutor da escrava Matildes, Aniceto Ferreira Lopes... Sumiu! Sabe-se lá se não foi aplicar o mesmo golpe em outra freguesia.

MR
segunda-feira, 18 de setembro de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Arrombaram a loja do estrangeiro!

Um documento do acervo da Justiça, mais especificamente um auto de corpo de delito feito em 16 de janeiro de 1832, mais do que um registro da sistemática da época, fornece, 185 anos depois do acontecido, detalhes do que uma casa comercial de fazendas oferecia à sua clientela e a forma como o proprietário recolhia a féria das vendas.

1.ª folha do auto de corpo de delito - 16/1/1832
- Acervo documental de Justiça
Última folha do auto de corpo de delito

Desde 1829 Cachoeira contava com uma casa comercial bastante sortida e de longe a maior da redondeza, propriedade de Antônio Vicente da Fontoura, figura proeminente na política da época. Eis que a peça judicial apresenta uma loja de fazendas, que vendia também outras mercadorias, pertencente ao estrangeiro Estevão Lombardo, presumivelmente o primeiro italiano a se estabelecer em Cachoeira, em que pese não haver registro de outro anterior.

Pois a loja de Estevão fora supostamente arrombada à noite, sem que do ato houvesse qualquer testemunha. O proprietário, ao chegar cedo à loja, antes do romper do sol, encontrou a porta aberta e dentro nenhum vestígio do arrombamento. No entanto, dera falta de muitas coisas:

(...) dinheiro de cobre tresentos mil reis em tres sacos sendo um saco de xita preta, e dois de Algodão Americano, que estavão debaixo do balcão, e assim mais tirarão de dentro de um Baul vinte dubloins de Espanha que estava dentro, em um pequeno saco de Algodãozinho que deixarão  ficar e assim mais duas correntes de ouro, de relogio que vendia a vinte mil reis cada huma, e assim mais sinco relojos Ingleses que os vendia a quinze mil reis cada hum e duas correntes falças de dois mil reis cada hua, dés vestidos de senhora bordados de vinte mil reis cada hum, dés vestidos brancos de dés mil reis cada hum, doze vestidos de triquin preto de oito mil reis cada hum, dois chales grandes de seda a onze mil reis cada hum, duas duzias de Lenços de seda pequenos de sinco pratas cada hum, doze luvas grandes de seda de senhora a seis patacas o par, doze pares de sapatos de seda de senhora a seis patacas o par, huma caixinha de folha contendo dentro seis memorias, de ouro de dés mil reis cada huma doze pares de brincos de quatorze e dezesseis mil reis huns pelos outros, dois alfinetes de peito de diamante de doze mil reis cada hum, hum cordão de oiro de pescosso de senhora de doze mil reis, duas pessas de lenços brancos de mão de cruzado cada hum, hua duzia de meias de algodão de doze vintens cada hum e mais não disse. 

Com a listagem dos bens furtados, Estevão Lombardo dá uma mostra riquíssima do tipo de produto que sua loja oferecia, especialmente às mulheres da época, permitindo visualizar os modelos por elas usados naqueles tempos... O quanto a seda era de fato um produto importante para a confecção de roupas, calçados e luvas; o ouro como adereço, os relógios pendurados em correntes e as bijuterias, descritas como correntes falsas. E fornece ainda um detalhe, o depósito de dinheiro em sacos de pano amarrados por barbante, algo impensado para hoje, tempo de transações virtuais e quase sem a utilização da moeda circulante. O tempo de Estevão era um tempo sem agências bancárias e cartões de crédito!

O documento não traz o endereço da loja, mas apresenta outra curiosidade, qual seja a de que o estrangeiro habitava e tinha comércio na casa do escrivão Antonio José de Almada, provavelmente locada para tal, e onde também morava outro escrivão, Lucio Ferreira de Andrade:

(...) em Casa de morada de Antonio Jose de Almada onde se acha o Estrangeiro Estevão Lombardo com sua loja de fazendas (...)

A casa que servia de moradia e endereço comercial de Estevão devia ter diversas portas na fachada, construção típica daqueles tempos:

Respondeu que lhe roubarão por aquella porta que não estando em casa de noite, quando chegou oje de manha achou aberta (...) 

E a porta arrombada, a da loja, certamente ficava na esquina, conforme depoimento de uma das testemunhas, Lucio Ferreira de Andrade, morador do mesmo prédio:

(...) na noite para amanhecer para oje, desasseis do corrente, depois da meia noite, ouvio bulha na loja de Estevão Lombardo por ser na mesma sua casa e que não desconfiou ser robo, pensando ser o mesmo dono, e que levantando-se de manhan, vio a porta que sai para a rua travessa aberta (...)

No dia 16 de janeiro, depois de serem ouvidas as testemunhas elencadas por Estevão Lombardo, que pouco ou nada acrescentaram, o juiz de paz Gaspar Francisco Gonçalves deu o seguinte despacho:

Julgo prossedente o Auto de Corpo de Delito que por impedimento meu foi feito pelo meu Delegado Correia de Oliveira e seja entregue a parte para procurar Seo Direito onde lhe convier ficando o traslado no Cartorio Cachoeira desasseis de Janeiro de mil oitocentos e trinta e dois = Gonssalves =

Como se vê, o arrombamento deu em nada... Mas não foi problema para Estevão Lombardo que seguiu prosperando em seu negócio. E o interessante é que, mais tarde, quando o juiz de paz Gaspar Francisco Gonçalves foi preso e levado para Porto Alegre durante a revolução farroupilha, ficou ele gerenciando os negócios de Gaspar.

MR
sexta-feira, 8 de setembro de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Sete de Setembro

SETE DE SETEMBRO

Silencio!... não turbeis na paz da morte
Os manes que o Brazil quasi esquecia!...
E' tarde!.. Eis que espedaça a lousa fria
De um vulto venerando o braço forte!...

Surgiu!.. A magestade traz no porte,
Onde o astro da gloria s'irradia!...
Vem, grande Andrada, adivinhaste o dia!...
Vem juntar ao da patria o teu transporte!...

Recua?!.. Não se apressa em vir saudal-a;
Cobre a fronte brilhante de heroismo,
E soluça!.. O que tem?!. Eil-o que fala;

"Oh! patria que eu salvei do despotismo!
Lá vejo a corrupção que te avassalla!
Não te conheço!.." E se afundou no abysmo!..

                               Felix Xavier da Cunha

Soneto publicado em O Commercio, 4/9/1907
- Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico

O soneto acima, do advogado, jornalista, escritor e político Félix da Cunha, foi publicado pelo jornal O Commercio, edição do dia 4 de setembro de 1907 ao ensejo da comemoração da data da independência do Brasil.

Félix Xavier da Cunha

Apesar dos 110 anos de distanciamento no tempo, os versos do poeta encerram atualidade, ainda que o linguajar e o estilo possam parecer anacrônicos. Na tentativa de atualizar o conteúdo dos versos e permitir o seu entendimento, o poeta poderia ter dito o mesmo assim:

Silêncio. Não perturbemos a paz da morte daqueles que o Brasil já quase esqueceu.
É tarde quando o braço forte de um vulto importante rompe a lage do seu túmulo e surge, com a glória estampada na testa. É José Bonifácio de Andrada e Silva que emerge do túmulo justamente no dia 7 de setembro, quando a pátria também fez a sua passagem do domínio de Portugal para a liberdade. Mas Andrada recua, não tem pressa em sair do túmulo. Cobre a testa, soluça e diz: Pátria que eu salvei do domínio, vejo que a corrupção te destrói! Não te conheço mais! E volta para dentro do túmulo...

Félix da Cunha, que dá nome a uma rua próxima ao endereço do Arquivo Histórico, nasceu e viveu no século XIX, portanto a estética de seus versos é a da sua época. E chama a atenção que a estética muda, mas infelizmente a temática segue a mesma...

MR
segunda-feira, 4 de setembro de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Arquivo além de Arquivo

Na semana transata, como reza o linguajar dos jornais do passado, o Arquivo Histórico cumpriu com uma das prerrogativas previstas em seu regimento, ou seja, realizou ou foi colaborador em atividades de extensão, levando para além de suas paredes contribuições que se tornaram possíveis pela difusão de suas riquezas documentais.

Foi assim com as acadêmicas Caroline Alves Silveira e Marceli Schvartz, do Curso de Engenharia de Transportes e Logística, do campus local da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM, que se utilizaram do acervo bibliográfico e de imprensa do Arquivo Histórico para embasar parte de seu trabalho intitulado "Estudo Bibliográfico e Documental sobre os Cinco Modais de Transporte no Município de Cachoeira do Sul - RS". Oito acadêmicos do Curso de Engenharia de Transportes e Logística e bolsistas do Laboratório de Mobilidade e Logística (Lamot) da UFSM/Cachoeira, dentre os quais Caroline e Marceli, representarão Cachoeira do Sul no 31.º Congresso Anual de Pesquisa e Ensino em Transportes (Anpet), nos dias 29, 30 e 31 de outubro, em Recife, Pernambuco.

As acadêmicas com os  banners de seu trabalho 

No dia 29 de agosto, às 18h30, no auditório do Museu Municipal, junto à restaurada edificação do Paço, a assessora técnica do Arquivo Histórico, pesquisadora Mirian R. M. Ritzel, proferiu palestra sobre o cachoeirense Dr. João Neves da Fontoura, homenageado municipal da Semana da Pátria 2017, ano do seu 130.º aniversário de nascimento. A atividade constou da primeira edição do Projeto Volta ao Passado e foi destinada a professores da rede municipal de ensino e demais interessados. Na ocasião, importante presença foi a do sobrinho-neto de João Neves da Fontoura, Sr. Floriano Neves da Fontoura.




Flagrante da palestra sobre João Neves da Fontoura
Em 30 de agosto, na sede da Academia Literária Feminina, em Porto Alegre, a historiadora Ione Maria Sanmartin Carlos, que integrou por vários anos a equipe do Arquivo Histórico, tendo sido sua diretora, foi convidada a falar para as acadêmicas sobre o trabalho desenvolvido na instituição, os desafios, responsabilidades e experiências vivenciadas.


Historiadora Ione M. S. Carlos na Academia Literária Feminina


O Arquivo Histórico chegou aos 30 anos com qualidade de trabalho suficiente para servir de exemplo para instituições congêneres. Mérito do município que o mantém e das diferentes equipes e direções que teve ao longo do tempo, capazes que foram de dar-lhe competência em suas atribuições e serviços prestados.

MR
segunda-feira, 28 de agosto de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

A morte do empreiteiro

Quando houve o rompimento de uma viga mestra que amarrava o telhado do ainda jovem prédio do Teatro Municipal, em janeiro de 1908, vendo-se a municipalidade sem recursos para recuperá-lo, o intendente Dr. Balthazar de Bem tomou a decisão de cedê-lo para o governo do Estado para que nele fossem alocados o Fórum, que ocupava o andar superior da Intendência, e o colégio elementar a ser criado. No dia 18 de agosto de 1913, foi repassado o prédio do Teatro para o estado.


Nota publicada no jornal O Commercio, de 20/8/1913, p. 2
- Coleção de Imprensa do Arquivo Histórico

Teatro Municipal inaugurado em 25/12/1900 - Fototeca Museu Municipal

Intendente Dr. Balthazar de Bem 

Em março de 1915, foram feitas as matrículas dos primeiros alunos do Colégio Elementar que, naquele mesmo ano, teve aprovada a denominação de Colégio Elementar Antônio Vicente da Fontoura, por sugestão de sua primeira diretora, professora Cândida Fortes Brandão. No entanto, como o prédio do Teatro Municipal ainda não estava em condições de receber o colégio, as aulas aconteciam provisoriamente em outros locais, dentre eles a casa da diretora, sita na Rua Moron.

Em 25 de abril de 1915 tiveram início as obras de reconstrução do prédio e adaptação às necessidades do Colégio Elementar e Fórum, sendo contratado como empreiteiro o italiano Giuseppe Tellini.

Como que marcado pela desventura, mais uma vez o destino teceu imbróglios para que o prédio do Teatro tivesse obstaculizados os seus propósitos. Dois lentos anos transcorriam desde a contratação das obras quando morreu, de forma repentina, o empreiteiro Tellini.

Segundo o jornal O Commercio, edição do dia 23 de maio:

A's 12 1/2 horas do dia 16 do actual (quarta-feira) succumbiu nesta cidade, repentinamente, o sr. José Tellini, de 52 annos, natural da Italia e residente em Porto  Alegre, onde tinha seu domicilio.

O extincto chegára a esta cidade ha alguns meses e dirigia, aqui, as obras de reforma do antigo edificio do Theatro Municipal, que está sendo adaptado ao funccionamento do Collegio Elementar e do Forum.

Ainda ao anoitecer de um dos ultimos domingos tivemos, com o finado, uma palestra á frente do edificio em que exercia a sua actividade. Externando uma opinião sobre o mencionado edificio, disse que as paredes do Theatro estavam todas em bôas condicções e que poderiam ter ficado inteiras, si não fosse a necessidade de transformar o edificio para outro mister, que era necessario apenas distribuir com mais equidade o lastro do madeiramento do telhado, e, assim procedendo poder-se-ia ter conservado o Theatro.

(...)

Quarta-feira, á hora do almoço, sentiu-se o intelligente constructor, que era muito sanguineo, um pouco indisposto, não comparecendo á refeição. Vindo procural-o o capataz no seu quarto para convidal-o a almoçar, ali o achou deitado, com o rosto negro, tendo de um lado um vidro de pilulas, do qual, provavelmente, tomára ainda. Chamado, com urgencia, o dr. Balthazar de Bem, este facultativo compareceu immediatamente, nada mais tendo a fazer do que attestar o obito, occorrido em consequencia de hemorraghia cerebral.

Casado com a exma. sra. d. Maria Tellini, existem, desse matrimonio, 8 filhos, sendo 2 de maioridade e 6 menores.

Seu corpo foi conduzido para Porto Alegre, em trem expresso, na madrugada seguinte, e ali dado á sepultura.

A morte do empreiteiro acabou por retardar ainda mais as obras no prédio do Teatro, último trabalho executado por esse italiano que, segundo Günter Weimer, no livro Arquitetos e Construtores do Rio Grande do Sul - 1892/1945 (Editora UFSM, Santa Maria, 2004), havia chegado em Porto Alegre no ano de 1911, quando construiu uma enfermaria para a Brigada Militar, sendo provavelmente um dos sócios da firma Irmãos Tellini.

MR