segunda-feira, 30 de maio de 2016 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

A Vila retratada por Johann Martin Buff

A primeira planta de Cachoeira, trabalho do engenheiro da Comarca Johann Martin Buff, mais do que um retrato da conformação urbana da Vila em 1850, foi um importante instrumento para que as autoridades da época disciplinassem a concessão de terrenos e colocassem em prática, com segurança, as exigências do Código de Posturas vigente desde 1830.

Mas a elaboração da planta não foi tarefa simples. Em primeiro lugar, a Câmara não dispunha na Vila de um profissional capacitado a levantar os dados e registrá-los cartograficamente. Diante da necessidade de disciplinar a concessão de terrenos, demarcar quadras, alinhar ruas e definir a expansão do recinto urbano, em 17 de setembro de 1829 o vereador Manoel Alvares dos Santos Pessôa sugeriu que a Câmara solicitasse à Presidência da Província o envio de um engenheiro para efetuar o serviço. Passaram-se 21 anos até que a planta finalmente fosse confeccionada!

Em 31 de maio de 1849, cientificados de que os trabalhos de levantamento dos dados para elaboração da planta exigiriam a participação dos cidadãos proprietários de terrenos, a Câmara emitiu um edital com o seguinte teor:

CM/OF/Editais - Caixa 12

A Camara Municipal desta Villa, convida atodos os proprietarios de terrenos dentro do recinto desta mesma Villa, queirão apresentar os Titulos de concceção, ou Escriptura de venda dos mesmos terrenos ao Engenheiro da Comarca, Martins Buff, que actualmente aqui se acha, athe o dia quatro do proximo mez entrante, afim de que o mesmo possa vir no conhecimento dos terrenos que se achão de voluto dentro desta Villa. E para que chegue ao conhecimento de todos os habitantes desta Villa, a necessidade de dar-se este conhecimento ao sobredito Engenheiro, se mandou lavrar o presente. Villa da Cachoeira 31 de Maio de 1849.-
Alexandre Coelho Leál
Ver.ºr Presidente
O Secretario
Fabiãno Per.ª da Silva

Os editais eram comunicados oficiais que deviam ter o conhecimento geral dos cidadãos. Assim, para cumprir com sua função, eram afixados em locais públicos de grande visibilidade e circulação de pessoas. Em Cachoeira, certamente o prédio da Igreja Matriz era um destes locais. 

O chamado da Câmara foi atendido. O engenheiro Buff conseguiu levantar e registrar na planta e no cadastro (CM/S/SE/RCT-001 e 003) que a acompanhava 422 terrenos no recinto da Vila, anotando devidamente o nome dos proprietários, o ano da concessão/posse do mesmo, o nome da autoridade que concedeu o título de posse e se os mesmos achavam-se edificados ou não. Por este esplêndido registro, é possível verificar que ruas estavam demarcadas e as denominações que possuíam, quantos terrenos já eram habitados e quantos ainda estavam baldios. E mais: com este importante instrumento na mão, os trabalhos de concessão de licenças para construção e mesmo de ocupação de terrenos ganharam disciplinamento, facilitando imensamente as tarefas do arruador, que era o oficial da Câmara encarregado de medir e delimitar áreas para construção e/ou abertura de ruas.

Planta da Cidade da Cachoeira - 1850 - Johann Martin Buff
- acervo Museu Municipal
A planta elaborada por J. M. Buff sobreviveu inclusive a um incêndio, marcas que carrega em seu delicado suporte de papel. Tentativas de mantê-la íntegra também agrediram sua estrutura, determinando que fosse enviada para restauro por especialista em Porto Alegre. Permanece lá, aguardando o término do restauro e que recursos municipais a resgatem, devolvendo-a em plenitude para que as gerações futuras conheçam o que hoje poderia ser definido como centro histórico, ou seja, o coração da cidade que se expandiu, mas que ainda pulsa em sua conformação original.

(MR)
segunda-feira, 23 de maio de 2016 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

1916: sob as Paineiras da Avenida

Graças à coleção do jornal O Commercio, que está preservada no Arquivo Histórico do Município de Cachoeira do Sul, é possível fazer uma viagem ao passado e visitar a Cachoeira de 100 anos atrás. Uma rápida virada de páginas e a cidade daquele tempo revela-se em paisagens, costumes, política, vida social e cultural. Também a forma de redigir os acontecimentos, minimamente detalhada e bastante laudatória, chama a atenção, fazendo um contraponto com o reducionismo de linguagem que caracteriza os dias atuais.

Eis, na ótica de um redator que assinava com o pseudônimo de Pangloss uma intitulada Prosa vadia, a Cachoeira de 1916 sob as paineiras da avenida:

Quem conheceu a Cachoeira ha uns cinco ou seis annos, e não a vê desde esse tempo, mal podia imaginar a transformação que se tem operado no sentido do seu progresso.
Não se assustem, porém, os leitores, antevendo que estas linhas de chronica vão excursionar pelos dominios da estatistica do essencialmente estatistico [...] 
Muito menos é intuito destas linhas dizer que o commercio está florescente ou em crise de transportes; que a carestia dos generos continúa e continuará, conservando em crise perenne a grande e desprotegida classe dos consumidores, etc., etc., e etc.
A chronica, alçando a mira sobre todo este montão de cousas terra a terra, visa um alvo menos escabroso, dizendo que a cidade da Cachoeira, apezar da conflagração e das crises della decorrentes, está sobremodo encantandora.
Que o digam os frequentadores da Avenida das Paineiras, dessa multidão que ás tardes e ás noites a enchem, dando-lhe um aspecto de animação e bem estar que talvez se não encontre em nenhuma das outras cidades da campanha rio-grandense.

Avenida das Paineiras, hoje Rua Sete de Setembro, assim chamada em
razão das paineiras que rodeavam a Praça José Bonifácio
- fototeca Museu Municipal
Contemplando-se esse quadro, que reflecte, certamente, o progresso e a concordia reinantes neste municipio, não se póde deixar de recordar com louvores a parte que toca ao sr. Manoel Costa Junior, no que concerne ao embellezamento e animação da nossa praça de recreio, pois é incontestavel que o centro de attracção, a mais bella parte da avenida é o ponto que o incansavel Costa denominou de - Chic. Ahi tem elle o seu excelente Coliseu, o seu restaurant, o seu bar.

Ponto Chic, ao lado do Cinema Coliseu Cachoeirense,
na esquina da Praça Jose Bonifácio
- fototeca Museu Municipal
Assim é que emquanto uns combatem os calores estivaes, refrigerando-se com cousas geladas, outros dão véia [sic] ao paladar no seu bem attendido restaurant, ingerindo acepipes que restauram ao mesmo tempo as forças do corpo e da alma, pois tudo isso é feito ao som de um piano habilmente dedilhado e interpretado pelo maestro Curt Dreyer.
Quando tudo isso não baste ahi tem o desfilar do sexo gentil pela Avenida fartamente illuminada, ás vezes a côres, emquanto as musicas ressoam, e as campainhas do Coliseu tilintam, convidando ás fitas por entre pregões de reclames que ainda mais realçam o movimento.
É certo que este Costa abre, com isso, um grande sulco por onde canalisa (para elle) uma boa parte das nossas economias, mas considerando que o dinheiro é "meio circulante", nenhuma censura merece quem, assim, o faz circular...
Alêm desse, ha outros pontos de atracação, taes como a "Gruta Azul", especialista em sandwichs, e o "Pavilhão Recreio", que é tambem um lugar aprazivel e bem provido de beberagens.

O Gruta Azul, ao centro, e o Pavilhão Recreio, à esquerda
- fototeca Museu Municipal
Ninguem pense, porêm, que o povo cachoeirense, com esta profusão de bars, se dê demasiadamente ás bebidas: é apenas um povo que gosta de refrescar-se em torno das mesinhas enquanto palestra, descansando das fadigas dos passeios ou dos labores diarios.

Movimento de frequentadores dos bares da Avenida das Paineiras
- fototeca Museu Municipal
E' talvez devido a isso, isto é, a essas diversões, e a essa sociabilidade que já não podem medrar, aqui, as intrigas politiqueiras e as hostilidades que ellas geram.
E' assim que a Avenida, o jardim, o Costa e a musica tiveram o poder de abrir nesta bemdita cidade um verdadeiro seio de Abrahão!*

Pangloss

(Extraído de O Commercio, edição de 3 de maio de 1916, p. 1)

* Seio de Abraão: no sentido figurado, lugar acolhedor de todos.

(MR)
sexta-feira, 13 de maio de 2016 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Ventres e frutos livres

Há muitas histórias do período da escravidão, grande parte delas acompanhadas pelo sentimento da indignação que brota quando o ser humano não é tratado como tal... 

Na segunda metade do século XIX, o regime escravista já tinha muitos opositores e a década de 1880 entrou com grande efervescência, especialmente pelo crescimento dos movimentos republicanos e abolicionistas. A escravidão passou a ser vista como algo incompatível com as ideias de liberdade.

Uma circular urgente do Palácio do Governo em Porto Alegre, de 23 de abril de 1880, remetida em caráter "reservado"  às Câmaras Municipais, dentre elas Cachoeira, tem a intenção de fazer um levantamento de como os senhores de escravos estavam agindo quanto á entrega dos filhos livres de mulher escrava. E o governo provincial recomendava que com o maior cuidado procurem obter os necessarios dados.




Ofício de Henrique d'Avila - 20/4/1880 - CM/DA/O/Caixa 7

Tal pedido se prendia ao determinado pela Lei do Ventre Livre, promulgada em 28 de setembro de 1871, que determinava, em seu artigo 1.º, que Os filhos de mulher escrava que nascerem no Império desde a data desta lei serão considerados de condição livre e ratificava, no parágrafo 1.º do referido artigo que Os ditos filhos menores ficarão em poder ou sob a autoridade dos senhores de suas mães, os quais terão a obrigação de criá-los e tratá-los até a idade de oito anos completos. Chegando o filho da escrava a esta idade, o senhor da mãe terá opção ou de receber do Estado a indenização de 600$000, ou de utilizar-se dos serviços do menor até a idade de 21 anos completos. No primeiro caso, o Governo receberá o menor e lhe dará destino, em conformidade da presente lei. E segue no parágrafo 6.º: Cessa a prestação dos serviços dos filhos das escravas antes do prazo marcado no § 1.º se por sentença do juízo criminal reconhecer-se que os senhores das mães os maltratam, infligindo-lhes castigos excessivos. 

A circular do Governo Provincial visava verificar as condições de cumprimento da Lei do Ventre Livre e recomendava que as autoridades locais se servissem da influencia de que dispõem e os meios a seu alcance para que os senhores optem, nos termos d'aquella lei, pelos serviços dos filhos de suas escravas, empenhando igualmente neste sentido e debaixo da fórma reservada, o zelo dos cidadãos que lhes inspirem confiança. Queriam, com tal recomendação, poupar os cofres públicos...

Com mais esta página de um tempo que ficou para trás, o Arquivo Histórico relembra o 13 de maio de 1888, dia da assinatura da Lei Áurea.

(MR)
quarta-feira, 4 de maio de 2016 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Uma biblioteca pública para Cachoeira - 1880

Cachoeira do Sul pode orgulhar-se de possuir uma das bibliotecas públicas mais atuantes, organizadas e com rico acervo do cenário estadual. A Biblioteca Pública Municipal "Dr. João Minssen", com uma tradição de bem servir aos propósitos da leitura, da pesquisa e da formação de novos leitores não chegou a esta condição com facilidade. Sua fundação se deu só em 2 de dezembro de 1946, graças à visão cultural do Dr. João Minssen, seu primeiro diretor e depois patrono.

Mas o que poucas pessoas sabem é que uma correspondência de 5 de maio de 1880 dá notícia sobre o que parece ser a primeira iniciativa de dotar a florescente cidade da Cachoeira de uma biblioteca pública, inclusive com oferta de recursos de um cidadão que, a exemplo de outros que o sucederam mais de 60 anos depois, conseguiram transformar o sonho em realidade.

Ofício de Ysidoro B. Salart - 5/5/1880 - CM/S/SE/CR-003
Illm.º Snr~ Presidente da Camara Municipal d'esta Cidade
Em 13 Maio 1880

                      Tendo eu sabido que V.S.ª como illustre representante do municipio da florescente cidade da Cachoeira, deseja immensamente a criação de uma bibliotheca publica n'esta cidade; e louvando a feliz ideia de V.S.ª bem como a de vossos illustres companheiros, venho offerecer  a quantia de cincoenta mil reis para ser destinada a criação d'esta tão util instituição, que será registrada nos fatos brilhantes e civilisadores da nobre cidade da Cachoeira.

Deos G. a V.S.ª
Cachoeira 5 de Maio de 1880

Ysidoro B. Salart

Preciosidades como este ofício emergem do passado graças à existência de instituições como o Arquivo Histórico, demonstrando que os anseios de ilustração habitavam as vontades de alguns e que as comunidades, e nisto Cachoeira não é exceção, sempre têm cidadãos com visão prospectiva e capazes de envidarem esforços para a melhoria e o desenvolvimento de sua terra e sua gente.

(MR)