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A enchente de 1941

As grandes enchentes de 2015 remetem o interesse para eventos climáticos semelhantes ocorridos em outras épocas. De imediato, a grande enchente de 1941, referência para a magnitude deste tipo de calamidade, vem para as rodas de conversa, recheia as notícias da imprensa e, já mais raramente, ainda encontra testemunhas oculares para darem suas impressões.

O jornal O Commercio, edição do dia 14 de maio de 1941, constante da coleção de imprensa do Arquivo Histórico, traz na primeira página a repercussão da grande cheia, refere os prejuízos na economia, especialmente no setor orizícola, e dá ciência das primeiras providências das autoridades após a verificação dos estragos:

Apezar das ultimas chuvas continúa baixando o nivel das águas

Jamais o coração dos riograndenses se sentiram tão cheios de tristeza, de aflição, de tantas apreensões, como por ocasião dessa catástrofe imensamente incalculaveis nos prejuizos, estragos e fatalidades, derivados das incessantes e cerradas chuvaradas, que, caíndo, impiedosamente sobre o sólo dos pampas, fizeram transbordar arroios e rios, irrompendo suas aguas por logares onde nunca tinham chegado, ficando submersos campos, fazendas, lavouras, estradas de rodagem e de ferro, e muitissimas partes de localidades e de cidades e ainda cortadas quasi todas as comunicações.

Os arroios afluentes do rio Jacuí, por espaço de cerca de vinte dias ininterruptos, se avolumaram de tal fórma que se estenderam como si fossem verdadeiros rios, destroçando todo o esforço dinâmico da mão do homem, desabrigando infinidades de lares pobres, levando-lhes a ruina, a desgraça, o luto e a fome.

As esperanças e as melhores perspectivas para o risicultor, para todas as classes laboriosas do nosso e de todos os municipios da gléba gaúcha, ficaram na dolorosa e fria estupefação de verem desfeitas as suas mais acariciantes aspirações, as quaes, si fossem realizadas, culminariam em brindar ao Rio Grande do Sul o conforto e o beneficio em favor de sua vida economica e, désta forma,  enriquecer o seu patrimonio de progresso e desenvolvimento em todos os setôres de sua atividade.

A produção de arroz, em nosso municipio, que era calculada em 1 milhão e 200 mil sacos, com os prejuizos, agora, evidenciados , atingirá,  quando muito, a 800 mil sacos, acrescentando-se, ainda, o fáto de que embora se empregue todo o zêlo e esforço possivel, o arroz será escassamente de primeira qualidade.

Ao meio dia de 6 do vigente o nivel das aguas, que antes tinham baixado, começou alterar-se, subindo 35 centimetros a mais, atingindo as aguas, na Praia, o primeiro pavimento do Engenho Central, assim como a séde do Grêmio Nautico Tamandaré, localisado um pouco mais acima, ficando, em parte, submersa.

Foto das águas da enchente atingindo o primeiro pavimento do Engenho Central
- Fototeca Museu Municipal
As águas atingiram a sede do Grêmio Náutico Tamandaré
e de armazéns dos arredores do porto - Fototeca Museu Municipal
Apezar de estar situado no logar alto, o Posto de captação da Hidráulica Municipal, que se acha na margem do rio Jacuí, na varzea de Nossa Senhora, tambem sofreu a influência da inundação, o que não se completou devido o reforçamento de sua parte de emergencia, prejudicando, entretanto, o funcionamento dos motores das bombas, de tal maneira que ficou interrompida a captação das aguas, utilizando-se, em seu logar, outros recursos, motivo porque foi reduzido o fornecimento de agua á população.

Grandes foram os prejuizos ocasionados na “Olaria Progresso”, de propriedade do sr. Antonio da Cunha Reis, que foram calculados em mais de 30 contos de réis. Dos tres galpões, de cerca de 100 metros de comprimento, só restou uma parte, sendo levadas pelas aguas as demais, assim como 180 mil tijolos e 800 metros de lenha.

A ação das tremendas chuvaradas se fez sentir tambem no paredão da maxambomba da Agencia local da Cia. de Navegação Becker Ltda., cujo piso de terra afundou em um dos lados do referido paredão, ficando um tanto partido.

Com referencia ás zonas avassaladas pela enchente, uma grande caravana constituida de autoridades civis, medicos, altos elementos representativos da lavoura risicola, do comercio, funcionarios prefeiturais, e outras pessoas representativas de todas as classes sociais de Cachoeira, embarcados em gazolinas, estiveram socorrendo as vitimas do tremendo flagélo da enchente.

Uma commissão composta dos srs. Cyro da Cunha Carlos, prefeito municipal; Floriano Neves da Fontoura, membro do Conselho Administrativo do Instituto do Arroz, Luiz Gonzaga Quites, gerente, nesta cidade, da filial do Banco do Brasil, José Joaquim de Carvalho, presidente da União Central dos Risicultores, representantes da imprensa e outras pessoas gradas, excursionou, numa lancha á gazolina, ás zonas devastadas pelas aguas, sob as quaes jaziam grande numero de lavouras, espetaculo esse que contristou á todos os excursionistas, pois o que só se lhes deparavam eram destroços de casas, galpões, cercados, objectos de lavoura, etc.

Comissão de verificação das cheias, vendo-se o Prefeito Cyro da Cunha Carlos (em primeiro plano,
o quarto), Floriano Neves da Fontoura (em primeiro plano, o terceiro)
- Fototeca Museu Municipal
O calculo de elementos sem serviço attingiu, sem contar suas familias, á 1.500 trabalhadores, e centenas de pessoas que viram suas moradias arrastadas pela correnteza e tiveram que se refugiarem nas coxilhas, ante a furiosa invasão das aguas.
(...)

Fotografia da enchente
Acham-se em exposição nos Studios Aurora e di Marco, innumneras fotografias apanhadas dos locaes onde a enchente das aguas mais se fizeram sentir, e que atestam mais ainda a enormidade dessa catastrofe, que inundou quasi todo o Rio Grande e que foram batidas quando o sr. Prefeito Ciro [sic] Carlos, acompanhado de diversas pessoas de representação, estiveram percorrendo diversos trechos do rio Jacuí.

Mesmo decorridos 74 anos daquela grande enchente de 1941, muito pouco nossas cidades evoluíram no sentido de minimizar os efeitos de uma calamidade deste gênero. Apesar dos avanços tecnológicos, o homem segue refém da natureza...

(MR)

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