sexta-feira, 25 de julho de 2014 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

190 anos da imigração alemã no Rio Grande do Sul

Depois de muitas tratativas, finalmente em novembro de 1857 chegava a Cachoeira a primeira leva de imigrantes alemães com destino à Colônia Santo Ângelo. Estes pioneiros tiveram muito trabalho pela frente e enfrentaram toda sorte de dificuldades, a começar pela forma inusitada com que foram deixados à margem do rio Jacuí, abandonados à própria sorte, pois o comando do vapor que os trouxera até a margem, aproveitando-se do momento em que desceram da embarcação para conhecer o que lhes aguardava, determinou que desembarcassem suas bagagens, zarpando logo a seguir.

Aos colonos surpreendidos pela "fuga" do vapor restava apenas a coragem de arregaçar as mangas e buscar meios de sobreviver naquele ambiente desconhecido, inóspito e cheio de desafios. A tarefa hercúlea rendeu bons frutos ao trabalho e abnegação daqueles pioneiros e a Colônia Santo Ângelo cresceu, transformando-se depois em municípios como Agudo, Paraíso do Sul, Novo Cabrais, todos com imenso orgulho de suas raízes germânicas, assim como Cachoeira do Sul, sede e berço da colônia.

O primeiro grupo de colonos, vindos da região da Pomerânia, era composto pelas famílias de FRANZ PÖTTER, AUGUST PÖTTER, JULIUS NEUJAHR, DANIEL FIESS, WILHELM HOLZ e PETER FINGER.

Para marcar a data de hoje, 25 de julho de 2014, 190.º aniversário da chegada dos primeiros colonos alemães ao Rio Grande do Sul, fomos buscar registro da inserção dos primeiros que em Cachoeira aportaram, onde criaram laços e constituíram suas próprias famílias. Encontramos, dentre a documentação do fundo Câmara Municipal (1820 - 1889), o encadernado que registra os casamentos acatólicos, ou seja, as uniões realizadas pelos pastores luteranos na Colônia Santo Ângelo e depois devidamente registrados em livro próprio pelo Secretário da Câmara. Há nele, dentre tantos outros, o assento de casamento de uma das filhas de August Pötter, segunda geração de uma das famílias chegadas em novembro de 1857 na Colônia Santo Ângelo.

Abertura do Livro de registro dos casamentos acatólicos
- CM/S/SE/RC-001 - acervo Arquivo Histórico -

Eis o assento:

Registro do extracto da escritura de casamento dos colonos Eduardo Karsburg, e Hulda Caroline Emilie Poetter, como abaixo se declara.
Extracto. - Do livro dos assentos dos casamentos da communidade evangelica existente no logar denominado "Agude" da Colonia de Santo Angelo. Livro III, as folhas 3, N.º 5. No anno do Nascimento de Nosso Senhor Jezus Christo (Mesiah) de mil oito centos setenta  e quinto a os trinta dias do mez de Maio, depois de haverem corrido os devidos pregões sem ter apparecido impedimento algum, se casarão segundo as prescripções e cerimonias do culto evangelico perante mim João Tuesmann pastor evangelico legalmente habelitado da mesma communidade as pessôas seguintes Eduardo Karsburg, solteiro, colono estabelecido na Colonia de Santo Angelo, de vinte e tres annos de idade, natural de Lubow na Pommerania Reino da Prussia no Imperio da Allemanha, filho legitimo de Fredinand Karsburg e de sua mulher Charlotte Focht com Hulda Caroline Emilie Poetter, natural de Sohronpohm na Pomerania Reino da Prussia no Imperio da Allemanha e rezidente actualmente nesta Colonia, de dezasete annos de idade, filha legitima de Augusto Poetter e de sua mulher Carolina Emilie Puettelkow, residente nesta mesma Colonia. Forão testemunhas do acto do casamento: 1 João Gerdau, 2, Eduard Gehrke, 3, Wilhelmine Golz. O que tudo fielmente extrahi do livro dos assentos desta communidade por mim escripturado e ao que me reporto. Comunidade evangelica de Agude na Colonia de Santo Angelo, a os trinta de Maio de mil oito centos setenta e quinto (30 Maio 1875) João Tuemann o pastor Culto Evangelico. João Gerdau, Eduardo Gehrke, Wilhelmina Golz. Estava sellado com os sellos pastoral (...) Secretaria da Camara Municipal da cidade da Cachoeira 8 de Setembro de 1875. O Secretario Fidencio Pereira Fortes.

O assento transcrito demonstra que os colonos tocaram suas vidas e, mesmo longe da terra natal, buscaram meios para sua subsistência, não deixando de cultivar aqui suas tradições e seguir seu rito espiritual.

O Arquivo Histórico celebra e enaltece os 190 da imigração alemã no Rio Grande do Sul e os 157 anos da chegada dos primeiros colonos a Cachoeira, convidando todos para visitarem a exposição comemorativa que o Museu Municipal montou na Sala 4, intitulada 1824 - 2014: 190 Anos da Imigração Alemã no RS.
segunda-feira, 21 de julho de 2014 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Nosso clima há 100 anos

O Rio Grande do Sul tem vivido um inverno de grandes variações de temperatura, alta taxa de umidade e grande precipitação de chuvas. Fala-se muito no efeito estufa e em fenômenos climáticos que têm relação com as ações descuidadas do homem. 2014 é ano de El Niño, segundo os meteorologistas. Mas, afinal, como nossos antepassados verificavam o clima?

Na Cachoeira de 1914, tempo da Intendência Municipal, anualmente, no mês de setembro, eram lançados relatórios da vida municipal, trabalhos elaborados com muita eficiência pelos funcionários encarregados da Seção de Estatística e Arquivo. Estes relatórios constituem-se hoje em fontes preciosas dos mais diferentes aspectos do Município, abordando desde climatologia até estatística moral, que incluía criminalidade, suicídios e assistência hospitalar, dentre outros.

Com a inconstância do inverno em 2014, buscou-se os dados do clima em Cachoeira no Relatório apresentado ao Dr. Balthazar Patricio de Bem, Intendente do Município de Cachoeira, pelo encarregado da Estatística e Arquivo, Mario Godoy Ilha, em 17 de setembro de 1914 (IM/GI/AB/Re-007, pp. 9 a 13).

Na primeira parte do Relatório, intitulada Estatistica Territorial - Physica, Politica e Administrativa, constam os dados sobre a climatologia, obtidos graças à existência da Estação Meteorológica de Cachoeira, de segunda classe, instalada em 1911 na Praça José Bonifácio.

Estação Meteorológica - fototeca Museu Municipal
O autor do Relatório esclarece: Pelos deficientes dados que existem, impossivel se torna um estudo minucioso do estado climaterico anterior do municipio, e para fazel-o, incompleto, socorremo-nos do relatorio de 1910 desta repartição, onde estão consignadas observações feitas em periodos distanciados um do outro até á fundação da Estação Meteorologica e que de grande proveito tem sido. O resumo das observações registradas desde essa epocha, com gentileza fornecido annualmente, segue-se acompanhado dos quadros relativos a 1913, em confronto. (...)
TEMPERATURA
Em 1913, conforme consta do relatorio anterior, a temperatura dos mezes de inverno apresentou forte contraste com os mesmos de 1912. A minima absoluta de 0,2 registrou-se em 26 de agosto e a maxima de 36,4 em 11 de janeiro. A temperatura média do anno foi de 19,7. (...)
HUMIDADE
A humidade média foi:                           Humidade abs. média              Humidade rel. média
1912                                                                12,0                                             70,5
1913                                                                12,5                                             72,2
(...)
NEBULOSIDADE
(0 a 10)
A maxima em 1912 foi de 6,6 e a minima 1,6, contra as de 7,8 e 1,5 em 1913. (...)
PLUVIOMETRIA
O ultimo relatorio da estatistica assignalava que, como 1911, o anno de 1912 tinha sido abundante em chuvas. E, agora, neste novo trabalho, temos a notar o mesmo quanto a 1913, (...) A maior altura de chuva observada num dia attingiu a 70,6 m/m em 17 de junho, durante 4 horas e tres quartos, e a menor de 14,0 a 15 de janeiro. (...) em 1913 a somma das precipitações foi de 1.249,1 m/m em 97 dias, dando a média de 12,7 por dia, contra a do anno anterior de 1.453,2 em 89 dias e média de 16,3.

Quadro relativo à climatologia com dados de 1913 - IM/GI/AB/Re-007
Prever o tempo e as suas mudanças sempre foi um desafio para o homem. Há 100 anos, então, muito mais, razão pela qual trabalhos como o da Seção de Estatística da Intendência de Cachoeira revestem-se ainda de maior significado, assim como a pequena Estação Meteorológica, de segunda classe, que habitava a velha Praça José Bonifácio.
sexta-feira, 4 de julho de 2014 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Enchentes pela nossa história

Há dias o Rio Grande do Sul é assolado por copiosas chuvas e já conta enormes prejuízos, com aumento dos leitos dos rios, inundações de populações ribeirinhas e até de cidades inteiras. Em lugares bem próximos de nossa cidade houve o desabamento de estradas e o comprometimento de pontes. Numa cidade que vive às margens de um grande rio que, por sua vez, é tributário de numerosos afluentes, esta situação não é singular. Antes pelo contrário. Ao longo de nossa história muitos relatos de grandes enchentes são conhecidos, notadamente os que relembram a do ano de 1941, que atingiu boa parte do Estado e teve grandes proporções em Cachoeira.


Manchete do Jornal do Povo - edição de 27/4/1941
- acervo: Arquivo Histórico

Também no final do século XIX, mais precisamente em 1896, Cachoeira viu as águas do rio Jacuí subirem assustadoramente, havendo uma fotografia do complexo da Charqueada do Paredão que mostra o quão alto elas chegaram, pois o paredão que dava nome ao estabelecimento fabril possuía regular altura.


Charqueada do Paredão com as águas do rio Jacuí bem altas
- fototeca do Museu Municipal

No primeiro semestre de 1906 houve também uma grande enchente em nossa região e uma ponte que existia no rio Piquiri foi arrastada pelas chuvas. A Intendência Municipal, diante do embaraço que a queda da ponte deve ter causado para os moradores do lugar, teve que providenciar a sua recuperação o mais rapidamente possível e para isto assinou um contrato com Eloy da Silva Lisbôa exclusivamente para remover e recuperar o madeiramento da ponte.

Eis o que diz o contrato, constante do encadernado IM/GI/AB/C-001, fl. 36:

Contracto que faz Eloy da Silva Lisbôa com a Intendencia Municipal para remover do leito do rio Pequery todo o madeiramento da ponte do mesmo rio que foi levada pelas enchentes, da fórma seguinte:

1.ª
Obriga-se o contractante a fazer a remoção de todo o madeiramento pertencente a ponte do Pequery, arrastada pela enchente, do logar aonde se achar, fóra ou no leito do mesmo rio, para outro local secco, distante das margens do mesmo rio meia quadra mais ou menos.

2.ª
Obriga-se o contractante tambem a desmanchar toda a ponte ou parte desta sem estragar as suas peças para facilitar a dita remoção, responsabilizando-se mais pela conservação e vigilancia de todo o madeiramento da dita ponte.

3.ª
Este serviço deverá ser feito com brevidade, obrigando-se esta Intendencia a pagar ao contractante trezentos mil reis (300$000) logo depois de verificar a execução de todas as clausulas deste contracto.

E para clareza, eu, João Porto da Fontoura, Secretario da fazenda, lavrei o presente contracto que assignam os Srs. Dr. Candido Alves Machado de Freitas, vice-intendente em exercicio e o contractante Eloy da Silva Lisbôa.

Cachoeira, 9 de Maio de 1906
(assinam) Dr. Candido Alves Machado de Freitas
Eloy da Silva Lisbôa

Encadernado IM/GI/AB/C-001 - contrato lavrado à página da direita