sexta-feira, 7 de julho de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Um piano em questão

O Teatro Municipal, portentoso prédio que se localizava na esquina da atual Rua Gabriel Leon, fronteiro à Praça Dr. Balthazar de Bem, era no início do século XX a grande casa de espetáculos da cidade. Empresas de projeção de fitas, os bioscopos, trupes teatrais, ilusionistas, músicos e outros artistas, muitos deles vindos de outras cidades, utilizavam-se das instalações do teatro para suas exibições. 

Teatro Municipal  - Fototeca Museu Municipal

Um dos grupos musicais formados em Cachoeira, que era então uma cidade de inúmeros talentos, chamado Sociedade Musical Grupo Carlos Gomes, era um dos que usufruíam das instalações do teatro. Fundado em 20 de outubro de 1903, o Grupo Carlos Gomes compunha-se de 21 integrantes que tocavam instrumentos de corda e metal. No ano seguinte, já contando com 36 figuras, iniciou uma série de concertos sinfônicos no Teatro Municipal, sendo o primeiro em benefício de obras da Igreja Matriz. Em abril daquele ano, o jornal O Commercio noticiava a aquisição de um piano próprio, cuja estreia se deu também no teatro.

Como é difícil, trabalhoso e indevido o transporte constante de um piano, e em razão das repetidas apresentações do grupo no teatro, o instrumento foi deixado lá, em acordo firmado entre o diretor dos músicos, Abelino Vieira, e o intendente da época, Cel. David Soares de Barcellos. Mas, misteriosamente, o piano desapareceu! Ninguém soube, viu ou ouviu o que aconteceu. Indignados com o desaparecimento, os membros do Grupo Carlos Gomes oficiaram ao intendente Dr. Cândido Alves Machado de Freitas, em 26 de maio de 1906:

Em 18 de abril de 1904, esta sociedade comprou, em Porto Alegre, do Snrº Theodoro Hartlieb um piano, para seu uso exclusivamente, afim de abrilhantar seus concertos muzicaes. Este instrumento foi depositado no Theatro Municipal, com o consentimento do Snrº Cornel David Soares de Barcellos, então intendente, e la continuou a permanecer durante a administração do seu sucessor, o Snrº Dr. Viriato Gonçalves Vianna, que assim o permittio e durante o curto tempo da vossa honrada e digna gestão, continuava a permanecer naquelle proprio municipal consagrado á arte, sem que houvesseis deliberado a sua retirada. Acontece, porem, que, hontem, veio ao conhecimento d'esta sociedade que o piano foi de lá retirado, sem sciencia dos signatarios, nem do respectivo director Snrº Abelino Vieira da Silva, e conduzido para o Club Commercial.

Sendo nós os unicos responsaveis por esse piano, e sendo a subtração d'esse instrumento, da forma por que foi praticada, um facto criminoso previsto no Codigo Penal da Republica, a bem do nosso direito e ressalva, vimos respeitosamente solicitar que vos digneis informar nos se o referido piano foi mandado retirar por V. S. e, em caso negativo, quem o subtrahio ou mandou praticar esse acto contra uma propriedade alheia, visto que, estando o theatro sob as vistas e administração de V. S., como intendente municipal, que o sois legalmente, intuitivo é que d'alli não deveria ser levantado sem o vosso conhecimento, a menos que não tivessem procurado ardilosamente illudir-vos.

Esse acto tem revoltado a consciencia das pessoas honestas, do nosso meio social. 

                                                                                   Saude e Fraternidade.

                                                                      (assinaturas) Abelino Vieira da Silva,
                                                                                                      Director
                                                                                                   Oscar Potter,
                                                                                                    Secretario

IM/S/SE/OE - Caixa 3


A correspondência do diretor do Grupo Carlos Gomes chegou às mãos do Dr. Candido A. M. de Freitas que encaminhou questionamento ao subintendente, cuja resposta foi a seguinte:


IM/S/SE/OE - Caixa 3

                                              Illmo. Snr. Dor. Intendente Municipal

Em virtude de vosso despacho exarado na petição, retro cabe-me informar vós que não me consta que estivesse depositado no Theatro Municipal, sob a responsabilidade da Intendencia, o piano em questão. A verdade é que o referido piano, por tolerancia da Intendencia, permanecia no Theatro, sem que, entretanto, tivesse a Administração qualquer responsabilidade 'por deposito', quanto ao dito instrumento. Á 25 do corrente, mediante requisição da directoria do Club Commercial, desta cidade, que se julga, com fundamento, co-proprietario do piano de que se tracta, por ser possuidor de acções que lhe foram transferidas no valor de 600:000 reis, como alega, fiz entrega do piano aos representantes do "Club", não me cabendo, pois, responsabilidade alguma pelo destino que por ventura possa ter tido o piano reclamado na petição retro. 

                                                                   Cachoeira, 28 de Maio de 1906.

                                                   (assinatura)   João Alberto de Sousa
                                                                    O Subintendente da Sede

Afinal, de quem era de fato o piano? O jornal O Commercio, edição do dia 20 de abril de 1904, noticiou o seguinte:

C. Gomes. - Domingo, no Theatro Municipal foi collocado o piano de concerto Römhildt que o club Carlos Gomes acaba de adquirir. O piano acompanha dous documentos de garantia por 5 annos assignados pelo fabricante e seu agente neste Estado sr. Theodoro Hartlieb.
No theatro reuniram-se á noite muitas senhoras, senhoritas e cavalheiros que, a convite do digno director da sociedade Carlos Gomes assistiram á execução de varios trechos musicaes para, segundo declarou o sr. A. Vieira, aquilatarem e manifestarem juizo competente sobre as qualidades ou defeitos do referido piano.
A experimentação foi coroada de feliz exito. Trata-se de um instrumento artisticamente manufacturado, de vozes grandiosas e aveludadas, de effeito surprehendente.
A convite do director do club as gentis senhoritas Othilia Neves e Violeta Godoy executaram, a quatro mãos o mavioso trecho Dichter und Bauer, de Suppe, e a senhora d. Mercedes Neves de Oliveira - o Allegro classico, de Rossina e a symphonia do Guarany.
Os assistentes applaudiram-nas bastante; retirando-se todos convencidos da excellencia do novo piano.
É este o segundo piano-concerto Römhildt adquirido nesta cidade, no curto espaço de nove mezes. 

Piano Römhildt -  pianomovers.de/klavier-roemhildt-weimar-in-nussbaum-6816

Explicado o desaparecimento do piano, que imbróglio houve para que o Clube Comercial se achasse no direito de retirá-lo do teatro sem o prévio aviso ao Grupo Carlos Gomes? Novamente o jornal O Commercio, em sua terceira página da edição de 6 de junho de 1906, traz informações: 

O piano. - Sabemos que vai ser promovido um processo por crime de furto, contra os mandantes, mandatarios e cumplices da subtração do piano pertencente á sociedade musical em liquidação Grupo Carlos gomes, sob cuja responsabilidade achava-se aquelle instrumento collocado no Theatro Municipal, com a permissão de quem era intendente, desde o dia em que aqui chegou o mesmo piano. 
Os srs. Abelino Vieira e Arthur Macedo, aquelle como liquidante e ambos como maiores credores da sociedade, vão dár procuração ao advogado, nosso companheiro Augusto Brandão, para requerer investigações policiaes e intentar as acções que forem de direito.

Como se vê, o caso do piano foi parar na justiça! Uma dor de cabeça para o recém-empossado intendente. Mas uma coisa é certa, passados 111 anos desta história: o piano foi, ainda que em situação mal explicada, salvo de perecer quando em 1908 houve o desabamento de parte da estrutura do Teatro Municipal... "Há males que vêm para o bem", como diz o antigo ditado.

MR

1 comentários:

ze disse...

Histórias de nossa Cachoeira...

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