segunda-feira, 27 de abril de 2015 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

A Origem de "Grogue"

Quando ouvimos a aplicação da palavra grogue, logo pensamos em alguém que esteja sofrendo os efeitos de uma boa bebedeira, de uma pancada na cabeça ou, quem sabe, do uso de uma substância poderosa...

Pois não é que uma provável origem da palavra, quem diria, associa-se a uma história - estória para alguns - bastante inusitada que fomos encontrar nas páginas do jornal Rio Grande, de Cachoeira, em sua edição de 18 de maio de 1908?
Eis a transcrição da matéria:

ORIGEM DE GROG
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Faleceu em uma hospedaria, repentinamente, o opulento capitalista inglês Mr. Heo Ricard Oldam Grimmel, que fazia uma viagem de recreio com o seu primogênito Edward.
Baldados foram os esforços do desolado rapaz para obter o transporto de seu finado pai, em camara ardente, até o lugar de sua residencia.
Nenhuma embarcação a seguir viagem quiz aceitar o corpo.
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Edward, rapaz de altos recursos, não teve desfallecimento em resolver a objeção.
Arranjou um grande tonel de aguardente de primeira qualidade, acomodou o corpo do finado progenitor dentro, despachou-o á familia, remettendo-lhe o conhecimento que rezava: barril de alcool fino, marca GROG.
Logo depois de embarcado o volume, cujo expeditor pedira para elle o maximo cuidado, por ser artigo fino, um grumete quiz certificar-se do conteúdo e com uma verruma grossa perfurou o tonel donde vasou um liquido amarellado.
Provou a bebida, achou-a magnifica e dentro em pouco toda a tripulação ia matar o bicho pelo orificio feito pelo grumete.
Tres dias eram passados e já o pobre Lord Grimmel achava-se em secco.
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Chegada a embarcação ao ponto terminal, appareceu a bordo o segundo filho do finado lord, reclamando o corpo de seu pae.
- Não! respondeu o capitão, não conduzimos cadaveres; V. está enganado: é em outra embarcação que deve procural-o.
O moço, que vestia luto pezado, em cujo traje era imitado por umas cincoenta pessoas, que o acompanhavam, protestou assegurando que se não enganava e mostrou ao capitão o seguinte telegramma:
"Papae segue em alcool navio Kaguinche, volume marca GROG; seguirei depois de arrecadar o que aqui deixou. Façam funeraes."
Em vista de semelhante affirmativa, foi chamado o piloto e finalmente toda a população [sic], que asseverava tratar-se não de um cadaver, mas de uma excellente bebida que tinha o nome de grog.
Trazido o volume em questão para o tombadilho, com grande pasmo do consignatario e pavor da tripulação, Mr. Grimmel estava... em secco.
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Excepção feita do commandante, todo o pessoal de bordo vomitava a um tempo, como se estivesse em alto mar!
E assim se inventou o famoso grog, das iniciais do finado lord G. R. O. G.

Verdadeira ou não a versão que o jornal de 1908 traz, o fato é que há uma bebida quente com este nome, feita à base de rum, água e açúcar.

Outra história relacionada é a de um almirante inglês, de nome Edward Vernon, conhecido por Old Grog em razão do consumo que fazia da bebida, que em 1740 teria mandado os marinheiros aumentarem a quantidade de água do preparado, menos no tonel que serviria aos oficiais!

Almirante Edward Vernon - o Old Grog
A Grogue é pouco conhecida no Brasil. Produzida em quantidade especialmente no Cabo Verde, pode ser consumida pura - tem alto teor alcoólico - ou em infusão com ervas. Na península ibérica sofre também a adição de percebes, pequenos crustáceos muito consumidos na região.

Grogue, a bebida propriamente dita, ou o sujeito que sofre os efeitos dos excessos, é mais uma destas palavras cheias de história e uma das tantas curiosidades que o rico acervo de imprensa do Arquivo Histórico nos oferece.

sexta-feira, 17 de abril de 2015 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Dia do Índio

A coleção do jornal O Commercio, do acervo de imprensa do Arquivo Histórico, mais uma vez nos brinda com uma notícia que vem à luz justamente quando no Brasil é comemorado o Dia do Índio, em 19 de abril. Trata-se de um relato da situação dos indígenas do Rio Grande do Sul, sendo que o autor, que assina apenas com as iniciais B. S., toma por exemplo aldeamentos da região do Alto Uruguai em 1901!
Guardadas as diferenças temporais e de tratamento social da questão, o que a matéria abaixo transcrita demonstra é que, mesmo transcorridos 114 anos, quase nada do panorama relatado em 1901 foi modificado. 

Guarani-mbyá - Imagem: pib.socioambiental.org

Indigenas do Rio Grande

O interesse que de tempos tenho tomado por tudo quanto se prende á historia e cousas do Estado levou-me, em abril ultimo, ao aldeamento dos indigenas do alto Uruguay e agora, aproveitando as férias do Natal, de novo ali estive, afim de completar as notas que estão servindo para uma noticia que a respeito pretendo publicar em folheto.
O estado deploravel em que se encontra ali para mais de 1.000 creaturas desafia a compaixão, exige uma medida humanitaria, urgente.
No municipio da Lagôa Vermelha, duas leguas, mais ou menos, distantes uns dos outros encontram-se em toldos, Pontão, Forquilha e Ligeiro ou Bueno, todos governados pelo cacique general Faustino, com uma população de pouco mais de 400 almas.
Os indigenas são sadios, sendo a mortalidade em proporção muito favoravel.
Vivem no matto, em ranchos demasiadamente rusticos.
Andam semi-nús, plantam muito pouco, e raros animaes domesticos vêm-se entre elles.
Nenhum sabe ler e muito poucos falam o portuguez.
São habeis para qualquer trabalho manual e preparam chapéus de palha, balaios, peneiras, etc., mas quasi nada vendem, porque não procuram mercado, mantendo-se segregados da sociedade.
Tradicionalmente conservam imperfeita idéia de Deus, sem nunca terem sido instruidos religiosamente, si bem que no baptismo das creanças empreguem formulas semelhantes ás da religião evangelica.
Considerando o gráo de civilisação quasi nullo desses semi-selvagens, a pobreza e a indigencia, muitas vezes extrema, em que definham e apreciando suas boas qualidades e disposições, comprehende-se a necessidade absoluta de soccorrel-os, de instruil-os, de ensinar-lhes o trabalho productivo.
Uma alma altamente humanitaria, a exma. sra. d. Adele Pleithner, professora do Collegio Evangelico, do Novo Hamburgo, conscia do grande alcance social e do gloriosissimo valor moral da obra civilisadora dos indigenas, resolveu, affrontando todas as difficuldades e sacrificando suas forças e seus interesses particulares, dar principio á instrucção e educação dos infelizes bugres.
O exmo. sr. presidente do Estado aprovou esta generosa empreza, promettendo sua poderosa protecção.
Dous dos aldeamentos da Palmeira foram agora por mim visitados; o de Nonohay que compõe-se de dois toldos, o de Nonohay propriamente dito, sob o commando do capitão Antonio Pedro, e o da Serrinha, distante 6 legoas daquelle, sob o commando do major Manoel.
Além desses ha no mesmo municipio o do Boutoro nas margens do rio Uruguai-Mirim e um outro nas margens do rio da Varzea. 
Nestes toldos vivem mais de 600 indigenas, um tanto mais adiantados que os da Lagôa Vermelha, são muito pacificos, trabalhadores e de sentimentos affectivos, mostrando-se gratos aos seus bemfeitores e doceis aos que procuram ensinal-os.
Os crimes de homicidio, ferimentos, furtos, são entre elles rarissimos. Muitos criam porcos e gallinhas; sabem fazer peneiras e balaios lindissimos, chapéos de tecido de crissiúma e taquara, businas de chife, tudo pintado de varias côres que preparam com o succo de vegetaes.
Sabem preparar herva-matte e fumo de primeira qualidade.
Sobre religião têm uma idéa menos vaga do que os de Lagôa Vermelha; seguem inconscientemente alguns principios ethicos; ignoram porém, o evangelho, com quanto, como aqueles, façam no baptismo, alguma cousa semelhante ás praticas de egreja evangelica.
Felizmente já possúo todos os apontamentos historicos, linguisticos, ethnologicos e estatisticos, necessarios ao trabalho a que me proponho, qual seja o de patentear aos rio-grandenses o estado dessa parte da humanidade e, consequentemente, o dever imperioso que todos nós temos de concorrer para a sua civilisação.
No abençoado sólo do Rio Grande não devem continuar a vegetar esses restos da infeliz raça indigena, esses brazileiros expoliados  por força da evolução dos povos: urge que venham viver ao nosso lado, com as mesmas vantagens que a civilisação nos faculta.
Em Missões e em outros sertões do Estado existem espalhados muitos decendentes de indigenas meio civilisados, mas grande parte contaminados pelo virus da immoralidade e do alcoolismo, males que lhes trouxeram os conquistadores, de nada tendo lhes valido a grande republica jesuitica que desappareceu como um sonho com as suas reducções, sem nenhum proveito deixar para os infelizes que escravisára.
Precisamos seguir trilha opposta á dos antigos conquistadores, libertando e não escravisando.
Obra patriotica, missão sublime será essa de elevar os nossos indigenas á dignidade de povo civilisado; e, para consecução de tal fim, muito póde fazer o patriotico governo de Estado, estabelecendo ali colonias, cujos lotes sejam de preferencia cedidos a elles.
Professores, mestres de officios dotados de paciencia e dedicados, são uma necessidade para o bem estar desses infelizes, muitos dos quaes me supplicaram tal beneficio.
Se nos aldeamentos houvesse uma pessoa que se prestasse a tomar a si uma tal tarefa eu appellaria para os nunca desmentidos sentimentos de caridade dos porto-alegrenses e lhes pederia uma esmola para os bugres, de roupas usadas com que viessem a cobrir as carnes.
Em todo o caso, grande familia rio-grandense, ahi tendes campo vasto para exercitardes os vossos sentimentos altruisticos.
E vós benemeritas sociais da Grande Associação Beneficente de Senhoras, lançae um piedoso olhar para aquellas bandas, estendei [rasgado] até lá os beneficios que por todas as outras partes do Estado ides derramando.
Salvae os restos deste povo por excellencia BRAZILEIRO.
Abraçae, soccorrei essa raça orfan e semi-selvagen e a benção de Deus vos acompanhará.
(Jornal do Estado)                                                                                                                             B. S.

(Publicado no jornal "O Commercio", ano II, n.º 56, 23/1/1901)
segunda-feira, 13 de abril de 2015 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Cuidados com Sangas e Valos na Cachoeira de 1849

O cuidado com o meio ambiente não é uma prática nova, embora se saiba que fosse atitude esparsa no passado.
José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência, é sabidamente o primeiro e grande personagem da nossa história com preocupações do gênero, e isto remonta ao primeiro quartel do século XIX!
Em razão disto, o Edital abaixo reproduzido, que está preservado no acervo do Arquivo Histórico, revela atitude de bom senso e de preocupação com o meio ambiente na Cachoeira de 1849!
A nossa zona urbana está assentada em terreno cortado por muitas sangas e valos, oferecendo estes acidentes naturais barreiras ao desenvolvimento urbano. Vencer tais barreiras sem descuidar da preservação ambiental é um desafio ainda hoje. E o interessante do Edital é que ele dispõe sobre obras de aterro, exigindo que uma cobertura vegetal seja feita, em uma clara demonstração de que as autoridades do passado sabiam da necessidade de tratar com vegetação terrenos suscetíveis de desmoronamento.
Eis o texto do documento, cujos signatários foram o então Vereador Presidente da Câmara, Dr. José Pereira da Silva Goulart, médico, e o Secretário Fabiano Pereira da Silva:

CM/OF/Editais/Caixa 6 - 13/2/1849
A Camara Municipal desta Villa, manda faser publico, para conhecimento de quem convier fazer pelo menor preço, o aterro de 250 braças de vallos existentes dentro desta Villa, sendo 160 braças nos vallos da Aldeia, 16 braças nos da bica, e 74 braças nos que existem na estrada que vai para o Amorim; devendo quem se propozer faser dito aterro, plantar de leiva a extenção de 60 braças de vallo que partem da estrada que vai para o Cemiterio, até a sanga onde se conclue dito vallo, e neste lugar deverá plantar húa forte estacada de salso, para aqual estacada proporá preço separado; devendo aquem convier apresentar suas propostas nesta Camara, té o dia vinte edois do corrente mez; não excedendo estas propostas, para o aterro de todos os vallos, áq.ta de dusentos equarenta e trez mil reis, importancia designada para dita obra. E para que chegue ao conhecimento de todos, se mandou lavrar o presente edital. - Paço da Camara Municipal da Villa da Cachoeira, aos treze dias do mez de Fevereiro de 1849. - Dor. Je. Pereira da Silva Goulart Vor. Prezidente

Os editais eram afixados em local de grande afluência de público, sendo a maneira encontrada para que todos pudessem ter acesso ao disposto no documento e cumprir com os preceitos legais. Hoje, mesmo que de forma reduzidíssima em razão da multiplicidade das mídias, ainda há quem faça uso deste tipo de divulgação. Um bom exemplo disto são os nossos decantados anúncios fúnebres, que não são editais, mas da mesma forma atendem ao preceito de atingir o maior número possível de pessoas na divulgação de seus conteúdos.