sábado, 20 de maio de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Renúncia do Intendente de Cachoeira

Corria o ano de 1912. Em julho, pelas eleições, o Coronel Isidoro Neves da Fontoura, concluindo mandato iniciado em 1908 à frente da Intendência, tinha o apoio do Partido Republicano para seguir no comando da administração municipal. E assim foi eleito. Mas desavenças políticas entre ele e o presidente do Partido Republicano Rio-Grandense, Dr. Antônio Augusto Borges de Medeiros, fizeram-no recusar o cargo para o qual havia sido reeleito.

Em carta enviada ao Conselho Municipal (correspondente, à época, da Câmara de Vereadores) o Coronel Isidoro Neves justificou o porquê de não ter assumido as funções de intendente:


Isidoro Neves (penúltimo) dentre membros do Partido Republicano cachoeirense
- fototeca Museu Municipal
Ata da eleição do Cel. Isidoro Neves - 20/7/1912
- IM/CM/AE-Atas - Cx. 2

Srs. MEMBROS DO CONSELHO MUNICIPAL

Tenho a subida honra de comunicar-vos que renuncio hoje ao cargo de Intendente Municipal, cargo este que eu devera desempenhar durante o periodo de 20 de Setembro deste anno a 20 de Setembro do anno de 1916, de accôrdo com a eleição effectuada a 20 de Julho do corrente anno, se não fôra o meu precario estado de saúde.

Cachoeira, 21 de Outubro de 1912.

(ass.) I. Neves da Fontoura


Carta de Isidoro renunciando ao cargo de intendente
- 20/10/1912 - IM

Seu sucessor deveria ser o Dr. Balthazar de Bem, que também recusou assumir a Intendência, recaindo sobre o Dr. Alfredo Xavier da Cunha o compromisso de gerir os negócios municipais.

A imprensa de Porto Alegre, pelo jornal Correio do Povo, publicou o seguinte a respeito do fato, notícia reproduzida na edição d'O Commercio do dia 11 de setembro de 1912:

Politica da Cachoeira
A proposito da desintelligencia que sobre a politica local houve, em dias da semana finda, entre os srs. dr. Borges de Medeiros e coronel Izidoro Neves, o filho deste ultimo, sr. dr. João Neves da Fontoura, correspondente telegraphico do Correio do Povo, nesta cidade, passou áquella folha os telegrammas que abaixo estampamos:

Cachoeira, 3. - O coronel Izidoro Neves da Fontoura telegraphou ao dr. Borges de Medeiros, renunciando, irrevogavelmente, a chefia do partido republicano local e communicando ter passado o governo municipal ao seu substituto legal, dr. Balthazar de Bem.
Este, não querendo assumir a referida investidura, officiou ao segundo substituto, capitão Alfredo Cunha.
Sei que o coronel Izidoro reunirá, depois d'amanhã, o Conselho Municipal, afim de renunciar o cargo de intendente, e não assumirá o mesmo cargo, no proximo quatriennio para o qual já foi eleito, em hypothese alguma.
Consta que o coronel Izidoro abandonará definitivamente a politica.
- Posso affirmar que estão rompidas as relações politicas entre o dr. Borges de Medeiros, chefe do partido republicano, e o coronel Izidoro. 
Taes relações politicas datam desde a ultima decada da monarchia, e em que ambos pertenceram ao club republicano 6 de Novembro e juntos percorreram este municipio, disputando pleitos, como o do vereador republicano Antonio Nelson da Cunha, que saiu victorioso das urnas e outros.

Cachoeira, 4. - O Rio Grande, orgam do partido republicano local, assim explica o motivo do rompimento entre o coronel Izidoro Neves da Fontoura e o dr. Borges de Medeiros, chefe do partido republicano:
"Por motivos que affectam á sua autoridade, o coronel Izidoro Neves da Fontoura passou, hontem, ao seu substituto legal, a administração do municipio.
Na mesma data, o coronel Izidoro Neves deixou a direcção do partido republicano local e renunciará, hoje, perante o Conselho Municipal, ao seu mandato intendencial.
Tendo o dr. Balthazar de Bem, vice-intendente, se recusado a acceitar a investidura, assumiu o cargo de intendente o capitão Alfredo Xavier da Cunha, sub-intendente da séde.
Hontem, á noite, o dr. Borges de Medeiros telegraphou ao coronel Izidoro concitando-o a manter-se em suas posições.
O coronel Izidoro respondeu dizendo, mais uma vez, ser irrevogavel a sua resolução.
A' residencia do coronel Izidoro tem affluido grande numero de pessoas amigas, que o interrogam sobre os motivos da sua resolução.



Residência do Cel. Isidoro Neves - Rua 7 de Setembro - fototeca Museu Municipal

S. s. respondeu dizendo ter sido desconsiderado por seu velho amigo dr. Borges de Medeiros.
O sub-intendente da séde sómente assumiu o governo municipal a conselho do coronel Izidoro, afim de não ficar a administração acephala, e de não serem creadas difficuldades na vida do municipio.
O capitão Alfredo Cunha convocou o Conselho Municipal a se reunir, amanhã, em sessão extraordinaria, para receber a renuncia do coronel Izidoro.
Este tem recebido, de todo o municipio, muitos protestos de solidariedade, entre os quaes se conta um do coronel Horacio Borges, tio do dr. Borges de Medeiros, e que é a maior influencia politica do interior do municipio.

No dia seguinte, 5 de setembro, o Conselho Municipal foi reunido e o Coronel Isidoro Neves apresentou a sua renúncia, que foi aceita. O conselheiro Arlindo Leal pediu a palavra, dizendo que a renúncia vinha ocasionar uma crise politica no seio do partido republicano local, fazendo votos pela continuação da concórdia da família republicana, no que foi apartado pelo conselheiro Horacio Borges, que disse ser impossivel evitar a discordia no seio do partido. O conselheiro tenente-coronel Antonio Antunes de Araujo declarou que fiel aos seus principios, a situação actual não modificaria o seu procedimento, continuando a stygmatisar a situação dissolvente da politica nacional, em que ambiciosos sem idéas assaltaram as altas posições do poder nacional constituindo-se em um complot. Si a sua posição de retraimento soffresse uma solução de continuidade no caso local, só aconteceria na hypothese do successor do coronel Izidoro ser um homem com o seu pensar e com as suas idéas. Assim pensava desde que teve a necessidade de ir á praça publica, fazer um meeting de protesto contra essa anarchisada ordem de cousas.

Feitos os pronunciamentos, Alfredo Cunha tomou posto do cargo de vice-intendente em exercício e oficiou ao presidente do estado, Dr. Carlos Barbosa, dando-lhe ciência da posse. Concluiu dizendo: Serei nos poucos dias de governo um fiel cumpridor da lei e servidor leal de s. exe.

Alfredo Xavier da Cunha - fototeca Museu Municipal

Alfredo Xavier da Cunha administrou o município por pouco tempo. Em 20 de setembro de 1912, no salão principal da Intendência Municipal, segundo relata o jornal O Commercio, de 23 de setembro daquele ano, com a presença de co-religionarios e amigos, e dos conselheiros municipaes srs. coronel Manoel de Carvalho Prates, majores Felippe Moser e Paulino Breton, Pedro Stringuini e Emilio Barz teve lugar, á noite de ante-hontem, a posse do vice-intendente nomeado, sr. coronel Horacio Borges.  Paulino Breton, presidente do Conselho, fez o Coronel Horacio Borges pronunciar as palavras usuais da posse, tendo sido lavrada uma ata. Depois houve pronunciamento do secretário do município, Odon Cavalcanti. O jornal concluiu a notícia dizendo:

- Em virtude da renuncia do coronel Isidoro Neves, o coronel Horacio administrará o municipio até que seja eleito e empossado o novo intendente, cuja eleição, ao que sabemos, realizar-se-á no dia 25 de Novembro proximo, o mesmo que está fixado para a eleição do futuro presidente do Estado.

Cel. Horácio Borges - fototeca Museu Municipal

Isidoro Neves honrou sua palavra: nunca mais voltou à política, embora tenha deixado como herdeiro político o seu filho João Neves da Fontoura que, anos mais tarde, por aconselhamento do próprio Borges de Medeiros, assumiu a intendência de Cachoeira...

A história prova que o passado se repete. Por isto é preciso sempre - e cada vez mais - a sociedade inteirar-se de sua história e reconhecer nos fatos, mesmo que pareçam novidades, os traços indeléveis que carregam de ações pretéritas.

(MR)

2 comentários:

Suzana Saldanha disse...

Muito interessante! Será que entendi? O Alfredo Cunha oficiou ao Presidente do Estado, Dr. Carlos Barbosa. Os motivos da desavença do Cel. Isidoro com AABM, Presidente do PRR, não ficaram claros pois este solicitou que Isidoro se mantivesse na posição e seu filho João Neves esteve sempre ao lado de AABM. Artimanhas devem ter sido criadas. Como e porque o Dr. Carlos Barbosa nomeou o Cel Horácio Borges? É verdade que a história sempre se repete e mesmo assim a sociedade não aprende!!!

Mirian Ritzel disse...

Pois é, Suzana. A verdadeira história da desavença ficou escondida em algum escaninho...

Postar um comentário