domingo, 27 de setembro de 2015 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

As Comemorações do Centenário Farroupilha em Cachoeira - 1935

Em 20 de setembro de 1935, como em todo o Estado, também Cachoeira desenvolveu um vasto programa para comemorar o centenário farroupilha, que constou de A grande parada das forças federaes e dos collegios. - A inauguração do monumento a Antonio Vicente da Fontoura. - Uma sessão no Consistorio das Irmandades Conjunctas. - conforme estampou a primeira página do jornal O Commercio em sua edição do dia 25 de setembro de 1935:

Jornal O Commercio, edição de 25/9/1935, p. 1
- acervo de imprensa do Arquivo Histórico
A's 6 horas, uma banda de clarins percorreu as principaes ruas da cidade, sendo celebrada, ás 8 horas, na Igreja Matriz, uma missa solemne, a qual foi concorridissima, e assistida pelos collegios e autoridades civis e militares.
A's 9 horas foi inaugurada a herma do heroico farroupilha Antonio Vicente da Fontoura, falando, em nome do municipio, e como representante do prefeito, o sr. Virgilio de Abreu, que, dando o monumento por inaugurado, fez sua entrega á cidade, como patrimonio moral, dizendo da grande significação daquelle acto em que se homenageava um dos expoentes maximos da Epopéa Farroupilha, sendo muito applaudido.
Após, fallou em nome da Escola Complementar "João Neves da Fontoura" e Collegio Elementar "Antonio Vicente da Fontoura", a senhorita Dora Abreu, merecendo a sua oração calorosos applausos.
Por ultimo, em nome da mocidade de Cachoeira, o dr. José Patricio de Albuquerque proferiu uma bela oração.
[...]
Em seguida, foram cantados os hymnos Rio Grandense e Nacional, vocalisados pelos alumnos e professoras da Escola Complementar e Collegio Elementar e, após o desfile das forças militares da Guarnição Federal e Destacamento da Brigada Militar desta cidade, bem como dos athletas da Sociedade Atiradores Concordia, Gymnasio Roque Gonçalves, Collegio Brasileiro-Allemão, Collegio Elementar, Escola Complementar e Grupo Escolar e alumnos dos collegios Immaculada Conceição, das Missionarias de Jesus Crucificado e da União de Moços Catholicos, que foi assistido pelas autoridades civis, militares e eclesiasticas da Tribuna de Honra especialmente levantada enfrente a Herma, que tem os seguintes dizeres:

"1835. A' Antonio Vicente da Fontoura, Homenagem do Municipio de Cachoeira, 1935"

e logo abaixo as armas do Estado. 
No Consistorio das Irmandades do S. S. e Nossa Senhora da Conceição, realizou-se, ás 14 horas, uma sessão solemne, na qual foi inaugurado o retrato do Provedor Honorario, o estimado cidadão João Carlos Brandes, e homenageado Antonio Vicente da Fontoura, tendo sido a sessão aberta pelo sr. Achylles Figueiredo, actual provedor [...]
Em seguida a senhorita Marina Brandes, filha do homenageado, descerrou a cortina do quadro, o que foi feito entre calorosas palmas da selecta assistencia, sendo o sr. Brandes muito felicitado, por aquella demonstração de apreço e gratidão que lhe tributava a veneravel Irmandade, o que, em breves palavras agradeceu, commovido.
Falou, após, o orador oficial, dr. Balthazar Gama Barbosa, que discorreu sobre a personalidade de Antonio Vicente da Fontoura, que foi provedor das Irmandades em 1845, e em cuja mesa historica, que é uma reliquia daquella casa, e na qual se realizou a sessão solemne, foi assassinado naquelle mesmo recinto, dizendo o dr. Barbosa magistral peça oratoria que causou funda impressão no selecto auditorio, sendo o orador cumprimentado por todas as pessoas presentes, entre as quaes muitos netos do Commendador Fontoura, que, muito commovidos, agradeceram aquella homenagem ao saudoso ascendente tronco da grande arvore das familias Porto, Xavier e Fontoura, desta cidade.
Como mais ninguem quizesse fazer uso da palavra, o sr. Achylles Figueiredo, convidou o revmo. monsenhor Armando Teixeira, vigario da parochia, a encerrar a sessão, em nome de Deus, o que foi feito, com as phrases do estylo, acompanhadas por todos os presentes "Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo".
Estiveram ali representadas todas as associações religiosas, autoridades civis, e militares e ecclesiasticas [...]

Mons. Armando Teixeira
- fototeca Museu Municipal
sexta-feira, 18 de setembro de 2015 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Um documento farroupilha

Setembro é mês de relembrar a história da Revolução Farroupilha, confronto ocorrido há 180 anos e que convulsionou o Rio Grande do Sul durante dez anos.

Cachoeira foi um dos 14 municípios farroupilhas e como tal vivenciou momentos de grande tensão e de indecisão, pois por vezes abraçou a causa dos revolucionários por outras manteve postura conservadora.

Desse período  memorável há farta documentação preservada no acervo do Arquivo Histórico, na qual estão incluídos os livros que registravam os termos e autos de juramentos e posses dos vereadores, que então eram os dirigentes da Vila Nova de São João da Cachoeira. Pois estes livros apresentam uma lacuna no período referente aos anos de 1836 a 1840 em razão da ordem do Major de Brigada Jozé Victor de Oliveira Pinto de que fossem arrancadas as folhas que continham negócios "com o Governo rebelde".

As páginas arrancadas roubaram detalhes da história, mas existem muitos documentos avulsos que contam episódios interessantes da época ou simplesmente retratam rotinas administrativas, como um ofício do vereador Antonio Joaquim Barboza, empossado em 27 de junho de 1835, poucos meses antes de estourar a revolução. Em 11 de janeiro de 1836, alegando problemas de saúde, Barboza cumpriu um ritual exigido aos faltosos às sessões ordinárias: apresentar atestado médico para justificar-se.

Carta do vereador encaminhando atestado médico
11/1/1836 - CM/S/SE/CR/Cx. 16
Ill.mos Senr.s

Tendo partecipado a essa Camara no dia 7 do corr.e q' m.e achava imcomodado, eque p.r isso não podia comparecér nas prez.es Secçoens Ordinr.ªs; dignarão=se VS.ªs não acreditarem mª partecipação, etive hum avizo verbal dado p.lo porteiro dessa Camara, q' m.e ordenava juntasse Sertidão de mollestia, o que cumpro; e VS.ªs Se dignarão rezolver como for de Justiça. Deus Guarde aVS.ªs. Cachoeira 11 de Janr.º de 1836.

Ill.mos Senr.s Priz.e, e mais Vereadores
da Camara Municipal desta V.ª


Antonio Joaq.m Barboza


E apresentou junto o atestado emitido pelo cirurgião Joze Francisco Alves Malveiro, rico em detalhes:

Atestado do cirurgião Joze Francisco Alves Malveiro
11/1/1836 - CM/S/SE/CR/Cx. 16
Joze Francisco Alves Malv.r
cirurgião aprovado em cirurgia
anathomia e operações

Atesto que Antonio Joaquim Barboza continua apadeçer de retenções de urinas pelo tropeço, ao encalhe que tem no canal da ureta; e como molestia cronica, he incapaz de ezercicios ativos, tanto corporaes, como mentaes oq.e deve evitar ropas apertadas sol forte e toda a claçe de estimolos, q.e tudo lhe he nocivo, p.r aumentar reptições de suas emfermid.es; alem de nóvament.e achar-se con os dedos do pé contusos p.r violencia externa q.e sofreu e o inpocebelita de calçado apertado; e p.r todas estas rezões não pode ezerçer Actos publicos: O referido he verd.e q.e juro aos S.tos evangellios Caxoeira 7 de Janr.º de 1836.

Joze Fran.co Alves Malveiro

Os documentos acima, com quase 180 anos, remetem a um período histórico ímpar, ilustrando um fato que está longe de ser singular, uma vez que a prática da justificativa com atestado médico é corrente até hoje. O valor destes documentos está também no fato de que eles demonstram o quão importante é ter uma instituição cultural como o Arquivo Histórico, capaz de guardar e difundir detalhes de uma época tão longínqua, trazendo à luz personagens que não protagonizaram grandes feitos, mas que viveram e enfrentaram situações típicas da condição humana. Em qualquer tempo!

(MR)
terça-feira, 15 de setembro de 2015 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Prédio antigo a perigo

Todos os lugares, em sua conformação urbana, lidam com questões que envolvem a segurança dos seus moradores não somente ao que tange à sua integridade enquanto pessoas, mas também quanto aos ambientes em que elas circulam e desenvolvem suas atividades. E tais questões sempre foram desafios às autoridades, exigindo a elaboração de códigos urbanos que as regessem, determinando posturas do aparato público e dos cidadãos.

Interessante o conteúdo de um ofício datado de 20 de janeiro de 1890, período em que o município de Cachoeira era regido por uma junta administrativa, denominada Junta Municipal, em que está expressa a preocupação dos administradores com um prédio antigo localizado na Rua 7 de Setembro, cujo estado de ruínas demandava atenção de todos. 

Ofício assinado pelos membros da comissão - 20/1/1890
(JM/OM/Ofícios - Caixa 1)
Para analisar a questão e emitir parecer a fim de que os integrantes da Junta Municipal tomassem as providências necessárias, foi nomeada uma comissão composta por João d'Araujo Bastos e Manoel Gomes Pereira*. Eis o conteúdo do ofício e o resultado do exame procedido pela comissão:

Cachoeira 20 de Janeiro de 1890

Sessão de 31 de Janeiro


Nos abaixo assignados nomeados, por essa Adminstração para examinar o predio sito a rua 7 de Setembro, esquina da rua Conde de Porto Alegre. Respondemos que hoje de accordo examinamos o dito predio e de facto se acha em grande ruinas, do que julgamos necessidade de completa demolição, visto que, já foi arriado o espigão do lado do sul e retirado o material, e com este trabalho ficou desloucada a linha da comieira e os freixaes, ficando assim muitas paredes fora de prumo, que será enivitavel a quéda do resto do predio, do que resultará o prejuizo de materiaes e alguma vida. Pensamos ter cumprido a missiva que nos confiarão.

                                                                Saude e Fraternidade

Aos Cidadãos Administradores
d'este Municipio.

João d'Araujo Bastos
Manoel Gomes Pereira

A Cachoeira de 1890, por ser menor e menos complexa, fiscalizava e resolvia as questões urbanas com aparente maior rapidez. O prédio em ruínas, referido no ofício, não foi identificado. Pode ter cedido espaço para uma das casas que ocupam hoje os quadrantes da Rua 7 de Setembro com a Conde de Porto Alegre...

*Manoel Gomes Pereira foi, mais tarde, o construtor do prédio do primeiro Hospital, hoje sede da Escola de Saúde do HCB.

(MR)