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60 anos da Legalidade

No dia 27 de agosto de 1961, o Jornal do Povo estampou em sua primeira página: Estarrecida a Nação com a Renúncia do Sr. Jânio Quadros. O Vice-Presidente João Goulart deverá completar o quinquenio presidencial - Reina ordem em todo o país.

O episódio da renúncia do Presidente do Brasil abriu um período de insegurança governamental quando os três ministros das Forças Armadas vetaram a sucessão legal e a posse do Vice-Presidente João Goulart, a quem taxavam de comunista. Imediatamente o governador do Rio Grande do Sul, Leonel de Moura Brizola, cunhado de João Goulart - Jango, deflagrou uma campanha para cumprimento do que estava previsto na Constituição com relação à posse do vice em caso de renúncia do presidente, no que foi apoiado por outros governadores. Através de uma cadeia de rádios, Brizola conclamou o povo e a Brigada Militar a apoiarem a posse de Jango. Depois de confrontos, acordos e adesão ao parlamentarismo, Jango conseguiu tomar posse em 7 de setembro daquele ano.

Governador Brizola - Jornal do Povo

Presidente João Goulart - Jornal do Povo

A imprensa de Cachoeira do Sul repercutiu o estado geral daqueles dias da seguinte forma:

Jornal do Povo de  29 de agosto de 1961: 

Manchete da edição de 29 de agosto de 1961 - Jornal do Povo

Govêrno Gaúcho e III Exército Irmanados Pela Manutenção da Ordem e da Legalidade no Brasil. 

A crise social e política e social que tomou conta da Nação desde que, num gesto cujas razões o povo brasileiro ainda desconhece, o presidente renunciou ao cargo, recrudesceu de tal forma nos três últimos dias que, até o meio-dia de ontem, tudo fazia crer que o País etava prestes a mergulhar-se num clima e guerra civil, de imprevisíveis consequências.

O ambiente sombrio que assim envolvia a Nação, entretanto, teve na pessoa do Governador gaúcho Eng.º Leonel de Moura Brizola a maior expressão de resistência democrática á implantação de soluções extra-legais para o Govêrno do País, tendo S. Ex.ª resistido contra tudo e contra todos, missão esta em que teve o apoio da população, de suas entidades representativas das mais diversas camadas sociais, de autoridades eclesiásticas e, o que foi importante e decisivo, do Comando da Quinta Zona Aérea e do III Exército, principalmente dêste último, apoio êste que tranquilizou a família sul rio-grandense que hoje volta ás suas atividades normais num ambiente de relativa  paz e desassossêgo.

O DESENROLAR DOS ACONTECIMENTOS

De acôrdo com as transmissões oficiais do Govêrno do Estado, damos abaixo um resumo do desenrolar dos acontecimentos no dia de ontem:

"Ás 11 horas da manhã de ontem o governador Leonel Brizola fazia sua primeira importante declaração ao microfone da Rádio Guaíba. 

Com gestos dramáticos, após apelar para que todos os pais retirassem seus filhos dos colégios e os mantivessem em casa, o Governador comunicou que o Gal. Machado Lopes, Comandante do III Exército lhe solicitara uma audiência. Como não sabia qual a finalidade da visita, disse o Sr. Leonel Brizola que ela poderia significar a deposição do governador, aduzindo:

- É possível que eu não tenha mais oportunidade de vos falar. Talvez receba agora um ultimatum. E ocorrências muito sérias virão porque não nos submeteremos a golpes nem a soluções arbitrárias. Que nos esmaguem, que nos destruam, que chacinem êste Palácio, porque assim chacinado ficará o país, pois êste é o último reduto da democracia! Mas afirmo-vos que não silenciaremos sem balas. Tanto aqui como lá nos transmissôres da Rádio Guaíba, fôrças da Brigada Militar estão de armas prontas. A Pátria inteira tomará conhecimento do nosso silêncio. Seremos atingidos pela destruição, contra a nossa vontade!"

Com a voz embargada pela emoção e avisando que de um momento para outro as transmissões poderiam ser suspensas em definitivo, relatou o Sr. Leonel Brizola que uma rêde de radio-amadores havia captado as mensagens trocadas pelo Exército, de Brasília com as diversas Unidades, e delas davam conhecimento ao Palácio Piratini.

A matéria segue descrevendo a situação geral, o apoio do III Exército, as comunicações ao povo e o nobre gesto do Arcebispo Metropolitano, D. Vicente Scherer, que ao tomar conhecimento da ameaça de bombardeio do Palácio, para lá se dirigiu e sentando numa das sacadas, avisou que se alguém atirasse que começasse por atingi-lo.

O restante da primeira página do Jornal do Povo repercutiu manifestações diversas da cidade pró-Legalidade: Executivo Cachoeirense Solidariza-se Com Posição Assumida Pelo Governador / UCE suspendeu a greve / AULAS SUSPENSAS / Tropas Federais Alertas Para Manutenção da Ordem / Entidades Operárias Lançam Manifesto a Favor da Constituição / CÂMARA DE VEREADORES LOCAL MANIFESTA-SE PELA LEGALIDADE / Comando de Resistência Congratula-se Com Governador.

A Guarnição Federal emitiu nota do Comando:

Em face dos acontecimentos que presentemente se desenrolam no país, êste Comando vem, por intermédio do JORNAL DO POVO, fazer um apêlo ao povo desta laboriosa, progressista e ordeira cidade de Cachoeira do Sul, no sentido de que, honrando suas nobres e dignas tradições, coopere com as autoridades constituídas, na preservação da ordem e da tranquilidade pública.

BORIS BROMIRSKY

Ten. Cel. Cmt. do 3.º B. E. Cmb. e Guarnição Federal de Cachoeira do Sul.

Há também um longo Manifesto ao Povo Cachoeirense, assinado pelo Prefeito Municipal Moacyr Cunha Roesing, recomendando-lhe confiança e convicção no patriotismo, disciplina, alerta e manutenção das rotinas de trabalho.

Nos dias que se seguiram, as manchetes repercutiram as manifestações da cidade que apoiava a atitude do governador Leonel de Moura Brizola em defesa do cumprimento da Constituição Federal, dando posse ao Vice-Presidente João Goulart.

MR

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