sexta-feira, 30 de janeiro de 2015 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Conceição X Paineiras?

O Arquivo Histórico dispõe de uma seção de imprensa, responsável pela organização, manutenção e disponibilização das coleções de jornais cachoeirenses a todos os interessados, sejam eles pesquisadores, estudiosos ou apenas curiosos.
Uma das coleções de jornais que integra esta seção, e que é fonte rica de subsídios para entendimento de como a cidade se comportava no início do século XX, é a coleção do jornal Rio Grande, que circulou entre os anos de 1905 e 1914. Pois no volume do ano de 1911, publicação do dia 22 de janeiro, à página 2, há uma interessante crônica, assinada pela abreviatura E. C., em que a Praça da Conceição, atual Balthazar de Bem, como se vida tivesse, dá mostras de ciúmes do movimento das Paineiras, em alusão ao deslocamento da população para a Avenida das Paineiras, atual Rua 7 de Setembro, e, por conseguinte, para a outra praça, a José Bonifácio...
Eis a crônica Conceição - Avenida:


Recanto da Praça da Conceição, fronteiro ao Teatro Municipal
- fototeca Museu Municipal
Era na Praça da Conceição.
A lua estava, neste momento, em todo o seu esplendor.
Uma brisa calma e monótona, deslizava mansamente, acompanhada de perfumes inebriantes dos jardins e dos pomares.
Ao longe, muito longe, o quedar das águas duma cachoeira quebrava o silêncio da enluarada noite, enquanto nos ares encruzavam-se aves noturnas, que eram de quando em vez ausentadas com a presença de alguma ou outra pessoa descrente que, desprezando a onde torcicolosa da alegria, do prazer na encantadora Avenida das Paineiras, procurava ali lenitivo para uma ilusão perdida!...
Enquanto a brisa corria silenciosa, enquanto as águas quedavam-se nas cachoeiras, mergulhando em seu seio os raios de prata da majestosa lua, enquanto na risonha Avenida o vai-vem encantador do belo sexo, entre sorrisos e inocentes expansões de alegria envolto em perfumes se deslizava, - ali, velho jardim abandonado, que outrora tantos sorrisos encerrou, foi se ouvindo pouco a pouco um lamento, entrecortado de vez em quando com ais prolongadas que, ouvindo-se, talvez nenhum ente humano pudesse conter as lágrimas.
Era uma voz pungente que, entre soluços, do centro do Jardim, assim se ouvia, cheia de descrença e esperanças:
- Pobre de mim, Jardim abandonado que tantos sorrios encerrei, numa onda de prazer, entre esperanças frívolas, entre a paz e o amor. Das crianças era o postre* da felicidade, nos inocentes folguedos; do belo sexo fui o esconderijo de seus amores, onde em apaixonados colóquios detinha-o até alta noite; dos velhos fui outrora o doce refúgio, nestas tardes amenas, nestas noites de primavera e verão que, revendo o espelho do passado, ali permaneciam horas inteiras, entre o evoluir da criançada folgazã, entre os prazeres descuidosos da mocidade.
Como era belo, nas tardes de domingos, entre o contentamento que brincava nos lábios de todos, entre a exibição de finíssimos toiletes do belo sexo; ouvir, outrora, as notas uníssonas da clássica banda de música do maestro Trindade!...
E não era só.
O saudoso Clube Caixeiral também deu-me muita honra.
No meu seio foi, então, erguido expressivo coreto cheio de flores, engalanado com o esplendor d'uma mocidade sadia e vigorosa que, entre elevados prazeres, deu-me a suprema honra de, por muitas vezes, ouvir os acordes sonorosos daquela saudosa banda de música cheia de esperanças, de risos e flores.
No entanto, depois de tantos sorrisos encerrar, de tantas glórias e honras obter, eis que uma linha de feias Paineiras, num relâmpago de tempo, se apressa a roubar-me a primazia, as glórias, os sorrisos, glórias e honras essas adquiridas no tirocínio bem largo, de muitos longos anos!...
É triste. Umas colunas de árvores, favorecidas pelos sopapos do progresso, plantadas a esmo, tira-me agora o que eu levei tanto tempo a adquirir.
Não mais aquelas fagueiras tardes, aquelas risonhas noites, cheia de esperanças frívolas, cheia de encantos da mocidade!
Tudo agora em mim é deserto, é tétrico, é insípido, só acalento em meu seio velhas descrentes do mundo e viúvas sem esperanças e ilusões!
No entanto, naquele improvisado bosque de "Paineiras", encerra-se hoje "le mond smart Cachoeirense", regorgita num chique indefinível, num toilete gracioso e encantador, toda a onda feminil de minha terra.
Que quer se hoje tudo está mudado: esquece-se as honras de alguns anos pela novidade de um dia!...
Tudo é pelo modernismo.
Restar-me-á, agora, somente as glórias do Passado.
Viverei desse passado glorioso, dessas aventuras que se foram caminho da eternidade.
Consolar-me-ei com o meu bom irmão aqui do lado que nunca teve a sorte de ser frequentado, nem a honra de um banco que pudesse acolher um vagabundo, ou um descrente do mundo. Sempre se conservou fechado, não tendo o prazer de ser pisado por graciosos e pequeninos pés do belo sexo – nasceu, mas não viveu.
Aqui serei o refúgio dos descrentes, dos velhos, celibatários e ali, no meu irmão natimorto, o necrotério de meus antepassados, o esquife de minhas ilusões.
Tudo me despreza, foge-me o belo sexo e talvez não mais na próxima primavera o lindo sabiá mimoso que há bem pouco ainda, com o seu poético cântico, me enchia de prazer e alegria, me honre com sua presença.
Até um quiosque** pequenino lembraram-se de roubar-me paras as "Linhas de Paineiras".
E assim, tirando-me tudo, acabarão por tirar-me a própria vida.
Eu que previa o futuro risonho, que preparava-me para receber a luz elétrica, pensando melhorar de situação...
Será tudo ao contrário.
A "Avenida" inundará de luz o belo sexo entre os requintes da moda, entre o progresso que domina os povos civilizados, ali afluirá, por certo, repleto de encanto e formosura, trescalando perfumes místicos entre os acordes sonorosos da arte de Mozart.
E o pobre jardim, que era o refúgio da mocidade, albergando velhos desiludidos do mundo terá que, falado da ignota inveja, de se conformar com a sorte, até que um dia, definhando tudo, transponha para sempre os umbrais da eternidade!
Ele viverá, agora, do presente e eu unicamente do passado, feliz que outrora fui, sem jamais pensar no triste abandono de hoje.
*
**
Terminara-se, lentamente, estes queixumes, enquanto a brisa beijando as folhas do arvoredo passava descuidosa e a poética lua, expargindo seus raios de prata, adornava o infinito espaço.
E, ao longe, na "Avenida", a onda "smart" do feminismo nos galanteios da moda, aprimoradamente vestida, com finíssimos e modernos chapéus à cabeça, extravasava de encantos, de perfumes místicos, de prazeres infindos, uma cidade que trabalha para a conquista do progresso!...
E. C.

Não é um privilégio poder folhear estas pérolas da nossa imprensa pretérita?

* postre: sobremesa
** O quiosque da Praça José Bonifácio, uma das atrações nas proximidades do Mercado Público, na verdade foi transferido da Praça da Conceição, hoje Balthazar de Bem, onde havia sido colocado em 1906.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Casa da Aldeia: uma lenda urbana

Uma expressão que se tornou comum em nossos dias é a da "lenda urbana", ou seja, algo que costuma ser afirmado pelas pessoas como se verdade fosse, no entanto, paira sobre esta verdade um quê de interrogação! 

Pois a afirmação inverídica de que a Casa da Aldeia é a mais antiga da cidade é, pode-se dizer, uma "lenda urbana".

Longe de ser a construção mais antiga da cidade, posto ocupado pela Catedral Nossa Senhora da Conceição (1799), a Casa da Aldeia, que foi erguida pelo português Manoel Francisco Cardozo, marido da índia guarani Joaquina Maria de São José, é mais recente do que se supunha.

Até pouco tempo, a época tida como da construção da casa era dada a partir do requerimento, datado de 18 de abril de 1849, em que Manoel Francisco Cardozo:

querendo elle Suppl. Edeficar umas Cazas no lugar da Aldeia ecomo Alli seaxe huns terrenos devolutos na Rua de S. Carlos que faz frente ao Norte efundos ao Sul fazendo canto ao este com a rua principal cujo nome Ignora eao Leste com a Caza da China Maria da Assumpção ecomo o Suppl. já tenha as Madeiras e Telhas prontas e parte das Madeiras no lugar Requerido ecomo não possa levantar as ditas Cazas por isso o Suppl. atenciózamente requer a V.S.ªs leconcedão osditos terrenos afim do Suppl. p. levantar asuas Cazas de cuja Graça Espera. Cachoeira 18 de Abril de 1849. R. Mce. (assina) Manoel Francisco Cardozo.


Requerimento e despachos - CM/OF/Requerimentos - Caixa 8
Os despachos da Câmara, dados no lado esquerdo do requerimento acima transcrito, com datas de 29 de abril e 19 de maio do mesmo ano de 1849, assinados pelo Vereador Presidente da Câmara, são do seguinte teor:

Verso do requerimento de Manoel Francisco Cardozo

Informo a VV.SS.ªs que o terreno de que tracta o requerimento e despacho retro, se acha de vuluto, assim como ja se acha no mesmo terreno algumas madeiras para edeficar. He o quanto posso informar a VV.SS.ªs. que mandarão oque forem devido. Cachoeira 29 de Abril de 1849. O Fiscal (assina) Joaquim Ignacio de Araujo. Leal Ver.ºr Preside.

Visto achar-se com metriais no terreno que siacha devo luto, a Camara concede licença p.ª edificar, devendo requerer o competente Titulo na Presidencia da Provincia. Sala das Secções da Camara Municipal da V.ª da Caxoeira 19 de Maio de 1849 - Leal Ver.ºr Preside.

Como se depreende pelo documento, Manoel Francisco Cardozo foi autorizado a edificar a casa no terreno requerido. A partir desta fonte, o ano de 1849 sempre foi tido como o ano da construção da Casa da Aldeia. No entanto, outro requerimento, com data de 13 de janeiro de 1860, ou seja, 11 anos depois do primeiro pedido de Manoel Francisco Cardozo, lança novas luzes sobre a época da construção daquele patrimônio histórico:

Diz Manoel Franc.º Cardozo que pello documento junto mostra ter tido concessão desta Camara para edificar no terreno constante do mesmo documento, o qual hé situado na Aldeia desta Villa; e como o suplicante o queira possuir com legitimo titulo, epor isso vem requerer a VV.S.ªs a concessão do mesmo terreno por aforamento perpetuo. (assina) Manoel Francisco Cardozo.

Novo requerimento de Manoel Francisco Cardozo
- CM/OF/Requerimentos - Caixa 8
A Câmara indeferiu o pedido do português:

Indeferido, visto que esta Camara consede terrenos a quem quer idificar enão a quem os quer possuir com ligitimo titulo por ostentação; pois q o Supl. desde 1849 que tem estado com licença p.ª edeficar no mmo. terreno, e athé hoje o não tem feito. Paço da Camara Mal. da Cachoeira 13 de Jan.º 1860 (assina) Trindade - Vor. Presidte.

No verso do documento, porém, há duas novas declarações: do Vereador Presidente, Miguel Candido da Trindade, datado de 14 de janeiro de 1860, que diz já se achar edificado o terreno, dando portanto deferimento ao pedido de Manoel Francisco Cardozo, e outro, assinado pelo suplicante, certificando estar edificada a Casa da Aldeia:

Com o divido respeito o suplicante vem perante a V.ªs S.ªs declarar que oterreno que requer já esta ideficado, em virtude da licença desta Cámara constante docomento junto; por isso o suplicante requer a V.ªs S.ªs o titulo de Concessão do mesmo Terreno afim de pusuilo com ligitimo titulo; no que E.R.I. (assina) Manoel Francisco Cardozo.



A lenda urbana sobre ser a Casa da Aldeia a casa mais antiga de Cachoeira não encontra, portanto, sustentação histórica, embora não haja esclarecimento sobre o ano exato em que foi construída, entre o período 1849-1860. O que deve ser divulgado e valorizado no que resta de sua estrutura é o fato de ser ela remanescente de uma época em que a Aldeia era composta ainda pelo elemento étnico formador, o índio, retratando em suas construções já a influência do elemento colonizador, o português. Some-se a estas características a subjetiva relação de Manoel Francisco Cardozo, o português, com a índia Guarani Joaquina Maria. E a reforçar tudo isto, relembremos o historiador Fritz Strohschoen, que reportava como grande qualificativo da Casa da Aldeia o fato de ser a primeira casa particular com pedido formal de construção.