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Festejos de Momo

Fantasia antiga de Momo - www.riodejaneiroaqui.com

Os festejos de Momo, como normalmente eram tratadas as comemorações de carnaval no passado, apesar de diferenças de animação de ano para ano, dificilmente deixaram de acontecer em Cachoeira, conforme os registros que ficaram nos exemplares de jornais que estão disponíveis para pesquisa no acervo de imprensa do Arquivo Histórico. 

Desde 1900, quando O Commercio começou a circular, já há notas sobre o Carnaval:

O Commercio,  31/1/1900, p. 2 

O carnaval, em bôa hora o dizemos, não passará despercebido entre nós. Sabemos que alguns distinctos cavalheiros da nossa sociedade pretendem solemnisar com um baile á phantasia e outras diversões, a passagem do deus Momo, que, apesar de muito velho, é o mesmo folião de sempre. Feliz lembrança; não ha duvida. (O Commercio, Ano I, N.º 5, de 31 de janeiro de 1900, p. 2).

Na edição do mesmo jornal, dia 14 de fevereiro de 1900, outra notinha:

O Commercio, 14/2/1900, p. 2

Carnaval. O nosso projectado carnaval, que já era considerado morto e bem enterrado até, parece que renascerá com novo e desusado esplendor. Não querem vêr que o endiabrado se assemelha mesmo á phenix da fabula.

Ainda nas notícias do ano de 1900, em 28 de fevereiro, O Commercio faz outra referência ao carnaval:

Estiveram pouco animados os festejos carnavalescos entre nós, que quasi cifraram-se em dois coretos com as respectivas bandas de musica e nalguns mascaras em excursão pelas ruas da cidade. Não fôra o baile á phantasia, dos Pyrilampos, e poderiamos dizer que não tiveramos carnaval. Em compensação, porém, o jogo do entrudo esteve muito forte. Aproveitamos o ensejo para agradecer aos amaveis Pyrilampos a gentileza do convite.

E concluindo as notícias de 1900,  O Commercio dá a medida do "enterro dos ossos", em edição de 7 de março:

O Commercio, 7/3/1900, p. 3

Club Moçambique. Percorreu domingo ultimo as principaes ruas desta cidade o caracteristico e alegre grupo carnavalesco Moçambique, celebrando os funeraes do desalentado carnaval deste anno. O enterro dos ossos foi effectuado com os rigores do ceremonial, ao entoar de um canto funebre por entre lamentações. Á frente ia o caixão do finado - um magro porco assado, em torno do qual aquelles que cumpriam o dever de acompanhal-o á ultima morada, agitavam-se, como corvos junto a carniça; em seguida ia um pequeno andor cuja verdadeira significação não nos foi dado compreender, e por ultimo sagrado pallio guardando os sacerdotes que deviam lançar a extrema uncção sobre o morto. A despeito do desanimo reinante domingo por toda a cidade, os Maçambiques conseguiram despertar geral attenção, apresentando-se com espirito, tanto que nos pareceu mais alegre depois de morto do que mesmo em vida, o nosso invalido carnaval.

Como se depreende das notícias d'O Commercio, o carnaval de 1900 não foi dos mais animados, tendo sido salvo pelo grupo Moçambique que, ao findar dos festejos, no chamado "enterro dos ossos", desfilou pelas principais ruas de Cachoeira, chamando a atenção e demonstrando mais alegria do que o próprio carnaval tinha conseguido despertar entre os foliões naquele ano.

Interessante ressaltar que o grupo que portava o sugestivo nome de Moçambique, apesar de não haver alusão à etnia dos integrantes, certamente era composto por negros praticantes de manifestação folclórica de raiz africana, cuja passagem do tempo fez desaparecer entre nós. Só por este aspecto, sem contar a delícia de poder ser remetido ao passado pelas páginas d'O Commercio, os festejos de Momo em 1900, ainda que não tenham sido esplendorosos, nos remetem aos traços culturais que forjaram o carnaval como uma das mais ricas manifestações do povo brasileiro.

MR

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