sexta-feira, 28 de julho de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Arquivo Histórico - 30 Anos

O Arquivo Histórico do Município de Cachoeira do Sul "Carlos Salzano Vieira da Cunha" chega, em 5 de agosto de 2017, aos 30 anos de criação. Ao longo desse tempo, pelas mãos de diferentes equipes, organizou-se para poder também organizar, dispor e disponibilizar documentos únicos e preciosos que contam a história do quinto município mais antigo do Rio Grande do Sul, torrão original que se desmembrou em inúmeras cidades, muitas das quais, ainda que maiores que Cachoeira do Sul, não dispõem de instituição do gênero.

E não foi mera coincidência, mas proposital forma de marcar o significado da criação do Arquivo Histórico ter escolhido o dia 5 de agosto para data de seu nascimento. 5 de agosto de 1820 marca o dia da instalação da Vila Nova de São João da Cachoeira e também o marco inicial da produção documental de que o Arquivo Histórico é depositário. 

Torna-se indispensável relembrar os primórdios da história daquele que documenta a história. Abrigado em uma sala do Museu Municipal pela iniciativa das lideranças culturais da época, o acervo inicial do futuro Arquivo Histórico em pouco tempo tornou-se grande demais para ficar contido no local. Os primeiros documentos a ele destinados já serviram para embasar a primeira publicação, lançada por ocasião da assinatura do decreto de sua criação: Fundação do Município de Cachoeira do Sul - documentos históricos. O ato, ocorrido em 5 de agosto de 1987, no Galpão Farroupilha do Parque Municipal da Cultura, junto ao Museu Municipal de Cachoeira do Sul - Patrono Edyr Lima, contou com ampla participação de autoridades e convidados. 

Naquele 5 de agosto de 1987, Cachoeira do Sul chegava ao 167.º aniversário de emancipação político-administrativa, data com grande significado para a assinatura do Decreto n.º 203/87, de criação do Arquivo Histórico, pelo Prefeito Ivo Renê Pinto Garske, ato acompanhado pela Secretária Municipal de Educação Marisa Timm Sari, a Diretora do Museu Municipal Lya Wilhelm e a responsável pela coordenação do Arquivo, professora Marilda Félix. 

Prefeito Ivo R. Pinto Garske assinando
o Decreto de criação do Arquivo Histórico 

Prof.ª Marilda Félix, responsável pelo Arquivo Histórico, ladeada pelo Prefeito Ivo Garske
e pela Secretária Municipal de Educação Marisa Timm Sari

As comemorações dos 30 anos do Arquivo Histórico, focadas no tema Histórias para Contar Nossa História, destacam trabalhos resultantes de pesquisas proporcionadas pelo rico acervo da instituição, numa mostra do quão importante e valorosa é a tarefa deste espaço de memória que deve orgulhar Cachoeira do Sul.



Prestigie!

MR
sexta-feira, 14 de julho de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Eucaliptos em Cachoeira

A cultura de eucaliptos em Cachoeira teve um grande impulso a partir de 1916 com o empreendedor José Zell, que desde 1912 vinha realizando palestras e publicando artigos no jornal O Commercio sobre as vantagens da silvicultura.

Sua primeira aparição discorrendo sobre o assunto se deu em 28 de fevereiro de 1912, no salão da Intendência Municipal, quando realizou uma conferência sobre silvicultura em geral, focando especificamente no cultivo do eucalipto. O Dr. Balthazar de Bem, ao apresentá-lo à assistência, justificou a dificuldade de expressão de José Zell devido ao pouco tempo em que estava no Brasil, mas ressaltou sua alta qualificação para o que se propunha fazer.

Segundo publicação n'O Commercio, edição de 6 de março de 1912, ao começar a conferência, José Zell falou sobre a importância dos matos e enalteceu o seu papel benefico exercido (...) sobre o clima, reduzindo e desviando a força dos ventos, determinando maior precipitação d'agua, evitando as erosões e garantindo portanto a perennidade dos cursos d'agua; por meio das folhas os mattos retêm as aguas e mantem a fertilidade dos terrenos. (...) Da exploração sem methodo desta riqueza, provieram aos povos, como á Grecia, Sicilia e outras regiões da Italia, serias difficuldades que hoje trata-se de reparar pelo replantio. (...) 
O Sr. Zell, que é um competente no assumpto, ha 15 annos cultiva eucalyptus nas Pedras Brancas, e o fez com tanto cuidado que suas plantações constituem um verdadeiro campo experimental de sylvicultura. (...) 
Como se vê o sr. Zell vai se tornando um benemerito pela natureza dos seus trabalhos, que merecem ser amplamente divulgados, dada a relevancia do assumpto. 
Perorando o conferencista felicitou aos cachoeirenses pela prosperidade de varios ramos da lavoura neste municipio e concitou-os a proseguir a reconstituição da floresta rio-grandense.

José Zell, que dá nome a uma rua de Cachoeira, foi o grande propagador do plantio de eucaliptos no município. Ancorado em sua larga experiência na silvicultura e dos 15 anos empregados no manejo do eucalipto, era tido como alta autoridade no assunto no Rio Grande do Sul. A partir de 1912, pela ampla propaganda, vários proprietários cachoeirenses passaram a cultivar a mirtácea de rápido crescimento e que em pouco tempo fornecia lenha para combustível e madeira para construção.

A comprovar isto está um documento da Intendência Municipal que traz dados estatísticos do cultivo de eucaliptos no município do ano de 1912 até 1917, demonstrando o protagonismo de Zell no negócio:

IM/EA/SI/Relações - Caixa 22
Na relação de investidores no cultivo, apresentada à Intendência por José Zell, aparecem como pioneiros os médicos Balthazar de Bem e Augusto Priebe. O primeiro, conhecido pelo empreendedorismo, plantou inicialmente 5.000 árvores na sua Granja da Penha, mesmo número de mudas plantadas pelo Dr. Augusto Priebe em sua propriedade, no 1.º distrito, lugar em que hoje se assenta a sede campestre do Clube Comercial.

Investidores pioneiros no cultivo do eucalipto
- Imagens historiadecachoeiradosul.blogspot.com.br e brasilverde.com.br
Outros nomes que aparecem na relação, divulgados também no jornal O Commercio, são: Euripides Mostardeiro & Cia., Carlos Schmidt, Adolfo Brendler, Augusto Wilhelm, Diefenbach, Wilhelm & Cia., Luiz Diefenbach, Gustavo Müller, Emilio Schlabitz & Cia., José Sebastião Vieira da Cunha, da Fazenda São José (Tafona) e Octaviano Gomes de Oliveira.

Silvicultores de eucaliptos - Augusto Wilhelm - acervo familiar
Octaviano Gomes de Oliveira - foto de Benjamin Camozato
José Sebastião Vieira da Cunha - acervo Fazenda da Tafona

José Zell fixou-se na cidade, onde encontrou bom campo de negócio. Aqui viveu por muitos anos, estabelecendo um viveiro para criação de mudas de eucalipto no Alto dos Loretos. No ano de 1916 fechou contratos de mais de um milhão de pés de eucaliptos para proprietários rurais de São Gabriel, Bagé e Pelotas, fazendo de Cachoeira um celeiro exportador. As principais espécies cultivadas eram rostrata, robusta, resinífera, citriodora, pilularis e sideropholia. Em 1918 adquiriu um terreno no Bairro Rio Branco, onde construiu um sobrado projetado por Theo Wiedersphan, o mesmo arquiteto responsável pelo projeto do Templo Martim Lutero.

Sobrado projetado por Theo Wiedersphan para José Zell - Bairro Rio Branco
- Imagem: acervo Osvaldo Cabral de Castro

Não há notícia de quando José Zell deixou Cachoeira, mas consta que o sobrado onde morava foi vendido em 1928 para Edwino Schneider e que antes disso havia pertencido ao Dr. Alfredo Papay. Apesar de ter-se retirado da cidade, as mudas de eucaliptos que difundiu acabaram cobrindo muitos hectares cachoeirenses e fazendo com que esta árvore exótica passasse a ser popular entre nós.

José Zell morreu em Porto Alegre no dia 14 de julho de 1953.

MR
sexta-feira, 7 de julho de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Um piano em questão

O Teatro Municipal, portentoso prédio que se localizava na esquina da atual Rua Gabriel Leon, fronteiro à Praça Dr. Balthazar de Bem, era no início do século XX a grande casa de espetáculos da cidade. Empresas de projeção de fitas, os bioscopos, trupes teatrais, ilusionistas, músicos e outros artistas, muitos deles vindos de outras cidades, utilizavam-se das instalações do teatro para suas exibições. 

Teatro Municipal  - Fototeca Museu Municipal

Um dos grupos musicais formados em Cachoeira, que era então uma cidade de inúmeros talentos, chamado Sociedade Musical Grupo Carlos Gomes, era um dos que usufruíam das instalações do teatro. Fundado em 20 de outubro de 1903, o Grupo Carlos Gomes compunha-se de 21 integrantes que tocavam instrumentos de corda e metal. No ano seguinte, já contando com 36 figuras, iniciou uma série de concertos sinfônicos no Teatro Municipal, sendo o primeiro em benefício de obras da Igreja Matriz. Em abril daquele ano, o jornal O Commercio noticiava a aquisição de um piano próprio, cuja estreia se deu também no teatro.

Como é difícil, trabalhoso e indevido o transporte constante de um piano, e em razão das repetidas apresentações do grupo no teatro, o instrumento foi deixado lá, em acordo firmado entre o diretor dos músicos, Abelino Vieira, e o intendente da época, Cel. David Soares de Barcellos. Mas, misteriosamente, o piano desapareceu! Ninguém soube, viu ou ouviu o que aconteceu. Indignados com o desaparecimento, os membros do Grupo Carlos Gomes oficiaram ao intendente Dr. Cândido Alves Machado de Freitas, em 26 de maio de 1906:

Em 18 de abril de 1904, esta sociedade comprou, em Porto Alegre, do Snrº Theodoro Hartlieb um piano, para seu uso exclusivamente, afim de abrilhantar seus concertos muzicaes. Este instrumento foi depositado no Theatro Municipal, com o consentimento do Snrº Cornel David Soares de Barcellos, então intendente, e la continuou a permanecer durante a administração do seu sucessor, o Snrº Dr. Viriato Gonçalves Vianna, que assim o permittio e durante o curto tempo da vossa honrada e digna gestão, continuava a permanecer naquelle proprio municipal consagrado á arte, sem que houvesseis deliberado a sua retirada. Acontece, porem, que, hontem, veio ao conhecimento d'esta sociedade que o piano foi de lá retirado, sem sciencia dos signatarios, nem do respectivo director Snrº Abelino Vieira da Silva, e conduzido para o Club Commercial.

Sendo nós os unicos responsaveis por esse piano, e sendo a subtração d'esse instrumento, da forma por que foi praticada, um facto criminoso previsto no Codigo Penal da Republica, a bem do nosso direito e ressalva, vimos respeitosamente solicitar que vos digneis informar nos se o referido piano foi mandado retirar por V. S. e, em caso negativo, quem o subtrahio ou mandou praticar esse acto contra uma propriedade alheia, visto que, estando o theatro sob as vistas e administração de V. S., como intendente municipal, que o sois legalmente, intuitivo é que d'alli não deveria ser levantado sem o vosso conhecimento, a menos que não tivessem procurado ardilosamente illudir-vos.

Esse acto tem revoltado a consciencia das pessoas honestas, do nosso meio social. 

                                                                                   Saude e Fraternidade.

                                                                      (assinaturas) Abelino Vieira da Silva,
                                                                                                      Director
                                                                                                   Oscar Potter,
                                                                                                    Secretario

IM/S/SE/OE - Caixa 3


A correspondência do diretor do Grupo Carlos Gomes chegou às mãos do Dr. Candido A. M. de Freitas que encaminhou questionamento ao subintendente, cuja resposta foi a seguinte:


IM/S/SE/OE - Caixa 3

                                              Illmo. Snr. Dor. Intendente Municipal

Em virtude de vosso despacho exarado na petição, retro cabe-me informar vós que não me consta que estivesse depositado no Theatro Municipal, sob a responsabilidade da Intendencia, o piano em questão. A verdade é que o referido piano, por tolerancia da Intendencia, permanecia no Theatro, sem que, entretanto, tivesse a Administração qualquer responsabilidade 'por deposito', quanto ao dito instrumento. Á 25 do corrente, mediante requisição da directoria do Club Commercial, desta cidade, que se julga, com fundamento, co-proprietario do piano de que se tracta, por ser possuidor de acções que lhe foram transferidas no valor de 600:000 reis, como alega, fiz entrega do piano aos representantes do "Club", não me cabendo, pois, responsabilidade alguma pelo destino que por ventura possa ter tido o piano reclamado na petição retro. 

                                                                   Cachoeira, 28 de Maio de 1906.

                                                   (assinatura)   João Alberto de Sousa
                                                                    O Subintendente da Sede

Afinal, de quem era de fato o piano? O jornal O Commercio, edição do dia 20 de abril de 1904, noticiou o seguinte:

C. Gomes. - Domingo, no Theatro Municipal foi collocado o piano de concerto Römhildt que o club Carlos Gomes acaba de adquirir. O piano acompanha dous documentos de garantia por 5 annos assignados pelo fabricante e seu agente neste Estado sr. Theodoro Hartlieb.
No theatro reuniram-se á noite muitas senhoras, senhoritas e cavalheiros que, a convite do digno director da sociedade Carlos Gomes assistiram á execução de varios trechos musicaes para, segundo declarou o sr. A. Vieira, aquilatarem e manifestarem juizo competente sobre as qualidades ou defeitos do referido piano.
A experimentação foi coroada de feliz exito. Trata-se de um instrumento artisticamente manufacturado, de vozes grandiosas e aveludadas, de effeito surprehendente.
A convite do director do club as gentis senhoritas Othilia Neves e Violeta Godoy executaram, a quatro mãos o mavioso trecho Dichter und Bauer, de Suppe, e a senhora d. Mercedes Neves de Oliveira - o Allegro classico, de Rossina e a symphonia do Guarany.
Os assistentes applaudiram-nas bastante; retirando-se todos convencidos da excellencia do novo piano.
É este o segundo piano-concerto Römhildt adquirido nesta cidade, no curto espaço de nove mezes. 

Piano Römhildt -  pianomovers.de/klavier-roemhildt-weimar-in-nussbaum-6816

Explicado o desaparecimento do piano, que imbróglio houve para que o Clube Comercial se achasse no direito de retirá-lo do teatro sem o prévio aviso ao Grupo Carlos Gomes? Novamente o jornal O Commercio, em sua terceira página da edição de 6 de junho de 1906, traz informações: 

O piano. - Sabemos que vai ser promovido um processo por crime de furto, contra os mandantes, mandatarios e cumplices da subtração do piano pertencente á sociedade musical em liquidação Grupo Carlos gomes, sob cuja responsabilidade achava-se aquelle instrumento collocado no Theatro Municipal, com a permissão de quem era intendente, desde o dia em que aqui chegou o mesmo piano. 
Os srs. Abelino Vieira e Arthur Macedo, aquelle como liquidante e ambos como maiores credores da sociedade, vão dár procuração ao advogado, nosso companheiro Augusto Brandão, para requerer investigações policiaes e intentar as acções que forem de direito.

Como se vê, o caso do piano foi parar na justiça! Uma dor de cabeça para o recém-empossado intendente. Mas uma coisa é certa, passados 111 anos desta história: o piano foi, ainda que em situação mal explicada, salvo de perecer quando em 1908 houve o desabamento de parte da estrutura do Teatro Municipal... "Há males que vêm para o bem", como diz o antigo ditado.

MR