segunda-feira, 25 de abril de 2016 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Evocando as Obras do Château d'Eau

Cachoeira do Sul aguarda com grande expectativa o início das obras de restauro do Château d'Eau, o maior símbolo da cidade, evocado em prosa, verso e imagens desde que passou a ocupar o canteiro central da Praça Balthazar de Bem em 1925.

O Château d'Eau representa o coroamento de um grande projeto que visava dotar a cidade dos serviços de distribuição de água e esgoto, iniciados com a instalação da primeira hidráulica nas proximidades do Hospital de Caridade no ano de 1921.

Inauguração da 1.ª Hidráulica - 20/9/1921 - fototeca Museu Municipal
Em 24 de julho de 1922 a Intendência Municipal, sob a administração do Dr. Annibal Lopes Loureiro, lançou um edital de concorrência para recebimento de propostas relativas ao fornecimento de materiais destinados às obras que completariam o grande projeto de saneamento da cidade. O projeto, assinado pelo Dr. Saturnino de Brito, um dos mais conceituados engenheiros sanitaristas do país, culminou com a inauguração da segunda hidráulica, da qual faziam parte o Château d'Eau e o R2, reservatório enterrado da Rua Júlio de Castilhos, na atual Praça Borges de Medeiros. Era naquele tempo o Dr. João Neves da Fontoura o Vice-Intendente em exercício, em substituição ao Intendente Francisco Nogueira da Gama, licenciado do cargo por motivos de saúde. 



Château d'Eau e R2 - fototeca Museu Municipal
No relatório apresentado ao Conselho Municipal pelo Dr. João Neves, em 15 de outubro de 1925, três dias antes da inauguração das obras da segunda hidráulica, consta:

É com o mais intenso jubilo que vos communico achar-se o serviço de aguas e exgottos da cidade em vias de ser inaugurado. Iniciados os trabalhos a 20 de setembro de 1923, por administração, pela firma Silveira, Soares & Cia., e sob a fiscalisação do Municipio e do Estado, as obras hoje já se acham terminadas, faltando apenas pequenos trabalhos de remate fino e as de embellezamento, que não constam do projecto, os quaes nada affectam ao seu funcionamento, que está sendo effectuado em determinadas zonas da cidade, desde janeiro do corrente anno.

E sobre o Château d'Eau diz o relatório:

O "Chateau d'eau", situado no largo da praça Dr. Balthazar de Bem, defronte ao edificio da Municipalidade, acha-se tambem concluido, apresentando bello aspecto architectonico, concorrendo muito para o embellezamento da cidade. A parte architectonica foi projectada pelo engenheiro Walter Jobim e a parte de calculo e estabilidade pelo engenheiro chefe da Commissão de Saneamento do Estado, Dr. Antonio de Siqueira. As obras de esculptura, constante de estatuas e grupos de nymphas e sereias que circundam o "Chateau d'eau", foram executadas nas officinas de Vicente Friedrichs, de Porto Alegre, sob a direcção do professor Giuseppe Gaudenzi. O fim desse "Chateau d'eau" é o de levar a agua por gravidade ao Reservatorio de distribuição á rua Dr. Julio de Castilhos, e regular ao mesmo tempo a pressão da agua nas zonas mais elevadas.


Relatório apresentado pelo Dr. João N. da Fontoura
- IM/GI/AB/Re-005
Os grandes avanços representados pelas obras de saneamento, aliadas a um apuro estético bem característico da década de 1920, são amplamente conhecidos, difundidos em obras da história local e estadual. As autoridades e técnicos que protagonizaram este singular momento da nossa história ficaram eternizados por esta e mais obras aqui e em outros recantos do estado e do país. Mas e os operários que ergueram as estruturas, atuando em diversas frentes de trabalho, que registro há de seus nomes?

Um encadernado da Intendência Municipal traz notas, recibos e relações das obras de saneamento e revela, além dos nomes dos trabalhadores, chefes e encarregados, as funções desempenhadas por eles, tirando do anonimato pessoas que ergueram nosso mais reverenciado monumento, bem como as demais obras que constituíam o grande projeto de saneamento de Cachoeira. Muitos dos condutos, mecanismos e estruturas ainda estão em uso, provando a eficiência dos que os projetaram e a perícia dos que os construíram.

Eis os 310 nomes que constituem uma Folha de pagamento da II quinzena de JANEIRO de 1925 - Saneamento de Cachoeira - Silveira, Soares & Cia. - Empreiteiros:

Adalberto Costa (apontador), João Smuthini (capataz), Horacio Barreto (servente), José Miranda (pedreiro), Domingos Delzovo (boche), Augusto Alves (servente), João Belmonte (pedreiro), José Rasck (ferreiro), Basilio Farias (ferreiro), Ananias Rodrigues (cavoqueiro), Angelo Ferrari (servente), Hilario Aguir [sic] (servente), Hilario Costa (servente), Suely Brum (boche), João Medeiros (pedreiro), Alcides Silva (servente), Alexandre Machado (servente), João Rodrigues (servente), Zeferino Aguir (servente), Ramiro Chaves (cavoqueiro), Pedro Risso (taip.), Pantaleão R. Santos (servente), Carlos Pacheco (servente), Julio Guedes (pedreiro), João Gonçalves (servente), Godofredo Athayde (carpinteiro), Izidoro Garcia (servente), Porfirio Peixoto (servente), Nelson Vieira ( carroça), Clarindo Saraiva (servente), Belarmino Castro (ronda), Angelo Peloso (servente), Adão Cruz ( cavoqueiro), João M. Alves (cavoqueiro), Ottonor Cunha (cavoqueiro), Adão Oliveira (cavoqueiro), Setembrino Carvalho (cavoqueiro), João Candido (pedreiro), Pacifico Pereira (cavoqueiro), Armando Asplanato (pedreiro), Eduardo Ferraro (capataz), Alberto Trento (sota), João F. Pedrozo (cavoqueiro), José Ribeiro (cavoqueiro), Claudino Rodrigues (cavoqueiro), Waldomiro Silva (cavoqueiro), Apparicio Machado (cavoqueiro), José Corrêa (cavoqueiro), Rosalino Machado (cavoqueiro), Jacy Lewis (boche), Antenor Siqueira (cavoqueiro), Joaquim Cunha (cavoqueiro), Ambrozino Porto (ronda), Demetrio Soares (servente), José Simões (pedreiro), Florisbaldo Alves (carpinteiro), Luiz Copede (pedreiro), Francisco Lewis (carpinteiro), Vergilino Macedo (cavoqueiro), Doralino Ferreira (cavoqueiro), Balbino Domingues (servente), Alvaro Lewis (servente), Pedro Simões (pedreiro), Angelo Bonfoco (cavoqueiro), Erothildes Lopes (pedreiro), Miguel Petronilio (pedreiro), Francisco Moraes (carpinteiro), João Cosubk (canista), Agenor Alves (cavoqueiro), Gomercindo Alves (servente), Basileu Santos (servente), Paulo Moreira (cavoqueiro), João Dutter (pedreiro), Justino Silva (servente), Ramão Dutter (calceteiro), Aristides Alves (cavoqueiro), João Papajorge (carpinteiro), Simplicio Carvalho (alambr.), João da Silva (cavoqueiro), João B. Grecca (almoxarife), Gabriel Fonseca (capataz), Mario Costa (continuo), Nathalino Fernandes (chauffeur), Anapio Carvalho (chauffeur), Aracy Figueiró (cavoqueiro), Estacio dos Santos (servente), Pedro Dornelles (cavoqueiro), Geraldino Nunes (servente), Giuseppe Rissieri (rejuntador), Abilio Sousa (cavoqueiro), Ladislau Peixoto (carroça), Amadeo Martins (capataz), Francisco Lopes (ronda), Octacilio Loureiro (boche), Franklin R. Maia (cavoqueiro), Reinaldo Paulo (servente), Manoel Cassiano (cavoqueiro), Manoel Candido (cavoqueiro), Henrique Loureiro (cavoqueiro), Pedro Pedrozo (cavoqueiro), Julio Rosa (manilheiro), Marcondes Silveira (cavoqueiro), João A. Rodrigues (cavoqueiro), Martins Proense (servente), Arthur Lara (ajudante), Augusto Ferreira (cavoqueiro), Antonio Francisco (cavoqueiro), Ramiro Lemos (cavoqueiro), Julio Ruport (cavoqueiro), João A. Lopes (cavoqueiro), Narcizo Santos (cavoqueiro), Januario Santos (cavoqueiro), Octacilio Machado (cavoqueiro), Possidonio Gonçalves (cavoqueiro), Ezequiel Silva (cavoqueiro), Martins Pio (cavoqueiro), Faustino Franco (cavoqueiro), Herculano Lucas (cavoqueiro), Pedro Pereira (cavoqueiro), João Lemos (cavoqueiro), João Felix (cavoqueiro), Theobaldo Rodrigues (cavoqueiro), João Francisco (cavoqueiro), Benedicto Paulo (cavoqueiro), Geronymo Ilha (cavoqueiro), João Garcia (aparelhador), João C. Barcellos (aparelhador), Reduzindo Colmedeiro (aparelhador), Marcos G. d'Oliveira (cavoqueiro), David Pedrozo (cavoqueiro), André Ferraro (capataz), Baptista Carvalho (pedreiro), Amaro Dornelles (servente), José Pereira (servente), Laurindo Silva (pedreiro), Salustiano Martins (pedreiro), Gaspar Cardozo (carpinteiro), Roldão Costa (ronda), Marcos Bezerra (carpinteiro), Manoel Pacheco (servente), Sergio Pereira (servente), Lucas Pinhac (pedreiro), Napoleão Alves (servente), Braz Avila (servente), Luiz Caetano (cavoqueiro), Sergio Motta (cavoqueiro), Vergilio Rosa (servente), Antonio Morejano (servente), Estevão Rosa (cavoqueiro), Vicente Granado (carpinteiro), Anaurelino Vieira (pedreiro), Ernesto Thomaz (cavoqueiro), José Lopes (cavoqueiro), Marciano Pereira (cavoqueiro), Manoel Vidal (cavoqueiro), João Rodrigues (cavoqueiro), José Modesto (cavoqueiro), Luiz da Silva (cavoqueiro), Julio Matheus (carpinteiro), Favorino Fernandes (carpinteiro), Adão Oliveira (cavoqueiro), Paulo Machado (cavoqueiro), Avelino da Silva (cavoqueiro), João Ferraro (capataz), Alberto Dalma (ajudante), Egydio Peluso (calceteiro), Roberto Rosa (ronda), Guilherme Athayde (ajudante), Florencio Leguiça (manilheiro), Anthero M. da Silva (cavoqueiro), Victalino Lemos (cavoqueiro), Honorio Ayres (cavoqueiro), Antonio Loureiro (boche), José A. Cardozo (servente), Alberto Pedrozo (servente), Ataliba Rodrigues (boche), Dorico Corrêa (cavoqueiro), Deoclecio Ferraz (cavoqueiro), Clemente Sezino (cavoqueiro), Vicente Ferreira (cavoqueiro), Theodoro Vieira (cavoqueiro), João Lemos (cavoqueiro), Bernardino Nascimento (cavoqueiro), Gregorio Braga (cavoqueiro), Astrogildo Garcia (boche), Julio Domingues (servente), Eduardo Soares (servente), Manoel Rodrigues (servente), Silvino Claudiano (cavoqueiro), Levindo Rosa (cavoqueiro), Francisco Claudiano (servente), Floriano Saldanha (manilheiro), Claro Mendes (cavoqueiro), Alberto Almeida (cavoqueiro), João Damazio (cavoqueiro), João C. Ilha (servente), Euzebio Lemos (servente), João Pantaleão (cavoqueiro), Belmonte Lara (cavoqueiro), João Rosalino (cavoqueiro), Balthasar Bicca (cavoqueiro), Francisco Assis (cavoqueiro), João Antonio (cavoqueiro), Propicio Carvalho (cavoqueiro), Candido Carvalho (cavoqueiro), Regino Moura (cavoqueiro), Libanio Santos (cavoqueiro), João Cardozo (cavoqueiro), Julião Lopes (cavoqueiro), Antonio Moreira (cavoqueiro), Manoel Alves (cavoqueiro). (IM/CO/DRD/AP-014)

A soma total da folha de pagamento dos 310 operários chegou ao montante de 18:114$775, desdobrada em Mão de obra Aguas 7:622.575 e Mão de obra Exgottos 10:432.200, totalizando 18:054.775, de onde foi deduzida a quantia de 56.000 réis proveniente da diferença de salário do operário n.º 164 (Arthur Lara) e foi conferida e assinada pelo engenheiro fiscal Arno Bernhardt.

Além dos nomes dos trabalhadores, singulares são as funções desempenhadas por alguns, como aparelhador, pedreiro que dirige o trabalho de corte e colocação de pedras; apontador, funcionário responsável pelos levantamentos e registros diários no canteiro de obras; boche, pessoa que tem a profissão de viajar de carreta; cavouqueiro (cavoqueiro na grafia do documento original), que é aquele que abre buracos ou cavoucos; manilheiro, o que assenta as manilhas.

Com o presente levantamento, o Arquivo Histórico saúda as ações que visam a recuperação do Château d'Eau, enaltecendo todos os que se envolveram com esta obra máxima de engenhosidade e beleza.

(MR)
sexta-feira, 15 de abril de 2016 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

A Festa do Arroz de 1941

Volta e meia algum fato ligado à Festa do Arroz, acontecida em Cachoeira entre 14 e 16 de março de 1941, é referido, especialmente nas redes sociais, forma contemporânea de comunicação em massa, diálogo e troca de informações.

Pois tem circulado nas redes o filme oficial daquele evento que marcou época na história da cidade, despertando a curiosidade daqueles que, já pelo distanciamento temporal, pouco ou nada tinham ouvido falar sobre a Festa do Arroz.

Os jornais locais, O Commercio e Jornal do Povo, divulgavam em suas edições o quanto a cidade estava movimentada e "engalanada" para receber autoridades e visitantes, voltando-se integralmente para as celebrações do progresso municipal advindo da cadeia produtiva do arroz, desde o seu plantio até o beneficiamento.

A Prefeitura Municipal de Cachoeira mandou publicar um decreto que declarava feriados municipais obrigatórios os dias 14 e 15 de março com a justificativa de que o Poder Público Municipal déve facilitar todos os meios para o maior brilhantismo das aludidas festas.

Manchete do jornal O Commercio, de 12/3/1941
- Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico
E para o maior brilhantismo, o poder público promoveu diversas melhorias para que a cidade fizesse bonito durante os dias de festa. Segundo o jornal O Commercio:

O aspecto da cidade
Desde alguns dias, a nossa cidade vem mudando de aspecto, resaltando por todas as praças e seus recantos um tom de esplendor e de belleza, principalmente á noite.

Aspecto da Praça José Bonifácio
- fotograma do filme sobre a Festa de 1941 - DIP
Illuminação publica
Na praça José Bonifacio o deslumbramento attinge ao maior gráu, vendo-se fileiras de lampadas irradiando luzes multicores, que fazem daquelle local um quadro de soberba suggestão, accentuando-se tambem pela alacridade e alegria do "footing", cujo movimento tem sido extraordinario.
A perfeita, caprichosa e artistica instalação de luz, se deve ao comprovado electricista, sr. Artibano Savi, technico da Prefeitura Municipal.
Diversas são as casas que estão sendo pintadas para, assim, contribuir, magnificamente, para o maximo brilhantismo da Festa, que está dando um realce á rua 7 de Setembro.
Lavoura em miniatura
A lavoura em miniatura, que está sendo construída num dos recantos da referida Praça, está fadada a conquistar as maiores admirações dos mais apurados gostos artisticos, pois que para isso o apparelhamento machinario está sendo construido pela reputada e competente fabrica mechanica Mernak & Cia., desta cidade, e a organização da outra parte correspondente á tudo que condiz com uma lavoura de arroz, está affecta ao consumado risicultor, sr. José Joaquim de Carvalho, presidente da União Central dos Risicultores.

Lavoura em miniatura na Praça José Bonifácio
- Fototeca do Museu Municipal
O aspecto da frente da "União"
Feéricamente illluminada, a frente do edificio desse Centro offerece lindissima harmonia em todo o seu conjuncto, despertando, assim como o interior daquella importante associação de classe, os mais vivos e elogiosos commentarios.
Installação de microphone
Neste Centro foi installado, pela Radio Diffusora Porto Alegrense, um microphone, que já irradiou, á noite de sabbado, o "Hymno á Lavoura", da autoria do poeta João Lisbôa Estrazulas, sendo vocalisado por numerosas pessoas, cujo acompanhamento esteve a cargo da Banda Municipal, dirigida pelo maestro Horn.
O Interventor permanecerá nesta cidade durante o periodo da Festa
(...) coronel Cordeiro de Farias, s. s. permanecerá nesta cidade durante os dias das solemnidades, ás quaes comparecerá pessoalmente e fará uma breve visita á região colonial.
O Secretario da Agricultura de São Paulo virá á Cachoeira
(...)
Filmagem das festividades
Em telegramma dirigido á Commissão Central, o dr. Lourival Fontes, director do Departamento de Imprensa e Propaganda, communica que enviará, pelo avião da Condor, um cinematographista afim de filmar as commemorações da empolgante "Parada da Risicultura".
Cachoeira hospeda o Dr. Fortunato Pimentel
Determinado pela Liga de Defeza Nacional, está nesta cidade, ha alguns dias, o dr. Fortunato Pimentel, secretario e chefe do Serviço de Publicidade e Propaganda Agricola daquella instituição, que aqui collaborará nos festejos em pról da Lavoura risicola e que é portador de varios premios offerecidos pela Liga em apreço.
Um fino par de sapato e um artistico estojo á "Rainha da Festa do Arroz"
(...)
Dois nomes que estão na berlinda do anceio de seus votantes, e que vanguardeiam o concurso, são os das senhoritas Lucy Ribeiro e Emerita Silveira Carvalho, a primeira com 2.532 e a ultima com 1.421 votos, seguindo-se as senhoritas:
Lovely Garcia 609
Thereza Carvalho 476
Yvone Schirmer 321
Yolando Oliveira 307
Leda Duarte 186
Hilgina Plautz 100
E outras menos votadas.
Além dos outros premios áquella que fôr detentora do titulo maximo, as Casas Bachin, Augusto Wilhelm, Bidone e Pereira offerecerão, respectivamente, fino par de sapatos, artistico estojo para unhas, lindo vestido e um vidro de fino extracto.

Lucy Ribeiro - eleita Rainha da Festa do Arroz com 32.375 votos
- Extraído da obra Aspectos Gerais de Cachoeira, de Fortunato Pimentel
E a matéria segue dando outras notícias sobre a projetada Festa do Arroz, ressaltando ainda atividades esportivas, como o Circuito Automobilístico, regatas e partidas de futebol no Estádio Municipal. Na corrida de automóveis estava sendo aguardada a participação de uma mulher, a Sra. Nilza Campos Ruschel, de Venâncio Aires, que pilotaria um carro Ford, modelo A, especial.

O trajeto da corrida seria o seguinte: saída da Rua Júlio de Castilhos e seguindo pela Saldanha Marinho, Conde de Porto Alegre, descida do Amorim, Volta da Charqueada, Vila Oliveira e Avenida Brasil. Como os carros se deslocariam em alta velocidade, as autoridades municipais determinaram que:
- Para segurança dos volantes e do publico em geral devem ser presos todos os animais domésticos. Os animais que estiverem vagando na via publica, devem ser recolhidos e seguros imediatamente, para não se converterem em causas de acidentes.
- Os pais devem manter as crianças em suas residencias, não as deixando brincar na via publica nem atravessar as ruas.
Desta forma, com a cooperação de todos, completar-se-ão as medidas de segurança já tomadas, evitando-se qualquer acidente que poderia empanar o brilhantismo deste grande certame.

Flagrante da corrida automobilística - Fototeca do Museu Municipal
A corrida foi vencida por Norberto Jung, tendo o cachoeirense Mario Dornelles em 2.º lugar e o porto-alegrense Iracy Freire em 3.º

Enfim, mesmo decorridos 75 anos da Festa do Arroz, felizmente pode-se lançar mão dos jornais da época para conhecimento de aspectos peculiares de um momento ímpar da história local, o que permite assistir ao filme produzido naquela ocasião com um outro olhar.

(MR)
sexta-feira, 8 de abril de 2016 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

A Expansão de Cachoeira para o Leste

Documentos do passado são reveladores da história e sua análise sob o olhar do presente permite que o leitor faça uma reconstituição do tempo, da sucessão de fatos e dos resultados.

Uma carta da "Schützenverein Eintracht"*, denominação antiga da atual Sociedade Rio Branco, remetida à Intendência em 23 de outubro de 1913, é um bom exemplo do desdobramento que a leitura de um documento escrito há 103 anos permite.

IM/OPV/AOP/Ofícios - Caixa 21
O Bairro Rio Branco foi aberto em 1912. O loteamento e a venda dos terrenos feitos pela Intendência Municipal foram iniciativas de expansão da cidade para o leste, ocupando terras que pertenceram à família do General Portinho. 

Em 1913, como informa a carta da "Schützenverein Eintrach", a diretoria pretendia adquirir terreno que abarcasse uma sede nova para a sociedade, então acanhadamente estabelecida nas proximidades da Praça José Bonifácio em um chalé, e um estande de tiro, esporte preferido dos associados.

Primeira sede da Schützen-Verein Eintracht - fototeca Museu Municipal
O terreno pretendido ficava situado (...) meia quadra de frente á Rua Ernesto Alves, junto ao cercado da chacara Portinho e fundos até o tapume da estrada de ferro (...). A carta também aponta porque a Rua Marechal Deodoro principia junto à sede da Sociedade Rio Branco: A aludida linha de tiro terá de atravessar o alinhamento da projectada Rua Marechal Deodoro, que por isso ficará fechada, na extremidade Leste, numa extensão de pouco mais de meia quadra. A Rua Marechal Deodoro, no Bairro São Luís, recebeu esta denominação em 7 de abril de 1912, mas ainda estava na condição de projectada em outubro de 1913! E a carta revela mais: A sociedade proponente obrigar-se-ha, porêm, a abrir dita rua logo que comecem a ser edificados os terrenos contíguos, actualmente compreendidos na chacara Portinho. 

Anotações feitas a caneta demonstram os passos que o documento seguiu dentro da Intendência. O Intendente da época, Isidoro Neves da Fontoura, anotou e rubricou no topo da correspondência a seguinte determinação: Á Secretaria Obras Públicas. No rodapé, outra anotação: Concedemos 200 palmos de frente com modificações [rasgado] com uma planta junta. Cach. 15 de dez. de [rasgado]. Da planta não há notícia, mas a história mostra que a concretização da obra se deu em 1914 no pretendido local, quando foram inauguradas a sede social, a Casa do Tiro e a cancha de bolão. A sede ampla, coberta e suficiente para encontros, festas e congraçamentos favoreceu a ampliação do quadro social e as opções de lazer dos associados. Mas fez mais...

Sede da Schützen-Verein Eintracht - 1914 - fototeca Museu Municipal
... a abertura do bairro levada a efeito pela Intendência Municipal em 1912 propiciou que os alemães e descendentes adotassem aquele local da cidade para nele construírem as suas residências, a escola e a igreja, constituindo, por esta hegemonia, o que popularmente começou a ser chamado de “Bairro dos Alemães”.

Ernesto Müller, o presidente da Schützen-Verein Eintracht na época das negociações e construção da sede, juntamente com o tesoureiro Arthur Fetter e Theobaldo Ruschel, signatários da carta à Intendência, muito mais do que representantes da vontade dos associados, foram em parte responsáveis ​​pela expansão urbana de Cachoeira para o leste. 

Ernesto Müller - acervo familiar
Sede atual da Sociedade Rio Branco - www.sociedaderiobranco.com.br
*Variante de grafia: Schützen-Verein Eintracht (Sociedade Atiradores Concórdia).

(MR)
sexta-feira, 1 de abril de 2016 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Um ferido na Charqueada

No final do século XIX, um processo criminal tinha que vencer algumas etapas: o auto de denúncia, com descrição do crime pelo promotor; o auto de corpo de delito, exame procedido em caso de ferimentos e homicídios; interrogatório de réus e vítimas; depoimentos de testemunhas e deferimento do juiz.*

Em 1890, quando era Delegado de Polícia o Coronel Isidoro Neves da Fontoura, houve uma briga na Charqueada do Paredão e o documento abaixo revela parte do processo de averiguação.


Charqueada do Paredão - fototeca Museu Municipal
Isidoro Neves da Fontoura
- fototeca Museu Municipal
Eis o conteúdo do documento assinado por Isidoro Neves da Fontoura:


Acervo documental Arquivo Histórico: pasta Polícia

Estado do Rio Grande do Sul. Delegacia de Policia do termo da Cachoeira, 24 de Janeiro de 1890.

Achando-se n'esta Delegacia, remettido pelo Inspector do 10.º Quarteirão d'este Districto, o individuo de nome Braz Severo Pereira, ferido no Estabelecimento Paredão em o dia de hontem, em consequencia de briga, torna-se preciso proceder na pessôa do mesmo a o respectivo Auto de Corpo de delicto, para o que nomeio peritos aos Cidadãos Doutores Candido Alves Machado de Freitas e Viriato Gonçalves Vianna, que serão notificados para comparecerem hoje em minha casa de residencia afim de serem juramentos [sic], devendo a deligencia ter lugar em Seguida, ás 11 horas da manhã em presença das testemunhas Cidadãos Viriato Vieira e Alarico Ribeiro, que tambem serão notificados. Era Supra.
I. Neves

Viriato Gonçalves Vianna
- fototeca Museu Municipal

A briga não causou lesões fatais ao homem, pois o próprio agredido compareceu à delegacia de polícia para as providências necessárias. O delegado Isidoro então nomeou como peritos para procederem ao auto de corpo de delito os médicos Candido Alves Machado de Freitas, nome que viria a ser fundamental na instalação do hoje Hospital de Caridade, e Viriato Gonçalves Vianna. Ambos foram depois intendentes de Cachoeira, bem como o próprio Isidoro Neves da Fontoura. Para testemunhar o exame seria notificado Alarico Ribeiro, que fez história como escritor, tendo exercido inicialmente as funções de promotor público em Cachoeira. 

Alarico Ribeiro
- fototeca Museu Municipal
Documentos como o acima transcrito podem parecer desinteressantes, ou menos atrativos que outros, mas são significativos por revelarem atos do cotidiano e o envolvimento de homens célebres com coisas comezinhas, como sói a qualquer ser humano.

* Extraído de Elementos a serem considerados na análise de processos criminais envolvendo escravos e libertos nas décadas finais do Império, de Silvana O. Fanni.

(MR)