Pular para o conteúdo principal

Pontes na Ferreira, problemas de hoje e de sempre!

O século XXI corre célere, mas problemas que pelo adiantamento das técnicas hoje oferecidas já não deveriam mais causar transtornos teimam em reincidir!  Um deles é o caso de uma ponte na Ferreira, na Estrada VRS-809, cuja solução de mais um desmoronamento está a causar dores de cabeça aos gestores e, principalmente, aos moradores daquela localidade. 

Mas havia outra ponte que em 1857 tinha sido destruída por uma poderosa enchente e que estava a causar dores de cabeça às autoridades. No início da década de 1860, a Câmara Municipal andava às voltas com a reconstrução dessa ponte e uma correspondência remetida ao presidente da Província, Dr. Esperidião Eloy de Barros Pimentel, em 16 de janeiro de 1863, dá mostras do quanto este tipo de obra demandava ações que esbarravam em todo tipo de problema, desde a burocracia da época, os recursos, sempre escassos, e até o imponderável. 

Depois de processo de abertura de edital público para apresentação de propostas de empreiteiros, galgou a condição de  concorrente a de Manoel Pires dos Santos Jacuhy, cujo cumprimento das exigências tornou-se difícil em razão do que era proposto aos fiadores. Mas eis que, além das dificuldades, o imponderável também aconteceu: o falecimento do pretendente. Em consequência disso, a presidência da Província havia mandado afixar novos editais de concorrência em todos os distritos, porém os que apareceram não se dispunham a depender da Contadoria Provincial, sempre morosa nos pagamentos, além de calcarem suas incertezas na experiência do que Manoel Jacuhy havia vivido. Assim, diante do recebimento de uma nova proposta, aparentemente mais vantajosa que a anterior, a Câmara oficiou ao presidente da Província recomendando-a:

Illmo. Exmmo. Snr. A Camara Municipal da cidade da Cachoeira, tendo recebido em seu devido tempo o officio de VExcia, sob N 21 de 21 de Agosto do anno proximo passado, autorisando-a a receber as propostas que se lhe appresentassem para a factura da ponte no arroio da Ferreira, visto ter ficado de nenhum effeito a proposta apesentada por Manoel Pires dos Santos Jacuhy; em consequencia do fallecimento d'este mandou fixar editaes em todos os districtos convocando concorrentes para a factura da referida obra. Com effeito alguns pretendentes aparecerão, mas desde que tinhão de luctar para a realisação do contracto, visto como é aqui sabido que não foi elle effectuado com o finado Jacuhy, não obstante apresentar elle dous fiadores idoneos, por lhe ter sido exigido uma justificação dos bens que possuião os ditos fiadores, e uma certidão do cartorio do registro geral das hypothecas de que aquelles bens se não achavão hypothecados. Agora porém, apresentou Santiago Ferrari a proposta que a Camara tem a honra de passar as mãos de VExcia, offerecendo faser a ponte pela quantia de seis contos de reis, substituindo a parte que deve ser de madeira por pedra e tijolo. A Camara é obrigada a enformar a VExcia que julga esta proposta mais vantajosa do que qualquer que lhe fosse apresentada de conformidade com o orçamento, por que a pequena differença de seis contos e tantos mil reis é sobejamente indemnisada com o trabalho e despesas que lhe vão accrescer. Pelo convencimento que tem a Camara das habilitações do proponente não hesita em informar a VExcia da vantagem que entende colherá este Municipio, bem como o transito publico em aceitação d'esta proposta, não duvidando mesmo entrar com o dinheiro de seus cofres, que fôr preciso para [?] excesso da quantia por que foi arcada, se VExcia assim o determinar. E para evitar as defficuldades da arrematação que acima ponderou, espera que VExcia a autorise a faser o contracto da referida ponte, e a fiscalisar a obra até a sua conclusão, ficando VExcia certo que esta Camara envidará todos os seus esforços para que a obra seja feita com a maior solidez e perfeição. Ds Gde a VExcia. Paço da Camara Municipal 16 de Janeiro de 1863. (ass.) Jacintho Franco de Godoy, Ferminiano Pereira Soares, Jose Costodio Coelho Jr, Antonio Gomes Pereira, Policarpo Pereira da Silva, Felisbino Ignacio Soares. (CM/S/SE/RE-002, fls. 287 e 287v). 

Livro da Secretaria da Câmara com registro de expedidos
- CM/S/SE/RE-002, fl. 287
A resposta do Presidente da Província à consulta e recomendação feitas pela Câmara a respeito da proposta de Santiago Ferrari foi negativa, tendo em vista o estádo dos Cofres Provinciaes (...) e que em vista disso não pode a mma. Presidencia por taes considerações annuir que seja levada a effeito a arrematação da dita ponte. (CM/S/SE/RE-002, fl. 291).

E esta história de 1863 se repetiu muitas e muitas vezes, como se vê agora em pleno 2018, quando outra necessária e reclamada ponte clama por consertos ou reconstrução.

O tempo, que é inexorável, deveria ser acompanhado em sua marcha pela capacidade de resolução.

Nota: Agradecimento ao arquiteto Osni Schroeder por indicação correta da ponte que o documento acima referido cita.

MR

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Bar América - plantas no acervo do Arquivo Histórico

A notícia de obras de recuperação e melhoria do Bar América para nele ser instalada a futura Secretaria Municipal da Cultura faz renascer a esperança de ver aquela parte nobre da Praça José Bonifácio revitalizada e, ao mesmo tempo, viabilizar espaço e melhores condições à valiosíssima área cultural do município.  A história do Bar América remonta ao ano de 1943, quando a imprensa noticiou que a Prefeitura Municipal pretendia construir um quiosque-bar na Praça José Bonifácio. Assim noticiou o jornal O Comércio , de 17 de março daquele ano: A Praça José Bonifácio será dotada de um quiosque-bar Faz parte do programa de reforma da cidade, desde o calçamento das principais ruas, a construção de um quiosque-bar na Praça José Bonifácio. De tempos em tempos, o nosso Governo Municipal faz publicar editais de concurrencia publica para a construção e exploração de um bar naquele local, mas estes não apareciam. Agora, foi posta em fóco novamente a questão e apresentou-se um único candidato, que en

Inauguração das Casas Pernambucanas

A notícia veiculada na imprensa de que em breve as Casas Pernambucanas voltarão a abrir as portas em Cachoeira do Sul despertou a curiosidade e o interesse de buscar informações sobre a instalação da primeira filial dessa popular casa comercial na cidade. Vem do Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico a resposta. O Commercio , 24/6/1931, p. 1 Folheando as páginas dos jornais O Commercio  e Jornal do Povo  da década de 1930 e partindo da notícia da inauguração da segunda loja das Casas Pernambucanas em Cachoeira, ocorrida em setembro de 1936, uma rápida volta no tempo levou ao dia 8 de julho de 1931: O Commercio, 8/7/1931, p. 1 Casas Pernambucanas. - Com a presença de exmas. sras., senhoritas e cavalheiros, representantes das autoridades do municipio e da imprensa local, foi inaugurada, ás 10 horas da manhã de quarta-feira ultima, no predio da rua Julio de Castilhos n.º 159, a Filial das Casas Pernambucanas, cuja gerencia está a cargo do sr. José Aquino, muito conhecido e relacionado ne

A Ponte do Passo Geral do Jacuí

O Passo Geral do Jacuí, localizado a 30 km da cidade de Cachoeira do Sul, pela estrada de rodagem e, cerca de 40 km pelo leito do rio Jacuí, foi um dos caminhos de ligação entre Rio Pardo e a Região da Fronteira Oeste e Planalto, em tempos de paz e de Guerra Farroupilha. Terminada a Revolução Farroupilha, com a pacificação de Ponche Verde, a Província, governada por Caxias, volta-se para as obras e a prosperidade do Rio Grande do Sul. Em 8 de abril de 1846, por decreto, é apresentado o projeto para esse desenvolvimento e nele incluída a construção de uma ponte sobre o Passo Geral do Jacuí. Uma obra necessária e vital para agilizar a ligação entre os principais núcleos urbanos, servidos pelo rio Jacuí e a comercialização dos produtos e riquezas entre regiões Leste e Oeste da Província. Sua construção foi contratada pelo empreiteiro Ferminiano Pereira Soares, em 1848, pela quantia de 250 contos de réis, paga em seis prestações e num prazo contratual de cinco anos. (Ferminiano co