sexta-feira, 27 de novembro de 2015 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Levantamento dos Cegos na Província

A preocupação em levantar os cidadãos portadores de deficiência visual e oferecer-lhes educação já era manifesta pelas autoridades em meados do século XIX. Portanto, o que parece ser atitude contemporânea é muito mais antiga do que se imagina.

Em 1854, a Câmara Municipal recebeu a cópia de um ofício circular do Palácio da Presidência da Província, em Porto Alegre, datado de 3 de março, em que o Ministro dos Negócios do Império determinava que fosse apresentada uma estatistica aproximativa dos cegos que existem no Imperio, visto estar a crear-se na Côrte hum instituto destinado á educação dos jovens cegos. Além dessas informações, sobretudo o ministro tinha interesse de saber o numero das familias que possuem crianças em estado de serem admittidas no dito estabelecimento, e se fôr possivel devem taes dados estatisticos hirem com documentos assignados pelos Medicos e authoridades civis das Parochias, as quaes certifiquem que a criança he céga, que a cegueira não tem cura, que não he idiota, nem tem lesão organica, e bem assim o estado de fortuna de seus Pais (...)


CM/S/SE/CR/Cx. 17

Em 17 de abril do mesmo ano, o Subdelegado Isaias Baptista Roiz’ Pereira respondeu à Câmara o que a circular de 3 de março solicitava: (...) não consta haverem jovens cégos neste Destrito e que não obtive a informação p.los respectivos Inspectores como a Camara exigia porque os não há.

CM/S/SE/CR/Cx. 17

O Juiz de Paz Jozé Gomes Porto, em ofício de 10 de maio de 1854 também respondeu à Câmara que cumpre-me scientificar a V.S.ª, q.’ nem nesta Freguesia, e nem no seo 2.º Destricto ha jovem algum dos mencionados na Circular de S. Ex.ª de 3 de Março do corr.e anno.

CM/S/SE/CR/Cx. 17

Oliverio Antonio de Athaydes, Subdelegado de Polícia do 3.º distrito da Vila também respondeu à solicitação da Câmara, dizendo que já obtive as percizas informaçoens dos Inspetores dos Quarteirões, de todo este Destricto, e que, não há um só Jovem cego, especialm.e com as qualidades comforme a Circular de Ex.mo Senr" Prezid.e da Prov.ª.

E finalmente, em 9 de junho de 1854, o Delegado de Polícia Jacintho Franco de Godoy informou que só me consta existir neste 1.º Destricto nas circunstancias especificadas na sobredita Circular o Jovem cego de nome Rufino Carneiro da Silva, de idade de oito annos, filho de Quiteria Carneiro da Silva, summam.e pobre que não me parece ser idiota nem ter lesão organica, porem que não sei se a enfermidade que o priva da vista terá ou não cura.

CM/S/SE/CR/Cx. 17

Interessantíssimos tais documentos! Não só por trazerem à luz de nossos dias a intenção de favorecer educacionalmente os portadores de deficiência visual, quando ainda os ditos normais não tinham acesso universal à educação, e por revelar a identidade do único portador de deficiência visual localizado em Cachoeira: um menino de oito anos, de nome Rufino Carneiro da Silva. Os ofícios de resposta das autoridades dos principais distritos revelam também a rede de informações que estava disponível, mostrando-se eficiente no atendimento da solicitação vinda do Império, dentro da lógica e do emprego de tempo possíveis na época.

*O Estado Brasileiro reconhecia apenas duas deficiências no século XIX: a cegueira e a surdez. Em 1854 foi fundado, no Rio de Janeiro, capital do Império, o Imperial Instituto dos Meninos Cegos, atual Instituto Benjamin Constant. Esta instituição, assim como O Imperial Instituto dos Surdos-Mudos, criado dois anos após, funcionavam como internatos e inspiravam-se nos ideais iluministas, objetivando inserir os alunos na sociedade e ensinar-lhes sobre as letras, as ciências e a religião. Na Europa, as instituições congêneres eram normalmente assistenciais ou de caridade. No Império do Brasil, não. Eram consideradas instituições de ensino e, portanto, afeitas à organização da instrução pública.

*(Fonte: www.bengalalegal.com)

MR
sexta-feira, 20 de novembro de 2015 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

O Oráculo do Retiro do Irapuazinho

Foi fundado em Cachoeira do Sul, no dia do aniversário natalício do homenageado, 19 de novembro, o Instituto Histórico Borges de Medeiros, iniciativa de Suzana Luderitz Saldanha, bisneta do político que por mais tempo governou o Rio Grande do Sul.

A Estância do Irapuazinho, propriedade rural de Antônio Augusto Borges de Medeiros e sua família, no interior de Cachoeira do Sul, foi o local escolhido por ele para o descanso quando afastou-se definitivamente da política. Para lá correram muitos políticos ou seus enviados, não só do Rio Grande, mas do Brasil, atrás de aconselhamentos e pareceres sobre o cenário estadual e nacional. Repórteres de vários jornais também buscavam por ele, ávidos de impressões do velho líder.

Em 1931, ano que antecedeu a Revolução Constitucionalista, o jornal Correio do Povo, de Porto Alegre, enviou para Cachoeira, no mês de julho, um jornalista para acompanhar a visita que Flôres da Cunha, Interventor Federal, e Oswaldo Aranha, Ministro da Justiça, fizeram ao chefe do Partido Republicano, Dr. Borges de Medeiros. O jornal local, O Commercio, reproduziu em suas páginas trechos da reportagem feita pelo profissional de Porto Alegre: 

SEIS HORAS DE PERMANENCIA NO RETIRO DO IRAPUAZINHO
Impressões de um redactor do “Correio do Povo”

Um dos nossos brilhantes collegas do “Correio do Povo”, que se tem assinalado nestes ultimos tempos por uma serie de entrevistas de alto valor, acompanhou a comitiva do sr. dr. Oswaldo Aranha, ministro da Justiça e general Flôres da Cunha, Interventor Federal, á visita feita por ss. exas. ao egregio chefe do Partido Republicano sr. dr. Borges de Medeiros.
É desse trabalho que ainda mais salienta as qualidades jornalisticas do reporter que resumimos e extractamos o que se segue.
“Passavam 15 minutos da meia noite quando o trem sahiu á gare da estação de Porto Alegre. A viagem decorreu animada e sem incidentes de especie alguma. “Dir-se-ia que esta viagem, commenta o redactor, vae transformar-se numa licção pratica da campanha da boa vontade.”
E apreciando a obra do interventor, salienta:
“O general Flôres da Cunha, expondo a situação do Estado ao sr. Oswaldo Aranha confessa com melancholia:
A situação é tal que minha tarefa, no governo, está condemnada a isto: manutenção da ordem e arrecadação. Não tenho margem para iniciativas, para um governo constructor.
O ministro da Justiça interrompe-o:
- E você quer obra mais necessaria, no momento, do que essa? Um governo que, sob a imposição das circumstancias financeiras e economicas, se vota á defesa da estabilidade moral e material da sua terra, para que os seus successores possam construir sobre alicerces tão firmes, é um governo digno do respeito collectivo.
O interventor deplora a não realização de um largo programma de emprehendimentos. Por temperamento, elle sente o dynamismo da raça dos construcotes. Mas é um prisioneiro das circumstancias.
As palavras que, horas depois, ouviria do sr. Borges de Medeiros, já lhe dissiparam, por certo, a tristeza de não poder traduzir em factos o seu sonho de realizador energico...”
E continua, depois de uma digressão sobre a palestra que, no salão, encurtou as horas de viagem:
“Após quatro horas de viagem, na estrada mediocremente carroçavel, avista-se, no topo de uma coxilha, a fazenda de Irapuazinho.


Casa onde viveu Borges de Medeiros no Irapuazinho
- Imagem: Divinut Empresa - 19/11/2015
- Lá está a casa, - informa-nos o general Flôres da Cunha. Á medida que nos approximamos da fazenda, a nossa curiosidade augmenta. Como será esse homem que, ainda fóra do poder, representa uma força moral incontrastavel? Haverá exagero nos perfis que lhe traça a imaginação literaria dos seus entrevistadores? Um passado não distante acode-nos á memoria. Dentro da atmosphera de exaltação partidaria em que nos criámos, o lexico politico do tempo reservava uma palavra aspera para caracterizar o antigo presidente do Rio Grande do Sul: “dictador”. Ahi um dictador, naquelles tempos, era um monstro, uma entidade apocalyptica, que devorava a Liberdade (com inicial maiuscula) com um appetite rabelaiseano. Essa impressão de dictador, de um modo generico, até há menos de um anno, nos feria a sensibilidade. Foi o sr. Getulio Vargas o cavalleiro sem medo que nos desencantou o castello onde vivia o temivel dragão. A dictadura agora é uma cousa tão lyrica como a propria democracia. O monstro tornou-se um bicho tão domestico, aos olhos das gerações actuaes, que os homens de imprensa passam hoje a matar o seu tempo, no jogo innocente de cravar-lhe alfinetes no couro macio. Á perspectiva do trato com o sr. Borges de Medeiros, não era a reminiscencia dictatorial que nos fazia bater o coração. Era, acima de tudo, a sua projecção actual. Para elle, como para um oraculo, correm os homens, em busca de uma palavra orientadora ou de um conselho definitivo. Irapuassinho [sic], já dissemos e repetimos agora, é uma instancia oracular, cujas sentenças os correligionarios do sr. Borges de Medeiros acceitam como um artigo de fé e os adversarios do chefe do Partido Republicano respeitam, como uma lição de bom-senso e sabedoria. Aquella casa modestissima, que está deante de nós, em certos momentos da segunda Republica, se transforma no “centro da terra”, exactamente como o templo de Delphos para os pythios das delegações spartanas. Por que? Por uma necessidade peculiar á natureza humana, em todas as phases de civilização? Esta explicação, meramente psychologica, não basta. O phenomeno revela um dos aspectos curiosos da democracia, em todas as épocas: a necessidade da existencia dos “chefes”, dos conductores de massas. A soberania popular, em ultima analyse, se reduz a isto: a evidencia da sua fragmentação através de vontades individuaes directoras ou inspiradoras. Em resumo o chefe, o guia, o “leader”, como centros de gravitação das aspirações colectivas.

DEANTE DO SR. BORGES DE MEDEIROS

Deante do sr. Borges de Medeiros, após uma acolhida cordealissima, continuamos a interrogar-nos mudamente:
- Mas é esse homem franzino, de uma suavidade de tratamento que logo nos torna familiar a sua presença, que estende o seu governo moral a todo o territorio da Republica?



Não ha duvida nenhuma, é elle mesmo: aqui estão, para ouvil-o, um ministro e um interventor...
Meia hora depois da nossa chegada, se o sr. Borges de Medeiros não nos impressionára pela ausencia da dureza glacial das suas atitudes, desmentindo o retrato feito pela imaginação, nos commovia em face da simplicidade dos seus habitos, da quase humildade da sua vida, naquella vivenda rustica. Custava-nos crêr que um homem, depois de haver enfeixado nas mãos uma somma tão grande de poder, se resignasse a viver numa obscuridade tão flagrante. Nessa renuncia há um fremito de silencioso mas formidavel heroismo. Pouco e pouco, aquella obscuridade heroica se transforma, para surgir no seu verdadeiro sentido, para surgir como expressão de grandeza. Se, politicamente, nos sentimos tão separados hoje do sr. Borges de Medeiros como hontem, no torvelinho da lucta, comprehendemos que ao jornalista, num momento em que ensaia o papel chronista,  lhe incumbe o dever de proclamar esse traço de grandeza na personalidade do chefe republicano.
Durante o almoço, as nossas observações se enriquecem. O illustre chefe republicano é um conservador sobrio mas interessantissimo. Insulado no ermo, elle está em dia com o mundo e com a sua época. Apesar da sua feição moral conservadora – reflexo da longa passagem pelo governo – o solitario de Irapuazinho não crystalisou num grau de cultura refractaria ás acquisições progressivas reveladas pela evolução intellectual. Elle acompanha mentalmente a sua época. Homem de experiencia, de agil apprehensão de fórmas vivas da realidade, as ideologias passam pelo seu espirito sem lhe produzirem damno. Aceita o que a verdade experimental indica ser aceitavel, sem o feiticismo das abstracções doutrinarias. Querem uma prova? Eil-a: a sua recente entrevista ao “Estado do Rio Grande”.
Depois do café, o sr. Oswaldo Aranha offereceu-lhe um cigarro. O sr. Borges de Medeiros pergunta:
- Cigarros do Rio?
- Sim.
- Pois aceito, não só por ser do Rio, como por se tratar de um cigarro ministerial...
O ministro da Justiça passa para o gabinete onde o sr. Borges de Medeiros, fóra do governo, continua a dar as suas audiencias. Uma saleta inundada de claridade e com um armario de livros.
Retiramo-nos, comprehendendo que se ia tratar de assumpto de grande transcendencia politica. O general Flôres, o coronel Lucio Esteves e o major Alberto Bins acompanharam-nos. Dentro de alguns minutos, uma voz forte chama pelo nome do interventor:
- José Antonio!
É o ministro da Justiça que chama o general Flôres da Cunha para o gabinete do ex-presidente.
A entrevista entre os srs. Borges de Medeiros, Flôres da Cunha e Oswaldo Aranha se prolonga até ás 4 horas da tarde. A essa hora, é interrompida para o café. Observamos as physionomias: todas revelam satisfação. O conclave vae, naturalmente, ás maravilhas...
- Vamos recomeçar a nossa palestra?
O ministro e o interventor acompanham o chefe do Partido Republicano até á bibliotheca. Sahimos para fóra, novamente, repousando o olhar na linha sonhadora das serras azuladas de Caçapava.
A conferencia, no interior da saleta, decorre tranquilla. A’s cinco horas, dão-na por terminada. Chega a vez do prefeito. Elle marcha, calmo, para a audiencia, a fim de examinar com o chefe, a crise do arroz e a posição do Syndicato dos Arrozeiros deante dos interesses da produção cachoeirense. Depois o coronel Lucio Esteves, entretem num “tête-á-tête” de 15 minutos com o sr. Borges de Medeiros. Chega a nossa vez. Seis horas da tarde. Devemos regressar incontinente, segundo o convite do interventor.
O sr. Borges de Medeiros acolhe-nos com um sorriso se bondade.
- Como lamento não ter podido conversar, como eu desejava, com o senhor!
Agradecemo-lhe a delicadeza das palavras, respondendo-lhe tambem:
- Não viemos entrevistal-o, pois a sua ultima entrevista é recentissima e dahi até hoje nada surgiu que lhe possa merecer novas declarações. Contentamo-nos com a honra de conhecel-o pessoalmente...
O chefe republicano é liberal para com o jornalista:
- Já disse ao Oswaldo a ao Flôres que lhe déssem um resumo do meu pensamento.
- Muito agradecido.
A’ hora da despedida, o sr. Borges de Medeiros tem uma palavra para cada um.
Ao sr. Oswaldo Aranha elle abraça carinhosamente e pede transmittir um abraço ao sr. Getulio Vargas.
Abraçando o general Flôres da Cunha, diz:
- Tens que continuar no governo até o fim. Tu és o melhor interventor que o Brasil tem no modelo dos interventores.
Partimos. Rapidamente, as sombras da noite envolvem e fazem desapparecer fundida na treva, a casa pobre do cidadão que, sendo, no seu afastamento do mundo, um paradygma de nobre desinteresse, é uma alta lição de belleza moral, dentro da historia do regime.


Imagem: Divinut Empresa - 19/11/2015
O trem especial em plena marcha, a caminho de Porto Alegre, lembramos ao sr. Oswaldo Aranha a promessa do chefe do Partido Republicano.
O ministro da Justiça declara-nos:
- Voltamos, tanto eu como o interventor, satisfeitissimos do encontro com o dr. Borges de Medeiros. Resumo as minhas impressões nesta phrase do general Flôres, proferida após a nossa entrevista com o chefe: “Estamos, mais do que nunca, solidarios com o governo provisorio da Republica”.
Prossegue:
- O dr. Borges de Medeiros expressou a sua solidariedade com a obra administrativa e politica do governo provisorio. Essa solidariedade representa um voto de indispensavel confiança, de que precisamos para a realização dos compromissos que assumimos perante o Brasil. Ou inspiramos confiança ou não. Se a inspiramos, levaremos a cabo a obra a que estamos dedicando todas as energias. Volto, portanto, mais do que satisfeito, com o que ouvi do eminente chefe do meu Partido. A elle falei com a maxima franqueza, com a maior sinceridade. E é ainda com essa maior sinceridade e essa franqueza que irei falar agora aos libertadores, por intermedio do dr. Raul Pilla.
O governo provisorio conta então com o apoio decidido do dr. Borges de Medeiros para realizar as finalidades do seu programma?
- Sem duvida. Não ha divergencias.
- Mas o chefe republicano é pela reconstitucionalização immediata do paiz...
- Ninguem é contra a reconstitucionalização. Apenas nenhum de nós quer que se faça obra apressada. As declarações do sr. Assis Brasil, de chegada ao Rio, são bem expressivas.
(...)
O ministro da Justiça depois de mencionar a palavra do sr. Assis Brasil, accrescenta:
- O dr. Borges de Medeiros acha que um anno é o prazo razoavel para a normalização da vida politica nacional. Quanto á constituição, elle não é partidario da outorga de uma lei suprema ao povo brasileiro. O que elle suggére é que se elabore uma constituição provisoria, uma especie de ante-projecto da carta fundamental, para ser submettida ao exame das varias correntes de opinião. A constituinte póde adoptar ou regeitar essa constituição provisoria, aceitando-a em parte ou substituindo-a por outra”.
Termina o “Correio do Povo” a sua exposição com  esta nota:
“Já estavam escriptas estas impressões da viagem a Irapuazinho, quando tivemos noticia da conferencia que se effectuou, ainda hontem, numa das salas do palacio do governo, entre o ministro da Justiça e o dr. Rual [sic] Pilla, presidente do directorio Central do Partido Libertador. A entrevista, que foi longa, decorreu num ambiente de grande cordealidade. Entre os srs. Oswaldo Aranha e Raul Pilla ficaram definitivamente combinadas as directivas da acção do Rio Grande do Sul deante da obra a realizar pelo governo provisorio da Republica. Depois do entendimento de Irapuazinho, a conferencia de hontem entre o titular da pasta da Justiça e o chefe libertador veiu encerrar a phase das “démarches” motivadas pela viagem do primeiro ao Rio Grande do Sul.


Flôres da Cunha, João Neves da Fontoura,
Dr. Borges de Medeiros e Raul Pilla - Conclave de Cachoeira,
-acontecido um ano depois da matéria jornalística do Correio do Povo - 28/3/1932
- Fototeca Museu Municipal
O general Flôres da Cunha, com quem falamos depois da meia noite, nos declarou a proposito:
- A coordenação dos pontos de vista entre os dois partidos politicos do Rio Grande foi definitivamente assentada nestas duas ultimas conferencias. Pode o “Correio do Povo” declarar que foi completamente coroada de exito a missão que trouxe o ministro Oswaldo Aranha ao Rio Grande do Sul”.

(Publicado no jornal O Commercio, Cachoeira, Ano XXXII, N.º 1651, 22/7/1931, p. 3.)
 
MR
quinta-feira, 12 de novembro de 2015 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

"O mestre-sala dos mares" - cidadão cachoeirense

Há muito tempo nas águas
Da Guanabara

O dragão no mar reapareceu

Na figura de um bravo

Feiticeiro

A quem a história

Não esqueceu
Conhecido como
Navegante negro
Tinha a dignidade de um
Mestre-sala
E ao acenar pelo mar
Na alegria das regatas
Foi saudado no porto
Pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por
Batalhões de mulatas
Rubras cascatas jorravam
Das costas
Dos santos entre cantos
E chibatas
Inundando o coração,
Do pessoal do porão
Que a exemplo do feiticeiro
Gritava então
Glória aos piratas, às
Mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça,
Às baleias
Glórias a todas as lutas
Inglórias
Que através da
Nossa história
Não esquecemos jamais
Salve o navegante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais.



"O Mestre-sala dos mares", música de João Bosco e Aldir Blanc, pouca gente sabe, homenageia o marinheiro encruzilhadense João Cândido Felisberto, líder da Revolta da Chibata, ocorrida no Rio de Janeiro em novembro de 1910. Motivado pelo descontentamento com os castigos com chibata infligidos aos marinheiros pela Marinha do Brasil, João Cândido tomou a frente do movimento, exigindo do governo a abolição do uso da chibata. Por vários dias, amotinados, os marinheiros miraram os canhões dos navios de guerra Minas Gerais, São Paulo, Bahia e Deodoro para a cidade do Rio de Janeiro, então capital federal. Depois de negociações, o governo brasileiro comprometeu-se a abolir os castigos físicos na Marinha e a conceder anistia aos revoltosos. No entanto, logo depois disto, João Cândido foi expulso da Marinha do Brasil.





No ano de 1959, a Câmara de Vereadores de Cachoeira do Sul, numa proposição do vereador José Nicolau Barbosa, o "Almirante Negro" João Cândido foi agraciado com o título de Cidadão Cachoeirense. A ata da reunião da Câmara que registrou a proposta faz alusão ao pronunciamento do vereador Nilo Diniz Savi que, dentre outras coisas, manifestou o descontentamento com a Câmara de Vereadores de Porto Alegre que negou-se a conceder o Título de Cidadão Porto-alegrense a João Cândido.

No dia previsto para a homenagem, 22 de setembro de 1959, conforme registro feito pelo Jornal do Povo na edição do dia 24, ocorreu o que segue:

Sob a Presidência do Dr. Mário Ilha Filho e com a presença da quase totalidade dos vereadores, realizou-se, terça-feira última, a Sessão Magna Extraordinária da Câmara Municipal, convocada pela Presidência com a finalidade especial de ser procedida entrega do título de "Cidadão Cachoeirense" ao sr. João Cândido, líder da revolta de 1910, na Armada brasileira, que acabou com a chamada "Lei da Chibata".
Diversas autoridades dêste Município estiveram presentes nesse ato solene do Legislativo cachoeirense, destacando-se o sr. Arnoldo Paulo Fürstenau, Prefeito Municipal, que acompanhou o "Almirante Negro" até à Mesa.
Abertos os trabalhos, o Presidente disse da razão daquela sessão solene e dos motivos que levaram a Câmara a conceder ao sr. João Cândido o título honorífico de "Cidadão Cachoeirense". Em seguida passou a palavra ao vereador José Nicolau Barbosa para, em nome da Casa, saudar o ilustre visitante, o qual, em bonita oração, ressaltou o feito heróico de João Cândido, do qual resultou maior liberdade dentro da Armada Brasileira e um melhor tratamento para aqueles que a integram. Concluindo, disse que João Cândido era um verdadeiro símbolo da raça que aprendeu, juntamente com todos os brasileiros, a respeitá-lo e admirá-lo, pela bravura e patriotismo demonstrados na aniquilação da odiosa "Lei da Chibata", sob a qual tantos patrícios suportaram castigos desumanos e crueis.
Agradecendo em nome do homenageado, fez uso da palavra o Vice-Presidente da Comissão Organizadora da Recepção de João Cândido, o qual, em comovidas palavras, disse da emoção que invadiu o velho "Almirante Negro" ao ser distinguido com o honroso título que lhe foi concedido pelo Legislativo Cachoeirense, integrado pelos mais legítimos representantes do povo desta terra.
O Presidente Mário Ilha Filho convidou o sr. Arnoldo Paulo Fürstenau, Prefeito Municipal, para fazer a entrega do título ao sr. João Cândido, o que foi feito sob intensa salva de palmas da numerosa assistência.

Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico


Após a solenidade na Câmara, o "Almirante Negro" foi recepcionado no Clube União Independente. 

Com esta rememoração, o Arquivo Histórico presta uma homenagem à memória de João Cândido, o "Almirante Negro", relembrando neste mês de comemorações da Consciência Negra todos aqueles que, como ele, lutaram pela igualdade e humanização de nossas instituições. Sua morte, ocorrida dez anos depois, em 6 de dezembro de 1969, no esquecimento e na pobreza, não apagou da memória uma página emblemática da história brasileira que, ao ser recontada, faz aparecer Cachoeira do Sul como a cidade que homenageou a personalidade controversa daquele que, como diz a música de João Bosco e Aldir Blanc, tinha a dignidade de um Mestre-sala.

(MR)