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A quarta substituição

Em um tempo em que as substituições de jogadores de futebol em partidas oficiais só poderia atingir o número de três, em Cachoeira do Sul aconteceu a ousadia de uma quarta. Vejamos como e quando aconteceu este fato inédito. A postagem foi sugerida pelo pesquisador Luís Cláudio Martins Pedroso, coordenador do Projeto Chuteira de Ouro.

O ano era 1996. O Grêmio Esportivo São José, de Cachoeira do Sul, disputava a "Segundona" do Campeonato Gaúcho de Futebol, nome popular da Divisão de Acesso, ou seja, o trampolim para a Série A, campeonato anual em que participam os melhores times do futebol gaúcho.

Escudo do Grêmio Esportivo São José - Imagem Pinterest

No domingo, 4 de agosto de 1996, o São José enfrentou e venceu, por 2 x 0, o Esporte Clube Pinheiros, de Taquari, chegando ao terceiro lugar na chave Centro/Sul da Segundona. Até aí tudo bem. No entanto, um fato inusitado pôs em cheque a vitória do "Zequinha" que, com aquele resultado, recuperava-se de uma derrota e um empate nos jogos anteriores. 

Os dois gols do São José foram marcados nos primeiros oito minutos do jogo. Um pênalti perdido pelo autor dos dois gols, no início do segundo tempo, impediu a ampliação do placar. Deste instante em diante, houve um "festival de cartões amarelos e substituições", como escreveu a repórter do Jornal do Povo, Viviane Souza, na matéria publicada na edição de 6 de agosto. Foram seis para o São José e cinco para o Pinheiros. 

E o problema esteve justamente nas substituições. Nos últimos 25 minutos do segundo tempo, o técnico Ivo Amaral fez quatro mudanças no time, colocando em campo os jogadores Renato, que substituiu Lêla, Canhão, no lugar de Marcelo Cé, Paulo César, em substituição a Marcelo Gaúcho, e Aquiles em troca com Valduíno no último minuto do segundo tempo.

O Esporte Clube Pinheiros questionou a quarta substituição feita pelo técnico do Zequinha e encaminhou reclamação à Federação Gaúcha de Futebol, solicitando reavaliação do resultado do jogo no Estádio Joaquim Vidal. A regra das três substituições oficiais vigorou até maio de 2020, ou seja, não havia como realizar uma quarta substituição sem infringir as normas futebolísticas. Com a ocorrência da pandemia, a FIFA introduziu alteração temporária deste número para cinco, o que foi definitivamente adotado em 1.º de julho de 2022, ou seja, depois de 26 anos.

O imbróglio foi grande. Em 7 de agosto, o Jornal do Povo repercutiu a decisão da Federação Gaúcha de Futebol:

Jornal do Povo, 7/8/1996, p. 12
                                                         
(Início da transcrição do Jornal do Povo, 7/8/199, p. 12)

Federação tira cinco pontos do São José

A punição se deve ao excesso de substituições feitas no domingo. Diretoria ameaça tirar clube da competição.

Em cumprimento ao ato administrativo expedido na tarde de ontem, a Federação Gaúcha de Futebol retirou cinco dos 11 pontos somados pelo Grêmio Esportivo São José durante a 2.ª fase da segundona/96, como punição pelo excesso de substituições efetuadas pelo treinador Ivo Amaral, durante o jogo do último domingo frente ao Esporte Clube Pinheiros. A decisão, comunicada ontem ao presidente do clube cachoeirense, Áureo Marques, pode, entretanto, ser alterada, através de julgamento da Justiça Desportiva. Esta será a única chance para o São José explicar a opção pela quarta mudança na equipe (quando o máximo permitido pelo regulamento são três alterações) e tentar reaver a pontuação, que, uma vez definitivamente reduzida, deixará o time na vice-lanterna da chave centro/sul.

O processo já foi encaminhado pelo presidente da federação, Emídio Perondi, ao Tribunal de Justiça Desportiva, que de acordo com a secretária Marilene Santos, não terá competência para julgá-lo. A probabilidade, explicou a funcionária do TJD, é de que o caso seja remetido ao Superior Tribunal de Justiça Desportiva, no Rio de Janeiro. No início da tarde, dirigentes do São José haviam anunciado que o julgamento do caso deveria acontecer amanhã à noite. Conforme informou o diretor de futebol do GESJ, Renato Sartório, ontem mesmo, ao saber da retirada dos pontos, a diretoria pediu à Federação a dispensa do clube do campeonato, o que acabou sendo repensado com a chance do julgamento. O São José, segundo Áureo Marques, terá a seu favor o depoimento do árbitro da partida, João Lúcio de Souza, que teria autorizado a quarta substituição (feita aos 45 minutos do segundo tempo ...),  e estaria disposto a ratificar sua decisão perante a diretoria da FGF. Os representantes do time local recorrerão ainda a outros testemunhos, com o intuito de dirigir a responsabilidade pela infração à arbitragem da partida.

Caso a retirada dos pontos seja mantida, adiantou o diretor Renato Sartório, a diretoria do Zequinha automaticamente se afastará da competição. A irregularidade foi trazida à tona na última segunda-feira pela diretoria do Esporte Clube Pinheiros, cuja equipe foi derrotada pelo São José por 2x0 no domingo. O treinador do clube de Taquari, José Luís Soares, se encarregou de formalizar a denúncia à Federação e de mobilizar as direções dos demais clubes que integram a chave centro/sul, como forma de pressionar por uma punição ao time tricolor.

REPERCUSSÃO

Ivo Amaral (treinador do São José)

A quarta substituição foi autorizada pelo trio de arbitragem, a quem o treinador afirmou ter consultado antes de proceder a entrada de Aquiles, aos 45 min do 2.º tempo. Para Amaral, o clube foi induzido a cometer a irregularidade.

José Lúcio de Souza (árbitro da partida)

"Fiquem tranqüilos", disse o juiz em telefonema ao presidente do São José, Áureo Marques, ressaltando que já havia entrado em contato com o secretário executivo da Federação, Edir de Quadros, pedindo uma saída justa para o clube neste caso. O árbitro afirmou em entrevista à emissora de rádio local, que a quarta mudança foi resultado de uma confusão gerada pela nova determinação da FIFA.

José Luís Barreto (diretor de árbitros da Federação)

Disse que não restou dúvida aos árbitros quanto as novas orientações. Ratificou o número de três alterações e disse que até mesmo o árbitro da partida pode ser punido pela autorização da quarta mudança. Independente disso, ressaltou, o time corre o risco de ser prejudicado, já que seus dirigentes "tem obrigação de saber das normas".

Ari Brites (representante da Federação Gaúcha de Futebol em Cachoeira)

Em virtude do recebimento de cinco formulários para substituições, disse ter consultado o árbitro João Lúcio de Souza, que confirmou a possibilidade de cinco alterações. Na segunda, Brites encaminhou um relatório ao presidente da Federação, Emídio Perondi, onde relata esta história e sugere a isenção da responsabilidade do São José.

Renato Sartório (diretor de futebol do São José)

Disse que a comissão técnica do clube não estava de má fé e agiu de acordo com a orientação recebida pela arbitragem. A responsabilidade, explica, é do juiz João Lúcio de Souza.

DECISÃO

O Tribunal de Justiça Desportiva diz que o processo não é de sua competência por se tratar de uma infração ao artigo 301 do Código Brasileiro de Disciplina do Futebol.

O QUE PREVÊ O ARTIGO 301

"Incluir em sua equipe atleta que não tenha condições de jogo". Pena: Perda de cinco pontos, imposta pelo órgão administrativo (Federação Gaúcha de Futebol), na contagem geral obtida no torneio.

Arbitragem induziu ao erro

O técnico do São José, Ivo Amaral, que é responsável por uma das melhores campanhas da equipe desde a sua estréia no profissional, em março de 93, diz que foi induzido a cometer a infração, ao receber a orientação equivocada da arbitragem. O Zequinha foi campeão invicto da 1.ª fase da segundona/96 com 19 pontos, três a frente do segundo colocado, o Pinheiros. Na segunda fase, que teve início no dia 9 de junho, o histórico do GESJ é de três derrotas, dois empates e três vitórias, nos oito jogos disputados, que culminam no somatório de 11 pontos.

(Fim da transcrição do Jornal do Povo)

O Grêmio Esportivo São José, enquanto aguardava a decisão final da justiça desportiva, seguiu competindo por uma das quatro vagas para a próxima fase daquela Segundona.

O jornal Correio Popular, que também deu ampla cobertura ao fato, noticiou na sua edição de 8 de agosto que o "São José recorrerá ao STJD para anular punição. Clube cachoeirense foi penalizado com a perda de cinco pontos e caiu para a penúltima colocação".

Na matéria, estampou a fotografia do time do Grêmio Esportivo São José:

Jornal Correio Popular, 8/8/1996, p. 8

Na mesma página, a repercussão da quarta substituição na coluna "Em cima do lance", assinada por Hilton Mazarém:

(Início da transcrição do jornal Correio Popular, de 8/8/1996, p. 8)

EM CIMA DO LANCE

E agora?
O que ninguém esperava, e muito menos acreditava, está ocorrendo com o Grêmio Esportivo São José. A quarta substituição, feita quase ao final do jogo, quando o placar já estava definido, gerou uma polêmica tão grande, a ponto de o presidente da Federação Gaúcha de Futebol, Emídio Perondi, baixar um ato administrativo punindo o time cachoeirense com a perda de cinco pontos, o que o coloca na penúltima colocação na tabela. O departamento jurídico foi acionado já na terça-feira, e o caso com certeza vai parar no Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD). Para quem não lembra, já na Justiça, o GE São José foi derrotado, no malfadado caso Veranópolis, o que tirou o time cachoeirense da disputa pela classificação para a final da Segundona Gaúcha em 1993.

(Fim da transcrição do jornal Correio Popular)

A sequência de jogos no campeonato foi desfavorável ao time cachoeirense. Em 30 de agosto, o Jornal do Povo noticiou: "São José desiste dos cinco pontos e não classifica." A diretoria decidiu definitivamente que estava fora da disputa da Segundona/96. A desclassificação foi confirmada com o cancelamento do recurso que o clube apresentara à Federação Gaúcha de Futebol, em virtude da quarta substituição feita no jogo contra o Pinheiros, de Taquari.

O jornal Correio Popular, na edição de 31 de agosto, a respeito da desistência do recurso apresentado à Federação Gaúcha de Futebol pelo São José, na mesma coluna "Em cima do lance", afirmou: "A medida foi por absoluta falta de dinheiro. Essa precariedade também está dificultando as rescisões de contratos com os jogadores que não são da cidade."

Qual teria sido o desfecho da Segundona de 1996 caso não tivesse acontecido o imbróglio da quarta substituição? Quem sabe o São José teria conquistado o título, alcançado a primeira divisão e mudado o rumo da sua história...

Mirian Ritzel

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