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A Barragem do Capané

Depois dos recentes desastres envolvendo barragens de mineradoras em Minas Gerais, causadores de destruição e morte, a atenção dos cachoeirenses se voltou para a septuagenária Barragem do Capané. As perguntas que passam pela cabeça de todos remetem à dúvida sobre a estabilidade da barragem e sobre os efeitos que uma possível ruptura do maciço ocasionariam à cidade. Enquanto isto, por precaução, o Instituto Rio-Grandense do Arroz - IRGA, responsável pela administração e manutenção da barragem, tomou as medidas emergenciais cabíveis.

Barragem do Capané - Foto Robispierre Giuliani

A história da Barragem do Capané teve começo quando foi vislumbrada a possibilidade de, ampliando a área irrigável, também impulsionar o cultivo de arroz nas terras de Cachoeira do Sul, município com tradição na cultura arrozeira. A construção da barragem possibilitaria a irrigação de uma maior porção de terras aproveitando o manancial do Arroio Capané de onde, aliás, provém o nome da barragem. Localizada a 25 quilômetros da cidade, lado norte da BR-290, tem capacidade de acumular 70 milhões de metros cúbicos na cota de dez metros.

Um artigo do engenheiro Nelson Aveline, publicado no jornal O Comércio de 8 de junho de 1949, levanta algumas questões, repercutindo obra que gerou bastante discussão na comunidade:

A Barragem do Capané
Aproxima-se do seu término a grande construção da barragem do Capané. Iniciados os seus estudos em 1944, a barragem do Capané vem sendo construída por uma equipe de máquinas que trabalham dia e noite. Graças à administração e mecanização dos trabalhos de terraplanagem, uma turma média de 100 homens, realizou nesta construção, no mesmo tempo, uma tarefa de 3.000 trabalhadores, removendo e transportando quasi 2 milhões de metros cúbicos de terra e 20 mil metros quadrados de pedras extraídas há mais de 15 quilometros do local da barragem.

Imagine-se 3.000 trabalhadores carregando terra, transportando e arrumando pedras, durante mais de 40 mêses, e ver-se-á o que representa a barragem do Capané, com os seus 2.400 metros de extensão e 14 de altura. É indiscutivelmente uma obra que honra os seus construtores, os trabalhadores anônimos, pedreiros, carreteiros, choferes, operadores de máquinas, mecânicos, escriturários, capatazes de serviços e engenheiros. No Rio Grande do Sul, nunca tanto se construiu, com tão pouca gente, em tempo tão pequeno.
Admirável na organização dos serviços desta construção, chefiada pelo nosso colega Alfredo Pereira, é a assistência social, representada por suas múltiplas formas. Assistência médico-dentária, escolar; serviços de luz elétrica, cozinha, cooperativa e hortas, residências simples, mas decentes, eis os aspectos mais notáveis da organização social dêste acampamento provisório de trabalho do Irga, organizado pelo Eng. Alfredo Pereira, cuja situação neste sentido merece os nossos melhores aplausos, porque julgamos humano, justo e aconselhável  a máxima assistência e proteção aos nossos operários. (...)

Tôdas as grandes obras tem os seus críticos. Uns criticam por uma simples mania, outros por interêsses em jogo e, ainda, há os que criticam pelo prazer de analizar e sugerir soluções. (...) Fomos daqueles que levantamos as nossas dúvidas sôbre a localização da barragem do Capané, mostrando a conveniência de um planejamento mais adequado às condições locais da orizicultura cachoeirense. Hoje vemos que se tivessemos empregado os recursos gastos na barragem do Capané (Cr$ 20 milhões) na construção de diversas barragens, em diversos arroios, já estariamos colhendo os seus frutos há mais de dois anos, e com a renda resultante estariamos na marcha acelerada e definitiva da regularização dos cursos d'água de Cachoeira. E agora onde estamos? Em véspera de um problema mais difícil do que a construção da barragem. Nos referimos à distribuição e aproveitamento das terras e aguas da barragem do Capané. 

Fala-se em duas soluções para êste magno problema: arrendamento regulamentado das terras compreendidas na área irrigável da barragem ou desapropriação destas terras pelo Estado e consequente distribuição aos lavoureiros.(...)

Conhecemos as terras da barragem do Capané, os seus proprietários, as possibilidades e desejos dos orizicultores. Nestas condições julgamo-nos habilitados para tratar desta questão, além de termos a necessaria independência em relação às partes interessadas. Condensaremos o nosso plano de aproveitamento das terras irrigaveis pelas aguas da barragem do Capané em poucas palavras, apontando as condições essenciais de sua efetivação e vantagens. Sendo 6.000 has. a capacidade de irrigação desta barragem, o govêrno ou o Instituto do Arroz demarcaria 18.000 has, na área irrigavel. Esta área seria loteada, em lotes de 30 has., contendo 70% de terras planas. (...)

Se o govêrno atual souber e puder passar às mãos de 500 lavoureiros os titulos de propriedade de lotes de terras na área de irrigação da barragem do Capané, então esta obra será a sua melhor e maior realização, no campo agrário. Se assim não acontecer, aqui deixamos as nossas advertências, mas de qualquer forma confiamos no tempo que tem a suprema virtude de tudo corrigir, quando não destróe.
NELSON AVELINE


Jornal O Comércio, 8/6/1949

Sequência do artigo n'O Comércio, 8/6/1949

Obra sobre a Barragem do Capané - IRGA (2010)

Segundo a obra Barragem do Capané - Fonte de vida e desenvolvimento*, de Carine Schwingel e Ermilo Guilherme Drews Neto (IRGA, 2010), a Barragem do Capané foi projetada em 1945 pelo chefe do Departamento de Engenharia do IRGA, Mansueto Serafini, e construída entre janeiro de 1946 e novembro de 1949, depois da desapropriação autorizada por Decreto-Lei n.º 1.502, de 17 de dezembro de 1946, do governo do estado. A obra foi inaugurada em 15 de novembro de 1949, cobrindo área de 2.127 hectares, sendo 1.719 hectares ocupados pela bacia hidráulica e represando o Arroio Capané. As obras foram iniciadas em 17 de março de 1946 e duraram três anos e oito meses, sob a orientação do engenheiro Alfredo Bento Pereira.

Na edição do dia 23 de novembro, do mesmo jornal O Comércio, a notícia da inauguração da Barragem do Capané: Concretizada a velha aspiração dos Lavoureiros Cachoeirenses com a conclusão das obras da Barragem do Capané.

Na reportagem, a descrição dos atos solenes de abertura da primeira comporta que iniciou a irrigação das terras, do churrasco oferecido, das características da obra e outras notas.

A grande área que foi desapropriada para a construção da Barragem do Capané pertencia a Sabino Pereira da Silva, Luiz Mello da Silveira, Vva. Gonçalves Pedroso, Carlinda Motta, Ernesto Vargas, Olinto Cardoso, Sucessão Mostardeiro, Vicente Ferreira da Silva, Francisco Severo, José P. de Mello, Heitor Pereira da Silva, Murilo Geraldo Pereira da Silva.

 Há 70 anos, quando a Barragem do Capané foi construída, os desafios de armazenar volume tão grande de água eram enormes e, justamente por isto, ela é uma obra tão marcante para a orizicultura do Rio Grande do Sul, tendo aberto caminho para outras do gênero. Atualmente é a única barragem que ainda pertence ao IRGA.

Barragem do Capané - Foto Robispierre Giuliani

* Obra de referência dos dados aqui citados.

MR

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