Pular para o conteúdo principal

Barcas e problemas... História antiga!

Não é de hoje que a travessia do Jacuí oferece embaraços... Há muitas histórias, desde tempos muito afastados, envolvendo questões entre as autoridades municipais e os prestadores de serviços de traslado pelo rio e destes com as condições das embarcações ou dos passos a serem transpostos.

Uma destas histórias, de 1865, remete à preocupação das autoridades com a passagem do Imperador Pedro II pelo passo de São Lourenço, quando de sua visita a Cachoeira à época da Guerra do Paraguai. Por várias vezes antes da visita a Câmara Municipal foi instada a tomar providência para melhorar o serviço da barca disponível:

26/7/1865 - CM/OM/Ofícios-Caixa 10

Porto Alegre - Gabinete do Ministro dos Negocios da Guerra
                        em 26 de Julho de 1865

Constando estar arruinada a barca de passagem do Passo de S. Lourenço, sirva-se V.S.ª dár as devidas providencias afim de que se áquelle Passo encontre S. M. o Imperador e sua comitiva as barcas e balsas necessarias para sua passagem

Deos Guarde a V.S.ª
Angelo Moniz da S.ª Ferraz

Ao Sr. Presidente da Camara
Municipal da Cachoeira

Outra história, desta vez ocorrida no inverno de 1888, mais precisamente no dia 28 de agosto, chega até os presentes dias através de uma carta remetida por José Luiz Barrêto, administrador do serviço de barca em São Lourenço, ao presidente da Câmara, Capitão Francisco Gomes Porto, relatando problema ocorrido com uma carreta transportada:

28/8/1888 - CM/S/SE/CR-018

S. Lourenço 28 de Agosto de 1888
                                                                                    
                                                                            Illmº Senr'

Levo ao conhecimento de VS.ª que por ocazião de passar em S. Lourenço u'ma carreta,  no tirar da Barca quebrou o Cabeçalho devido a grande carga e pessima qualidade da madeira já bastante deteriorada, conforme informou pessoa abelitada por quem mandei examinar a qualidade da madeira. Mas o Carreteiro, pois duvida pagar a passagem dizendo que se julgava com direito a exegir q' lhe pagassem o prejuizo. E para que não se formasse duvidas, eu disse ao Carreteiro que ía levar ao conhecimento de V.S.ª; para conforme as suas ordens assim proceder.
Ds. G. a VS.ª

Illm.º Senr' Capm. Francisco Gomes Porto
M. D. Prezidente da Camara Municipal da Cidade da Cachoeira 


Desta feita sobre a barca do Passo do Seringa, em correspondência com data de 29 de outubro de 1888, o médico Affonso Pereira da Silva responde a questionamentos provocados por um jornal existente em Cachoeira, cujo nome era O Clarim, dando conta da perícia e/ou capacidade dos condutores da barca:

29/10/1888 - CM/S/SE/CR-018

Illmo. Snr.

Accuso o recebimento do officio de V.S.ª de 24 deste mez, em o qual manifesta o desejo de ser por mim informado - sobre as irregularidades que se dão no Passo do Seringa, apontadas em o artigo de redacção do - Clarim - de 21 tambem d'este mez. Satisfazendo ao pedido de V.S. - devo declarar que os empregados effectivos da balsa do referido Passo não estão em condicções de bem desempenhar seus encargos, por ser um d'elles - evidentemente - de menor idade, e por isso sem a necessaria robustez exigida para taes serviços, de modo que todo o trabalho recahe sobre o outro empregado. Quanto a este outro, embora me pareça menor, não o posso affirmar. Devo tambem declarar a V.S. que poucas vezes tenho encontrado o encarregado ou arrematante do Passo n'esse ponto e que uma das canôas da balsa está fazendo agua e em não pequena quantidade; quanto ás outras nada posso affirmar por não tel-as examinado. É verdade que, na occazião em que passava o Illmo. Sr. Redactor do - Clarim, a balsa, apezar de ter mais uma pessoa ao leme, não alcançando o porto, foi á margem direita entre os dois portos de desembarque. Eis, pois, o que tenho observado nas poucas vezes que tenho transitado pelo referido Passo e que, satisfazendo ao officio de V.S., levo ao vosso conhecimento.

Deus Guarde a V.S.

Illmo. Sr. Capm. Francisco Gomes Porto
Digmo. Presidte. da Camara Municipal

Cachoeira 29 de Outubro 1888.
                    Dr. Affonso Per. da S.ª

Como provam os documentos que uma sucessão de lideranças cachoeirenses entenderam por bem preservar, prova inequívoca da visão da sua importância histórica, o serviço de barcas sempre apresentou percalços. Vencer tais percalços, mesmo que em pleno século XXI, constitui-se ainda um grande desafio!

MR

Comentários

  1. Lembro ainda nos meus tempos de menina quando a balsa adernou provocando a queda de muitas pessoas no rio. Era um anoitecer e minha irmã Marisa e minha mãe estavam naquele acidente. Por sorte foram atiradas para o lado perto da margem.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Bar América - plantas no acervo do Arquivo Histórico

A notícia de obras de recuperação e melhoria do Bar América para nele ser instalada a futura Secretaria Municipal da Cultura faz renascer a esperança de ver aquela parte nobre da Praça José Bonifácio revitalizada e, ao mesmo tempo, viabilizar espaço e melhores condições à valiosíssima área cultural do município.  A história do Bar América remonta ao ano de 1943, quando a imprensa noticiou que a Prefeitura Municipal pretendia construir um quiosque-bar na Praça José Bonifácio. Assim noticiou o jornal O Comércio , de 17 de março daquele ano: A Praça José Bonifácio será dotada de um quiosque-bar Faz parte do programa de reforma da cidade, desde o calçamento das principais ruas, a construção de um quiosque-bar na Praça José Bonifácio. De tempos em tempos, o nosso Governo Municipal faz publicar editais de concurrencia publica para a construção e exploração de um bar naquele local, mas estes não apareciam. Agora, foi posta em fóco novamente a questão e apresentou-se um único candidato, que en

Inauguração das Casas Pernambucanas

A notícia veiculada na imprensa de que em breve as Casas Pernambucanas voltarão a abrir as portas em Cachoeira do Sul despertou a curiosidade e o interesse de buscar informações sobre a instalação da primeira filial dessa popular casa comercial na cidade. Vem do Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico a resposta. O Commercio , 24/6/1931, p. 1 Folheando as páginas dos jornais O Commercio  e Jornal do Povo  da década de 1930 e partindo da notícia da inauguração da segunda loja das Casas Pernambucanas em Cachoeira, ocorrida em setembro de 1936, uma rápida volta no tempo levou ao dia 8 de julho de 1931: O Commercio, 8/7/1931, p. 1 Casas Pernambucanas. - Com a presença de exmas. sras., senhoritas e cavalheiros, representantes das autoridades do municipio e da imprensa local, foi inaugurada, ás 10 horas da manhã de quarta-feira ultima, no predio da rua Julio de Castilhos n.º 159, a Filial das Casas Pernambucanas, cuja gerencia está a cargo do sr. José Aquino, muito conhecido e relacionado ne

A Ponte do Passo Geral do Jacuí

O Passo Geral do Jacuí, localizado a 30 km da cidade de Cachoeira do Sul, pela estrada de rodagem e, cerca de 40 km pelo leito do rio Jacuí, foi um dos caminhos de ligação entre Rio Pardo e a Região da Fronteira Oeste e Planalto, em tempos de paz e de Guerra Farroupilha. Terminada a Revolução Farroupilha, com a pacificação de Ponche Verde, a Província, governada por Caxias, volta-se para as obras e a prosperidade do Rio Grande do Sul. Em 8 de abril de 1846, por decreto, é apresentado o projeto para esse desenvolvimento e nele incluída a construção de uma ponte sobre o Passo Geral do Jacuí. Uma obra necessária e vital para agilizar a ligação entre os principais núcleos urbanos, servidos pelo rio Jacuí e a comercialização dos produtos e riquezas entre regiões Leste e Oeste da Província. Sua construção foi contratada pelo empreiteiro Ferminiano Pereira Soares, em 1848, pela quantia de 250 contos de réis, paga em seis prestações e num prazo contratual de cinco anos. (Ferminiano co