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Mulher que desconhece nome do marido

CM/S/SE/CR-Caixa 21

A documentação do Arquivo Histórico, como já dito em outras oportunidades, oferece um universo de possibilidades, seja no campo da informação histórica, na descrição dos espaços e vivências dos cidadãos, bem como na forma de interação com o meio e com os indivíduos, o que traduz, em suma, os traços culturais do lugar em que foi produzida.

Um requerimento apresentado em 14 de março de 1887 traz um conteúdo no mínimo inusitado, uma vez que a requerente, uma alemã de nome Guilhermina [Foese?], solicita que seja verificado no registro de casamentos acatólicos (protestantes) qual o nome de seu marido:

Illmo. Sr. Presidente e mais Vereadores da Camara
Municipal da Cachoeira

Diz Guilhermina Foese, residente na ex-Colonia de Santo Angelo, que tendo se propalado ser a Suppte. - que é Protestante - casada com Henrique ou como outros dizem Luiz Kazulke, preciza a bem de seus direitos, que revendo o respectivo Secretario d'esta Camara o registro dos cazamentos acatholicos lhe declare por certidão si ha n'aquelles assentos alguma couza relativa ao pretendido cazamento da Suppte seja com um dos acima mencionados Individuos ou com outro qualquer de nome parecido.
N'estes Termos requer a Suppte deferimento

Cachoeira 14 de Março de 1887 
Por Guilhermina Foese
O Procurador Constans Josephson

O Império do Brasil não legislava sobre o matrimônio, sendo as questões relativas à união matrimonial regidas em sua integralidade pela Igreja. Com o aumento de população não católica, especialmente ocorrido com as levas de imigrantes de fé protestante, surgiu a necessidade de reconhecimento pelo Estado das uniões entre pessoas de outras religiões. Somente em 1863 foi retirada da Igreja Católica a exclusividade da realização oficial do casamento religioso. Em razão disto, em 2 de agosto de 1872 o Barão de Kalden oficiou à Câmara Municipal encaminhando um abaixo-assinado que solicitava fossem abertos livros para que o secretário neles registrasse os casamentos não católicos, ou acatólicos, como ficaram assentados. 

E foi justamente em um destes livros, o de código CM/S/SE/RC-002, à última folha, de número 148v, em último lugar, que foi localizado o assento de casamento de Wilhelmine Vöse e Ludwig Kasulke. Estava resolvida a questão: Wilhelmine, Guilhermina em português, tinha oficialmente por marido a Ludwig, Ludovico ou Luiz em português, Kasulke! Finalmente, à vista do documento, a alemã podia assegurar a todos que talvez maliciosamente lhe atribuíssem mais de um marido, que de fato tinha um, com nome e sobrenome... A diferença linguística e a dificuldade de entendimento entre brasileiros e alemães deve ter criado muitos embaraços para ambos os lados. A alemã, felizmente, pôde servir-se de um documento legal para, altiva, determinar afinal com qual dos tantos nomes pronunciados à sua volta ela realmente vivia!

CM/S/SE/RC-002, fl. 148v - 15/6/1888

MR

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