sexta-feira, 26 de abril de 2013 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Apelo de um professor

No ano de 1877, Modesto Carvalho da Silva Rosa, professor público da aula do sexo masculino que havia no Distrito de Palma, solicitou por ofício ao Juiz de Paz do 2.º Distrito da Cachoeira, cópia do relatório que havia sido remetido à Diretoria Geral da Instrução Pública, relatando as dificuldades e apontando as ações que as autoridades deveriam tomar para mudar o panorama educacional das aulas do interior:

Do relatório escrito pelo Juiz de Paz em exercício José Daniel Beresford destacamos itens que chamam a atenção das dificuldades vividas pelo professor e seus alunos:

Das inspecções a que procedi, fiz lavrar as actas que envio por copia; e por elas V.S.ª se compenetrará do quanto urge ser a Aula provida do material q. lhe falta, a vista do estado pauperrimo e vergonhoso mesmo dos poucos utencis que emprega; pelo q. o ensino já se está prejudicando, e acarretará mais tarde o descredito e talvez a queda de tão util e esperansoso Estabelicimento. (...) O Professor não tem uma cadeira apropriada em q. se assente, e nem dispõe de outras p.ª oferecer aos vesitantes. Tem as honras da mesa do Magisterio um pequeno aparador q. se firma no chão da salla, na ausencia do estrado q. serve de pedestal. Existem duas bancas compridas de assento, que não bastando p.ª acommodar os alumnos, o Professor improvisou, como tal, um pranchão em bruto, que collocou sobre cavalletes p.ª q. alguns d'elles não se conservassem de pé. As Escrivaninhas são velhas, e por muito leves não tem firmesa; acho-as perigosas p. suceptiveis de quedas e produzir algum acidente. O servisso mecanico da Aula faz-se alternadamente, p. q. havendo somente douse Ardosias p.ª os exercicios de contabilidade, não é possivel os dicipulos todos se servirem ao mesmo tempo: semelhante processo rouba o tempo ao Professor, q. em diversas occasiões não pode aproveita-lo em outras lições. Uma taboleta tingida de preto p.ª o ensino das cousas, é de necessidade p.ª sertos alumnos q. é mister educar as mãos, adestrando-as primeiramente a trassar os caracteres das letras a giz, pois é fora de questão; q. a escripta é maximo problema q. o Professor tem a resolver com a especie de meninos q. cumpre arrancar do estado quase q. primitivo da naturesa. Sendo em grande parte os filhos de Pais pobres, q. a lei fatal da necessidade obrigaos a emprega-los nos trabalhos rudes e pesados da lavoura, p.ª prover a propria subsistencia, ficão de tal modo com as ideias embotadas, as mãos calosas, e os dedos entorpecidos, q. se tornão pouco capases de outra applicação. O Professor com toda a sua pericia lucta com serias dificuldades p.ª vencer a aversão q. elles votão ao estudo, corrigir os vicios da pronuncia, e certos habitos inveterados.

O Juiz seguiu sua análise, constatando que os professores interinos dificilmente poderiam ser substituídos pelas normalistas porque elas não sacrificarião, queimando as pestanas, treis dos melhores annos da mocidade, para se opporem a ellas, mormente havendo muito onde escolher; e as pessoas aptas e com capacidade para o Professorado, pelo simples facto de não terem o curso completo, tambem a ellas se não oppoem, por que não tem garantia alguma. E assim pois, devendo dar-se mais latitude ao corpo docente, pelo contrario o cercão de entraves, em prejuiso da instrução e da sociedade.

E concluiu: uma transição comessa incensibelmente a opperar-se na grande familia Rio Grandense; não está longe a época do trabalho livre substituir ao braço escravo, e a grande lavoura a industria e artes, a vida pastoril que definha, a transformação é inivitavel; e para que ella se efectue sem senciveis abalos a nossa organisação social, cumpre que os cidadãos que estremecem pela patria preparem o terreno à geração que nos precede, dando a luz, a luz civilisadora do progresso que é o elemento que ainda nos falta. 
Documento avulso da Justiça - 16/12/1877
O documento em parte acima reproduzido foi transcrito pelo Escrivão de Paz Marcellino Gonçalves da Fonseca. lembrado também como um dos proprietários das pioneiras lavouras de arroz que adotaram a irrigação por gravidade, inscrevendo seu nome dentre os empreendedores que ajudaram a construir nosso título de Capital Nacional do Arroz. Mas esta é outra página da nossa rica história...

Residência de Marcelino Gonçalves da Fonseca ainda existente
e localizada na Rua Sete de Setembro, esquina Conde de Porto Alegre
- coleção Claiton Nazar

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