terça-feira, 26 de janeiro de 2016 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Castorina Ignacia Soares, um nome perdido nas brumas do tempo...

As Câmaras Municipais ainda hoje são compostas por comissões integradas pelos vereadores que têm por propósito analisar questões relativas à vida municipal, principalmente no que se refere à legislação que as disciplina. 

Este modelo não é de agora. Ao tempo em que a Câmara Municipal era o aparelho administrativo do município, ou seja, a instância de poder responsável pela administração, controle e disciplinamento da vida municipal, os vereadores eram já designados para comporem comissões as mais variadas: para acompanhamento, verificação e pareceres sobre obras, instrução pública, eleições, etc. Cabia aos vereadores escolhidos informarem à presidência da Câmara o andamento das demandas municipais, apontando o cumprimento ou não dos contratos acordados. 

Para exemplificar esta rotina, recorremos a um ofício enviado ao presidente da Câmara, Antônio Vicente da Fontoura, pelo vereador Polycarpo Pereira da Silva, da legislatura compreendida entre 1853 e 1856, em que se diz impedido de compor a comissão encarregada de examinar a obra de abertura da picada nova "que segue para cima da Serra". 

A dita picada nova, que era a estrada que conduziria o trânsito entre Cachoeira e Cruz Alta, obra de difícil conclusão, dadas as dificuldades da época, sofreu ainda um revés inesperado. Contratado o serviço com João Antonio de Barcellos, eis que este foi vítima de "um pau que caiu em cima dele", ou seja, na tarefa de abrir a mata, uma árvore, ou galho dela, acidentalmente caiu sobre ele, matando-o. Diante do contrato assinado e certamente vendo-se na obrigação e necessidade de cumprir o acordado, a viúva de João Antonio, Castorina Ignacia Soares de Barcellos, tomou para si a condução dos trabalhos, levando-os a termo em março de 1854.

Tendo se concluido a óbra da abertura da picada da Serra arrematada pello finado meu marido João Antonio de Barcellos, pr. isso q. communico a V.V.S.S. para servirem=se dispor a commissão q. comforme o contrato devem verificar as condiçõens do mesmo e julgar a óbra finda.
Deos Ge. a V.V.S.S. Cachoeira 28 de Março de 1854.

Illmos. Snres. Prezidente e Veriadores da Camara Municipal desta Villa.

Castorina Ignc.ª Soares de Barc.ºs


Em 31 de março de 1854, a Câmara nomeou os integrantes da Comissão solicitada por Castorina Ignacia Soares de Barcellos:

Illmo.= Senr." = Tendo D. Castorina Ignacia Soares de Barcellos, Viuva do finado João Antonio de Barcellos, participado a esta Camara Municipal, pr. seu officio de 28 do corrente, achar-se concluida a obra da abertura da picada nova que desta Villa segue p.ª cima da Serra, cuja foi arrematada pr. seu finado marido, e tendo esta Camara de nomear húa Commissão para fazer o exame da m.ma; em Sessão de hoje nomeou a V.S.ª e ao Senr." Veriador Joaquim Ignc.º de Araujo, p.ª de acôrdo não só fazerem o dito exame para se fôrão ou não cumpridas todas as condicções da contracta [sic], que se lhes envia por copia, como em observação da condicção decima da m.ma contracta, como louvados por parte desta Camara, com as duas pessoas nomeadas pr. parte do imprezario, procederem a medição da estenção da dita picada; servindo-se de tudo darem a esta Camara circunstanciada informação, para serem cumpridas as condicções decima-primeira, e seguinte da dita contracta = Deos Guarde a VS.ª. Paço da Camara Municipal da Villa da Caxr.ª 31 de Março de 1854 = Illmo. Senr." Polycarpo Pereira da Silva, Veriador desta Camara = Antonio Vicente da Fontr.ª, Veriador presidente = o Secretario, Fabiãno Per.ª da Silva -


Cópia do ofício encaminhado ao vereador Polycarpo Pereira da Silva - 31/3/1854
- CM/S/SE/RE-002, fl. 122

O vereador Polycarpo Pereira da Silva, ao receber o ofício da Câmara encarregando-o de realizar a vistoria da obra, imediatamente respondeu ao presidente Antônio Vicente da Fontoura que estava impedido de integrar a Comissão por razões de saúde:

Illmos.

Acuso a recepsão d'officio de Vªs S.ªs dalado [sic] de 31 de Março pp, e em resposta cumpre me dizer a V.ª Sªs, q. não me permetindo o meu estado de saude fazer viagens longas a cavallo, vou rogar lhes me dispensem da com.são pa q. foi nomeado e de q. trata o mesmo officio: avista pois ao q. alego, devolvo a V.ªs Sªs o dito officio e copia da contracta. Ds. Ga. a VSªs Rincão da Serraria 2 de Abril 1854

Illmo Vr Prezidente e Vereadores
Camara Municipal da Vª da Caxrª.


Polycarpo Perª Sª

Carta de Polycarpo Pereira da Silva - 2/4/1854
- CM/CP/Ofícios/Caixa 9
A Camara, por sua vez, no mesmo dia que oficiou ao vereador Polycarpo também o fez à viúva Castorina:

Illm.ª Senr.ª = Tendo esta Camara Municipal em Sessão de hoje tomado conhecimento do officio de V.S.ª datado de 28 do corrente mez, em que participa achar-se concluida a obra da abertura da picada nova, arrematada pelo finado marido de V.S.ª, p.ª o fim desta Camara dispor a Comissão que a m.ma deve examinar: Tem de significar-lhe que nesta mesma Sessão nomeou ao Senres. Veriadores Polÿcarpo Pereira da Silva, e Joaquim Ignc.º de Araujo, para fazerem o dito exame a vista das condicções da contracta, e conforme a condicção decima se louva esta Camara nos mesmos Senres. Veriadores, p.ª com as pessoas nomeadas pr. V.S.ª procederem á medição da estenção da dita picada. = Deos Guarde a V.S.ª; Paço da Camara Municipal da Villa da Caxr.ª 31 de Mço. de 1854. = Illm.ª Senr.ª D. Castorina Ignacia Soares de Barcellos = Antonio Vicente da Fontoura, Veriador Presidte. = Secretario, Fabiãno Per.ª da Silva. -

Diante das justificativas de Polycarpo Pereira da Silva de falta de saúde para empreender a missão (aliás bastante sacrificante percorrer a cavalo léguas e léguas...), a Câmara já em sua sessão de 3 de abril encaminhou ofício ao Capitão Joaquim Antonio da Cunha para substituir o vereador impossibilitado:


Cópia do ofício da Câmara direcionando a tarefa recusada por Polycarpo P. da Silva
para o Cap. Joaquim Antonio da Cunha - 3/4/1854 - CM/S/SE/RE-002, fl. 123


(...) escuzando-se de fazer parte de tal commissão, pr. lhe não permitir seu mau estado de saude, como fez vêr pr. seu officio datado de hontem. E pr. não haver mais delongas em sem.e exame que póde occazionar perjuizo ao imprezario; de ordem da mesma Camara nomeio e convido a V.S.ª p.ª de acordo com o Membro nomeado, o Cidadão Joaquim Ignacio de Araujo, procederem ao exame precizo na dita obra (...) Deos Guarde a VS.ª. Villa da Cachoeira 3 de Abril de 1854 = Illmo. Senr." Cap.m Joaquim Antonio da Cunha. = Antonio Vicente da Fontoura, Veriador Presidente. = O Secretario, Fabiãno Per.ª da Silva.

Do dito Polycarpo Pereira da Silva não há informação suficiente para compor uma biografia. É provável que seja irmão do Dr. José Pereira da Silva Goulart, a julgar pela caligrafia e assinatura constantes de uma carta enviada ao médico "Mano e Amº", em 3 de abril de 1840, obtida da coleção particular da Família Vieira da Cunha:



Quanto ao empreiteiro da obra da picada que ia da Vila da Cachoeira para cima da serra, João Antonio de Barcellos, filho de Vicente José de Barcellos e Anna Felicia da Conceição, havia sido vereador (1845-1848) e suplente do delegado de polícia da Vila em 1848. O atestado de óbito, ocorrido em 31 de março de 1853, registra: "morto por um pau que caiu em cima dele". A sua esposa, Castorina Ignacia, mulher de fibra, concluiu o trabalho do marido três dias antes de completar-se um ano da sua morte! Eis uma página incrível e digna da nossa história, embora João Antonio seja nome de rua e Castorina uma personagem perdida nas brumas do tempo...

(MR)
segunda-feira, 18 de janeiro de 2016 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Preservação de inscrições em monumentos

Para quem pensa que preservação de patrimônio é assunto novo, ou pelo menos tema de discussões contemporâneas, mesmo quando se fala em Brasil o assunto é bastante antigo!

A primeira referência documental vem ainda do tempo do Império e surgiu por determinação de D. Pedro II, homem dotado de pensamento vanguardista e vasta cultura. A ordem do Imperador foi dada em 1855, gerando circular do governo da Província que determinava às Câmaras Municipais que providenciassem (...) se lhe envie copias das inscripções que possa haver neste Municipio, extampados nos monumentos publicos, e as inscripções sepulchraes das Igrejas

Provincia de S. Pedro do Rio Grande do Sul. Pal.º da Presidencia em Porto Alegre 13 de Fevereiro de 1856.

Circular N.º 4

Determinando S. M. O Imperador, por Aviso expedido pelo Ministerio do Imperio em 18 de Dezembro do anno passado, que esta Presidencia trate de obter e remetter á Bibliothéca Nacional as inscripções, que são estampadas nos monumentos publicos de todo o Imperio, comprehendendo-se as inscripções sepulchraes das Igrejas, devendo ser acompanhados de indicações relativas aos lugares, e aos mesmos monumentos e de noticias que lhes sejão concernentes, e possão interessar, havendo o maior cuidado e escrupulo, para que taes transcripções sejão feitas com a mais perfeita exactidão no idioma em que se acharem, conservando-se os seus proprios caracteres, embora desconhecidos; convém que VmCes. informem se nesse Municipio existem tais inscripções, e nesse caso mandem copias dellas, e com as explicações recommendadas: cumprindo mais que VmCes. dêm as providencias, que julgarem necessarias, á fim de que, quando se houver de reparar taes monumentos, haja todo o cuidado para que se não apaguem as inscripções que tiverem.
Deos Guarde a VmCes.

Barão de Muritiba


Cópia da circular n.º 4, 13/2/1856
A Câmara da Cachoeira deu a seguinte resposta à circular em 13 de maio de 1856:

Illmo. e Exm.º Senr." = A Camara Municipal da Villa da Cachoeira, em cumprimento as ordens d'essa Presidencia, expedidas pelo antecessor de V.Ex.ª, em Circular n.º 4 de 13 de Fever.º do corre. anno, em que ordena se lhe envie com toda a exactidão, copias das inscripções que são extampadas nos monumentos publicos, comprehendendo as inscrições sepulchraes das Igrejas; tem a honra de declarar a V.Ex.ª que não existe em nem um lugar do Municipio, as inscripções referidas. = Deos Guarde a V.Ex.ª pr. mtos. ans. Paço da Camara Municipal da V.ª da Caxr.ª  13 de Maio de 1856. = Illmo. Exm.º Senr." Conselheiro Jeronimo Francisco Coelho, Presidente e Commd.e das Armas desta Provincia. = Joaquim Corrêa de Oliveira = Lourenço J.e da S.ª Bandr.ª = Polycarpo Per.ª da Silva = Joaquim Ignacio de Araujo = Fructuoso Borges da S.ª e Fontoura.-



Cópia da correspondência de resposta à solicitação da Presidência da Província
(ao pé da folha 179 - CM/S/SE/RE-002)
Sequência da resposta (topo da folha 179 verso - CM/S/SE/RE-002)

Como se vê pela resposta da Câmara, Cachoeira não possuía nenhum monumento com inscrição, tampouco a Igreja Matriz conservava registros sepulcrais, apesar da prática de sepultamento no interior do templo só ter cessado na década de 1830, com a inauguração do Cemitério das Irmandades (1833).

A despeito da negativa da existência de inscrições históricas em nosso meio, os documentos em questão revelam a visão prospectiva de D. Pedro II e a sua preocupação em incutir nas autoridades o respeito à história de um país que mesmo jovem precisava calcar seu desenvolvimento sem descuidar dos valores do passado. Uma lição e tanto que mesmo em nossos dias tem sido difícil de ser assimilada!

(MR)
sexta-feira, 8 de janeiro de 2016 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

A Ponte do Fandango, as pontes secas e os aterros

O final do ano de 2015 e o início de 2016 ficaram gravados na memória dos cachoeirenses como tempos em que as tradicionais comemorações cederam lugar às preocupações com enchentes, desabrigados e interrupção do abastecimento de água, quase uma ironia diante do grande volume que o Jacuí tomou com as chuvas do período. E, como culminância de todos os problemas, a cabeceira da ponte sobre o banhado Castagnino ruiu, cortando a comunicação da cidade com a BR-290 e com as propriedades rurais existentes no caminho e inviabilizando a própria Ponte do Fandango. 
As pontes secas, ou viadutos, que acessam a Ponte do Fandango passaram a ser alvo de indagações: são construções da mesma época? Ficaram prontas no mesmo tempo? A ligação com a BR-290 foi imediata à inauguração? Recorrendo aos jornais (O Comércio e Jornal do Povo) que circulavam em Cachoeira do Sul na época da inauguração oficial da Barragem-Ponte do Fandango (25/1/1961), foram verificados problemas de toda ordem que retardaram por anos a utilização plena da grandiosa obra. A história mostra que a década de 1960 foi quase toda empregada na tentativa de dar à Ponte do Fandango e seus acessos o verdadeiro sentido de sua construção!

Barragem-Ponte do Fandango - foto Jorge Ritter

Eis as principais notícias (itálico) veiculadas na imprensa da época:

Aterros Inacabados Junto à Ponte do Fandango Impedem o Trânsito

Problema que de há muito se arrasta à espera de uma solução e que agora está impedindo o livre tráfego de veículos, com prejuizos para a economia do Município, é o que respeita aos aterros inacabados que dão acesso à Ponte do Fandango. 
Sôbre a situação o JORNAL DO POVO, há muito detido, chamando a atenção de quem de direito no sentido de evitar, a exemplo do que vem acontecendo presentemente, em vista das cheias do Jacuí, que o tráfego por aquele local fôsse interrompido, com graves reflexos sôbre nossos setores de atividades. Os responsáveis por êsses setores competentes, no entanto, fizeram ouvidos de mercador ao nosso grito de alerta, que não era mais senão o éco do grito de tôda uma população. Ante o problema levantam-se agora novos e justos apelos.
O vereador Dr. Vicente Campos, ocupando a tribuna, por ocasião da última reunião da Câmara, abordou e pediu providências para sua solução. Nessa ocasião, seu colega, Amedeu Ribeiro, líder da bancada do PTB naquele Legislativo, prometeu que conforme sempre acontecera, quando de justas reivindicações, seu partido saberia emprestar sua colaboração na resolução de mais êsse grave problema.
Ao DAER, através de sua Residência local, caberia resolver o impasse através da conclusão dos aterros que agora constituem o problema. Mas acontece que para êsse mister depende da Direção Geral dêsse Departamento, a quem compete financiá-la nessa tarefa. Nesse particular promessas existem. Inclusive o engenheiro Rocket Pinto, da Residência local, possue promessa superior, de que lhe seriam destinadas verbas mensais de um milhão de cruzeiros para a tarefa de conclusão dêsses aterros. Mas, nesse sentido, até agora nada recebeu e o problema parece destinado a eternizar-se, a maneira de muitos que abundam por êsse Brasil desgraçadamente mal dirigido.
Visando impedir que tal se concretize, tornando-se uma triste realidade, é que juntamos nosso apelo, aos levantados pelos representantes do povo na Câmara Municipal e dirigido aos mais altos poderes do Estado, à Direção Geral do DAER, no sentido de que venham a adotar providências visando sanar de uma vez por tôdas êsse mal que nos está a causar incalculáveis prejuízos financeiros.
(Jornal do Povo, Ano XXXIII, N.º 41, de 1/10/1961, p. 1).

Trânsito Interrompido Faz Autoridades Apelarem Novamente ao Governo Encarecendo Conclusão dos Aterros do Fandango

As constantes chuvas que se fizeram cair no mês de setembro último neste e em outros municípios gaúchos fizeram transbordar as bacias de nossos mais importantes rios, ocasionando problemas para as populações marginais e impedindo, por vêzes, trechos de importantes rodovias que servem para o escoamento de nossa produção.
Tendo em vista a calamitosa situação criada, com graves reflexos para a economia cachoeirense, as autoridades locais apelaram ao Govêrno do Estado no sentido de que tomasse as providências ao seu alcance a fim de amenizar se não os efeitos danosos das cheias atuais, pelo menos os que se originarem de futuras enchentes em nossos rios.
Cachoeira do Sul, com as suas inacabadas obras dos aterros que dão acesso à Barragem Ponte do Fandango, sofreu muito com as cheias de setembro, as quais fizeram com que se interrompesse o tráfego que se fazia por aquela ponte, principal escoadouro de nossa produção.
Solicitando providências para contornar a situação, o prefeito Moacyr Cunha Roesing dirigiu fonograma dia quatro último ao Engenheiro Pércio Reis, diretor do DAER, encarecendo-lhe a tomada de providências para que o fato não mais venha a se repetir.
O telegrama endereçado pelo edil local ao Diretor do Departamento Estadual de Estradas de Rodagem, estava vasado nos seguintes têrmos:
"Levo conhecimento ilustre amigo falta conclusão dois pequenos trechos atêrro acesso ponte Fandango interrompeu tráfego virtude cheia Rio Jacuí. Situação gerou clamor público virtude grande número veículos ficaram retidos sem possibilidade entrar e sair cidade. Apelo ilustre Diretor sentido determinar providências capazes evitar repetição tal fato virtude prejuízos mesmo acarreta sistema transportes igualmente economia Município. as.) Moacyr Cunha Rosing - Prefeito Municipal."
Apelos do Legislativo
Assinado pelo presidente em exercício do Legislativo local, vereador Carlos Salzano Vieira da Cunha, foi também endereçado apêlo ao Eng.º Leonel Brizola, Governador do Estado, e ao Secretário de Transportes, solicitando providências urgentes para que sejam aceleradas as obras de complementação dos aterros da Barragem-Ponte do Fandango, cuja conclusão vem sendo prometida de há muito tempo pelo Govêrno do Estado.
[...]
(Jornal do Povo, Ano XXXIII, N.º 44, de 8/10/1961, p. 1)

Entidades de Classe, Govêrno e Povo Apelam: Conclusão Urgente dos Aterros do Fandango

Os vereadores locais, reforçando apelos anteriores e face à ausência da bancada do PTB à sessão de terça-feira, decidiram encaminhar ao Governador do Estado o seguinte telegrama:
"Reiterando pedido classes produtoras Capital do Arroz, encarecemos necessidade intransferível ultimação aterros Barragem-Ponte do Fandango local. Novamente, a partir de hoje, Cachoeira do Sul está isolada do Estado, virtude falta conclusão aterros, já prometida em mais de uma oportunidade. Prejuízos incalculáveis se repetem a cada vez que tal fato ocorre. ass.) Roland Strüssmann, Vicente Campos, Virgílio Pinós, Christiano Graeff Junior, Gomercindo Alvares, Carlos Luedtke e Carlos Salzano.
Outros Secundam
O movimento iniciado pela Camara de Vereadores foi secundado por outros, tornando-se numa reivindicação geral de tôdas as classes da cidade, as quais se dirigiram ao Govêrno do Estado, á Assembleia Legislativa e á imprensa da Capital solicitando o interêsse daqueles órgãos para o problema.
No dia de hoje deverá chegar a esta cidade uma comissão de deputados e de repórteres dos jornais da Capital, os quais, convidados por entidades classistas, pelo Govêrno do Município, pela Associação Comercial e por pessoas gradas de nosso comércio e indústria, entre os quais o sr. Reinaldo Roesch, titular da firma Reinaldo Roesch S.A., deverão examinar "in loco" a situação criada com as constantes interrupções do tráfego na barragem-ponte e fazer ampla cobertura a respeito.

Segue lista de entidades que também se movimentaram com o mesmo fim.
(Jornal do Povo, Ano XXXIII, N.º 53, de 26/10/1961, p. 1)

Inadiável a Conclusão do Acesso à Barragem Ponte do Fandango

Amplo movimento de parte de tôdas as entidades de classe locais, autoridades e povo em geral, foi iniciado quarta-feira última, visando chamar a atenção das autoridades estaduais, direta ou indiretamente responsáveis pela situação de abandono a que se encontram relegados os acessos á barragem-ponte do Fandango.
Dito movimento, em síntese, visava trazer a Cachoeira do Sul uma comitiva de Deputados, aos quais seria explanada, em detalhes, a gravidade do problema, tôda a vez que pequena enchente alcança as várzeas inundáveis que margeiam o rio Jacuí. Apezar de terem sido enviados, entretanto, mais de 20 telegramas e fonogramas, dirigidos a maior parte dêles ao Presidente da Assembléia Legislativa, esta siquer, até ontem, se pronunciou a respeito.
"Correio do Povo" Faz Amplo Levantamento
No dia seguinte ao do início do movimento, dada uma intermediação prévia do Sr. Reinaldo Roesch junto á alta direção do "Correio do Povo", chegou á nossa cidade, um taxi aéreo, pilotado pelo Comandante Caleffi, trazendo um repórter e um fotógrafo, respectivamente, Srs. Wilson Sim e José Abraham.
Imediatamente após a chegada á nossa cidade dêstes dois representantes da imprensa da Capital, foi realizada rápida reunião na redação do JORNAL DO POVO, estando presentes á mesma os Sr.s Reinaldo Roesch, Danilo Strassburger, Vice-Prefeito local, G. Armando Sperb, Presidente da Associação do Comércio e Indústria, Roland Strussmann, vereador, e o Diretor do JORNAL DO POVO.
Em condução especial, foram os visitantes conduzidos junto aos atêrros localizados á margem esquerda do Rio Jacuí, oportunidade em que lhes foi detalhada e minuciosamente explicado de que o pequeno vão, de cerca de 100 metros, jamais havia sido concluído e era justamente o que impedia o transito, além da falta de encascalhamento dos atêrros própriamente ditos.
Posteriormente, por gentileza da alta direção da Cooperativa Agrícola Cachoeirense Ltda., bem como dos Srs. Dr. Nilo Savi e Luiz Costa, foram os visitantes levados em 2 lanchas para a margem direita do rio Jacuí onde, como sabemos, também existe pequeno vão, idêntico ao já citado, que impede o transito de veículos em qualquer cheia de menor importancia.
A esta altura, já também se fazia presente o Sr. Prefeito Municipal, Moacyr Cunha Roesing, o Presidente da Associação dos Contabilistas, sr. Walter Bittelbrunn, bem como o Diretor do Jornal "O Comércio", Sr. Edgar Pohlmann.
[...]


Registro fotográfico feito por José Abraham - Correio do Povo
Silêncio de Parte das Autoridades Estaduais
Parece que, entretanto, não obstante os inúmeros e veementes apêlos enviados ao Sr. Governador do Estado, Presidente da Assembléia Legislativa e inúmeros outros Deputados, mais uma vez Cachoeira do Sul deixará de ser ouvida em suas reivindicações.
Na Camara Municipal, no dia em que se pretendia aprovar veemente apelo ao Sr. Governador do Estado, relativamente á conclusão dos atêrros, tal não foi possivel, já que a bancada do Partido Trabalhista se retirou, impedindo houvesse número legal para votação da proposição de autoria do vereador Roland Strussmann que, afinal, foi subscrita, em nome particular, pelos sete vereadores presentes.
E note-se que a necessidade é de apenas concluir dois vãos de cerca de 100 metros cada, em ambos os lados dos atêrros que dão acesso á ponte, bem como de encascalhar os atêrros já existentes, embora êstes ainda não tenham sido construidos ao nivel necessário, que permita o transito também em ocasiões de grande e anormais enchentes.
(Jornal do Povo, Ano XXXIII, N.º 54 de 29/10/1961, p. 1)

Prossegue Movimento Pró Conclusão de Atêrros da Barragem do Fandango

O assunto do dia, movimentado que foi pelas entidades de classe e autoridades locais, é, sem dúvida alguma, a falta de conclusão dos atêrros que dão acesso á Barragem-Ponte do Fandango, junto á nossa cidade, sôbre o rio Jacuí.
Como publicamos amplamente em nossa edição de domingo, aqui esteve, quinta-feira ultima, um repórter do Correio do Povo, que fez ampla cobertura da dificil situação por que atravessa nosso município, práticamente ilhado do resto do Estado. A reportagem, como não poderia deixar de ser, repercutiu entre os representantes do povo, inclusive, declarações do Deputado Candido Norberto, de que a destruição dos atêrros fôra prevista por engenheiros do DAER.
Nêste particular, certamente, houve pequeno mal-entendido, pois o que a população local reivindicou, foi a conclusão de dois pequenos trêchos, de cerca de 100 metros cada, bem como o encascalhamento dos atêrros no ponto em que estavam. Só mesmo cheias bem maiores, exigiriam fossem os atêrros construidos em altura definitiva. Face á elevação das águas, em nível inesperado, sexta-feira para sábado, também outros trechos do atêrro, algo baixos, foram invadidos pelas águas, ocasionando danos, mas não a destruição, como se propala.
No sentido de esclarecer certos detalhes dêste mal-entendido, soubemos que vereador local teria se dirigido diretamente ao Deputado Candido Norberto, ontem, por telegrama, pedindo, inclusive que também se fizesse presente em Cachoeira do Sul. 
[...]


Jornal do Povo - 31/10/1961
Retrato do Descaso de Uma Administração
A enchente do Rio Jacuí isolou Cachoeira da Capital do Estado e de dezenas de cidades, via rodoviária. A conclusão do atêrro de acesso á ponte do Fandango, obra a cargo do Govêrno do Estado, continua abandonada, espelhando o descaso para com os insistentes apêlos das autoridades e classes conservadoras de Cachoeira do Sul ao Sr. Leonel Brizola. O clichê acima (gentilmente cedido pelo "Correio do Povo" e cuja foto foi tomada por José Abraham) dá-nos uma visão panorâmica das obras do atêrro, obstruídas pelas águas, em ambos os lados. Se os trabalhos de solidificação da parte já construída e sua elevação até a cota normal, tivessem prosseguido não estaria hoje o Município sofrendo tantos prejuizos em sua economia.
(Jornal do Povo, Ano XXXIII, N.º 55, de 31/10/1961, p. 1)

Um Milhão Para o Atêrro da Ponte do Fandango


A propósito do momentoso assunto, o sr. Prefeito Municipal recebeu, na manhã de ontem, um telefonema do deputado conterraneo Ayrton Barnasque, comunicando que o Sr. Governador do Estado, atendendo á gravidade da situação, concedeu a verba de um milhão de cruzeiros ao DAER, para atender aos reparos de emergência nos referidos atêrros, bem como determinou que as obras em geral sejam concluídas até 31 de março do ano vindouro, impreterivelmente.
É, por certo, uma notícia alvissareira que, prazeirosamente, transmitimos aos nossos leitores e, particularmente, às entidades interessadas.
[...]
(Jornal do Povo, Ano XXXIII, N.º 56, de 1/11/1961, p. 1)

O jornal O Comércio, em sua edição do dia 1.º de novembro de 1961, traz a seguinte manchete:

Apesar da Ponte, Cachoeira do Sul continúa como que ilhada
A falta de acesso inutilisa a Ponte do Fandango durante várias semanas

Não é de hoje que as autoridades municipais e a totalidade da população cachoeirense, por intermédio de seus organismos representativos, se vêm debatendo pela conclusão dos acessos à maravilhosa Barragem Ponte do Fandango, sem, todavia, nada conseguir, por descuria dos responsáveis.
A Barragem Ponte do Fandango, obra de real importância, que custou mais de meio bilhão de cruzeiros, por falta de conclusão de seus respetivos aterros de acessos, há já várias semanas que se encontra como imprestável no meio das águas, causando inenarráveis transtornos à elevada parcela da população gaúcha, isto para não mencionar os prejuizos de carater material, principalmente à agricultura e à pecuária, em última análise, os alicerces da economia riograndense.
Como não podia deixar de ser, essa lamentável situação - é verdade que criada em consequência das últimas e prolongadas chuvas que provocaram extemporânea enchente no Jacuí - vem causando profunda repercussão no seio da população, revolta mesmo. Espelhando esse sentimento [...] concretizou-se intenso movimento nos meios representativos citadinos [...] visando a integral ultimação dos aterros de acesso à Ponte do Fandango, e assim evitar uma repetição periódica de uma situação quasi insustentável. [...]

Série de cartões-postais da década de 1960 - Coleção Claiton Nazar
Os dois jornais intercalavam notícias da situação que parecia insolúvel:

Nôvo Apêlo ao Legislativo Para Conclusão das Obras de Atêrro na Barragem do Fandango
(Jornal do Povo, Ano XXXIII, N.º 137, de 10/5/1962, p. 1)

Aterros da Barragem-Ponte do Fandango: Associação Interpela ao Diretor do DAER
O Grupo de Trabalho para Assuntos Econômicos da Associação dos Contabilistas e a Associação do Comércio e Indústria enviou extenso ofício ao novo Diretor do DAER, Eng. Elizio Telli, subscrito pelo presidente em exercício Danilo Pedro Strassburger e secretário Roland Strüssmann, solicitando: 1) para quando está previsto o reinício das obras de conclusão dos atêrros e tempo de duração dos trabalhos; 2) se há necessidade de construção de obras de arte nas várzeas inundáveis; início e duração dos trabalhos; 3) se, concomitantemente, serão reiniciados os trabalhos de retificação do traçado, abandonado há cêrca de dois anos, da estrada que vem da BR-37, passar pela Barragem-Ponte e "desemboca" na estrada geral que leva de Candelária a Camobi; início e duração dos trabalhos; 4) se está previsto o asfaltamento do citado no item 3.
(Jornal do Povo, Ano XXXIV, N.º 105, de 24/2/1963, p. 1)

Em 6 de abril de 1963 as lideranças da cidade realizaram uma mesa redonda com o Governador, na Sociedade Rio Branco, quando foram apresentadas cinco reivindicações prioritárias, sendo a segunda a conclusão imediata dos aterros da Barragem-Ponte do Fandango [...]. Autor: Associação do Comércio e Indústria.
(Jornal do Povo, Ano XXXIV, N.º 123, de 6/4/1963, p. 1)

A edição do Jornal do Povo do dia 11 de abril de 1963 publicou o conteúdo de ofício recebido pela comissão que reivindicou as obras nos aterros de acesso à Ponte do Fandango, remetido pelo engenheiro Antonio Augusto de Oliveira, Sub-diretor técnico do DAER:

Em atenção ao que pede essa Associação, em correspondência datada de 21 de fevereiro p/passado, temos a informar o seguinte: 1.º - O reinício dos aterros de acesso à Ponte do Fandango, que terão seu término no ano de 1964, está dependendo tão somente da aprovação, pelo Exmo. Sr. Governador, do Plano Preliminar de Obras para 1963, o que deverá ocorrer brevemente. Esta obra tem uma dotação de 50 milhões de cruzeiros. 2.º - A travessia do Fandango, exige mais dois viadutos, com dotação de 20 milhões de cruzeiros, os quais serão iniciados no presente exercício e concluídos no próximo ano. [...]
(Jornal do Povo, Ano XXXIV, N.º 126, de 11/4/1963, p. 2)


Prefeito Relata à Reportagem Resultados de Sua Viagem a P.A.

De volta de Pôrto Alegre, onde fôra tratar de vários assuntos de interêsse do município, a reportagem do JP estêve em contato com o Sr. Moacyr Cunha Roesing em seu gabinete de trabalho, obtendo as informações com relação aos seguintes assuntos tratados: (...) VIADUTOS E ATÊRRO DA PONTE DO FANDANGO "Na Diretoria Geral do DAER, estivemos em contato com o Eng.º Osvaldo Corrêa Rockett, Assistente da DCM, que nos informou que pelo Plano de Investimentos do Estado existem verbas para a construção dos aterros e viadutos da Ponte do Fandango, obras do máximo interêsse para Cachoeira do Sul. Segundo nos relatou S. S.ª, os viadutos serão construídos pela Divisão de Estudos e Projetos, cuja turma está se instalando nesta cidade. [...] Será construído um viaduto de cada lado da Ponte. Quanto aos aterros, também altamente necessários, serão feitos pela 10.ª Residência do DAER, tão logo receba os recursos materiais previstos para tal fim (dez caminhões etc.)".
(Jornal do Povo, Ano XXXIV, N.º  144, de 23 de maio de 1963, p. 5)

Entregues Reivindicações do Município ao Coordenador do Plano Trienal do RGS

O Plano Trienal do atual governo do estado visa tomar conhecimento e providências na elaboração de obras de primordial importância em todo o território gaúcho. [...] Antes de elaborar as reivindicações o Prefeito Moacyr Cunha Roesing solicitou a colaboração das associações do Comércio e Indústria e Contabilistas, a fim de que apresentassem sugestões, para se expor aos assessôres do Governador as obras e reivindicações mais importantes. Ei-las em ordem de prioridade: 1) Viadutos e aterros da Ponte do Fandango; [...]
(Jornal do Povo, Ano XXXIV, N.º  154, de 16 de junho de 1963, p. 6)

Enchentes Este Ano Não Prejudicarão o Tráfego Pela Ponte do Fandango

Em contato com o Eng.º Darci Siqueira Machado, chefe da 10.ª Residência do DAER, tomamos conhecimento da marcha das obras dos viadutos e do atêrro da Ponte do Fandango, bem como da RS-10, que liga Cachoeira do Sul à estrada federal Pôrto Alegre-Uruguaiana (BR-37). [...] VIADUTOS E ATÊRROS Quando em palestra com o Eng.º Darci Siqueira Machado, ouvimos também o chefe das obras dos viadutos (pontes sêcas) nos atêrros da Ponte do Fandango, que nos disse inicialmente que as últimas enchentes do Jacuí não só interromperam por largo período as obras no viaduto à margem direita (Várzea Castagnino), como causaram enorme prejuízo, retardando a conclusão dos serviços. Espera, no entanto, o chefe dessa obra concluir aquêle viaduto dentro de três meses (até fins de maio), iniciando imediatamente o da outra margem, próximo à Olaria Jagnow, na Vila Militar, que poderá ficar concluído até dezembro. 
Obras da RS-10
Declarou-nos o Dr. Darci Machado, que tôdas as atenções estão sendo dirigidas para o aceleramento das obras da RS-10, cuja construção está avançando um e meio quilômetro abaixo da atual encruzilhada, ou seja, entre os quilômetros 154 e 155, onde desembocará em trêvo (uma bifurcação nas duas direções da BR-37). Espera o Engenheiro Residente do DAER que antes do fim do corrente ano estejam os atêrros da Ponte do Fandango prontos para conservar o tráfego durante enchentes como as últimas verificadas. Aliás, as maiores atenções do DAER voltam-se justamente para as obras que poderão ser interrompidas com eventuais enchentes, acelerando o andamento no trecho da Várzea Castagnino.
(Jornal do Povo, Ano XXXV, N.º 104, de 23 de fevereiro de 1964, p. 1)

A "novela" segue. As obras quando têm começo, arrastam-se ou sofrem impedimentos de toda ordem... O Jornal do Povo, edição de 5 de março de 1967, traz a seguinte notícia:

Acesso a BR-290 tornou-se a "Estrada do Desespêro" para os Cachoeirenses

Obra de há muito esperada e já reclamada em três administrações sucessivas, a ligação de Cachoeira do Sul com a BR-290 vem se constituindo na "estrada do desespêro" para todos os cachoeirenses. 
Iniciada no primeiro govêrno do Eng. Ildo Meneghetti, teve sua paralização logo a seguir, na administração Leonel Brizola, quando tôda sua maquinaria foi retirada para "estrada da produção".
Iniciada a segunda administração do Eng. Meneghetti, Cachoeira do Sul de imediato reclamou o reinicio das obras, através de suas autoridades e dos elementos representativos de tôdas as classes, em memorável mesa redonda, quando recebeu a promessa de que a obra ficaria completa e asfaltada até 1966.
Tudo não passou de mera ilusão, conseguindo-se apenas a conclusão dos aterros [...]

Como é possível depreender da matéria acima, os aterros ficaram prontos no ano de 1966, mas a ligação asfáltica até o trevo de acesso à BR-290 ainda demandaria vários anos...
Hoje, diante do desmoronamento de uma das cabeceiras da ponte sobre o banhado Castagnino, com ruína de dois pilares, resultado provável de manutenção indevida ou inexistente dos viadutos, cuja construção foi concluída após a da Ponte do Fandango, remete à possibilidade de que poderá haver um longo caminho até que obras de recuperação daquele acesso aconteçam...

Ponte sobre o banhado Castagnino - foto Robispierre Giuliani
(MR)