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Doce Cachoeira

Vez por outra a equipe do Arquivo Histórico, em meio à sua rotina de organizar documentos oficiais, localiza recortes, lembranças, páginas avulsas de jornais e revistas que pessoas da comunidade trazem, no propósito de que sirvam para subsidiar estudos ou mesmo compor com outros documentos, quem sabe, um aspecto da nossa rica história.
Pois em uma das pastas submetidas à análise, eis que um recorte de jornal ilustrado com linda aquarela do Château d'Eau de pronto chamou a atenção. Trata-se do jornal Zero Hora, edição de 13 de setembro de 1999, que traz a coluna do escritor cachoeirense Liberato Vieira da Cunha. 
Com o título "Doce Cachoeira", a coluna não está assinada pelo seu titular, mas sim por um interino, o escritor Carlos Urbim, recentemente falecido.

Recorte do jornal Zero Hora, edição de 13-9-1999
O texto de Urbim, colorido como tudo que ele escrevia, remete o leitor a uma doce Cachoeira, aquela que Liberato Vieira da Cunha tantas vezes canta e decanta com orgulho e que salta agora do fundo de uma pasta, como a nos provocar bons olhares sobre a terra que é berço comum de muitos, como provam os tantos documentos que o Arquivo Histórico guarda.
A Doce Cachoeira descrita por Carlos Urbim, a partir do olhar de Liberato, é assim:

Na Redação, Liberato Vieira da Cunha é um homem de postura impecável, ternos sóbrios, gestos econômicos, poucas palavras. O máximo que se permite é buscar no bar outro copo de café, silenciosamente. Mas todos sabemos, os leitores desta coluna e eu, que, quando escreve, Liberato tem vários por dentro.
Às vezes, é o poeta embriagado de imagens e de tesão, que dança o último tango da noite em um cabaré de Paris ou no bar mais fervido do bairro San Telmo, Buenos Aires. Cosmopolita, inventa ser passageiro de um navio transatlântico, apaixonado pela mais bela da travessia. Em outras, é o estudante sonhador numa Porto Alegre antiga que tem escadarias e lampiões misteriosos. Ruas como a Duque de Caxias se transfiguram em cenário de romance. Há crônicas em que cita músicas eruditas, museus, livros e autores que poucos conhecem. Quem lê se apaixona pelo que talvez nem exista mais. Ou nunca existiu. Ou que desafia o novo milênio e resistirá.
Admiro esses Liberatos todos, principalmente o amante de loiras, morenas, ruivas e negras inesquecíveis, entre taças de champanha da melhor safra. Mas de quem mais gosto é do guri que pega a gente pela mão, um picolé na outra, e nos leva para sua doce cidade, Cachoeira do Sul.
Aos olhos do garoto cachoeirense, nesse lugar há cores impressionistas, sacadas em estilo art-nouveau, cheiros amenos no ar, moças nas janelas dispostas a namorar. Com Liberato de cicerone, os leitores adquirem mais respeito pelos prédios da avenida principal e pelo Château d'Eau, na frente da Catedral. Vamos aos bailes de debutantes promovidos pela Dona Nenê Müller. Comemos arroz doce com canela em pó na casa da tia mais querida.
No ano de 1957, Liberato Salzano Vieira da Cunha, pai do titular desta coluna, era o secretário de Educação do Estado. Ele e a esposa foram visitar escolas da Fronteira Oeste. Eu era do terceiro ano do Grupo Escolar Rivadávia Corrêa, em Sant'Ana do Livramento. Fiquei fascinado diante do casal, tão distinto e afável, que nos tornava importantes. Os dois gostavam de crianças, falaram com o maior carinho sobre os quatro filhos que tinham. Estavam com saudade, mas ainda iriam percorrer escolas da região.
Também me senti órfão quando o jornal A Platéia noticiou o pior desastre aéreo da minha infância. Ao sair de Bagé, às 8h40min do dia 7 de abril, um domingo, o avião em que o casal viria para Porto Alegre explodiu.
Uma década depois, estive pela primeira vez em Cachoeira do Sul. O que mais me impressionou foi a Fonte das Águas Dançantes, com trilha sonora: "E a fonte a cantar, chuá, chuá...". Livramento e a vizinha Rivera, no Parque Internacional, têm fonte de águas luminosas. Mas sem música.
Por isso, adoro quando as crônicas de Liberato Vieira da Cunha me levam para Cachoeira, essa cidade em que mesmo as lembranças mais amargas têm gosto de arroz doce com canela em pó.

A pasta que aguardava análise na prateleira não revelou nenhum documento histórico inédito, mas permitiu o deleite de revisitar Cachoeira através de um olhar forasteiro e abalizado. E, mais do que isto, isento da pequenez diária que por vezes nos acomete.

(MR)

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