Pular para o conteúdo principal

Dia Mundial do Meio Ambiente

Em 5 de junho de 1972, a Organização das Nações Unidas - ONU promoveu a Conferência sobre o Meio Ambiente Humano, em Estocolmo, na Suécia. A data passou, a partir de então, a ser celebrada como o Dia Mundial do Meio Ambiente, quando todo mundo deve refletir sobre as questões ambientais e as medidas necessárias para proteção e preservação dos recursos naturais.

Antes disso, a imprensa tratava esporadicamente de questões relacionadas à natureza e ação do homem sobre os recursos naturais. Não havia uma política de preservação estabelecida e alguns pensadores e ativistas começavam a lançar suas ideias de respeito à natureza. A imprensa de Cachoeira, eventualmente, também abordava assuntos relacionados ao ambiente natural, em algumas vezes dando conselhos aos moradores para ações de melhoria da condição do lugar que habitavam.


Vista geral de Cachoeira no início do século XX - Museu Municipal

Na edição do jornal O Commercio (Cachoeira, 1900 - 1966) do dia 14 de fevereiro de 1906, na primeira página, um artigo sem a anotação da autoria traz reflexões sobre a relação que há entre o estado sanitário das cidades e a saúde dos moradores, bem como do efeito da natureza do lugar sobre eles:

Utilidade e hygiene

Está mais que provado que o bom ou mau estado sanitario das cidades tem a sua influencia directa sobre a saude das populações; isto é facto discutido e provado.

Nos grandes centros, onde as populações agglomeram, se apertam e as habitações estreitam o limite dos terrenos, o zelo e a attenção dos poderes públicos se voltam inteiros e interessados para a hygiene publica e todos os esforços são postos a campo para que a saude do povo não soffra as consequencias do máu estado sanitario dos círculos que habita e nelle labuta, quase asphyxiado pela estreiteza das ruas e o resumido espaço que geralmente dispõe para a satisfação das suas necessidades.

E mesmo assim, com todo o cuidado que é dispensado á saude publica, não é raro assistir-se as epidemias invadindo as cidades, dizimando furiosas as populações, alarmando todos, pondo tudo fóra dos seus eixos, finalmente perturbando a ordem natural dos habitantes que espavoridos tudo abandonam e até as suas maiores conveniencias esquecem.

Tambem é sabido e está provado que a vegetação muito coopera para o bom estado de sanidade das gentes.

A liberdade dos campos, o ar que se respira livremente atravez das campinas e ao longo das serras é o agente de maior importancia para a conservação e perfeição da saude.

Póde-se dizer – é a natureza em auxilio da natureza, é uma força de conservação actuando sobre uma força de creação, ambas irmanadas da mesma fonte.

Quem não conhecerá a influencia dos campos sobre a nossa saude; parece que ninguem haverá que desconheça o beneficio com que tambem um sitio de pura vegetação concorre para a conservação dos nossos dias, purificando ou melhorando o estado da nossa saude.

Não é possivel, pela ordem das cousas e pelas necessidades dos homens, que habitemos todos no campo.

As exigências da vida, as conveniencias commerciaes, sociaes e industriaes nos coagem á reunião das cidades que, augmentando proporcionadamente, chegam ás vezes a centros de tal enormidade que a sua extensão conta-se por leguas.

Londres, Paris, Berlim, New-York, por exemplo.

Para estes o problema de saude publica é grave e de difícil resolução.

É necessario para que o seu estado sanitario se equilibre que haja a communhão de todos os esforços, que alem dos poderes publicos, cada um concorra de per si para a realização real dessa necessidade: cooperando cada um para a grande obra de sanidade publica, vai prestar o seu concurso a emprehendimento de que irá gozar um resultado immediato e satisfactorio.

Quem tem habitado em grandes centros saberá que as suas habitações geralmente não dispõem de grandes espaços livres, - pateos ou quintaes, como chamamos geral e vulgarmente a esses mesmos, reduzidíssimos dão apenas para as exigencias domesticas, não cedendo logar aos habitantes de empregal-os em outros misteres.

Vem d’ahi que a vegetação é rara nesses centros, si bem que bastante desejada, já pelas necessidades particulares de cada um, já pelas exigencias da saude.

O mesmo, porém, não acontece nos pequenos centros como o nosso, onde cada habitante dispõe de largos espaços, grandes terrenos, isto é, grandes quintaes.

A liberdade que gozamos não nos deixa exigir mais, porém nós é que não sabemos dar emprego a essa amplitude de que gozamos.

A vegetação natural entre nós, perto de nós é grande, em larga escala e nós, por isto e habituados a gozar o grande espectaculo da natureza diariamente, a todos os instantes, a cada olhar, esquecemos as nossas necessidades particulares e, confiantes na prodigalidade da natureza, deixamo-nos arrastar pela inercia e dos nossos esforços nada fazemos.

É assim que dos grandes quintaes de que dispomos delles apenas fazemos utilidade para recebedor do lixo e cousas imprestaveis.

Além do prejuizo que d’ahi advém para a saude do habitante ou habitantes do sitio, resulta que desprezamos um privilegio que outros aproveitaram como uma reliquia.

Não gostamos, nem nos habituamos ainda a dar apreço a essas cousas e não sentimos tambem ainda amor pela horticultura, de modo que aquilo que poderiamos consumir produzido por um pequeno trabalho nosso, vamos pagal-o, ás vezes, a bom preço!

Raros de nós, amamos as flores, isto é, raros de nós se esforçam para corresponder com um pequeno trabalho o apreço que votamos aos jardins, d’onde sahem as bellas rosas, os odorosos jasmins, a perfumosa violeta e, por isto, nós que tanto gostamos de gozar o perfume de uma bella flor ou de saborear uma boa hortaliça, olhamos com profundo desprezo, tantas vezes! um bom quintal que se poderia tornar uma distracção agradavel, uma proveitosa fonte de utilidade particular e sanitaria.

Não leia ninguem nestas linhas uma recriminação, mas lembre-se cada um que nos ler de quanto desperdiça para não despender um pequeno esforço!


O Commercio, 14/2/1906, p. 1

A lição que recebemos com o artigo acima já conta 115 anos! Mas tem sido ela de difícil aprendizado, visto o quanto já perdemos e o alto preço que já pagamos pela destruição, desperdício e ignorância. Que este 5 de junho de 2021 nos sirva para, como nos provoca o articulista de 1906, refletir sobre o finito prazer de gozar o grande espectaculo da natureza diariamente... 

A Secretaria Municipal de Meio Ambiente, associada a diversas entidades e clubes de serviço, está promovendo uma campanha intitulada "Cuide bem de Cachoeira", cujo lançamento coincide com o Dia Mundial do Meio Ambiente, à qual o Arquivo Histórico se associa e conclama todos a apoiarem. Três são os objetivos da campanha: cuidado ambiental, embelezamento e preservação da cidade, bens públicos e áreas em comum.

MR

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Bar América - plantas no acervo do Arquivo Histórico

A notícia de obras de recuperação e melhoria do Bar América para nele ser instalada a futura Secretaria Municipal da Cultura faz renascer a esperança de ver aquela parte nobre da Praça José Bonifácio revitalizada e, ao mesmo tempo, viabilizar espaço e melhores condições à valiosíssima área cultural do município.  A história do Bar América remonta ao ano de 1943, quando a imprensa noticiou que a Prefeitura Municipal pretendia construir um quiosque-bar na Praça José Bonifácio. Assim noticiou o jornal O Comércio , de 17 de março daquele ano: A Praça José Bonifácio será dotada de um quiosque-bar Faz parte do programa de reforma da cidade, desde o calçamento das principais ruas, a construção de um quiosque-bar na Praça José Bonifácio. De tempos em tempos, o nosso Governo Municipal faz publicar editais de concurrencia publica para a construção e exploração de um bar naquele local, mas estes não apareciam. Agora, foi posta em fóco novamente a questão e apresentou-se um único candidato, que en

Inauguração das Casas Pernambucanas

A notícia veiculada na imprensa de que em breve as Casas Pernambucanas voltarão a abrir as portas em Cachoeira do Sul despertou a curiosidade e o interesse de buscar informações sobre a instalação da primeira filial dessa popular casa comercial na cidade. Vem do Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico a resposta. O Commercio , 24/6/1931, p. 1 Folheando as páginas dos jornais O Commercio  e Jornal do Povo  da década de 1930 e partindo da notícia da inauguração da segunda loja das Casas Pernambucanas em Cachoeira, ocorrida em setembro de 1936, uma rápida volta no tempo levou ao dia 8 de julho de 1931: O Commercio, 8/7/1931, p. 1 Casas Pernambucanas. - Com a presença de exmas. sras., senhoritas e cavalheiros, representantes das autoridades do municipio e da imprensa local, foi inaugurada, ás 10 horas da manhã de quarta-feira ultima, no predio da rua Julio de Castilhos n.º 159, a Filial das Casas Pernambucanas, cuja gerencia está a cargo do sr. José Aquino, muito conhecido e relacionado ne

A Ponte do Passo Geral do Jacuí

O Passo Geral do Jacuí, localizado a 30 km da cidade de Cachoeira do Sul, pela estrada de rodagem e, cerca de 40 km pelo leito do rio Jacuí, foi um dos caminhos de ligação entre Rio Pardo e a Região da Fronteira Oeste e Planalto, em tempos de paz e de Guerra Farroupilha. Terminada a Revolução Farroupilha, com a pacificação de Ponche Verde, a Província, governada por Caxias, volta-se para as obras e a prosperidade do Rio Grande do Sul. Em 8 de abril de 1846, por decreto, é apresentado o projeto para esse desenvolvimento e nele incluída a construção de uma ponte sobre o Passo Geral do Jacuí. Uma obra necessária e vital para agilizar a ligação entre os principais núcleos urbanos, servidos pelo rio Jacuí e a comercialização dos produtos e riquezas entre regiões Leste e Oeste da Província. Sua construção foi contratada pelo empreiteiro Ferminiano Pereira Soares, em 1848, pela quantia de 250 contos de réis, paga em seis prestações e num prazo contratual de cinco anos. (Ferminiano co