Romeu e Julieta, do escritor inglês William Shakespeare, é uma peça teatral que trata do romance de dois jovens oriundos de famílias inimigas e que tem um desfecho trágico. A peça foi escrita entre os anos de 1591 e 1595 e consegue se manter atraente através dos séculos.
Encenada nos palcos de todo mundo, Romeu e Julieta também ganhou as telas de cinema a partir de 1901, que consta ser o ano da primeira versão cinematográfica em curta metragem, dirigida pelo francês Georges Méliès. Nos próximos anos daquela primeira década dos 1900, surgiram outras versões, sendo muito provavelmente uma delas exibida na Cachoeira de 1912.
Atraía muito público naquela época, em Cachoeira, o Cinema Familiar, empreendimento que havia sido inaugurado em 1910 pelos irmãos Pohlmann: José Albino e Renoardo. Com a saída de Renoardo da sociedade familiar, entrou como sócio de José Albino Pohlmann o cidadão Felipe Moser.
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| Cinema Familiar - 1910 - Fototeca Museu Municipal - aperfeiçoado com IA por Renato Thomsen |
Pois foi justamente o filme Romeu e Julieta que causou um dos maiores públicos do Cinema Familiar, conforme noticiou o jornal O Commercio, em sua edição do dia 28 de agosto de 1912:
(Início da transcrição do jornal O Commercio, 28/8/1912, p. 1)
Cinema Familiar. - A tragedia de amor - Romeu e Julieta - levou, á noite de domingo ultimo, um extraordinario numero de espectadores ao recinto deste agradavel centro de diversões, da empresa Pohlmann & Moser.
Não obstante estar muito ampliado, depois das ultimas reformas, podendo conter mais de 700 pessôas, o Familiar tornou-se pequeno para a onda de povo que o invadiu afim de apreciar a grandiosa tragedia de Shakespeare, architectada sobre um facto historico.
O longo argumento, occupando quasi duas paginas do programma, intercalado de primorosos versos do imaginoso e ardente poeta Olavo Bilac, dava uma ideia do emocionante enredo da bella peça, rigorosamente enscenada com os trajes daquella época, pela acreditada casa Pathé Fréres*.
E a exhibição da longa fita colorida, dividida em 2 partes e de 1.000 metros de extenção, correspondeu plenamente á espectativa, tal o consciencioso desempenho que deram-lhe os artistas contractados pela fabrica.
As outras fitas exhibidas foram: Exequias das victimas da grande catastrophe do couraçado Liberté, natural; D. Babilau gosta de animaes e Little Moritz faz-se musculoso, comicas; Romance do ladrão de caça, dramatica.
- Amanhã, quinta-feira, haverá espectaculo com attrahente programma, sendo, a pedido geral, repetida a grandiosa fita Romeu e Julieta, digna de ser apreciada.
(Fim da transcrição do jornal)
A notícia refere que o longo argumento constante do programa da peça Romeu e Julieta era intercalado por versos do poeta Olavo Bilac. De fato, Bilac traduziu e adaptou trechos da peça de Shakespeare. Muito provavelmente o programa da exibição feita no Cinema Familiar continha um dos mais conhecidos poemas de Olavo Bilac relacionados à tragédia escrita por Shakespeare: A canção de Romeu, publicada originalmente na sua obra Poesias, cuja primeira edição era de 1888.
A canção de Romeu
de Olavo Bilac
Abre a janela... acorda!
Que eu, só por te acordar,
Vou pulsando a guitarra, corda a corda,
Ao luar!
As estrelas surgiram
Todas: e o limpo véu,
Como lírios alvíssimos, cobriram
Do céu.
De todas a mais bela
Não veio inda, porém:
Falta uma estrela... És tu! Abre a janela,
E vem!
A alva cortina ansiosa
Do leito entreabre; e, ao chão
Saltando, o ouvido presta à harmoniosa
Canção.
Solta os cabelos cheios
De aroma: e seminus,
Surjam formosos, trêmulos, teus seios
À luz.
Repousa o espaço mudo;
Nem uma aragem, vês?
Tudo é silêncio, tudo calma, tudo
Mudez.
Abre a janela, acorda!
Que eu, só por te acordar,
Vou pulsando a guitarra corda a corda,
Ao luar!
Que puro céu! que pura
Noite! nem um rumor..
Só a guitarra em minhas mãos murmura:
Amor!...
Não foi o vento brando
Que ouviste soar aqui:
É o choro da guitarra, perguntando
Por ti.
Não foi a ave que ouviste
Chilrando no jardim:
É a guitarra que geme e trila triste
Assim.
Vem, que esta voz secreta
É o canto de Romeu!
Acorda! quem te chama, Julieta,
Sou eu!
Porém... Ó cotovia,
Silêncio! a aurora, em véus
De névoa e rosas, não desdobre o dia
Nos céus...
Silêncio! que ela acorda...
Já fulge o seu olhar...
Adormeça a guitarra, corda a corda,
Ao luar!
*A Pathé Fréres era uma empresa francesa de cinema, fundada pelos irmãos Pathé em 1896.

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