Pular para o conteúdo principal

Aula de Meninas

A educação demorou a ser organizada no Rio Grande do Sul e o longo embate provocado pela revolução farroupilha retardou ainda mais a organização necessária para que ela se efetivasse. 

Naqueles tempos, meninos e meninas estudavam separadamente, havendo ampla prevalência das classes masculinas, uma vez que o universo feminino não "prescindia" de educação formal, segundo os preceitos da época. À mulher era destinado unicamente o papel de mãe e dona de casa e para isto não havia necessidade de ler, escrever e fazer contas...

Mesmo assim, algumas meninas conseguiam obter a graça do estudo, muito certamente pelo tirocínio dos pais ou pela personalidade insistente de algumas. O fato é que poucas chegavam aos bancos escolares.

A primeira aula de meninas de Cachoeira só foi organizada em 1848, quando a Câmara Municipal autorizou o seu funcionamento na casa de Manoel José Pereira da Silva, localizada na Rua da Igreja, hoje Moron, sendo nomeada a professora Ana Francisca Rodrigues Pereira para lecioná-la.

Aula de Meninas - Rua Moron - Acervo COMPAHC

Nos registros documentais da Câmara, em sessão de 15 de abril de 1848, ficou assentado que a única casa que reunia condições para abrigar a aula de meninas era de Manoel José Pereira da Silva e que o proprietário pedia de aluguel a importância de 26 mil e quatrocentos réis. Os vereadores decidiram que o procurador buscasse por ele e fizesse a oferta de 15 mil réis mensais e, em caso de negativa, que encontrasse outra casa.

15/4/1848 - CM/OF/A-004, fl. 126v 
[...]
Recebeu se úm officio do Procurador da Camara dactado de 14 do Corr.e, communicando que a Caza mais apropriada para a Aula publica de meninas, que só existe a de Manoel Jozé Per.ª da S.ª pela quantia de 25$600 rs. por mes; posto em discução e despois a votação foi rezolvido pela maioria de votos que de novo se ordenasse ao Procurador que se entendesse com aquelle proprietario para obter lhe a referida Caza pela qta. de 16$rs. mençal, e no cazo contrario indicar úma outra Caza pela quella quantia.

A casa em questão, que era um sobrado, foi alugada e nela efetivamente funcionou a Aula de Meninas, que em 1850 contava com 23 alunas. A professora Ana Francisca, que era nora de Manoel José, também residia na casa e o aluguel então era de 16 mil réis.

Ana Francisca Rodrigues Pereira, a primeira professora pública de Cachoeira, já tinha obtido aprovação para lecionar em exame procedido no dia 22 de outubro de 1838 (CM/OF/A-003, fls. 220v e 221), quando então houve determinação do Ministro da Fazenda e do Interior de se criarem aulas públicas pelo método Lancaster.  Esse método, também chamado de ensino mútuo, podia se utilizar de um aluno monitor que ensinasse aos demais sob a supervisão do professor.

Método de Lancaster - WordPress.com

O sobrado da Aula de Meninas existe até hoje, embora tenha sido bastante descaracterizado. Dentre suas paredes mais do que centenárias as privilegiadas meninas que puderam receber lições da professora Ana Francisca mal sabiam que protagonizavam uma história de avanço muito significativo, seja pelo fato de terem o privilégio de assistir aulas, seja pelo salto fora da escuridão, aquela representada não apenas pela ausência de iluminação, mas a que se instala pela falta da luz do conhecimento.

MR

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Colégio Estadual Diva Costa Fachin: a primeira escola de área inaugurada no Brasil

No dia 1.º de outubro de 1971, Cachoeira do Sul recebeu autoridades nacionais, estaduais e regionais para inaugurar a primeira escola de área do Rio Grande do Sul e que foi também a primeira do gênero a ter a obra concluída no Brasil. Trata-se do Colégio Estadual Diva Costa Fachin, modelo implantado com recursos do Programa de Expansão e Melhoria do Ensino Médio - PREMEM, instituído pelo Decreto n.º 63.914, de 26/12/1968.  Colégio Estadual Diva Costa Fachin - Google Earth A maior autoridade educacional presente àquela solenidade foi Jarbas Passarinho, Ministro da Educação, acompanhado por Euclides Triches, governador, e pelos secretários de Educação, Coronel Mauro Costa Rodrigues, de Interior e Justiça, Octávio Germano, das Obras Públicas, Jorge Englert, e da Fazenda, José Hipólito Campos, além de representantes do Senado, de outros ministérios, estados e municípios.  Edições do Jornal do Povo noticiando a inauguração da escola (30/9/1971 e 3/10/1971, p. 1) Recepcionados na Ponte do Fa

Rainha do Carnaval de 1952

O carnaval de 1952 foi marcado por uma promoção da ZYF-4, a Rádio Cachoeira do Sul, e Associação Rural, que movimentou toda a cidade: a escolha da rainha dos festejos de Momo. Vamos conhecer esta história pelas páginas do Jornal do Povo : Absoluto êxito aguarda a sensacional iniciativa da ZYF-4 e Associação Rural - Milton Moreira (PRH-2) e a famosa dupla "Felix" da Televisão Tupi  participarão de atraente "show" Cachoeira do Sul viverá sábado à noite o maior acontecimento social dos últimos anos, com a realização do monumental "Garden-Party" promovido pela Rádio Cachoeira do Sul e Associação Rural nos jardins da ZYF-4. Rainha do Carnaval de 1952 -  Jornal do Povo, 21/2/1952, p. 1 Rádio Cachoeira do Sul - ZYF-4 - Coleção Emília Xavier Gaspary Precedido de quatro grandiosos bailes que se efetuaram nas principais entidades sociais cachoeirenses, o "Garden-Party" vem centralizando as atenções da cidade inteira, pois, assinalará o mais deslumbrante es

Cachoeira do Sul e seu rico patrimônio histórico-cultural

A história de Cachoeira do Sul, rica e longeva, afinal são 202 anos desde a sua emancipação político-administrativa, legou-nos um conjunto de bens que hoje são vistos como patrimônio histórico-cultural. Muito há ainda de testemunhos desta história que merecem a atenção pelo que representam como marcas dos diferentes ciclos históricos. Mas felizmente a comunidade e suas autoridades, desde 1981, pela criação do Conselho Municipal do Patrimônio Histórico-Cultural - COMPAHC, têm reconhecido e protegido muitas destas marcas históricas. Antes da existência do COMPAHC muitos e significativos bens foram perdidos, pois o município não dispunha de mecanismos nem legislação protetiva, tampouco de levantamento de seu patrimônio histórico-cultural. Assim, o Mercado Público, em 1957, e a Estação Ferroviária, em 1975, foram duas das maiores perdas, sendo estes dois bens seguidamente citados como omissões do poder público e da própria comunidade. Sempre importante lembrar que por ocasião do anúncio da