Cachoeira deve sua conformação urbana ao estabelecimento de uma aldeia de indígenas catequizados pelos jesuítas espanhóis e localizada nas proximidades do rio Jacuí. Restam desse período nebuloso de nossa história, quando foram protagonistas os indígenas, pelo menos duas definitivas heranças que se conservam até hoje: o nome Aldeia, para o lugar do seu assentamento, e o nome Cachoeira, advindo do convívio diário com as pequenas quedas d'água que movimentavam o leito do Jacuí naqueles tempos.
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| Cachoeiras no Jacuí - MMEL |
Recuperar os nomes desses indígenas primitivos é tarefa quase impossível. No entanto, vez ou outra a documentação custodiada pelo Arquivo Histórico, cujo marco inicial é 5 de agosto de 1820, revela algumas pistas dos ocupantes da Aldeia.
Em 1850, quando o engenheiro João Martinho Buff foi contratado para elaborar o primeiro mapa de Cachoeira e solicitou a todos os proprietários que apresentassem os seus títulos de posse para a devida comprovação e elaboração de um cadastro, lá deixou registrado o que se referia à Aldeia.
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| Planta elaborada por João Martinho Buff - Acervo Museu Municipal |
Ao contrário da lógica de ocupação, o cadastro de Buff iniciou pelo levantamento dos terrenos existentes na importante Rua de Santo Antônio, atual Rua Saldanha Marinho, concluindo-o com as propriedades existentes na Aldeia, que é considerada hoje o núcleo urbano primitivo. Assim, a parte relativa ao aldeamento dos indígenas é colocada no final do cadastro de terrenos e ruas, constando apenas de seis propriedades marcadas pela numeração que vai de 417 a 422. Destes seis terrenos, apenas dois têm indicação dos proprietários, sendo que já eram compradores, ou seja, haviam adquirido os terrenos de outros.
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| Cadastro de João Martinho Buff (1850) - CM/S/SE/RCT-005, fl. 91 |
O terreno n.º 417 pertencia, em 1850, aos herdeiros de Joaquim dos Santos Xavier Marmello* que, por sua vez, o havia adquirido por compra ao índio Miguel Gomes. Tratava-se, conforme disposto no cadastro, de "uma chacrinha na Aldeia", comprovada a propriedade por "papel em 12/11/1812". Os terrenos seguintes, de números 418 e 419, estão sem anotação nenhuma. Os de números 420 e 421 contêm a anotação "ocupado por índios" e nada mais. O último, de número 422, pertencia a Joaquim Rodrigues Florencio e media 300 palmos de frente e 200 palmos de fundos, com a observação "de posse por compra". E com isto finda o cadastro organizado por Buff e tudo o que havia de documentação relativa às posses na Aldeia.
Se Buff registrou seis terrenos na Aldeia e apenas dois proprietários apresentaram seus documentos, é provável que os outros quatro estivessem demarcados, porém não havia meios de comprovar documentalmente suas posses. Ou estariam devolutos? Interessante também pensar que menos de 100 anos depois da sua ocupação (1769) a área da Aldeia estivesse reduzida a apenas seis terrenos de cerca de 300 palmos cada.
Como se vê, 400 anos de Missões produziram marcas significativas na história do Rio Grande do Sul, mas o processo de ocupação posterior foi capaz de esmaecer registros, apagar vestígios e desmerecer legados.



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