quinta-feira, 20 de abril de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

21 de abril: dia para lembrar Tiradentes

Vem de tempos a associação de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, à ideia de liberdade e independência. Aguerrido e impetuoso, foi alçado à condição de herói por suas ações contrárias ao estabelecido na época em que o Brasil sequer tinha a condição de país.

Joaquim José da Silva Xavier - o Tiradentes - opiniaoenoticia.com.br

Muito tempo depois da execução de Tiradentes como criminoso, ocorrida no dia 21 de abril de 1792, é que sua morte foi tida como heroica. Na esteira do engrandecimento de sua figura, veio a determinação do dia 21 de abril como feriado nacional. A Lei n.º 1266, de 8 de dezembro de 1950, consagrou a data "à glorificação de Tiradentes e anseios de independência do País e liberdade individual."

Imagem: Faculdade Jangada

Recorreu-se ao acervo de imprensa do Arquivo Histórico para buscar notícias relacionadas ao dia 21 de abril, extraindo-se uma de época anterior e outra da primeira vez que a comunidade cachoeirense gozou o feriado de Tiradentes.

O jornal Rio Grande, em sua edição de 23 de abril de 1908, traz a seguinte nota:

21 de Abril. Passou ante-hontem, a data consagrada aos precursores da Republica, symbolisados em Tiradentes.

21 de Abril sempre disperta na alma nacional um toque de enthusiasmo "patrio", relembrando paginas sagradas da historia, escriptas com sangue, mas redivivas e brilhantes, attestando o surto de uma nacionalidade incipiente para a liberdade e para a luz.

Tiradentes revive nos corações genuinamente republicanos que sabem medir do quanto seria capaz aquella alma votada para o bem e para a liberdade patrios.

Apezar de passar despercebida essa data gloriosa, intimamente o coração republicano se eleva atè à memoria do inconfidente, abençoando-a e cobrindo-a das flores que o seu amor à Patria faz hoje desabrochar.

A lembrança da data, a julgar pela redação da notícia, certamente estava associada ao ideário do jornal Rio Grande, que era órgão do Partido Republicano.

O Jornal do Povo, volume de 1951, primeiro ano em que seria comemorado o feriado de Tiradentes a partir da lei que o instituiu, publicou uma pequena nota de alerta destinada especialmente aos trabalhadores da indústria e comércio:

O Feriado de Sábado. Informa a Associação do Comércio e Indústria que o próximo sábado, dia 21, é feriado nacional, consagrado à memória de Tiradentes, o mártir da liberdade.

Não será, pois, permitida, nesse dia, a atividade no comércio e indústria, em todo o território nacional.

O feriado, novidade que era, mereceu da redação do Jornal do Povo também um aviso aos seus leitores:

JORNAL DO POVO. AVISO. Em virtude do feriado de sábado próximo não se trabalhará nas diversas secções desta folha, motivo por que o JORNAL DO POVO não circulará em sua edição habitual de domingo, voltando a fazê-lo sómente terça-feira próxima, com maior número de páginas.

(MR)
quinta-feira, 13 de abril de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

A Semana Santa de 100 anos atrás

A edição do jornal O Commercio do dia 11 de abril de 1917, assim registrou as atividades da Semana Santa:

Semana Santa. - Como era de esperar, revestiram-se de muito esplendor as solemnidades da Semana Santa.

Quinta-feira Santa, na occasião da missa cantada, mais de 300 pessoas de todas as classes sociaes receberam a santa communhão. A' tarde, querendo commemorar o facto essencialmente caridoso de Jesus Christo na vespera de sua morte ter lavado os pés aos doze apostolos, para mostrar aos homens a necessidade de amor reciproco, o vigario da parochia, acolytado por dous sacerdotes, praticou a cerimonia de lavar os pés a doze meninos devidamente preparados em bancos sobre estrados. Acabado o acto, o revmo. padre Feliciano* pronunciou eloquente discurso sobre a caridade christã.

Sexta-feira Santa foram feitas, de manhã, todas as cerimonias religiosas prescriptas, sendo cantada a Paixão de Nosso Senhor.

A's 17,20 sahiu a procissão do encontro, que foi extraordinariamente concorrida. Os dous andores, que levavam as imagens de Nosso Senhor e de N. Senhora das Dôres, encontraram-se na Avenida das Paineiras, occasião em que o revmo. padre Feliciano, da sacada da casa da exma. sra. d. Ignacia Amelia de Oliveira, prendeu por uns quinze minutos a attenção de todos os circumstantes, fazendo innumeras pessoas derramar lagrimas.

Casa de Ignacia Oliveira, à esquerda, na Rua 7 de Setembro - sem data
- fototeca Museu Municipal


Sabbado santo começaram as respectivas cerimonias ás 8 horas e só ás 10 horas os sinos da igreja matriz deram alegremente o signal do alleluia.

Igreja Matriz em flagrante de procissão religiosa - sem data
- fototeca Museu Municipal

Tanto nesse, como nos dias precedentes, a concurrencia de fieis foi numerosissima.

Domingo da Resurreição, na missa das 8 horas, houve communhão geral.

A's 10 horas a missa solemne foi cantada pelo vigario da parochia, servindo de diacono o revmo. padre Feliciano e de subdiacono o revmo. padre Angelo Ceresér. Ao Evangelho o revmo. padre Feliciano, subindo á tribuna, pronunciou o discurso de occasião, em que procurou demonstrar a realidade do facto da resurreição, refutando as pretendidas objecções dos incredulos. Os canticos da missa e de todas as festividades da semana foram magistralmente executados pelo côro do Apostolado, com o auxilio benevolo dos srs. Affonso Gregory e Alexandre Santini.

Na mesma edição do jornal, uma nota sobre as celebrações da Páscoa entre os luteranos e os metodistas:

Pelos templos. - Perante crescida assistencia de crentes effectuou-se. á noite de sexta-feira da paixão, a cerimonia da santa ceia no templo da Communidade Evangelica, situado no Bairro Rio Branco.

Domingo ultimo, ás 9 1/2 horas da manhã, ainda houve bem concorrido culto divino no mesmo templo, officiando o sr. pastor Germano Dohms, director espiritual daquella communidade.

- No templo da Igreja Methodista, á rua Moron, ralizaram-se cultos divinos em a noite de sexta-feira e na manhã de domingo, sendo celebrante o sr. pastor Eduardo M. Barreto Jayme.

Antigo prédio da Igreja Metodista - sem data - fototeca Museu Municipal

O jornal de 1917, além do distanciamento temporal de cem anos, expresso na diferença de grafia e de costumes, revela também uma diferença abissal na forma como nossos antepassados viviam a Semana Santa e celebravam a Páscoa...

*Pe. Feliciano Yagüe.

(MR)
sexta-feira, 7 de abril de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

60 Anos sem Liberato e Jenny

Há exatos 60 anos perecia em pavoroso acidente de avião, no aeroporto de Bagé, o jovem e promissor político cachoeirense Dr. Liberato Salzano Vieira da Cunha, então no desempenho das importantes funções de Secretário de Educação e Cultura do Rio Grande do Sul, no governo de Ildo Meneghetti. Pereceram com ele a esposa Jenny Figueiredo Vieira da Cunha, além de outras 38 pessoas que estavam a bordo do Curtiss-Comander C-46, prefixo PP-VCF, da Viação Aérea Riograndense - VARIG.


Liberato S. Vieira da Cunha
20/12/1920 - 7/4/1957
- Arquivo particular João Carlos A. Mór
Jenny F. Vieira  da Cunha
14/11/1922 - 7/4/1957
- Arquivo particular João Carlos A. Mór
Naturais de Cachoeira, Liberato nasceu em 20 de dezembro de 1920, filho de Antônio Peixoto Vieira da Cunha e Angelina Salzano Vieira da Cunha. Jenny, nascida em 14 de novembro de 1922, era filha do comerciante Achylles de Lima Figueiredo e Filadélfia Carvalho de Figueiredo. O casal deixou na orfandade quatro filhos menores: Liberato, Miriam, Maria Bernadete e Eduardo.

A Tremenda Catástrofe, como noticiou o Jornal do Povo, edição do dia 9 de abril de 1957, enlutou não somente as famílias, mas o próprio jornal, do qual Liberato e o irmão Paulo eram então diretores.

Capa do Jornal do Povo de 9/4/1957 - acervo de imprensa do Arquivo

Por todos os recantos do estado e mesmo do país, o acidente produziu tristeza. De Bagé, os corpos foram levados para a capital. No salão nobre do Palácio Piratini, aconteceram exéquias oficiais, com missa celebrada por D. Vicente Scherer. Apesar da chuva que caía naquele 8 de abril, em Porto Alegre, grande acompanhamento teve o cortejo fúnebre até a estação Diretor Pestana, onde os ataúdes foram embarcados para Cachoeira do Sul. 

O povo consternado pranteou a morte do Secretário de Educação, dizia a manchete de contracapa do Jornal do Povo de 9 de abril. Uma multidão superior a cinco mil pessoas, segundo a notícia, tributou homenagens derradeiras ao casal desaparecido, em Cachoeira. De Porto Alegre, vieram acompanhar o cortejo o arcebispo metropolitano, D. Luiz Vitor Sartori, o governador e seu secretariado. Houve discursos no pórtico da Igreja Matriz, onde foi celebrada missa de corpo presente pelo arcebispo, e no Cemitério das Irmandades, onde uma multidão tentara acompanhar os sepultamentos. Finalizou as manifestações, em nome das famílias Figueiredo e Vieira da Cunha, o jornalista e irmão de Liberato, Carlos Salzano Vieira da Cunha. 

Manchete do jornal O Comércio de 10/4/1957 - acervo de imprensa do Arquivo

Na edição de O Comércio, de 10 de abril, a manchete dizia: Enlutada Cachoeira do Sul com o pavoroso acidente aviatório em Bagé. Na recepção aos corpos, na Estação Ferroviária, registrou: Cerca das 15 horas, um trem minuano duplo deu entrada na gare, trazendo os corpos do infortunado casal cachoeirense. Junto veio a comitiva oficial composta de um número aproximado de 100 pessoas, altas autoridades civis, militares e eclesiásticas. (...) Formou-se então, na Estação da Viação Férrea, o imenso cortejo fúnebre em direção à Matriz de N. Senhora da Conceição.

A carreira política de Liberato estava em ascensão. O jovem Secretário de Educação e Cultura era cogitado para candidato ao governo do estado após o mandato de Ildo Meneghetti. Mas quis o destino que tal não se concretizasse.

Cachoeira do Sul mandou erigir, e foi inaugurado no primeiro aniversário da morte do casal, um busto de Liberato, na Praça Dr. Balthazar de Bem, trabalho do conceituado escultor Fernando Corona. Também uma rua e uma escola têm Liberato Salzano como patrono. Jenny dá nome a uma escola na localidade de Forqueta.

Busto na Praça Dr. Balthazar de Bem - obra de Fernando Corona

Passados 60 anos do trágico acidente, o Arquivo Histórico, servindo-se de seu acervo de imprensa, buscou ilustrar um pouco da grande comoção que tomou conta da cidade, do estado e do país, repercutindo dolorosamente o desaparecimento de conterrâneos que ainda muito poderiam ter colaborado para os anseios de seus familiares, amigos e comunidade gaúcha.

(MR)
quinta-feira, 6 de abril de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Reiniciados os trabalhos da parceria Arquitetura UFSM/Arquivo Histórico

Foram retomadas as atividades dos acadêmicos do Curso de Arquitetura da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM, Campus Cachoeira do Sul, no trabalho de seleção e identificação do acervo cartográfico e de plantas arquitetônicas do Arquivo Histórico.

Os acadêmicos assessorados pela pesquisadora Mirian Ritzel

Os acadêmicos Andreza Oliveira Nunes, Gustavo Severo e Schayane Dias, sob a coordenação da Prof.ª Ms. Letícia de Castro Gabriel e acompanhamento das assessoras do Arquivo Histórico, tiveram o primeiro encontro da segunda etapa de trabalho na última terça-feira, dia 4, quando se depararam com plantas arquitetônicas bastante significativas, como as do engenheiro-arquiteto alemão Júlio Rieth, responsável por um bom número de residências construídas em Cachoeira, onde morou com a família, e outras de casas e espaços ainda existentes.



O trabalho tem sido de grande valia, ainda que não concluído, porque já permitiu mostras da riqueza do material que em breve poderá ser disponibilizado para consultas da comunidade.

Para saber mais: Parceria Arquitetura UFSM/Arquivo Histórico

(MR)
terça-feira, 28 de março de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

A Morte do Comendador

A equipe do Arquivo Histórico teve a grata satisfação de ser brindada com a doação de exemplares da obra A Morte do Comendador. Eleições, Crimes Políticos e Honra (Antonio Vicente da Fontoura, Cachoeira, RS, 1860), autoria de Paulo Roberto Staudt Moreira, José Iran Ribeiro e Miquéias Henrique Mugge.



A doação foi feita pelo professor Paulo Roberto Staudt Moreira, sendo portador o acadêmico de História, e seu aluno, Jackson Freitas. Tanto o professor Paulo quanto o aluno Jackson têm sido pesquisadores do acervo do Arquivo Histórico. No caso de Paulo Roberto Staudt Moreira, o arranjo documental, bem como a cópia do inquérito sobre o crime de que foi vítima o Comendador Antonio Vicente da Fontoura foram rico material disponível no acervo do Arquivo para embasar a obra ofertada. Professor e pesquisador, Paulo Staudt Moreira atua especialmente nas áreas de História e Historiografia Brasileira do período imperial, é titular do Curso de Graduação e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS e historiógrafo do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul. A temática da escravidão é uma de suas especialidades.

Jackson Freitas - portador da doação



Flagrantes da recepção da obra pelas assessoras do Arquivo Histórico

A Morte do Comendador, que  integra a coleção EHILA - Estudos Históricos Latino-Americanos, parceria das editoras Oikos e UNISINOS, trata de uma das mais emblemáticas páginas da história cachoeirense e poder disponibilizá-la para futuros pesquisadores e interessados no assunto enriquece a oferta de subsídios do Arquivo Histórico. A doação e a entrega dos exemplares foi motivo de satisfação para toda a equipe que, grata, faz o devido e justo registro.

(MR)
sexta-feira, 17 de março de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Aconteceu há 100 Anos: Grande Torneio de Tiro

A Sociedade Rio Branco, fundada em 4 de agosto de 1896, nasceu como um clube de tiro, esporte bastante apreciado pelos germânicos, então com presença muito significativa na Cachoeira do final do século XIX.

Em março de 1917, a sociedade concluiu a sua sede própria, no Bairro Rio Branco, e comemorou a conquista inaugurando-a com um grande torneio de tiro, detalhadamente descrito pelo jornal O Commercio, edição do dia 21 de março:

Grande torneio de tiro
INAUGURAÇÃO DE EDIFICIO

Tiveram começo, na manhã de sabbado ultimo, com a recepção de atiradores e convidados, os grandes festejos que se estão realizando no vasto edificio do Schützen-Verein Eintracht, constantes de inauguração do seu edificio, de torneios de tiro e bem assim do 1.º  grande torneio de tiro (a premio ambulante) promovido pela Confederação do Tiro do Rio Grande do Sul.

Pelas 9 1/2 horas, na estação ferro-viaria, grande numero de socios do Schützen-Verein Eintracht aguardava a chegada de atiradores e hospedes. Quando o trem, procedente de Santa Maria, entrou na gare, a banda musical do Paraiso, regida pelo sr. Alberto Milbradt, executou uma marcha festiva, seguindo-se após os cumprimentos aos recem-vindos, em sua maioria procedentes do interior do municipio.

A' tarde, antes da chegada do trem de Porto Alegre, o edificio da estação e suas immediações ficaram repletos de povo. A' chegada do trem, que veiu com atrazo de mais de meia hora, fez-se ouvir a banda musical Estrella Cachoeirense. Seguiram-se os cumprimentos e bôas vindas aos atiradores e hospedes, que vieram em grande numero.

Organizando o prestito, precedido de musica e de diversos estandartes, este encaminhou-se para a casa da firma Guilherme Beskow & Cia., á rua Julio de Castilhos, indo receber o Schützen-Verein Eintracht, procedente do Serro Branco, e dirigindo-se á séde social, onde, pelas 9 horas, falaram diversos oradores. Em nome do Schützen-Verein Eintracht falou o pastor Germano Dohms, saudando os hospedes e sendo muito applaudido. Respondeu, agradecendo, o presidente da Confederação, sr. Julio Weise, que vivou os srs. tenente-coronel dr. Amaro de Azambuja Villanova e tenente dr. Pantaleão da Silva Pessôa, e, ao terminar, deu um viva ao Brasil, sendo enthusiasticamente correspondido.

(...)

Na manhã de domingo, pelas 8 horas, após a chegada do Tiro Brasileiro n.º 254, sob o commando do tenente dr. José Elias de Paiva Filho, começou a reunião de atiradores na Praça Conceição. Pouco depois das 9 horas, incorporadas as diversas commissões, autoridades locaes, representantes das altas autoridades do Estado, e mais pessôas presentes, o prestito movimentou-se, figurando n'elle os estandartes das sociedades  que se fizeram representar, sendo puxado pelas duas bandas musicaes a que nos referimos e pelo Tiro Brasileiro.

Descendo pela rua 7, o prestito seguiu em direcção á séde social, estacando á frente do edificio fechado. A' porta d'este, o sr. Julio Weise pronunciou o discurso official da festa e ao mesmo tempo o de inauguração do bello edificio, referindo-se, ligeiramente, ao historico do Schützen-Verein Eintracht e ás modestas proporções com que aquella agremiação iniciou a sua existencia. Ao terminar, uma commissão de senhoritas entregou-lhe a chave do edificio, que o orador, em seguida, abriu, penetrando n'elle os presentes. Logo após, o presidente da sociedade, nosso amigo Ernesto Müller, convidou o tenente Pantaleão Pessôa a dar o primeiro tiro, seguindo-se a este os representantes das autoridades e do municipio.

Primeira sede própria (1917) - Rua Ernesto Alves
- fototeca Museu Municipal

Durante o dia esteve animadissima a frequencia ao stand do tiro, onde havia 6 alvos para o tiro a braço firme e 2 para o de braço livre. A' direita ainda estava collocado um alvo, a menor distancia, para o tiro a revólver e pistola, que tambem atrahiu muitos atiradores, de modo que, durante a tarde, poucos segundos passaram sem que se ouvisse a detonação de um tiro.

Os festejos estenderam-se ainda mais, constando da inauguração de um quiosque para venda de objetos em benefício da Cruz Vermelha, representação teatral de comédia, apresentação de canto, sendo finalizados com uma reunião dançante que se prolongou até as 3 horas da madrugada. Os torneios de tiro, promoção da Liga de Atiradores do Rio Grande do Sul, ainda se estenderam até quinta-feira, sendo campeãs as representações de Teutônia, com 552 pontos, Porto Alegre, com 521, e São Sebastião, com 507. A representação do Schützen-Verein Eintracht ficou em quinto lugar, com 493 pontos.

Sobre o edifício da sociedade, o jornal referiu:

O edificio do Schützen-Verein Eintracht foi magnificamente ornamentado, tanto interna como externamente, apresentando garrido aspecto. 

Várias entidades congêneres do Estado fizeram-se presentes aos festejos, com destaque para o Deutsch-Brasilianer Schützen-Club, de Cachoeira, Deutscher Schützen-Verein Eintracht, de Cerro Branco, Schützen-Verein Glückauf, de Agudo, Deutscher Schützen-Verein, de São Sebastião do Caí, Club Freischütz, de Montenegro e o Turnverein, também de Cachoeira. 

Como bem diz a obra Sociedade Rio Branco - 100 anos de "Concórdia" (Museu Municipal de Cachoeira do Sul - Patrono Edyr Lima, Gráfica Jacuí, 1996): "... ficaram para trás os bailes no salão do Gesangverein Frohsinn, as festividades impedidas pelo mau tempo, a singeleza do chalé..." Era uma referência aos tempos em que os sócios da novel sociedade alemã dependiam de espaços que não eram próprios ou das exíguas instalações da sua primeira sede, um pequeno chalé alugado nas imediações da antiga usina elétrica.

Primeira sede do Schützen-Verein Eintrach (Sociedade Rio Branco)
- fototeca Museu Municipal

A sede inaugurada em março de 1917 seria substituída em 1956 pelo edifício modernista que hoje abriga os salões e dependências da mais que centenária Sociedade Rio Branco.

Período em que as duas sedes sociais coexistiram

(MR)
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Homenagem a Tupinambá Pinto de Azevedo

O Arquivo Histórico do Município de Cachoeira do Sul registra, com pesar, o falecimento do Dr. Tupinambá Pinto de Azevedo, advogado, promotor e professor universitário que não era cachoeirense (Tupanciretã, 1942), mas amou e legou à cidade um trabalho de pesquisa que resultou na obra Cachoeira do Sul Comarca - 150 anos de história, lançada originalmente em 1985 e reeditada em 1994, constituindo-se em fonte imprescindível quando o assunto é a história da comarca local.

Dr. Tupinambá Pinto de Azevedo

Cachoeira do Sul Comarca - 150 anos de história
2.ª edição - 1994

Tupinambá de Azevedo, quando jovem, colaborou com as páginas literárias do Jornal do Povo, participando de uma coluna intitulada NG, por onde desfilaram talentos das letras, como Sérgio Lezama, Pedro Port, A. C. J. Cunha, Cláudio Trarbach, N. J. Estrázulas, para citar alguns.

Em sua homenagem, buscou-se na coleção de imprensa do Arquivo Histórico um dos textos por ele produzidos e que foi publicado na edição de 14 de julho de 1964 do Jornal do Povo:

NG - Jornal do Povo - coleção de imprensa do Arquivo Histórico

A Trági-Comédia
Carnaval & Revolução apresentam o mesmo aspecto dúplice: tragédia e comédia. A festa (comédia) é celebrada abaixo de sangue, e a côr que a identifica não poderia ser outra, o vermelho. Já o lado trágico se mostra nas atitudes pretenso-puritanas de alguma facção revolucionária. Para êstes, a revolução é um rito, e se exige pompa para celebrá-lo. É o polo negro.
Le rouge e le noir, o vermelho e o negro, coexistindo em tôda insurreição armada.
Tomemos as três grandes revoluções da História: a inglêsa de 1642, a francêsa e a russa.
Os vermelhos de Cromwell* eram os seus soldados, os Independentes, de vermelho colête e estranhas atitudes. Excluiam de seu meio tudo que fôsse mundano; bebidas, o canto, mulheres, e mesmo as imprecações. Os alojamentos semelhavam templos ou oratórios e os sargentos tinham ares de pregadores. Atrás dessas características se escondiam temíveis combatentes.
E o negro? Puritanos inglêses  que se ocultavam sob pretos dominós, falavam uma linguagem impregnada de ódio, citavam sempre os mais cruéis textos do Velho Testamento, e queriam a vida sem alegria e prazer. Mandavam fustigar os atôres e assistiam ao castigo. Sádicos e moralistas. Eram o complemento dos vermelhos.
Na revolução francesa identificamos os vermelhos nos que seguiam Danton* no dizer de Ferdinandy*: o grande ator barroco da revolução, para quem só a violência contava.
De outro lado, os moralistas estilo - Saint Just*, que justificam os crimes com a necessidade de tornar pura a vida. Le noir. É aqui que encontramos também Robespierre*.
Mas, tanto o vermelho quanto o negro, e quaisquer outras facções que participavam da luta, se deslocavam num palco gigantesco que era a própria França, ou antes, era o "Terreur". Uma grande festa em que cada qual se julgava herói. O francês de 1789 vivia dias históricos, tinha consciência de sua participação no heroismo.
Sua linguagem tinha toques ridículos, era um falar empolado cheio de citações clássicas; as golas escondiam o pescoço e avançavam sôbre o rosto; gravatas, elas cobriam todo o peito.
E o chapéu! Triangular, também enorme, com penas coloridas. Eram atores e faziam questão de se pavonear...
A face vermelha da Saturnália* russa é óbvia. Representam-na os Soldados Vermelhos, chamados pelo povo de "Juventude de Lênin*".
Não apenas nas atitudes pareciam como que embriagados; a própria vestimenta lembrava personagens de peças bufas. Traziam o peito coberto de medalhas, insígnias, faixas coloridas, emblemas, fitas; portavam com acinte baionetas e pistolas. Mas eram comediantes temíveis, se despertavam jocosidade, mêdo também.
E o lado prêto? Está no ambiente solene e de puritana respeitabilidade com que se comemorou a vitória: Cita-se uma festa, durante a qual o Regimento Vohlhynico* deu um concêrto em benefício das vítimas da Revolução. 
No camarote do Czar* depôsto se acotovelavam agora umas 30 pessoas, marcadas pela dor e seriedade, gente do povo, alguns até há pouco banidos na Sibéria.
Representam a vitória.
Uma das mulheres que se achava no camarote desceu ao palco e iniciou a leitura de uma longa lista. Enumerou os mortos, os que estão na Sibéria, enfim, as vítimas do levante.
Como uma ladainha.
Quando finda a leitura há no teatro um "toque de pena, melancolia, resignação" (Paléologue*).
Ao lado do sangue a revolução exige ritos.
Nas Saturnálias havia um rei-de-mentira; no Carnaval, Momo; na Inglaterra, Cromwell; em França, Robespierre; na Rússia, Lênin. Até que ponto se empenharam êstes três últimos, na representação de seus papéis? Até que ponto usaram máscaras?

O texto de Tupinambá traz as reflexões de um jovem que vivenciava e procurava entender os primeiros tempos pós-revolução de 1964, estabelecendo relações com movimentos e personagens revolucionários icônicos da história mundial.

*
Thomas Cromwell -  ministro do rei Henrique VIII.
Georges Jacques Dantonum dos líderes da Revolução Francesa.
Georges Ferdinandy, escritor húngaro exilado na França.
Louis Antoine León de Saint-Just, pensador e político revolucionário francês.
Maximilien de Robespierrelíder radical da Revolução Francesa.
Vladimir Iliych Ulyanov, Lenin, um dos principais líderes da Revolução Russa de 1917.
Saturnália: festival romano antigo de culto a Saturno.
Regimento Vohlhynico: de Volhynia, província russa.
Czar Nicolau II, último imperador da Rússia, deposto pela revolução de 1917.
Maurice Paleólogue, embaixador francês na Rússia durante a revolução de 1917.

MR