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Mulheres protagonistas do século XIX

A história tem sido escrita ao longo dos séculos pelos homens, de forma que há um número inferior de mulheres que conseguiram granjear o espaço merecido no correr dos tempos. Cachoeira, criada há pouco mais de 200 anos, não viveu situação diversa. Quantas mulheres, apesar do protagonismo que tiveram em diferentes momentos dessa bicentenária trajetória, conseguiram ter seus nomes reconhecidos e lembrados? Não foram muitas, mas as três que serão trazidas à luz, nesta postagem que dá início à programação das comemorações do Mês da Mulher, conseguiram marcar seu lugar na história. 

CLARINDA FRANCISCA PORTO DA FONTOURA

Clarinda da Fontoura - foto atribuída a Luigi Terragno
- Museu Municipal

Clarinda Francisca Porto nasceu numa família de bravos homens que lutaram nas guerras que marcaram a história do Rio Grande. Deve ter se acostumado a ouvir histórias de barbárie e de valentia, aprendendo a dura lição de que a vida tinha que continuar, apesar da guerra. E essa vida muitas vezes necessitou ser tocada pelas mulheres enquanto os homens guerreavam.

Pois não é que o destino fez com ela justamente isto? Em 16 de janeiro de 1828, na Igreja Matriz de Cachoeira, casou-se com Antônio Vicente da Fontoura, um promissor caixeiro que tinha fortes inclinações políticas. E foram justamente estas inclinações que fizeram dele um dos mais importantes vultos da história cachoeirense e do Rio Grande do Sul. Graças à sua adesão à causa farroupilha e o protagonismo nas negociações que selaram a paz na longa revolução, a figura da esposa Clarinda chegou ao nosso conhecimento.

Antônio Vicente da Fontoura, em cartas escritas à mulher entre 1.º de janeiro de 1844 e 22 de março de 1845, revelou o cenário do final da Revolução Farroupilha, traços da sua personalidade e, principalmente, de Clarinda, de quem sentia imensas saudades, assim como dos filhos. Enquanto o marido enfrentava as dificuldades da guerra, ela tocava a vida, os negócios e a numerosa família que constituíra em Cachoeira. No entanto, mostrando coragem e audácia, Clarinda não ficou esperando por Antônio Vicente infindáveis dias. Em pelo menos duas ocasiões foi encontrar-se com ele, tendo inclusive batizado dois filhos do casal em Alegrete durante a revolução.

Finda a contenda, Antônio Vicente voltou para casa e retomou a vida, inclusive a política. 

Em 20 de outubro de 1860, Clarinda Francisca Porto da Fontoura ficou viúva, depois do atentado que o marido sofreu dentro da Igreja Matriz. O destino a quis só novamente e assim permaneceu até 14 de abril de 1877, quando foi vitimada por um câncer de útero. 

CASTORINA IGNACIA SOARES DE BARCELLOS

De Castorina Ignacia Soares não se tem o rosto. Impossível saber que atributos físicos tinha, dada a falta de imagem que a revele. Por outro lado, seu nome ficou preservado na história graças a um ato de honradez, audácia e empreendedorismo que se viu obrigada a tomar quando ficou viúva de João Antônio de Barcellos.

João Antônio de Barcellos empreitou junto à Câmara Municipal da Vila Nova de São João da Cachoeira a construção de uma estrada entre Cachoeira e o distrito de Cima da Serra da Cruz Alta, Vila de Rio Pardo, na encosta da serra do Botucaraí. O lugar, de difícil acesso, necessitava de um caminho que favorecesse o trânsito e o comércio entre as duas localidades. 

Acertada a obra com a Câmara Municipal de Cachoeira, João Antônio deu início aos trabalhos de derrubar a mata para abrir a estrada no início de 1853. Uma fatalidade durante a obra, em 31 de março daquele ano, levou-o à morte. Castorina, premida pelo compromisso assumido pelo marido junto às autoridades municipais, viu-se na obrigação de tomar para si a difícil tarefa de abrir a estrada! E o fez, entregando o serviço concluído à Câmara pouco antes de um ano da morte de João Antônio.

Esta história chegou aos nossos dias graças à documentação preservada no Arquivo Histórico. Abaixo, o teor do documento assinado por Castorina dando ciência às autoridades que concluíra a tarefa assumida pelo falecido marido e aguardava o exame que a comissão designada deveria fazer para julgamento da obra:



Comunicado de Castorina à Câmara Municipal - CM/OM/Ofícios - Caixa 10


Tendo se concluido a óbra da abertura da picada da Serra arrematada pello finado meu marido João Antonio de Barcellos, pr. isso q. communico a V.V.S.S. para servirem=se dispor a commissão q. comforme o contrato devem verificar as condiçõens do mesmo e julgar a óbra finda.
Deos Ge. a V.V.S.S. Cachoeira 28 de Março de 1854.

Illmos. Snres. Prezidente e Veriadores da Camara Municipal desta Villa.

Castorina Ignc.ª Soares de Barc.ºs

A Castorina Ignacia de Barcellos nossa reverência. Mulher de fibra, de coragem e que, mais do que honrar a palavra empenhada pelo marido, mostrou ser capaz num tempo em que as capacidades das mulheres sequer eram consideradas!

CÂNDIDA FORTES BRANDÃO

Cândida Fortes Brandão - Museu Municipal

Das três figuras que ilustram esta postagem, duas delas viveram e morreram no século XIX. Cândida de Oliveira Fortes, a terceira, nasceu no século XIX e morreu no século XX, experimentando as questões postas às mulheres no limiar de um tempo que entrevia muitas mudanças para a condição feminina.

Nascida em 23 de abril de 1862, ainda criança ficou órfã de mãe, perdendo o pai na adolescência. A morte dos pais muito cedo marcou-a para sempre. E talvez essa fatalidade tenha impulsionado a jovem a buscar seu lugar no mundo, alcançando com destaque a profissão que ao seu tempo era permitida e recomendada às moças: o magistério.

Ainda que tenha desempenhado com louvor e distinção na comunidade a sua profissão de professora, foi na literatura que Cândida legou para o futuro os traços da sua personalidade e, principalmente, da sua singularidade. 

Logo depois de formada pela Escola Normal de Porto Alegre, Cândida de Oliveira Fortes lançou seu único livro, Phantasia, editado nas oficinas do Correio do Povo em 1897. Já aí uma atitude incomum, ou pelo menos, mais rara entre as mulheres. A partir de 1900, aparece publicando poemas e artigos no jornal O Commercio (Cachoeira, 1900-1966), tratando de questões que iam desde inquietações das mães com a educação dos filhos até o espiritismo.

Para a época em que viveu, Cândida casou-se tarde, aos 41 anos, com Augusto César Brandão, seu colega de jornalismo n'O Commercio. Não tiveram filhos e foram parceiros inclusive em questões relacionadas à política, o que lhes causou alguns dissabores.

No ano em que se comemora 160 anos do nascimento dessa senhora incomum e o centenário de seu falecimento, importante destacar que sua garra e vontade lançaram-na ao universo das poucas mulheres que produziram literatura e fizeram escola no seu tempo. Seus escritos, ainda que presos à temática própria da época, encontram ressonância nos dias de hoje justamente porque permitem reconhecer nela um protagonismo incomum e marcante.

MR

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