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Série: 400 anos das Missões

São de autoria do historiador cachoeirense Aurélio Porto os volumes III, IV e V da publicação "Jesuítas no Sul do Brasil", uma obra referencial em seis volumes sobre a história das Missões e o trabalho de evangelização que os padres jesuítas procederam com os indígenas, organizada pelo Padre Luís Gonzaga Jaeger. 

Os volumes III e IV da publicação, que tratam da "História das Missões Orientais do Uruguai"*, são hoje considerados itens de colecionadores, tal a raridade. O Arquivo Histórico, por transferência de acervo feita pelo Museu Municipal, possui estes volumes e deles podem ser extraídas as primeiras observações sobre tão vasto e importante legado missioneiro que alcança os 400 anos de história. 

Os dois volumes que hoje integram o acervo bibliográfico do Arquivo Histórico foram impressos pela Livraria Selbach, de Selbach & Cia., em Porto Alegre, constituindo partes da segunda edição feita em 1954. Aurélio Porto já era então falecido. 

Volumes II e III de História das Missões Orientais do Uruguais, de Aurélio Porto

No prólogo do volume III, o organizador homenageia Aurélio Porto (Cachoeira do Sul, 25/1/1879 - Rio de Janeiro, 10/9/1945), ressaltando que "a sua volumosa História das Missões Orientais do Uruguai, publicada sob os auspícios do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional", foi a obra que lhe granjeou maior fama e que relegaria seu nome à posteridade.

Foto de Aurélio Porto estampa folha de rosto do vol. III

Originalmente, Aurélio Porto havia planejado dois volumes. O primeiro foi intitulado "O ciclo da civilização jesuítica das Missões" e o segundo "A arte na civilização jesuítica das Missões". Segundo o Padre Luís Gonzaga Jaeger, "desgraçadamente, o segundo volume ficou afogado no tinteiro, com apenas algumas notas esparsas e um auspicioso índice que prometia uma contribuição esplêndida e inédita para a cultura cívico-religiosa sul-americana." Esta segunda parte, afirmava o organizador, "não ficará esquecida, mas será estudada carinhosamente e dada à luz num futuro próximo, vindo constituir o V volume da série Jesuítas no Sul do Brasil". 

Por ocasião da primeira edição, feita entre 1941 e 1942, no prefácio assinado por Aurélio Porto, ele se reporta como fonte à "preciosa Coleção de Angelis, mal vislumbrada pelos historiadores que versaram sobre as Missões Jesuíticas" e que integrava a Seção de Manuscritos da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Pelas suas próprias palavras, diz que se revestiu "de coragem, de paciência e de tenacidade", atributos que lhe são característicos em seu trabalho historiográfico, sendo suas pesquisas comprovadamente baseadas em documentos exaustivamente analisados. 

E diz Aurélio Porto mais: "Não pretendemos fazer história e simplesmente nesta série de monografias sobre vários assuntos que se entrosam, enquanto não se divulgam mais amplos horizontes à pesquisa das nossas coisas, oferecer elementos ao futuro historiador." Aurélio Porto, portanto, preparou terreno para que outros pesquisadores avançassem no tema. E agora, no ensejo das comemorações dos 400 anos das Missões Jesuíticas, certamente serão divulgados os resultados de buscas que vêm sendo feitas a partir do que ele mesmo levantou e ofereceu como referência.

Em outro de seus trabalhos, o resumo histórico intitulado "Cachoeira" e publicado por Benjamin Camozato em seu álbum de 1922 (Grande Álbum de Cachoeira no Centenário da Independência do Brasil), diz Aurélio Porto sobre nossos primórdios: "Nasceramos fadados para a lucta. Foi do nosso territorio que os bandeirantes audazes, sob a chefia de Raposo, expulsaram os jesuitas castelhanos, em 1637, vindo até ás margens do Jacuhy plantar os marcos da soberania portugueza."

Ainda são raros estudos específicos sobre reduções no território em que hoje se situa Cachoeira, embora estivesse inserido na grande Estância de São Luiz Gonzaga (do segundo ciclo missioneiro) que, segundo Aurélio Porto, estendia-se "pela parte oriental e margem esquerda do rio Jacuí até o rio Taquari, costeando a linha dos ervais da serra do Botucaraí, limitando-se a Oeste com os campos da estância de São Miguel e ao Sul pelos das de São João e São Lourenço. Foi o P. João de Yegros e o índio Lourenço Abayebí que descobriram esses campos e os povoaram com gados trazidos das Vacarias do Mar."** 

Outros trabalhos recentes, como os dos pesquisadores Eduardo Baptistela e Tiago Luiz Janner, intitulado "A presença Jesuíta Missioneira na Quarta Colônia"***, seguido pelo "A presença Jesuíta Missioneira na Quarta Colônia e Região Central do RS", dos quais os mesmos autores são os organizadores, buscam levantar o que existia antes do estabelecimento definitivo dos portugueses nesta região que um dia integrou a grande Cachoeira, com artigos de vários autores. Dentre eles, o de Eugênio Birnfeld Moysés, pesquisador local que escreveu sobre "Origens do tipo social do gaúcho na região do Tape - uma perspectiva missioneira da Quarta Colônia e região Central do Rio Grande do Sul".

A série de postagens que ora se inicia pretende trazer documentos que façam referência às antigas Missões ou à existência de traços ligados a elas. Ainda há carência de provas materiais desta história, até porque a documentação oficial custodiada pelo Arquivo Histórico tem como marco inicial o ano de 1820. No entanto, existe um enorme potencial se um dia for procedida uma escavação na Aldeia, lugar de assentamento dos indígenas que foram trazidos das Missões e originou o que hoje é a zona urbana de Cachoeira do Sul. 

*As Missões Orientais do Uruguai referem-se aos sete povos das Missões, estabelecidos na banda oriental do rio Uruguai.

**"As Missões Orientais do Uruguai", vol. III, de Aurélio Porto, p. 328.

***Editora Rio das Letras, Santa Maria - RS, 2025.

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