Pular para o conteúdo principal

Preservação de inscrições em monumentos

Para quem pensa que preservação de patrimônio é assunto novo, ou pelo menos tema de discussões contemporâneas, mesmo quando se fala em Brasil o assunto é bastante antigo!

A primeira referência documental vem ainda do tempo do Império e surgiu por determinação de D. Pedro II, homem dotado de pensamento vanguardista e vasta cultura. A ordem do Imperador foi dada em 1855, gerando circular do governo da Província que determinava às Câmaras Municipais que providenciassem (...) se lhe envie copias das inscripções que possa haver neste Municipio, extampados nos monumentos publicos, e as inscripções sepulchraes das Igrejas

Provincia de S. Pedro do Rio Grande do Sul. Pal.º da Presidencia em Porto Alegre 13 de Fevereiro de 1856.

Circular N.º 4

Determinando S. M. O Imperador, por Aviso expedido pelo Ministerio do Imperio em 18 de Dezembro do anno passado, que esta Presidencia trate de obter e remetter á Bibliothéca Nacional as inscripções, que são estampadas nos monumentos publicos de todo o Imperio, comprehendendo-se as inscripções sepulchraes das Igrejas, devendo ser acompanhados de indicações relativas aos lugares, e aos mesmos monumentos e de noticias que lhes sejão concernentes, e possão interessar, havendo o maior cuidado e escrupulo, para que taes transcripções sejão feitas com a mais perfeita exactidão no idioma em que se acharem, conservando-se os seus proprios caracteres, embora desconhecidos; convém que VmCes. informem se nesse Municipio existem tais inscripções, e nesse caso mandem copias dellas, e com as explicações recommendadas: cumprindo mais que VmCes. dêm as providencias, que julgarem necessarias, á fim de que, quando se houver de reparar taes monumentos, haja todo o cuidado para que se não apaguem as inscripções que tiverem.
Deos Guarde a VmCes.

Barão de Muritiba


Cópia da circular n.º 4, 13/2/1856
A Câmara da Cachoeira deu a seguinte resposta à circular em 13 de maio de 1856:

Illmo. e Exm.º Senr." = A Camara Municipal da Villa da Cachoeira, em cumprimento as ordens d'essa Presidencia, expedidas pelo antecessor de V.Ex.ª, em Circular n.º 4 de 13 de Fever.º do corre. anno, em que ordena se lhe envie com toda a exactidão, copias das inscripções que são extampadas nos monumentos publicos, comprehendendo as inscrições sepulchraes das Igrejas; tem a honra de declarar a V.Ex.ª que não existe em nem um lugar do Municipio, as inscripções referidas. = Deos Guarde a V.Ex.ª pr. mtos. ans. Paço da Camara Municipal da V.ª da Caxr.ª  13 de Maio de 1856. = Illmo. Exm.º Senr." Conselheiro Jeronimo Francisco Coelho, Presidente e Commd.e das Armas desta Provincia. = Joaquim Corrêa de Oliveira = Lourenço J.e da S.ª Bandr.ª = Polycarpo Per.ª da Silva = Joaquim Ignacio de Araujo = Fructuoso Borges da S.ª e Fontoura.-



Cópia da correspondência de resposta à solicitação da Presidência da Província
(ao pé da folha 179 - CM/S/SE/RE-002)
Sequência da resposta (topo da folha 179 verso - CM/S/SE/RE-002)

Como se vê pela resposta da Câmara, Cachoeira não possuía nenhum monumento com inscrição, tampouco a Igreja Matriz conservava registros sepulcrais, apesar da prática de sepultamento no interior do templo só ter cessado na década de 1830, com a inauguração do Cemitério das Irmandades (1833).

A despeito da negativa da existência de inscrições históricas em nosso meio, os documentos em questão revelam a visão prospectiva de D. Pedro II e a sua preocupação em incutir nas autoridades o respeito à história de um país que mesmo jovem precisava calcar seu desenvolvimento sem descuidar dos valores do passado. Uma lição e tanto que mesmo em nossos dias tem sido difícil de ser assimilada!

(MR)

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Bar América - plantas no acervo do Arquivo Histórico

A notícia de obras de recuperação e melhoria do Bar América para nele ser instalada a futura Secretaria Municipal da Cultura faz renascer a esperança de ver aquela parte nobre da Praça José Bonifácio revitalizada e, ao mesmo tempo, viabilizar espaço e melhores condições à valiosíssima área cultural do município.  A história do Bar América remonta ao ano de 1943, quando a imprensa noticiou que a Prefeitura Municipal pretendia construir um quiosque-bar na Praça José Bonifácio. Assim noticiou o jornal O Comércio , de 17 de março daquele ano: A Praça José Bonifácio será dotada de um quiosque-bar Faz parte do programa de reforma da cidade, desde o calçamento das principais ruas, a construção de um quiosque-bar na Praça José Bonifácio. De tempos em tempos, o nosso Governo Municipal faz publicar editais de concurrencia publica para a construção e exploração de um bar naquele local, mas estes não apareciam. Agora, foi posta em fóco novamente a questão e apresentou-se um único candidato, que en

Inauguração das Casas Pernambucanas

A notícia veiculada na imprensa de que em breve as Casas Pernambucanas voltarão a abrir as portas em Cachoeira do Sul despertou a curiosidade e o interesse de buscar informações sobre a instalação da primeira filial dessa popular casa comercial na cidade. Vem do Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico a resposta. O Commercio , 24/6/1931, p. 1 Folheando as páginas dos jornais O Commercio  e Jornal do Povo  da década de 1930 e partindo da notícia da inauguração da segunda loja das Casas Pernambucanas em Cachoeira, ocorrida em setembro de 1936, uma rápida volta no tempo levou ao dia 8 de julho de 1931: O Commercio, 8/7/1931, p. 1 Casas Pernambucanas. - Com a presença de exmas. sras., senhoritas e cavalheiros, representantes das autoridades do municipio e da imprensa local, foi inaugurada, ás 10 horas da manhã de quarta-feira ultima, no predio da rua Julio de Castilhos n.º 159, a Filial das Casas Pernambucanas, cuja gerencia está a cargo do sr. José Aquino, muito conhecido e relacionado ne

A Ponte do Passo Geral do Jacuí

O Passo Geral do Jacuí, localizado a 30 km da cidade de Cachoeira do Sul, pela estrada de rodagem e, cerca de 40 km pelo leito do rio Jacuí, foi um dos caminhos de ligação entre Rio Pardo e a Região da Fronteira Oeste e Planalto, em tempos de paz e de Guerra Farroupilha. Terminada a Revolução Farroupilha, com a pacificação de Ponche Verde, a Província, governada por Caxias, volta-se para as obras e a prosperidade do Rio Grande do Sul. Em 8 de abril de 1846, por decreto, é apresentado o projeto para esse desenvolvimento e nele incluída a construção de uma ponte sobre o Passo Geral do Jacuí. Uma obra necessária e vital para agilizar a ligação entre os principais núcleos urbanos, servidos pelo rio Jacuí e a comercialização dos produtos e riquezas entre regiões Leste e Oeste da Província. Sua construção foi contratada pelo empreiteiro Ferminiano Pereira Soares, em 1848, pela quantia de 250 contos de réis, paga em seis prestações e num prazo contratual de cinco anos. (Ferminiano co