segunda-feira, 29 de junho de 2015 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Proposta para substituição da iluminação pública por novo invento

A iluminação de uma cidade, a exemplo de outros serviços que estão a cargo da administração pública, é boa indicadora do nível de investimento e do estágio de evolução tecnológica atingido pelo município.

Cachoeira experimentou variadas formas de iluminar suas vias e casas. Do acendedor de lampiões às primeiras experiências com luz elétrica, o tempo percorreu dois séculos... E os avanços da ciência aconteciam bem longe daqui!

Uma carta remetida ao presidente e demais vereadores da Câmara, em 6 de maio de 1886, é uma prova das inovações que a segunda metade do século XIX estava atingindo na área.  E também demonstra o interesse que os concessionários do contrato da iluminação pública municipal tinham no investimento em novas tecnologias e no seu repasse comercial.



CM/DA/OM/Caixa 3

Eis o conteúdo:

Os abaixo assignados, concessionarios do contrato da illuminação publica que se faz na Cidade da Cachoeira, participão a distinta corporação Municipal dessa Cidade, que prettendem mudar o actual systema de illuminação a kerozene por outro mais vantajoso e melhor, cujo preço não excede ao kerozene.

O systema de illuminação que os abaixo assignados querem introduzir e substituir pela luz de kerozene he inteiramente novo e desconhecido, pois he uma descuberta ressentem.te feita nos Estados Unidos d'America do Norte.

Sendo necessario sugeitar esta luz e o seo systema a uma experiencia pratica, que traga em rezultado a convicção de que realm.te ella he sup.r a do kerozene, e igual ao gaz carbonico, sem alterar o custo da actual illuminação, os abaixo assignados mandarão buscar nos Estados Unidos um determinado numero de lampiões para, com elles, fazer-se a devida experiencia, sugeitando-a a apreciação dessa Municipalidade, afim de rezolver se convirá ser esta illuminação adoptada. 

Convem que essa Municipalidade não tome rezolução alguma sobre qualquer contracto de illuminação que se prettenda fazer, sem que primeiro seja experimentado e estudado o systema de luz que os abaixo assignados querem adoptar.
E. R. Mce.
Souza & Pinto.

Porto Alegre 6 de Maio 1886
(CM/DA/OM/Ofícios/Caixa 5)

Não foi localizado documento que faça alusão ao atendimento do pedido da empresa Souza & Pinto, impossibilitando que se afirme se houve ou não a experiência. Não obstante, a carta é um interessante documento que prova que os avanços estavam em curso, com nome e endereço, podendo aportar por aqui mediante uma simples assinatura...

(MR)

sexta-feira, 19 de junho de 2015 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Melhoramentos urbanos

A década de 1920 foi uma das mais profícuas em melhoramentos urbanos na história de Cachoeira do Sul, resultado de um momento de grande crescimento econômico e de forças políticas trabalhando em uníssono.
São desse período a construção da primeira e da segunda hidráulicas, do Château d'Eau, do calçamento de trechos importantes no centro e bairros, do ajardinamento das principais praças e passeios públicos.

20 de setembro de 1921, inauguração da 1.ª Hidráulica
- Grande Álbum de Cachoeira, de Benjamin Camozato

Reservatório R2 , 2.ª Hidráulica, 1925
- fototeca Museu Municipal

Uma nota do pedreiro Pedro Simões, paga pela Intendência Municipal por diversos serviços prestados em outubro de 1926, dá mostra do grande canteiro de obras instalado em Cachoeira naquele tempo:

Diversos serviços de pedreiro executados para a Municipalidade, a saber:

Colégio Elementar:
10,5 m de calha coberta de tijollo a 5$000 .........................................     52$500
10,5 m de calha aberta de tijollo a 3$500 ...........................................    36$750
29,80 m de cordão de tijollo ao redor do pavilhão de gymnastica ..... 107$280

Reservatorio R2:
Mão de obra para a construcção de 3 escadas de alvenaria, collocação de uma placa de bronze grande e construcção da parede para a mesma e collocação de duas placas pequenas, bem como diversos reparos .................................................................................. 330$000

Filtros
Construcção de escada grande de alvenaria para os jardins ............ 180$000

"Château d'eau"
Construcção de 4 paredes toscas de pedra a 20$000 ......................... 80$000

Jardim junto á Intendencia
Construcção de um lago de paredes toscas de pedra ....................... 110$000
Mão de obra para quebrar varios blocos de pedra .........................   45$000
                                                                          TOTAL ................... 941$530
Jardim da Intendência
- fototeca Museu Municipal

Edifício do Fórum e do Colégio Elementar
- O Rio Grande do Sul, vol. II, de Alfredo R. da Costa, 1922
Boa parte das obras que os administradores do município executaram na efervescente década de 1920 está de pé até hoje. Pelo menos uma delas, o Reservatório R2, segue cumprindo sua função original. Esta é uma das razões pelas quais os movimentos de preservação da memória lutam para que os testemunhos da história não sejam perdidos, porque mais do que prédios e monumentos, eles são verdadeiros registros de uma época e de suas dificuldades e avanços.

(MR)
sexta-feira, 5 de junho de 2015 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Doce Cachoeira

Vez por outra a equipe do Arquivo Histórico, em meio à sua rotina de organizar documentos oficiais, localiza recortes, lembranças, páginas avulsas de jornais e revistas que pessoas da comunidade trazem, no propósito de que sirvam para subsidiar estudos ou mesmo compor com outros documentos, quem sabe, um aspecto da nossa rica história.
Pois em uma das pastas submetidas à análise, eis que um recorte de jornal ilustrado com linda aquarela do Château d'Eau de pronto chamou a atenção. Trata-se do jornal Zero Hora, edição de 13 de setembro de 1999, que traz a coluna do escritor cachoeirense Liberato Vieira da Cunha. 
Com o título "Doce Cachoeira", a coluna não está assinada pelo seu titular, mas sim por um interino, o escritor Carlos Urbim, recentemente falecido.

Recorte do jornal Zero Hora, edição de 13-9-1999
O texto de Urbim, colorido como tudo que ele escrevia, remete o leitor a uma doce Cachoeira, aquela que Liberato Vieira da Cunha tantas vezes canta e decanta com orgulho e que salta agora do fundo de uma pasta, como a nos provocar bons olhares sobre a terra que é berço comum de muitos, como provam os tantos documentos que o Arquivo Histórico guarda.
A Doce Cachoeira descrita por Carlos Urbim, a partir do olhar de Liberato, é assim:

Na Redação, Liberato Vieira da Cunha é um homem de postura impecável, ternos sóbrios, gestos econômicos, poucas palavras. O máximo que se permite é buscar no bar outro copo de café, silenciosamente. Mas todos sabemos, os leitores desta coluna e eu, que, quando escreve, Liberato tem vários por dentro.
Às vezes, é o poeta embriagado de imagens e de tesão, que dança o último tango da noite em um cabaré de Paris ou no bar mais fervido do bairro San Telmo, Buenos Aires. Cosmopolita, inventa ser passageiro de um navio transatlântico, apaixonado pela mais bela da travessia. Em outras, é o estudante sonhador numa Porto Alegre antiga que tem escadarias e lampiões misteriosos. Ruas como a Duque de Caxias se transfiguram em cenário de romance. Há crônicas em que cita músicas eruditas, museus, livros e autores que poucos conhecem. Quem lê se apaixona pelo que talvez nem exista mais. Ou nunca existiu. Ou que desafia o novo milênio e resistirá.
Admiro esses Liberatos todos, principalmente o amante de loiras, morenas, ruivas e negras inesquecíveis, entre taças de champanha da melhor safra. Mas de quem mais gosto é do guri que pega a gente pela mão, um picolé na outra, e nos leva para sua doce cidade, Cachoeira do Sul.
Aos olhos do garoto cachoeirense, nesse lugar há cores impressionistas, sacadas em estilo art-nouveau, cheiros amenos no ar, moças nas janelas dispostas a namorar. Com Liberato de cicerone, os leitores adquirem mais respeito pelos prédios da avenida principal e pelo Château d'Eau, na frente da Catedral. Vamos aos bailes de debutantes promovidos pela Dona Nenê Müller. Comemos arroz doce com canela em pó na casa da tia mais querida.
No ano de 1957, Liberato Salzano Vieira da Cunha, pai do titular desta coluna, era o secretário de Educação do Estado. Ele e a esposa foram visitar escolas da Fronteira Oeste. Eu era do terceiro ano do Grupo Escolar Rivadávia Corrêa, em Sant'Ana do Livramento. Fiquei fascinado diante do casal, tão distinto e afável, que nos tornava importantes. Os dois gostavam de crianças, falaram com o maior carinho sobre os quatro filhos que tinham. Estavam com saudade, mas ainda iriam percorrer escolas da região.
Também me senti órfão quando o jornal A Platéia noticiou o pior desastre aéreo da minha infância. Ao sair de Bagé, às 8h40min do dia 7 de abril, um domingo, o avião em que o casal viria para Porto Alegre explodiu.
Uma década depois, estive pela primeira vez em Cachoeira do Sul. O que mais me impressionou foi a Fonte das Águas Dançantes, com trilha sonora: "E a fonte a cantar, chuá, chuá...". Livramento e a vizinha Rivera, no Parque Internacional, têm fonte de águas luminosas. Mas sem música.
Por isso, adoro quando as crônicas de Liberato Vieira da Cunha me levam para Cachoeira, essa cidade em que mesmo as lembranças mais amargas têm gosto de arroz doce com canela em pó.

A pasta que aguardava análise na prateleira não revelou nenhum documento histórico inédito, mas permitiu o deleite de revisitar Cachoeira através de um olhar forasteiro e abalizado. E, mais do que isto, isento da pequenez diária que por vezes nos acomete.

(MR)
segunda-feira, 1 de junho de 2015 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Praça do Pelourinho - embrião do coração da cidade

A Praça do Pelourinho, atual José Bonifácio, foi a primeira a ser demarcada no recinto da então Vila Nova de São João da Cachoeira, no ano de 1830. Uma vez definida a extensão da praça, a Câmara começou a conceder terrenos em seu entorno, o que pouco a pouco acabou por povoar as imediações daquele espaço.

Um requerimento do cidadão Jozé Domingues Severo, remetido à Presidência da Província em 29 de maio de 1849, que solicitava terreno na Rua do Loreto, atual Sete de Setembro, permite a reconstituição de como era o processo deflagrado pela Câmara para atendimento do pedido e também levanta uma planta da então Praça do Pelourinho, revelando a conformação física de espaço que se tornou o coração da cidade.

CM/OF/Requerimentos/Caixa 8
O teor do requerimento era o seguinte:
Diz Jozé Domingues Severo, morador na Villa da Caxoeira, que achando=se devoluto na mma. Villa na Rua do Loreto hum terreno de setenta Palmos de frente ao Este, fundos meia quadra, devedindo=se pello Norte com terrenos e cazas de Augusto Koch, epello Sul com os que forão concedidos a Miguel Teix.ª de Carv.º e como o Suppe. oquer possuir com ligitimo Titulo para nelle edeficar huma morada de cazas p.ª sua rezidencia, por isso
P. a V.Ex.ª seja servido conceder-lhe o terreno ascima mencionado.
E. R. M.ce
Caxoeira 29 de Maio de 1849.
(assinatura de Joze Domingues Severo)

O primeiro despacho ao requerimento foi dado em 9 de junho de 1849, determinando aferição do terreno referindo-o á esquina mais proxima, e declarando que ruas a formão. Palacio do Governo em Porto Ale. 9 de Junho de 1849. Em 2 de julho de 1849, o mesmo Palácio ordenou que a Câmara de Cachoeira fosse informada do pedido. Em 19 de setembro do mesmo ano, o Presidente da Província mandou informar novamente a Câmara de Cachoeira ajuntando a planta do terreno com as ruas que cercão a quadra em que elle existe, a qual planta será dada pelo sup.e e igualmente qual o valor do terreno, e se nenhum inconveniente se segue de o conceder. Pal.º do Gov.º em P. Ale. 19 de 7br.º de 1849. -

O pedido do morador foi discutido em sessão extraordinária da Câmara de Cachoeira no dia 26 de julho de 1849 e novamente em sessão de 10 de setembro do mesmo ano.

Em outro despacho, emitido um ano depois do requerimento de Jozé Domingues Severo, o Palácio do Governo em Porto Alegre dizia o seguinte: Estão prohibidas até nova ordem do Governo Imperial, as concessões de prazos urbanos. 

Provavelmente em função da proibição imposta pelo governo da Província, a questão do terreno só foi retomada em 26 de junho de 1858! Mas dois anos antes, em 26 de março de 1856, o arruador da Câmara de Cachoeira, Iziquiel da Cunha, assinou a planta do terreno n.º 90, com setenta palmos de frente ao Leste, que he o que consta o requerimento de Jozé Domingues Severo, cuja quadra em que se acha dito terreno, acima se discreve. 


Planta do terreno solicitado, defronte à Praça do Pelourinho
- CM/OF/Requerimentos/Caixa 8
Em novo requerimento, Jozé Domingues Severo disse:

...que achando se devoluto hum terreno sito nesta V.ª da Cachoeira na rua do Loreto, o qual está demonstrado na planta junta sobre o n.º 90; e estando o Suppe. de posse de dito terreno, e querendo possuillo com titulo legitimo, requereu ao Governo da Provincia, a concessão delle, para oque foi ouvida a respectiva Camara Municipal, que enformou estar devolluto, em secção de 10 de Septembro de 1849, como se vê dos documentos juntos, e tendo sido indeferida a pertenção do Suppe. com os fundamentos deque o Governo Imperial mandou sobre estar taes coureçoens the nova rezolução; e como já tem decorrido alguns annos, e o Suppe. tem estado privado de idificar em supradito terreno como pertende, vem rogar a V. Ex.ª haja de o conseder e mandar passar o competente titulo, pelo qual o Suppe. ficará obrigado aos onus que judiciozamente lhe for imposto pello que 
R. M.ce
V.ª da Cachoeira 20 de Julho de 1858
(assinatura de Joze Domingues Severo)

Os despachos e orientações, naquela época, eram apostos nas margens do documento original. Assim, neste segundo requerimento do morador, emitido nove anos depois do primeiro, consta na margem superior: Ao Sr. Inspector da Thesouraria em Porto Alegre 26 de Junho de 1858. S.ª Ferraz. Remettido á Camara Municipal da Villa da Caxoeira para proceder nos termos do Aviso expedido pela (segue no verso) Repartição Geral das Terras Publicas, do qual se lhe deo conhecimento em Circular de 17 de 7br.º ultimo. Palacio da Presidencia em Porto Alegre 13 de Outubro de 1858. Na margem esquerda, anverso: Haja vista o Sr. Dr. Proc.ºr Fiscal - Thesouraria de S. Pedro 27 de Julho 1858. E ainda, abaixo: A Lei de 12 de Outubro de 1833 no art.º 3.º permitte o aforamento perpetuo de chãos encravados, ou adjacentes às Povoações, que sirvão para edificação, e neste caso está o de que se trata. Porto Alegre 10 de Agosto de 1858. 


CM/OF/Requerimentos/Caixa 8
Deduz-se que pelo teor do último despacho, acima transcrito, o cidadão Jozé Domingues Severo recebeu a licença para construção. Mas o que realmente importa hoje não é a burocracia que, guardadas as diferenças temporais, segue muito semelhante, e sim a percepção dos primeiros movimentos para povoamento daquele espaço que se tornou o coração da cidade hodierna.

(MR)