Pular para o conteúdo principal

A Expansão de Cachoeira para o Leste

Documentos do passado são reveladores da história e sua análise sob o olhar do presente permite que o leitor faça uma reconstituição do tempo, da sucessão de fatos e dos resultados.

Uma carta da "Schützenverein Eintracht"*, denominação antiga da atual Sociedade Rio Branco, remetida à Intendência em 23 de outubro de 1913, é um bom exemplo do desdobramento que a leitura de um documento escrito há 103 anos permite.

IM/OPV/AOP/Ofícios - Caixa 21
O Bairro Rio Branco foi aberto em 1912. O loteamento e a venda dos terrenos feitos pela Intendência Municipal foram iniciativas de expansão da cidade para o leste, ocupando terras que pertenceram à família do General Portinho. 

Em 1913, como informa a carta da "Schützenverein Eintrach", a diretoria pretendia adquirir terreno que abarcasse uma sede nova para a sociedade, então acanhadamente estabelecida nas proximidades da Praça José Bonifácio em um chalé, e um estande de tiro, esporte preferido dos associados.

Primeira sede da Schützen-Verein Eintracht - fototeca Museu Municipal
O terreno pretendido ficava situado (...) meia quadra de frente á Rua Ernesto Alves, junto ao cercado da chacara Portinho e fundos até o tapume da estrada de ferro (...). A carta também aponta porque a Rua Marechal Deodoro principia junto à sede da Sociedade Rio Branco: A aludida linha de tiro terá de atravessar o alinhamento da projectada Rua Marechal Deodoro, que por isso ficará fechada, na extremidade Leste, numa extensão de pouco mais de meia quadra. A Rua Marechal Deodoro, no Bairro São Luís, recebeu esta denominação em 7 de abril de 1912, mas ainda estava na condição de projectada em outubro de 1913! E a carta revela mais: A sociedade proponente obrigar-se-ha, porêm, a abrir dita rua logo que comecem a ser edificados os terrenos contíguos, actualmente compreendidos na chacara Portinho. 

Anotações feitas a caneta demonstram os passos que o documento seguiu dentro da Intendência. O Intendente da época, Isidoro Neves da Fontoura, anotou e rubricou no topo da correspondência a seguinte determinação: Á Secretaria Obras Públicas. No rodapé, outra anotação: Concedemos 200 palmos de frente com modificações [rasgado] com uma planta junta. Cach. 15 de dez. de [rasgado]. Da planta não há notícia, mas a história mostra que a concretização da obra se deu em 1914 no pretendido local, quando foram inauguradas a sede social, a Casa do Tiro e a cancha de bolão. A sede ampla, coberta e suficiente para encontros, festas e congraçamentos favoreceu a ampliação do quadro social e as opções de lazer dos associados. Mas fez mais...

Sede da Schützen-Verein Eintracht - 1914 - fototeca Museu Municipal
... a abertura do bairro levada a efeito pela Intendência Municipal em 1912 propiciou que os alemães e descendentes adotassem aquele local da cidade para nele construírem as suas residências, a escola e a igreja, constituindo, por esta hegemonia, o que popularmente começou a ser chamado de “Bairro dos Alemães”.

Ernesto Müller, o presidente da Schützen-Verein Eintracht na época das negociações e construção da sede, juntamente com o tesoureiro Arthur Fetter e Theobaldo Ruschel, signatários da carta à Intendência, muito mais do que representantes da vontade dos associados, foram em parte responsáveis ​​pela expansão urbana de Cachoeira para o leste. 

Ernesto Müller - acervo familiar
Sede atual da Sociedade Rio Branco - www.sociedaderiobranco.com.br
*Variante de grafia: Schützen-Verein Eintracht (Sociedade Atiradores Concórdia).

(MR)

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Bar América - plantas no acervo do Arquivo Histórico

A notícia de obras de recuperação e melhoria do Bar América para nele ser instalada a futura Secretaria Municipal da Cultura faz renascer a esperança de ver aquela parte nobre da Praça José Bonifácio revitalizada e, ao mesmo tempo, viabilizar espaço e melhores condições à valiosíssima área cultural do município.  A história do Bar América remonta ao ano de 1943, quando a imprensa noticiou que a Prefeitura Municipal pretendia construir um quiosque-bar na Praça José Bonifácio. Assim noticiou o jornal O Comércio , de 17 de março daquele ano: A Praça José Bonifácio será dotada de um quiosque-bar Faz parte do programa de reforma da cidade, desde o calçamento das principais ruas, a construção de um quiosque-bar na Praça José Bonifácio. De tempos em tempos, o nosso Governo Municipal faz publicar editais de concurrencia publica para a construção e exploração de um bar naquele local, mas estes não apareciam. Agora, foi posta em fóco novamente a questão e apresentou-se um único candidato, que en

Inauguração das Casas Pernambucanas

A notícia veiculada na imprensa de que em breve as Casas Pernambucanas voltarão a abrir as portas em Cachoeira do Sul despertou a curiosidade e o interesse de buscar informações sobre a instalação da primeira filial dessa popular casa comercial na cidade. Vem do Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico a resposta. O Commercio , 24/6/1931, p. 1 Folheando as páginas dos jornais O Commercio  e Jornal do Povo  da década de 1930 e partindo da notícia da inauguração da segunda loja das Casas Pernambucanas em Cachoeira, ocorrida em setembro de 1936, uma rápida volta no tempo levou ao dia 8 de julho de 1931: O Commercio, 8/7/1931, p. 1 Casas Pernambucanas. - Com a presença de exmas. sras., senhoritas e cavalheiros, representantes das autoridades do municipio e da imprensa local, foi inaugurada, ás 10 horas da manhã de quarta-feira ultima, no predio da rua Julio de Castilhos n.º 159, a Filial das Casas Pernambucanas, cuja gerencia está a cargo do sr. José Aquino, muito conhecido e relacionado ne

A Ponte do Passo Geral do Jacuí

O Passo Geral do Jacuí, localizado a 30 km da cidade de Cachoeira do Sul, pela estrada de rodagem e, cerca de 40 km pelo leito do rio Jacuí, foi um dos caminhos de ligação entre Rio Pardo e a Região da Fronteira Oeste e Planalto, em tempos de paz e de Guerra Farroupilha. Terminada a Revolução Farroupilha, com a pacificação de Ponche Verde, a Província, governada por Caxias, volta-se para as obras e a prosperidade do Rio Grande do Sul. Em 8 de abril de 1846, por decreto, é apresentado o projeto para esse desenvolvimento e nele incluída a construção de uma ponte sobre o Passo Geral do Jacuí. Uma obra necessária e vital para agilizar a ligação entre os principais núcleos urbanos, servidos pelo rio Jacuí e a comercialização dos produtos e riquezas entre regiões Leste e Oeste da Província. Sua construção foi contratada pelo empreiteiro Ferminiano Pereira Soares, em 1848, pela quantia de 250 contos de réis, paga em seis prestações e num prazo contratual de cinco anos. (Ferminiano co