Pular para o conteúdo principal

Uma torre para a Igreja Matriz

Há 170 anos os cachoeirenses avistavam sua Igreja Matriz ainda inconclusa. A falta das torres era um inconveniente, já que dariam mais solenidade e beleza ao templo. Para que a obra se concretizasse, chegou a Cachoeira o engenheiro civil da província, Frederico Heydtmann, acompanhado de seu ajudante, para dar início às primeiras ações relacionadas não apenas ao erguimento de uma torre, mas também para executar o nivelamento das ruas e a rampa do porto de desembarque.

Um ofício do engenheiro foi remetido aos vereadores em 1.º de abril de 1854, dando-lhes ciência da sua chegada e do que faria:

Illmos. Senres.

Tenho a hora [sic] communicar a V.V.S.S.ªs que hontem  cheguei com o meu Ajudante para continuar com os meus trabalhos principiados como a demarcação da obra da rampa do porto de desembarque, do nivellamento das ruas e de fazer o orçamento para os melhoramentos da Igreja Matriz da mesma villa; Aproveito a occasião para pedir a V.V.S.S.ªs se sirvão dár suas ordens a seo procurador para servir me com os serventes que tem de coadjuvarem-me em meus trabalhos e de mandar-me entregar a planta da torre da Igreja Matriz da mesma Villa, para fazer o orçamento respectivo.

Deos Guarde a V.V.S.S.ªs

Villa da Cachoeira 1 de Abril de 1854

Illmos. Senres. Presidente e mais Vereadores da Camara Municipal desta Villa.

Frederico Heydtmann

Engenheiro Civil da Prov.cia

Ofício do engenheiro Frederico Heydtmann (1/4/1854) - CM/OM/Ofícios - Caixa 10

No mesmo dia, a Câmara registrou em livro próprio as providências tomadas em relação ao pedido do engenheiro:

Em conformid.e do pedido do Engenheiro Civil Frederico Heydtmann, em seu officio datado de hoje, se lavrou a Portaria ao respectivo Procurador, p.ª servir-lhe com os serventes e materiais que forem precizos p.ª a demarcação da obra da rampa do Porto do desembarque, assim como se lhe mandou entregar a Planta da torre da Igreja Matriz desta V.ª para o fim de fazer o respectivo orçamento. Villa da Cachoeira 1.º de Abril de 1854.

Vereador presidente Fontoura

Providências da Câmara para atender pedido do engenheiro (1/4/1854) - CM/DA/AD-001, fl. 19v

Em 9 de agosto de 1854, o engenheiro Frederico Heydtmann remeteu à Câmara Municipal o orçamento para levantar uma torre na Igreja Matriz. O conjunto documental é composto por um ofício de encaminhamento e o orçamento geral que previa a realização da obra em três partes: a primeira, constante do levantamento da primeira parte da torre desde onde principia a abobada, a segunda de despezas pª fazer a cupola e a terceira Para rebocar as paredes e a cupola por fora e por dentro, atingindo o montante da obra a cifra de 10:926$260 réis.


Ofício do engenheiro Heydtmann encaminhando o orçamento
(9/8/1854) - CM/OM/Orçamento - Caixa 11

Dizia o ofício que encaminhou o orçamento da torre da Igreja Matriz:
Illmos. Senres.

De posso do Officio de V.V.S.S.ªs datado de 11 de Janeiro do corrente anno, no qual me pedem envie a Comissão dos melhoramentos da Igreja Matriz desta Villa, o Orçamento para levantar huma Torre na mesma Igreja. Tenho de participar-lhes que junto acharão o Orçamento da dita Obra e igualmente a planta da Torre que lhes restituo, cujo Orçamento. Julguei acertado fazel-o em trez secções, pela rasão de que, quando a Ill.trda Comissão achar mais conveniente não edificar a Obra acima dita em huma só vez Mandal-a fazer por partes como está designado no mesmo Orcamento
Deos Guarda a V.V.S.S.ªs
Villa da Cachoeira 9 de Agosto de 1854
Illmos. Senres. Presidente e mais Veriadores da Camara Municipal da Villa da Cachoeira
Frederico Heydtmann
Engenheiro Civil da Provcia.

Pela descrição da primeira parte da obra, é possível compreender que a torre planejada para ser erguida era a que ficava do lado direito, a julgar pela configuração que aquele templo conserva até hoje. Aliás, o antigo batistério, ou seja, o lugar em que a pia batismal existia, é uma das partes da antiga igreja que ainda se mantém, a despeito de todas as reformas que o templo sofreu em sua história. 

Dizia assim o texto do engenheiro relativo à localização da torre:

Para conservação das paredes existentes, e da abobada por cima da Pia do baptismo, he precizo se fazer hum telhado provisorio de maneira que esgota as aguas das chuvas pelas janelinhas da torre, podendo-se empregar pª esse fim os materiaes do telhado ja existente.
 
Não há ainda um levantamento histórico preciso sobre quando finalmente o templo pôde contar com suas duas torres, tampouco se o projeto original do engenheiro Frederico Heydtmann foi o executado. Registros fotográficos da Igreja Matriz que se mantêm preservados mostram as torres retas, com o estilo colonial, feição que foi modificada com a grande reforma externa de 1929.

Igreja Matriz - MMEL

A Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição, hoje Catedral, ainda guarda muitos segredos de sua história. Um deles pode ser a planta original das torres que, apesar de devolvida à Câmara pelo engenheiro Heydtmann, não foi localizada no acervo documental do Arquivo Histórico.

MR

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O nascimento da Ponte do Fandango

Era prefeito municipal o jovem advogado Liberato Salzano Vieira da Cunha e um dos grandes clamores da Cachoeira do Sul de seu tempo era a construção de uma ponte que transpusesse o Jacuí. Imbuído do objetivo de encontrar solução  para concretização deste anseio, Liberato Salzano embarcou para a capital federal, então a cidade do Rio de Janeiro, para tentar junto à Presidência da República meios de construir a ponte. No retorno da viagem, cheio de entusiasmo, o prefeito, que também era um dos diretores do Jornal do Povo , mereceu foto na primeira página e a manchete: Será Construida a Ponte Sôbre o Rio Jacuí .  Dr. Liberato S. Vieira da Cunha - MMEL Logo abaixo da manchete, a chamada:   Melhoria nas Condições de Navegabilidade no Mesmo Rio - Obtidas Verbas de Duzentos Mil Cruzeiros, Respectivamente Para a Construção de Uma Escola de Artes e Oficios Para as Obras da Casa da Criança Desamparada - Início da Construção das Casas Populares - Departamento de Fomento à ...

Série: Centenário do Château d'Eau - as esculturas

Dentre os muitos aspectos notáveis no Château d'Eau estão as esculturas de ninfas e Netuno. O conjunto escultórico, associado às colunas e outros detalhes que tornam o monumento único e marcante no imaginário e memória de todos, foi executado em Porto Alegre nas famosas oficinas de João Vicente Friedrichs. Château d'Eau - década de 1930 - Acervo Orlando Tischler Uma das ninfas do Château d'Eau - foto César Roos Netuno - foto Robispierre Giuliani Segundo Maria Júlia F. de Marsillac*, filha de João Vicente, com 15 anos o pai foi para a Alemanha estudar e lá se formou na Academia de Arte. Concluído o curso, o pai de João Vicente, Miguel Friedrichs, enviou-lhe uma quantia em dinheiro para que adquirisse material para a oficina que possuía em Porto Alegre. De posse dos recursos, João Vicente aproveitou para frequentar aulas de escultura, mosaico, galvanoplastia** e de adubos químicos, esquecendo de mandar notícias para a família. Com isto, Miguel Friedrichs pediu à polícia alemã...

A Ponte do Passo Geral do Jacuí

O Passo Geral do Jacuí, localizado a 30 km da cidade de Cachoeira do Sul, pela estrada de rodagem e, cerca de 40 km pelo leito do rio Jacuí, foi um dos caminhos de ligação entre Rio Pardo e a Região da Fronteira Oeste e Planalto, em tempos de paz e de Guerra Farroupilha. Terminada a Revolução Farroupilha, com a pacificação de Ponche Verde, a Província, governada por Caxias, volta-se para as obras e a prosperidade do Rio Grande do Sul. Em 8 de abril de 1846, por decreto, é apresentado o projeto para esse desenvolvimento e nele incluída a construção de uma ponte sobre o Passo Geral do Jacuí. Uma obra necessária e vital para agilizar a ligação entre os principais núcleos urbanos, servidos pelo rio Jacuí e a comercialização dos produtos e riquezas entre regiões Leste e Oeste da Província. Sua construção foi contratada pelo empreiteiro Ferminiano Pereira Soares, em 1848, pela quantia de 250 contos de réis, paga em seis prestações e num prazo contratual de cinco anos. (Ferminian...