Em 17 de maio de 1865, a Câmara recebeu um requerimento do indígena João Isidoro Pinto, morador na Aldeia, pedindo título ou despacho que lhe garantisse a posse dos terrenos que ocupava. A Câmara resolveu conceder-lhe a posse, condição esta sujeita à mudança caso o entendimento do inspetor das aldeias fosse contrário.
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| CM/0F/A-006, sem paginação |
Outro do indio João Izidoro Pinto morador na aldeia desta cid.e pedindo titulo ou despaxo em q~ lhe fique garantida a posse dos terrenos q~ occupa, a Camara resolveo conceder-lhe a posse até q.~ o Inspector das Aldeias determine encontrario.
(Fim da transcrição do documento)
Estas situações devem ter sido vividas por muitos dos descendentes dos indígenas que habitavam a velha aldeia, cujos ancestrais foram ali instalados, porém, sem a titulação de suas posses.
No cadastro que acompanhava a planta da cidade da Cachoeira, elaborado por João Martinho Buff em 1850, constam apenas seis terrenos registrados na Aldeia: os de números 417 até 422. Destes, apenas o 420 e o 421 aparecem com a inscrição "ocupados por índios", sem citar quem eram estes elementos. O primeiro, de número 417, na época já estava registrado como vendido a herdeiros de Joaquim dos Santos Xavier Marmello, com escritura datada de 12 de janeiro de 1812.
Quem foi João Isidoro Pinto, também chamado de João Matias? Por aquelas coincidências, foi João Isidoro Pinto um dos poucos indígenas remanescentes dos habitantes originais da Aldeia, dos quais há informações para compor minimamente uma biografia. Conhecido na Vila da Cachoeira como "João Rabequista", esse indígena vivia de vender frutas de sua chácara na Aldeia. Mas quando não era tempo de frutas, buscava o sustento da família com sua rabeca, instrumento de cordas rudimentar, tocado com um arco, à semelhança do violino. Em razão disto, João Isidoro conquistou a alcunha de João Rabequista.
| João Rabequista - Imagem gerada com Gemini |
Nascido por volta de 1801, João Rabequista morreu com 100 anos, em 1901, conforme noticiou o jornal O Commercio:
(Início da transcrição do jornal O Commercio, edição de 13 de fevereiro de 1901, p. 2)
Macrobio
No dia 9 do actual deixou de existir nesta cidade, com um seculo de edade, o conhecidissimo indio João Mathias, vulgo João Rabequista por ser apaixonado amador deste instrumento e percorrer de vez em vez a via publica tocando-o, recebendo em paga um obulo das almas caridosas e compadecidas.
João Rabequista afirmava ter nascido em março de 1801 e dizia-se descendente de indios butucarys. Em 1840 estabeleceu-se em sua conhecida chacara na Aldeia, o mais antigo ou antes o primitivo arrabalde desta cidade, vivendo tambem ultimamente da venda das fructas que ali cultivava.
Até bem pouco tempo antes de fallecer andava muito regularmente, conservando a sua lucidez de espirito.
(Fim da transcrição do jornal)
Consta que João Rabequista tinha dois filhos, Adão e Eva. Em 1913, eles requereram à municipalidade a concessão de um terreno na Aldeia, do qual tinham a posse há longos anos e onde mantinham o rancho de moradia. Nesse lugar, Adão, também alcunhado como Adão Rabeca, seguiu o exemplo do pai e promovia saraus embalados pelo instrumento que certamente aprendera a tocar com ele.
Segundo artigo de Percílio Bandeira, publicado no jornal O Commercio de 30 de setembro de 1936, os saraus de Adão Rabeca eram tratados como fandangos, surgindo daí a denominação "Cachoeira do Fandango" à queda d'água que ficava nas proximidades do rancho do Adão. Histórias da velha Cachoeira, misto de realidade e ficção.
Mirian Ritzel


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