sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

O AH recebe importante doação: último número do jornal O Comércio

Mensagem de encerramento de circulação de O Comércio
- 23 de fevereiro de 1966 -
 O Arquivo Histórico do Município de Cachoeira do Sul recebeu, no dia 23 de fevereiro de 2016, passados exatos cinquenta anos, uma importante doação ao seu acervo de imprensa: o último número do jornal O Comércio (1900 - 1966) que circulou em 23 de fevereiro de 1966.

Único exemplar conhecido da última edição de O Comércio
-
 23 de fevereiro de 1966
A doação do exemplar da edição derradeira do jornal foi feita por Sérgio Moacir da Silva Pacheco, funcionário das oficinas da Tipografia do Comércio, empresa editora do periódico. Ciente de que aquela edição encerraria a existência do Comercinho, Sérgio teve a iniciativa de resguardar um exemplar. E o fez por cinquenta anos, gesto que se constitui em exemplo de preservação de parte importante da rica memória de imprensa de Cachoeira do Sul. Por longos anos, o doador tentou localizar outro exemplar, sem sucesso, o que faz do que foi entregue ao Arquivo Histórico uma página, ou melhor, quatro páginas preciosas de um órgão que durante 66 anos registrou, relatou e difundiu o cotidiano da cidade. 

Páginas 2 e 3 da derradeira edição
O tipógrafo Henrique Möller Filho, que se estabeleceu em Cachoeira em 1897 com uma pequena tipografia na Rua 15 de Novembro, fez circular o primeiro número d'O Commercio no dia 1.º de janeiro de 1900.

Oficinas da Tipografia d'O Commercio, vendo-se o fundador sentado à mesa
- Fototeca do Museu Municipal
O jornal, que circulava somente nas quartas-feiras, tinha edição inicial bilíngue (português/alemão), sobreviveu a duas guerras mundiais, passou pelo convulsionado cenário político gaúcho dos anos 1920 e chegou aos revolucionários anos 1960, encerrando sua trajetória de órgão comercial, noticioso e literário no início de 1966, sob a direção de Carlos Möller e Edgar Pohlmann, sucessores do fundador Henrique e seus irmãos Guilherme e João Antônio Möller.

A cerimônia de entrega do exemplar ao Arquivo Histórico foi prestigiada por representantes das famílias Möller e Pohlmann, integrantes das equipes do Museu Municipal, Biblioteca Pública, pela Diretora do Núcleo Municipal da Cultura, Cláudia Frey Scarparo, pelo presidente do Conselho Municipal de Política Cultural - CMPC, Vorni Prestes, e também por Jorge Almiro Ferreira Flores, último responsável pela distribuição do jornal aos assinantes, o que incluía despacho pela Viação Férrea para leitores em outros municípios e na Alemanha.


Sérgio Moacir da Silva Pacheco em flagrante de seu discurso
A abertura e acolhida aos presentes e ao gesto do doador foi feita pelo Chefe de Departamento  do Arquivo Histórico, Eliseu Machado, que ressaltou a importância da doação para a preservação da memória histórica de Cachoeira do Sul e o reconhecimento do papel do Arquivo Histórico como depositário das coleções dos jornais cachoeirenses.  A seguir o doador Sérgio Moacir da Silva Pacheco fez a exposição dos motivos que o levaram a preservar e doar o último número d'O Comércio ao Arquivo Histórico. 

Eliseu Machado, chefe do Arquivo Histórico
ladeado pelo doador Sérgio Pacheco
Sérgio Moacir da Silva Pacheco em sua alocução
Jorge Almiro Ferreira Flores, João Carlos Möller e Sérgio Moacir Pacheco
com o último exemplar do jornal doado ao Arquivo Histórico
Na mesma ocasião, Sérgio Pacheco doou ao Arquivo Histórico o volume I da obra O Rio Grande do Sul, editada na década de 1920, que versa sobre os municípios gaúchos de então, cujo volume II já integra o acervo bibliográfico da instituição.

Que a atitude de Sérgio Moacir da Silva Pacheco sirva de exemplo e desperte nos cachoeirenses a consciência de que instituições de memória, como o Arquivo Histórico e o Museu Municipal, podem e devem ser o destino de documentos, imagens e obras de valor histórico-cultural, contribuindo para que esta senhora que se chama História possa ser comprovada e difundida indistintamente. O passado agradece, o presente usufrui e o futuro ganha referências.


Parte dos que testemunharam a entrega do exemplar ao Arquivo Histórico
(MR)
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Morte aos Cães Danosos

Vila Nova de São João da Cachoeira. Ano de 1836. Não bastassem os problemas que estavam começando com a Revolução Farroupilha, drama que perduraria por longos 10 anos, a Vila se achava infestada por cães danosos... Aqueles eram também tempos de medo pela raiva canina, doença que apavorava a Europa, de onde vinham as soluções científicas, e para a qual o tratamento ainda era ineficiente, vitimando tanto as pessoas atacadas quanto os cães. Somente em 1885 Pasteur aplicaria pela primeira vez a vacina antirrábica em humanos, depois de vários experimentos em animais. Enquanto isto, os países das Américas poucos meios tinham para combater a doença e lançavam mão da estratégia de eliminação tácita dos cães...

A notícia dos cães danosos chegou até nós através de um documento constante do Fundo Câmara Municipal (1820-1889) existente no Arquivo Histórico, portador de instruções para combate dos cães que andavam soltos pelas ruas da Vila. Como a grafia é bastante dificultosa em razão da época, do talhe de letra e eventualmente pelos erros do escrivão, o texto do documento foi atualizado em sua transcrição:

Cópia. O Cidadão Brasileiro Noé Antonio Ramos, Juiz de Paz da Cabeça do Termo do Município desta Vila de São João da Cachoeira [?] = Por saber que estando a Vila infestada de cães daninhos com grave prejuízo da salubridade pública e achando-se nesta parte a polícia com intervenção do Artigo 12 das posturas da Câmara tantas vezes recomendado e publicado sem que os moradores lhe prestem o respeito devido; roga e recomenda a todos faça extinguir cada um os cães que tiverem no prazo de oito dias sob pena de multa de cinco mil réis conforme o mesmo Artigo e custas. Outrossim fica autorizado qualquer para matar os cães que vagarem pelas ruas. E para que chegue  a notícia a todos mandei passar a presente que vai por mim assinado e selado com o selo do estilo que é o valha sem selo ex-causa. Cachoeira, doze de janeiro de mil oitocentos e trinta e seis. Eu Iziquiel Rodrigo de Niza e Castro, escrivão que serve neste Juízo o escrevi. = Valha sem selo ex-causa = Ramos =
Está conforme
Iziquiel Rodrigo de Niza e Castro


Cópia de ofício - CM/S/SE/RG/Caixa 13 - 12/1/1836

A história ainda não revelou o número de cães que foram mortos, tampouco se houve alguma vítima de raiva canina. De qualquer forma, por meio deste documento foi possível levantar uma página curiosa dos tempos em que um simples cão podia ter o espectro de um monstro, quiçá uma matilha!

(MR)
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Venda de ovos de gafanhotos!

Sub-intendencia do 6.º Districto* da Cachoeira, 4 de outubro de 1906.

Illmo. Snr. Dr. Candido Alves Machado de Freitas
M. D. Vice-intendente em exercicio.

Attendendo a numerosas reclamações d'esta colonia no sentido de auxiliar-se, na extinção da praga de gafanhotos que de maneira descumunal assoalhouçe n'este districto deitando sobre o solo uma quantidade espantosa de óvos; lembro a V.S. que alem de outros meios ja cunhecidos deve-se effetuar a compra dos ditos óvos, não, ao preço de mil reis o Kilo, como consta estar pagando outros municipios, porem que se pague a cem ou dusentos reis, ésta medida é uma das de mais proveito pelo motivo dos colonos não perderem o tempo, e sim empregarem na colheta de óvos o serviço das crianças que com a maior facilidade colhem grande quantidade durante o dia, trasendo para colonia um proveito adimirável, antes de gerar-se o novo gafanhoto.
Esta semanna o Snr. Augusto Scheffel, negociante nesta Colonia, anunciou a compra, óvos de gafanhoto, e como de facto comprou e pagou a quantidade de cento e dois k.ºs fasendo logo apos atto, em vista da grande freguesia que lhe accudia carregada de óvos, por não ter elle consultado ao governo do municipio previamente, rezolveu sustar seu procedimento, no entre-tanto deixa patente a medida acertadissima de compra de óvos, ficando incinerado em sera cusa cerca de quatrocentos milhões de gafanhotos!!!
A ésta repartição tambem tem sido apresentada latas de querosene cheias de óvos.
Julgando uma verdadeira guerra de exterminio este meio alem de outros ja conhecidos ha ésta horrivel praga que ja tantos prejuisos tem causado a lavoura; espero que V.S. resolva de forma ha satisfaser esta colonia ja um tanto desanimada.

Saude e fraternidade.
Dionysio da Fonseca Reys
Subintendente.


Saude e fraternidade



IM/OPV/AOP/Ofícios/Caixa 21

Que estranhamento inicial causa a leitura da correspondência acima transcrita pelo inusitado da proposta! Mas, ao mesmo tempo, o quão efetiva parece ter sido a medida sugerida de empregar pessoas, especialmente crianças, na coleta de ovos de gafanhotos e depois vendê-los! Em tempos de expansão das fronteiras agrícolas e da eliminação de ecossistemas, o homem se vê cada vez mais premido pela natureza que precisa buscar soluções para o seu descompasso! Como num ciclo, voltam ao homem os danos que ele mesmo causou à natureza! E acostumar a população a lucrar com coleta de ovos ou desinfecção de ambientes talvez fosse, se possível, uma boa solução para efetivamente combater o aedes egypt.

Recentemente a imprensa cachoeirense referiu o aparecimento de nuvens de gafanhotos em algumas zonas da cidade, motivado o fenômeno pelas grandes enchentes que se abateram sobre os lugares de habitat destes insetos, ou pelo uso de defensivos agrícolas, expulsando-os para outros ambientes. Sem os predadores naturais, as invasões podem se tornar verdadeiras pragas, como acontecia na Cachoeira de 110 anos atrás e em outras cidades. As autoridades da época empregavam todos os esforços para debelar as pragas de gafanhotos, devastadoras das lavouras e da economia dos municípios... Por mais inusitados que pareçam aos olhos de hoje!

6.º Distrito: correspondia, em 1906, a Santo Ângelo, hoje a principal parte o município de Agudo.

(MR)