Pular para o conteúdo principal

Castorina Ignacia Soares, um nome perdido nas brumas do tempo...

As Câmaras Municipais ainda hoje são compostas por comissões integradas pelos vereadores que têm por propósito analisar questões relativas à vida municipal, principalmente no que se refere à legislação que as disciplina. 

Este modelo não é de agora. Ao tempo em que a Câmara Municipal era o aparelho administrativo do município, ou seja, a instância de poder responsável pela administração, controle e disciplinamento da vida municipal, os vereadores eram já designados para comporem comissões as mais variadas: para acompanhamento, verificação e pareceres sobre obras, instrução pública, eleições, etc. Cabia aos vereadores escolhidos informarem à presidência da Câmara o andamento das demandas municipais, apontando o cumprimento ou não dos contratos acordados. 

Para exemplificar esta rotina, recorremos a um ofício enviado ao presidente da Câmara, Antônio Vicente da Fontoura, pelo vereador Polycarpo Pereira da Silva, da legislatura compreendida entre 1853 e 1856, em que se diz impedido de compor a comissão encarregada de examinar a obra de abertura da picada nova "que segue para cima da Serra". 

A dita picada nova, que era a estrada que conduziria o trânsito entre Cachoeira e Cruz Alta, obra de difícil conclusão, dadas as dificuldades da época, sofreu ainda um revés inesperado. Contratado o serviço com João Antonio de Barcellos, eis que este foi vítima de "um pau que caiu em cima dele", ou seja, na tarefa de abrir a mata, uma árvore, ou galho dela, acidentalmente caiu sobre ele, matando-o. Diante do contrato assinado e certamente vendo-se na obrigação e necessidade de cumprir o acordado, a viúva de João Antonio, Castorina Ignacia Soares de Barcellos, tomou para si a condução dos trabalhos, levando-os a termo em março de 1854.

Tendo se concluido a óbra da abertura da picada da Serra arrematada pello finado meu marido João Antonio de Barcellos, pr. isso q. communico a V.V.S.S. para servirem=se dispor a commissão q. comforme o contrato devem verificar as condiçõens do mesmo e julgar a óbra finda.
Deos Ge. a V.V.S.S. Cachoeira 28 de Março de 1854.

Illmos. Snres. Prezidente e Veriadores da Camara Municipal desta Villa.

Castorina Ignc.ª Soares de Barc.ºs


Em 31 de março de 1854, a Câmara nomeou os integrantes da Comissão solicitada por Castorina Ignacia Soares de Barcellos:

Illmo.= Senr." = Tendo D. Castorina Ignacia Soares de Barcellos, Viuva do finado João Antonio de Barcellos, participado a esta Camara Municipal, pr. seu officio de 28 do corrente, achar-se concluida a obra da abertura da picada nova que desta Villa segue p.ª cima da Serra, cuja foi arrematada pr. seu finado marido, e tendo esta Camara de nomear húa Commissão para fazer o exame da m.ma; em Sessão de hoje nomeou a V.S.ª e ao Senr." Veriador Joaquim Ignc.º de Araujo, p.ª de acôrdo não só fazerem o dito exame para se fôrão ou não cumpridas todas as condicções da contracta [sic], que se lhes envia por copia, como em observação da condicção decima da m.ma contracta, como louvados por parte desta Camara, com as duas pessoas nomeadas pr. parte do imprezario, procederem a medição da estenção da dita picada; servindo-se de tudo darem a esta Camara circunstanciada informação, para serem cumpridas as condicções decima-primeira, e seguinte da dita contracta = Deos Guarde a VS.ª. Paço da Camara Municipal da Villa da Caxr.ª 31 de Março de 1854 = Illmo. Senr." Polycarpo Pereira da Silva, Veriador desta Camara = Antonio Vicente da Fontr.ª, Veriador presidente = o Secretario, Fabiãno Per.ª da Silva -


Cópia do ofício encaminhado ao vereador Polycarpo Pereira da Silva - 31/3/1854
- CM/S/SE/RE-002, fl. 122

O vereador Polycarpo Pereira da Silva, ao receber o ofício da Câmara encarregando-o de realizar a vistoria da obra, imediatamente respondeu ao presidente Antônio Vicente da Fontoura que estava impedido de integrar a Comissão por razões de saúde:

Illmos.

Acuso a recepsão d'officio de Vªs S.ªs dalado [sic] de 31 de Março pp, e em resposta cumpre me dizer a V.ª Sªs, q. não me permetindo o meu estado de saude fazer viagens longas a cavallo, vou rogar lhes me dispensem da com.são pa q. foi nomeado e de q. trata o mesmo officio: avista pois ao q. alego, devolvo a V.ªs Sªs o dito officio e copia da contracta. Ds. Ga. a VSªs Rincão da Serraria 2 de Abril 1854

Illmo Vr Prezidente e Vereadores
Camara Municipal da Vª da Caxrª.


Polycarpo Perª Sª

Carta de Polycarpo Pereira da Silva - 2/4/1854
- CM/CP/Ofícios/Caixa 9
A Camara, por sua vez, no mesmo dia que oficiou ao vereador Polycarpo também o fez à viúva Castorina:

Illm.ª Senr.ª = Tendo esta Camara Municipal em Sessão de hoje tomado conhecimento do officio de V.S.ª datado de 28 do corrente mez, em que participa achar-se concluida a obra da abertura da picada nova, arrematada pelo finado marido de V.S.ª, p.ª o fim desta Camara dispor a Comissão que a m.ma deve examinar: Tem de significar-lhe que nesta mesma Sessão nomeou ao Senres. Veriadores Polÿcarpo Pereira da Silva, e Joaquim Ignc.º de Araujo, para fazerem o dito exame a vista das condicções da contracta, e conforme a condicção decima se louva esta Camara nos mesmos Senres. Veriadores, p.ª com as pessoas nomeadas pr. V.S.ª procederem á medição da estenção da dita picada. = Deos Guarde a V.S.ª; Paço da Camara Municipal da Villa da Caxr.ª 31 de Mço. de 1854. = Illm.ª Senr.ª D. Castorina Ignacia Soares de Barcellos = Antonio Vicente da Fontoura, Veriador Presidte. = Secretario, Fabiãno Per.ª da Silva. -

Diante das justificativas de Polycarpo Pereira da Silva de falta de saúde para empreender a missão (aliás bastante sacrificante percorrer a cavalo léguas e léguas...), a Câmara já em sua sessão de 3 de abril encaminhou ofício ao Capitão Joaquim Antonio da Cunha para substituir o vereador impossibilitado:


Cópia do ofício da Câmara direcionando a tarefa recusada por Polycarpo P. da Silva
para o Cap. Joaquim Antonio da Cunha - 3/4/1854 - CM/S/SE/RE-002, fl. 123


(...) escuzando-se de fazer parte de tal commissão, pr. lhe não permitir seu mau estado de saude, como fez vêr pr. seu officio datado de hontem. E pr. não haver mais delongas em sem.e exame que póde occazionar perjuizo ao imprezario; de ordem da mesma Camara nomeio e convido a V.S.ª p.ª de acordo com o Membro nomeado, o Cidadão Joaquim Ignacio de Araujo, procederem ao exame precizo na dita obra (...) Deos Guarde a VS.ª. Villa da Cachoeira 3 de Abril de 1854 = Illmo. Senr." Cap.m Joaquim Antonio da Cunha. = Antonio Vicente da Fontoura, Veriador Presidente. = O Secretario, Fabiãno Per.ª da Silva.

Do dito Polycarpo Pereira da Silva não há informação suficiente para compor uma biografia. É provável que seja irmão do Dr. José Pereira da Silva Goulart, a julgar pela caligrafia e assinatura constantes de uma carta enviada ao médico "Mano e Amº", em 3 de abril de 1840, obtida da coleção particular da Família Vieira da Cunha:



Quanto ao empreiteiro da obra da picada que ia da Vila da Cachoeira para cima da serra, João Antonio de Barcellos, filho de Vicente José de Barcellos e Anna Felicia da Conceição, havia sido vereador (1845-1848) e suplente do delegado de polícia da Vila em 1848. O atestado de óbito, ocorrido em 31 de março de 1853, registra: "morto por um pau que caiu em cima dele". A sua esposa, Castorina Ignacia, mulher de fibra, concluiu o trabalho do marido três dias antes de completar-se um ano da sua morte! Eis uma página incrível e digna da nossa história, embora João Antonio seja nome de rua e Castorina uma personagem perdida nas brumas do tempo...

(MR)

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Bar América - plantas no acervo do Arquivo Histórico

A notícia de obras de recuperação e melhoria do Bar América para nele ser instalada a futura Secretaria Municipal da Cultura faz renascer a esperança de ver aquela parte nobre da Praça José Bonifácio revitalizada e, ao mesmo tempo, viabilizar espaço e melhores condições à valiosíssima área cultural do município.  A história do Bar América remonta ao ano de 1943, quando a imprensa noticiou que a Prefeitura Municipal pretendia construir um quiosque-bar na Praça José Bonifácio. Assim noticiou o jornal O Comércio , de 17 de março daquele ano: A Praça José Bonifácio será dotada de um quiosque-bar Faz parte do programa de reforma da cidade, desde o calçamento das principais ruas, a construção de um quiosque-bar na Praça José Bonifácio. De tempos em tempos, o nosso Governo Municipal faz publicar editais de concurrencia publica para a construção e exploração de um bar naquele local, mas estes não apareciam. Agora, foi posta em fóco novamente a questão e apresentou-se um único candidato, que en

Inauguração das Casas Pernambucanas

A notícia veiculada na imprensa de que em breve as Casas Pernambucanas voltarão a abrir as portas em Cachoeira do Sul despertou a curiosidade e o interesse de buscar informações sobre a instalação da primeira filial dessa popular casa comercial na cidade. Vem do Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico a resposta. O Commercio , 24/6/1931, p. 1 Folheando as páginas dos jornais O Commercio  e Jornal do Povo  da década de 1930 e partindo da notícia da inauguração da segunda loja das Casas Pernambucanas em Cachoeira, ocorrida em setembro de 1936, uma rápida volta no tempo levou ao dia 8 de julho de 1931: O Commercio, 8/7/1931, p. 1 Casas Pernambucanas. - Com a presença de exmas. sras., senhoritas e cavalheiros, representantes das autoridades do municipio e da imprensa local, foi inaugurada, ás 10 horas da manhã de quarta-feira ultima, no predio da rua Julio de Castilhos n.º 159, a Filial das Casas Pernambucanas, cuja gerencia está a cargo do sr. José Aquino, muito conhecido e relacionado ne

A Ponte do Passo Geral do Jacuí

O Passo Geral do Jacuí, localizado a 30 km da cidade de Cachoeira do Sul, pela estrada de rodagem e, cerca de 40 km pelo leito do rio Jacuí, foi um dos caminhos de ligação entre Rio Pardo e a Região da Fronteira Oeste e Planalto, em tempos de paz e de Guerra Farroupilha. Terminada a Revolução Farroupilha, com a pacificação de Ponche Verde, a Província, governada por Caxias, volta-se para as obras e a prosperidade do Rio Grande do Sul. Em 8 de abril de 1846, por decreto, é apresentado o projeto para esse desenvolvimento e nele incluída a construção de uma ponte sobre o Passo Geral do Jacuí. Uma obra necessária e vital para agilizar a ligação entre os principais núcleos urbanos, servidos pelo rio Jacuí e a comercialização dos produtos e riquezas entre regiões Leste e Oeste da Província. Sua construção foi contratada pelo empreiteiro Ferminiano Pereira Soares, em 1848, pela quantia de 250 contos de réis, paga em seis prestações e num prazo contratual de cinco anos. (Ferminiano co