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1.º de Maio - Dia do Trabalho

Não passará despercebido entre nós o dia de hoje, o popular 1.º de maio, consagrado por todos os operarios do mundo civilizado á glorificação do trabalho.
As dignas sociedades "Liga Operaria Internacional Cachoeirense e Beneficente 1.º de Maio" festejal-o-ão devidamente, bem como a laboriosa classe operaria desta cidade.


A nota acima, extraída da edição do jornal O Commercio do dia 1.º de maio de 1901, dá mostras de que Cachoeira, então com duas entidades ligadas aos trabalhadores, não deixava passar em branco o Dia do Trabalho. A Sociedade Beneficente Liga Operária Cachoeirense foi fundada em 1.º de novembro de 1897 e a União Operária 1.º de Maio em 25 de fevereiro de 1900; ambas possuíam, em seu quadro de associados, trabalhadores oriundos de diferentes categorias, como indústria, comércio, profissionais liberais, pequenos proprietários, advogados, médicos, militares.


Maestro Roberto Silva
- fundador e 1.º presidente da Liga Operária Internacional Cachoeirense
- gentileza Sérgio  M. da Silva Pacheco

Um livro de contribuições de sócios da Sociedade Beneficente União Operária 1.º de Maio, com registros a partir de 1910, doado ao Arquivo Histórico, confirma a natureza diversa dos associados, verificando-se na listagem, além de operários, nomes de comerciantes, médicos, farmacêuticos, criadores, bancários e outros.

Livro de contribuições de sócios da Sociedade Beneficente União Operária 1.º de Maio
-  acervo Arquivos Particulares do Arquivo Histórico - 

Segundo Ícaro Bittencourt, em seu trabalho O Mutualismo Operário em Cachoeira (1897-1923): o Caso das Sociedades Beneficentes Liga Operária Cachoeirense e União Operária 1.º de Maio*, UFSM, Santa Maria, 2008, as comemorações do 1.º de Maio em Cachoeira começaram em 1899, ano em que a Liga Operária instituiu em ata a celebração da data com festividades. No ano seguinte, o jornal O Commercio registrou que a classe operária da cidade não deixou passar despercebido o tradicional 1.º de Maio, dando a entender que se tratava de comemoração levada a efeito com regularidade. Segundo a análise de Ícaro, a nota publicada em 1901 fornece elementos interessantes para a percepção da representação da data na Cachoeira do início do século XX, quando em outras cidades as manifestações já começavam a se revestir do propósito de protesto e contestação das condições dos operários:

(...) a partir do adjetivo "popular" é destacado o caráter de aceitação da data entre a sociedade cachoeirense além de, com ele, retirar o caráter classista do dia. Corroborando também essa noção, está a expressão que afirma ser o 1.º de Maio "consagrado à glorificação do trabalho", atribuindo-se a este uma sacralidade, afastando-se da realidade histórico-cultural de exploração. Além disso, os adjetivos "civilizado" e "dignas" e o advérbio "devidamente" representam os horizontes de conduta a serem seguidos pelos operários. A palavra "devidamente" provavelmente indica a comemoração como festa e não como protesto, como acontecia em outras cidades do Rio Grande do Sul e do Brasil nesses anos, ou seja, quem não comemorasse a data devidamente não era integrante do "mundo civilizado". Também a expressão classe operária é adjetivada como "laboriosa", podendo indicar que existissem, dentro da compreensão do jornal, operários que não trabalhassem ou que, provavelmente, fossem desordeiros.

Os tempos mudaram, as classes operárias se fortaleceram, especialmente com a legislação que ora rege o mundo do trabalho e, na esteira disto, as relações entre patrões e empregados passaram por diferentes momentos. Contudo, ambas as entidades operárias de Cachoeira - a Sociedade Beneficente Liga Operária Cachoeirense, com sede na Rua Saldanha Marinho, e a União Operária 1.º de Maio, com sede na Rua Andrade Neves, seguem como bastiões de uma história que teima em subsistir.

*Ícaro Bittencourt utilizou-se da coleção de O Commercio para subsidiar sua pesquisa.

(MR)

Comentários

  1. Maestro Roberto Francisco da Silva, casado com Clarice Silveira da Silva,pai de Alcidia da Silva Ghignatti avô de Coralia Ghignatti Mendes, minha mãe,eu Maria Clarice Mendes meu bisavô

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