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"O mestre-sala dos mares" - cidadão cachoeirense

Há muito tempo nas águas
Da Guanabara

O dragão no mar reapareceu

Na figura de um bravo

Feiticeiro

A quem a história

Não esqueceu
Conhecido como
Navegante negro
Tinha a dignidade de um
Mestre-sala
E ao acenar pelo mar
Na alegria das regatas
Foi saudado no porto
Pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por
Batalhões de mulatas
Rubras cascatas jorravam
Das costas
Dos santos entre cantos
E chibatas
Inundando o coração,
Do pessoal do porão
Que a exemplo do feiticeiro
Gritava então
Glória aos piratas, às
Mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça,
Às baleias
Glórias a todas as lutas
Inglórias
Que através da
Nossa história
Não esquecemos jamais
Salve o navegante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais.



"O Mestre-sala dos mares", música de João Bosco e Aldir Blanc, pouca gente sabe, homenageia o marinheiro encruzilhadense João Cândido Felisberto, líder da Revolta da Chibata, ocorrida no Rio de Janeiro em novembro de 1910. Motivado pelo descontentamento com os castigos com chibata infligidos aos marinheiros pela Marinha do Brasil, João Cândido tomou a frente do movimento, exigindo do governo a abolição do uso da chibata. Por vários dias, amotinados, os marinheiros miraram os canhões dos navios de guerra Minas Gerais, São Paulo, Bahia e Deodoro para a cidade do Rio de Janeiro, então capital federal. Depois de negociações, o governo brasileiro comprometeu-se a abolir os castigos físicos na Marinha e a conceder anistia aos revoltosos. No entanto, logo depois disto, João Cândido foi expulso da Marinha do Brasil.





No ano de 1959, a Câmara de Vereadores de Cachoeira do Sul, numa proposição do vereador José Nicolau Barbosa, o "Almirante Negro" João Cândido foi agraciado com o título de Cidadão Cachoeirense. A ata da reunião da Câmara que registrou a proposta faz alusão ao pronunciamento do vereador Nilo Diniz Savi que, dentre outras coisas, manifestou o descontentamento com a Câmara de Vereadores de Porto Alegre que negou-se a conceder o Título de Cidadão Porto-alegrense a João Cândido.

No dia previsto para a homenagem, 22 de setembro de 1959, conforme registro feito pelo Jornal do Povo na edição do dia 24, ocorreu o que segue:

Sob a Presidência do Dr. Mário Ilha Filho e com a presença da quase totalidade dos vereadores, realizou-se, terça-feira última, a Sessão Magna Extraordinária da Câmara Municipal, convocada pela Presidência com a finalidade especial de ser procedida entrega do título de "Cidadão Cachoeirense" ao sr. João Cândido, líder da revolta de 1910, na Armada brasileira, que acabou com a chamada "Lei da Chibata".
Diversas autoridades dêste Município estiveram presentes nesse ato solene do Legislativo cachoeirense, destacando-se o sr. Arnoldo Paulo Fürstenau, Prefeito Municipal, que acompanhou o "Almirante Negro" até à Mesa.
Abertos os trabalhos, o Presidente disse da razão daquela sessão solene e dos motivos que levaram a Câmara a conceder ao sr. João Cândido o título honorífico de "Cidadão Cachoeirense". Em seguida passou a palavra ao vereador José Nicolau Barbosa para, em nome da Casa, saudar o ilustre visitante, o qual, em bonita oração, ressaltou o feito heróico de João Cândido, do qual resultou maior liberdade dentro da Armada Brasileira e um melhor tratamento para aqueles que a integram. Concluindo, disse que João Cândido era um verdadeiro símbolo da raça que aprendeu, juntamente com todos os brasileiros, a respeitá-lo e admirá-lo, pela bravura e patriotismo demonstrados na aniquilação da odiosa "Lei da Chibata", sob a qual tantos patrícios suportaram castigos desumanos e crueis.
Agradecendo em nome do homenageado, fez uso da palavra o Vice-Presidente da Comissão Organizadora da Recepção de João Cândido, o qual, em comovidas palavras, disse da emoção que invadiu o velho "Almirante Negro" ao ser distinguido com o honroso título que lhe foi concedido pelo Legislativo Cachoeirense, integrado pelos mais legítimos representantes do povo desta terra.
O Presidente Mário Ilha Filho convidou o sr. Arnoldo Paulo Fürstenau, Prefeito Municipal, para fazer a entrega do título ao sr. João Cândido, o que foi feito sob intensa salva de palmas da numerosa assistência.

Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico


Após a solenidade na Câmara, o "Almirante Negro" foi recepcionado no Clube União Independente. 

Com esta rememoração, o Arquivo Histórico presta uma homenagem à memória de João Cândido, o "Almirante Negro", relembrando neste mês de comemorações da Consciência Negra todos aqueles que, como ele, lutaram pela igualdade e humanização de nossas instituições. Sua morte, ocorrida dez anos depois, em 6 de dezembro de 1969, no esquecimento e na pobreza, não apagou da memória uma página emblemática da história brasileira que, ao ser recontada, faz aparecer Cachoeira do Sul como a cidade que homenageou a personalidade controversa daquele que, como diz a música de João Bosco e Aldir Blanc, tinha a dignidade de um Mestre-sala.

(MR)

Comentários

  1. Muito obrigada por nos brindar com essa história. Na época que ele nasceu ou um pou co antes Encruzilhada fazia parte de Cachoeira?

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  2. Muito obrigada por nos brindar com essa história. Na época que ele nasceu ou um pou co antes Encruzilhada fazia parte de Cachoeira?

    ResponderExcluir
  3. Sílvia, obrigada por ter apreciado a postagem.
    Respondendo à tua pergunta, Encruzilhada não pertencia a Cachoeira e já estava constituída como município desde 1849, quando se emancipou de Rio Pardo. João Cândido nasceu em 1880.
    Abraço.
    Mirian Ritzel

    ResponderExcluir
  4. Que linda historia, desconhecia a naturalidade dele.Grata Mirian.

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