sexta-feira, 18 de setembro de 2015 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Um documento farroupilha

Setembro é mês de relembrar a história da Revolução Farroupilha, confronto ocorrido há 180 anos e que convulsionou o Rio Grande do Sul durante dez anos.

Cachoeira foi um dos 14 municípios farroupilhas e como tal vivenciou momentos de grande tensão e de indecisão, pois por vezes abraçou a causa dos revolucionários por outras manteve postura conservadora.

Desse período  memorável há farta documentação preservada no acervo do Arquivo Histórico, na qual estão incluídos os livros que registravam os termos e autos de juramentos e posses dos vereadores, que então eram os dirigentes da Vila Nova de São João da Cachoeira. Pois estes livros apresentam uma lacuna no período referente aos anos de 1836 a 1840 em razão da ordem do Major de Brigada Jozé Victor de Oliveira Pinto de que fossem arrancadas as folhas que continham negócios "com o Governo rebelde".

As páginas arrancadas roubaram detalhes da história, mas existem muitos documentos avulsos que contam episódios interessantes da época ou simplesmente retratam rotinas administrativas, como um ofício do vereador Antonio Joaquim Barboza, empossado em 27 de junho de 1835, poucos meses antes de estourar a revolução. Em 11 de janeiro de 1836, alegando problemas de saúde, Barboza cumpriu um ritual exigido aos faltosos às sessões ordinárias: apresentar atestado médico para justificar-se.

Carta do vereador encaminhando atestado médico
11/1/1836 - CM/S/SE/CR/Cx. 16
Ill.mos Senr.s

Tendo partecipado a essa Camara no dia 7 do corr.e q' m.e achava imcomodado, eque p.r isso não podia comparecér nas prez.es Secçoens Ordinr.ªs; dignarão=se VS.ªs não acreditarem mª partecipação, etive hum avizo verbal dado p.lo porteiro dessa Camara, q' m.e ordenava juntasse Sertidão de mollestia, o que cumpro; e VS.ªs Se dignarão rezolver como for de Justiça. Deus Guarde aVS.ªs. Cachoeira 11 de Janr.º de 1836.

Ill.mos Senr.s Priz.e, e mais Vereadores
da Camara Municipal desta V.ª


Antonio Joaq.m Barboza


E apresentou junto o atestado emitido pelo cirurgião Joze Francisco Alves Malveiro, rico em detalhes:

Atestado do cirurgião Joze Francisco Alves Malveiro
11/1/1836 - CM/S/SE/CR/Cx. 16
Joze Francisco Alves Malv.r
cirurgião aprovado em cirurgia
anathomia e operações

Atesto que Antonio Joaquim Barboza continua apadeçer de retenções de urinas pelo tropeço, ao encalhe que tem no canal da ureta; e como molestia cronica, he incapaz de ezercicios ativos, tanto corporaes, como mentaes oq.e deve evitar ropas apertadas sol forte e toda a claçe de estimolos, q.e tudo lhe he nocivo, p.r aumentar reptições de suas emfermid.es; alem de nóvament.e achar-se con os dedos do pé contusos p.r violencia externa q.e sofreu e o inpocebelita de calçado apertado; e p.r todas estas rezões não pode ezerçer Actos publicos: O referido he verd.e q.e juro aos S.tos evangellios Caxoeira 7 de Janr.º de 1836.

Joze Fran.co Alves Malveiro

Os documentos acima, com quase 180 anos, remetem a um período histórico ímpar, ilustrando um fato que está longe de ser singular, uma vez que a prática da justificativa com atestado médico é corrente até hoje. O valor destes documentos está também no fato de que eles demonstram o quão importante é ter uma instituição cultural como o Arquivo Histórico, capaz de guardar e difundir detalhes de uma época tão longínqua, trazendo à luz personagens que não protagonizaram grandes feitos, mas que viveram e enfrentaram situações típicas da condição humana. Em qualquer tempo!

(MR)

1 comentários:

Hugo Vieira da Cunha Vieira da Cunha disse...

É por essas que aguardamos com ansiedade o final de semana, sabemos que virão novidades históricas, e o final quando colocas que apesar de não ter protagonizado grandes feitos, fica o registro das mazelas comuns a todo ser humano em qualquer época, muito bom, obrigado.

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