sexta-feira, 30 de junho de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Onde está Roldão?

A documentação resguardada pelo Arquivo Histórico guarda um cabedal imenso de informações de toda ordem, oferecendo um universo de possibilidades para conhecimento da vida da cidade em diferentes períodos históricos. Mas engana-se quem pensa que a natureza da documentação seja apenas de caráter administrativo. É certo que esta tipologia é dominante, mas existem muitos outros gêneros, alguns deles constituindo-se em veículos que permitem um mundo de divagações.

Então, não só de assuntos administrativos, contábeis e de ordem legal tratavam os intendentes (administradores municipais ao tempo da Intendência - 1892 a 1930). Caíam sobre a sua mesa todo tipo de solicitação, como a carta de uma saudosa esposa atrás de informações do marido:

Carta da esposa de Roldão - IM/S/SE/CR-Caixa 3
- Acervo documental Arquivo Histórico

Ill.mo S-nr
                    Intendente 30 Setembro 1926
Pesso por favor para o S-r me mandar noticias de meo marido João Roldão que é joque ahi em cachoeira ou tratador de ums cavallos pello o que o meu marido me dice elle está parando distante de cachoeira umas duas leguas que vem a ser numa leitaria que fornece o leite para o café carioca.
O endereso que o meo marido me deo para eu lhe escrever foi Cafe carioca Cachoeira que ia parar em suas mão escrevi duas uma com este em dereso e otra para ser emtregue ao dono do café carioca para fazer o favor de emtregar para João Roldão não tive resposta e fazem dois mezes dia trez que não tenho noticias. Os boato que chegam a meos ovidos aqui não me agradam pesso emcarecidamente me fazer este favor de me mandar noticias de meo marido seje coal for a noticia deus de já lhe agradeso de sua Cria (criada) Obra (obrigada)

                                                  (assina)  Olinda Marcos Roldão

O meo endereso é Rua S.ª Lucy nº 12 
Porto Alegre

A carta informa que João Roldão era jóquei em Cachoeira. De fato as atividades do turfe estavam a pleno naqueles anos 1920. A primeira entidade do gênero, o Jockey Club Cachoeirense, havia sido inaugurado em 1904, no atual Bairro Santo Antônio. Em 22 de outubro de 1922, foi inaugurado o segundo Jockey Club, já em terras onde até hoje se encontram as pistas de corrida, local conhecido como Prado.

Prado do Amorim - Fototeca Museu Municipal

A outra informação trazida por Olinda é que a leitaria onde João Roldão poderia estar "parando" fornecia leite para o Café Carioca, inaugurado em 23 de abril de 1921. Propriedade de Heitor Gomes Martins, o café estava localizado defronte à Avenida das Paineiras (atual Rua Sete de Setembro) em amplo salão de três portas, calçado de mosaico e mobiliado a capricho. Este dado do leite fornecido ao Café Carioca permite o estabelecimento de um elo importante e que dá fundamento à informação da esposa de Roldão: Heitor Gomes Martins, proprietário do Café Carioca, foi também o primeiro presidente do segundo Jockey Club, inaugurado em 1922!

Bar A Carioca - foto de Benjamin Camozato - Grande Álbum de Cachoeira - 1922

Voltemos à carta sobre a mesa de João Neves da Fontoura, o intendente da época. Que resposta ele pôde dar à mulher? O que havia acontecido a João Roldão? Ele teria sido atraído para Cachoeira em razão das atividades turfísticas que aqui se desenvolviam com força na década de 1920? A profissão de jóquei certamente não garantia o seu sustento e assim João Roldão se viu obrigado a tratar de cavalos e se abrigar em uma leitaria, talvez indicado pelo proprietário do café, casualmente o primeiro presidente do segundo Jockey? Que boatos desagradáveis haviam chegado até sua esposa? Estas indagações que vêm com força do passado não trouxeram com elas as respostas. 

E hoje, habitantes do futuro da Olinda Marcos Roldão, seguimos partilhando ainda da sua angústia. Afinal, onde estaria Roldão?

MR
sexta-feira, 23 de junho de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Matadouros e açougues

Nestes tempos em que o mercado de carnes tem sido alvo de discussões em razão das medidas sanitárias cobradas para o setor, fica-se a pensar que agora as exigências são maiores. Certamente, pelo avanço científico, muitas práticas aceitas no passado hoje são condenadas e as adequações são sempre necessárias para garantir a qualidade dos produtos e a seriedade dos que os ofertam aos consumidores. 

As Posturas Municipais adotadas em 20 de fevereiro de 1895, durante a administração do intendente David Soares de Barcellos, em seu capítulo XV, que trata de matadouros e açougues, dizem o seguinte:

Art. 131 - Os matadouros particulares serão situados nos lugares que a Intendencia designar; a carne sera conduzida com a necessaria limpeza para o acougue em que tem de ser talhada, e todo serviço sujeito á immediata inspeção dos agentes, os quaes communicarão a Intendencia qualquer irregularidade prejudicial a salubridade publica, afim de ser o marchante punido com a pena de 30$000 rs de multa senão attender á correcção exigida.
Art. 132 - Ninguem poderá estabelecer acougue sem previa licença da municipalidade. Pena 20$000 de multa. 
Art. 133 - Os acougues e seus utensis serão conservados com a necessaria limpeza que será feita diariamente depois de concluir o talho da carne. Pena de 10$000 de multa.
Art. 134 - E' prohibido conservar em acougues carne, couros, entranhas e cabeças de rez desde que comece a se decompor a exhalar mau cheiro. Pena 10$000 rs de multa.
Art. 135 - E' prohibido cortar ou talhar rez cansada ou doente desde que sua magreza indique o seu estado morboso. O contraventor incorrerá na multa de 30$000 rs, e a perda da carne que ja tiver vendido recebendo esta para ser igualmente inutilisada. 
Art. 136 - Os ossos das rezes que se talharem nos acougues serão serrados com serrote, e não picados a machado e a carne partida com instrumento cortante bem afiado. Pena de 5$000 de multa ao contraventor. 
Art. 137 - Toda carne vendida será pesada a vista do comprador em balanças e pesos aferidos. O contraventor incorrerá na multa de 10$000. Se dér, porém, carne de menos, ou tiver pesos ou balanças destinadas para o furto ao comprador, além de outras penas em que incorra, e da obrigação de indemnisar pagará 30$000 rs de multa.
Art. 138 - Os acougueiros são obrigados a vender pelo preço corrente, a quem quizer comprar carne e pagar a vista. Pena de 10$000 de multa.
Art. 139 - Quem abrir acougue para talhar carne de porco de ovelha ou de cabra fica sujeito a todas as condições contidas neste capitulo.

Livro IM/GI/DA/ADLR-001 - Código de Posturas 1895
- Acervo documental Arquivo Histórico

 Passa o tempo, mudam as regras. O que não muda - ou não deveria mudar - é a preocupação com a saúde pública e com o disciplinamento da oferta de bens e serviços, o que gera segurança para todos, sejam eles comerciantes ou consumidores.


(MR)
sexta-feira, 16 de junho de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Corpo de Deus

A comunidade católica realiza a festa religiosa de Corpus Christi (Corpo de Cristo, em latim) para celebrar o mistério da eucaristia e como a hóstia representa o corpo e o sangue de Cristo.

A festa é marcada no calendário 60 dias depois do Domingo de Páscoa, ou na quinta-feira seguinte ao domingo que celebra a Santíssima Trindade, aludindo à Quinta-feira Santa, quando Jesus instituiu o sacramento da eucaristia.

As cidades de tradição portuguesa, como é o caso de Cachoeira, costumam marcar o dia de Corpus Christi confeccionando tapetes em lugares públicos por onde costumam passar os fiéis na procissão religiosa. 

Há 100 anos, a imprensa, através do jornal O Commercio, não falava em tapetes pelas ruas, mas ressaltava a beleza e bom gosto de ornamentação nos quatro altares erguidos pelo trajeto. Notava-se, também, o grande envolvimento das entidades e associações religiosas, bem como das autoridades municipais. 

Notícia publicada n'O Commercio
- Coleção de Imprensa do Arquivo Histórico

Procissão do Corpo de Deus

Foi imponente a procissão do Corpo de Deus, realizada nesta cidade, domingo ultimo, apezar do vento molesto que com impetuosidade fez levantar grande quantidade de pó pelas ruas.
Acabada a missa das 9 1/2 horas, o revmo. padre Luiz Scortegagna fez breve allocução sobre a alta importancia dessa procissão, appellando para os exemplos de fé que deram varões illustres na historia, como São Luiz, Rei de França, Thomaz Moro, chanceller da Inglaterra, etc.
A procissão obedeceu á ordem indicada; iam á frente os Irmãos da Irmandade de N. S. do Rosario, os collegios publicos e particulares, seguindo-se as diversas associações religiosas, Apostolado da Oração, Congregação Mariana, a Irmandade Conjuncta com as respectivas insignias e o Pallio, sob o qual ia o S. S. Sacramento. As varas do Pallio eram empunhadas pelos srs. dr. Quintiliano de Mello e Silva, capitão Francisco Fontoura Nogueira da Gama, coronel Horacio Gonçalves Borges, capitão Sebastião da Silva Barros, dr. Aurelio Castello Branco e capitão Rodolpho Motta, coadjuvados por outros cavalheiros.
Symbolos bem expressivos eram levados por gentis meninas de vestidos brancos, outras representavam anjos. Os 4 altares improvisados em differentes pontos do trajeto, rivalisavam em belleza e bom gosto de ornamentação. Em cada altar foi dada a benção solemne do S. S. Sacramento, assistindo todos os fieis com a maior devoção, de joelhos, como deve ser.
Antes de dar a ultima benção no altar improvisado á porta da igreja matriz, o vigario da parochia, não podendo deixar de externar sua commoção pela viva demonstração de fé, felicitou ás autoridades, aos collegios, ás corporações religiosas e civis e ao povo em geral, implorando de Jesus, presente na Sagrada Hostia, paz e felicidade sobre todos, sobre o municipio de Cachoeira, sobre todo o Estado e sobre todo o nosso paiz.
O côro do Apostolado, com os seus melodiosos canticos apropriados em louvor do S. S. Sacramento, concorreu muito para a imponencia da procissão, a par da Banda Estrella Cachoeirense, que, apresentando-se de uniforme novo, fez ouvir selectas peças de seu vasto repertorio.
A Irmandade Conjuncta foi incançavel na ornamentação das ruas, levantando arcos etc.; por isso o vigario da parochia dirigiu á mesa administrativa da mesma Irmandade um officio de agradecimento e de louvor, para ser lido na primeira sessão e transcripto no livro competente. 

(Jornal O Commercio, Cachoeira, edição de 13 de junho de 1917, p. 2, Coleção de Imprensa do Arquivo Histórico).

Autoridades municipais presentes à procissão de Corpus Christi
- Fototeca Museu Municipal

Nos dias de hoje, ainda que a grandiosidade da festa de Corpus Christi não se reproduza, ganha força a cada ano a tradição dos tapetes, superando-se os artífices em expressar com delicadeza, arte e beleza a sua fé.

(MR)
segunda-feira, 5 de junho de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Do tempo dos lampiões

Há muito tempo atrás, quando a luz elétrica ainda não havia chegado por aqui, os recursos para iluminação das casas e ruas eram as lamparinas e lampiões. Nas ruas principais da cidade, havia maior profusão de lampiões, rareando os focos de luz conforme os caminhos conduziam para os arrabaldes.

Registros fotográficos dos últimos lampiões - fototeca Museu Municipal

Em 1911, um recibo do tesoureiro da Intendência da Cachoeira atesta que havia sido gasta a quantia de quinze mil e quinhentos réis com o trabalho de acendimento dos nove lampiões da avenida na Praça José Bonifácio, no período dos 31 dias do mês de julho, ao custo de 500 réis por noite. O acendedor, que se chamava João José Rodrigues, era também o jardineiro da Intendência. Provavelmente, para engrossar os rendimentos de jardineiro, João José se desdobrava trabalhando também à noite no acendimento dos lampiões...

Recibo de pagamento do acendedor de lampiões
- IM/RP/SF/D-102
Aliás, os lampiões desapareceram no tempo, substituídos pela energia elétrica, mas algumas das árvores plantadas nas praças de Cachoeira, especialmente na Praça José Bonifácio, pelo jardineiro João José, ainda se mantêm, testemunhando trabalho praticamente anônimo.

Praça José Bonifácio provavelmente ajardinada por João José Rodrigues
- fototeca Museu Municipal

Em agosto de 1911, outra despesa relativa ao serviço de iluminação tem o comprovante preservado na documentação histórica, desta vez no montante de 270 mil réis e relativa ao custeio de cem lampeões da illuminação publica desta cidade, quantia paga a João Henrique de Carvalho. Em 31 de outubro, a despesa de 302.400 réis já dava um total de 112 lampiões.

Como se vê, os gastos com a manutenção dos lampiões se ampliava conforme o crescimento de seu número, pois a cidade em expansão necessitava também promover o alcance da iluminação pelos novos rumos que se abriam.

O trabalho de acendimento - e de extinção das chamas dos lampiões - exigia a contratação constante de mão de obra, pois uma única pessoa não tinha condições de dar conta sozinha da exaustiva e, aos olhares de hoje, tão obsoleta tarefa.

EM TEMPO: Nosso atento leitor, colaborador e pesquisador dos acervos de documentos e imprensa do Arquivo Histórico, Hilberto Prochnow, fez importante observação sobre a postagem Do tempo dos lampiões, que registramos aqui. Intervenções como esta são importantíssimas para acrescentar e retificar informações, indo ao encontro do compromisso do Arquivo Histórico em difundir a história de Cachoeira com isenção, comprometimento e fidedignidade.

Hilberto Prochnow chama a atenção que o recibo assinado pelo jardineiro João José Rodrigues na verdade foi feito a rogo de Luiz Affonso, este sim o acendedor de lampiões. Provavelmente analfabeto, Luiz Affonso, na companhia do amigo jardineiro, dirigia-se ao tesoureiro da Intendência para o recebimento da soma que lhe era devida, para o que João José dava o recibo.

Para enriquecer ainda mais as observações feitas, o colaborador Hilberto Prochnow informa que João José Rodrigues, o jardineiro da Intendência, era português, nascido em 15 de janeiro de 1850 e falecido aos 88 anos, em 30 de março de 1938.

Muito obrigada, Hilberto! A postagem segue na íntegra para que os leitores possam perceber as observações feitas.

(MR)