Pular para o conteúdo principal

A açoriana Eugênia Rosa

No ano em que se comemoram os 270 anos do povoamento açoriano no Rio Grande do Sul, o blog do Arquivo Histórico tentará trazer para suas postagens assuntos que relembrem personalidades e fatos ligados aos açorianos que também fizeram de Cachoeira a sua morada a partir de 1753.


Comecemos pela açoriana Eugênia Rosa, casada com o também açoriano João Pereira d'Agueda, que no Brasil passou à alcunha de João Pereira Fortes. A chegada do casal ao Rio Grande do Sul se deu em 1756, quando Cachoeira ainda era uma freguesia de Rio Pardo, onde constituíram uma família que acabou por se tornar tronco de muitas outras que se espalharam pela região. Eugênia Rosa hoje é lembrada graças a um achado do historiador Fritz Strohschoen. Ou melhor, de um jardineiro que encontrou o inventário de Eugênia no porão de uma antiga casa na Rua 15 de Novembro e o entregou ao perscrutador do passado.

Fritz dedicou-se à transcrição do documento emitido em 1812, desvendando as estruturas familiares e os bens amealhados pelo casal ao longo de sua existência. Seu trabalho de revelação do conteúdo do testamento iniciou em 8 de janeiro de 1973 e foi concluído em 16 de julho de 1975! 

Em 8 de outubro de 2004, o Arquivo Histórico lançou uma edição quase artesanal e limitada do testamento de Eugênia Rosa, cujos volumes foram reservados, por inscrição, a vários interessados. Participaram do trabalho de edição, à época, Lia Rejane Priebe Trevisan na digitação dos originais, Carmen Mariz Alves Carneiro, Iara Martins Valentim e Josiani Knebel Fardin, do Arquivo Histórico, na encadernação, Luize Strohschoen na digitação pós-revisão, e Mirian R. M. Ritzel e Suzana Cezimbra, do Museu Municipal, na revisão final.

O testamento original, a transcrição a lápis do Dr. Fritz Strohschoen
e a publicação da transcrição - AP 09

O testamento

Testamento original - AP 09

Em seu testamento, disse Eugênia Rosa a respeito de si e sua família:

Digo eu Eugenia Roza, que estando imferma, de Cama, porem em meu perfeito Juizo, e entendimento que Deos me deu fasso este meu Testamento da forma seguinte = Primeiramente declaro que sou natural e baptizada na Freguezia da Praia da Ilha Terceira, filha legitima de Manoel Ribeiro, e de Catharina de São Francisco, ambos ja falecidos, e cazada que sou em face Eclecio com João Pereira Fortes de cujo matrimonio tivemos os filhos seguintes, a saber Joanna já falecida, Cazada que foi com Antonio Gonçalves Borges, tambem ja falecido, e lhe ficarao varios filhos = Getrudes, falecida, Cazada que foi com Joze Silveira Gularte, tambem falecido, de cujo matrimonio lhe ficou hum filho de nome Joze, (nasceu abr. 1811) o qual existe em minha Caza desde a Idade de sete mezes = Catharina viuva do Tenente Policarpio Joze Soares Lima, = Escolastica Cazada com o Cappitão Caetano Coelho Leal = Eugenia Cazada com o Tenente Joze Martins = Roza, cazada com Joze Vieira da Cunha = Maria Cazada hoge com Joze Marques = Ricardo = Antonio = João = e Florianna.

A respeito do ritual funerário que desejava:

Declaro mais que serei envolta no Habito de Sam Francisco, e acompanhada quando falecer pelo meu Reverendo Vigario e mais Sacerdotes que nesta Matriz Se acharem os quaes no dia do meu falecimento me dirão todos Missa de Corpo prezente e Serei acompanhada pelas Irmandades de Nossa Senhora das Dores, das Almas, das quaes sou indigna Irmã, e as mais Irmandades que me quizerem acompanhar = Declaro mais que o ditto meu funeral se fassa em tudo á vontade de meu marido pois que delle espero cumpra aqui o bello dever a este respeito = 

A quem nomeou como testamenteiros:

Declaro mais que nomeio por meus Testamenteiros, em primeiro lugar a meu marido João Pereira Fortes, em segundo lugar a meu genro o Cappitão Caetano Coelho Leal, e em terceiro lugar o Cappitão Joze da Roza Fraga aos quaes pesso, e rogo queiram aseitar este meu Testamento para Cumprir em = com as minhas detreminaçoens, para o que lhes concedo todos os puderes que em direito me ção concedidos, abonando, como por este eu abono, e lhes comcedo o prazo de tres annos para darem as Suas Contas no Juizo a que tocar, e pelo seu trabalho haverão á livre da vintena mais Cem mil Reis

Seus bens de maior vulto:

Declaro que o meu Cazal possue huma morada de Cazas nesta Povoação, huma Chacra á lem do Rio Pardo, hûa Estancia na Boa Vista ao pé da Caxoeira, huma Estancia no São Paulino, hum Faxinal chamado Serro Agudo, e varios Escravos, e os moveis que se axarem, assim como gados Vacuns e Cavallares da nossa Marca, E nesta forma eu Eugenia Roza tenho acabado este meu Testamento e ultima vontade e em tudo ás Leys tstamentarias derogando outro qual quer testamento, 

Eugênia Rosa é daquelas mulheres sem rosto, sem traços que a materializem como ser humano, mas que conseguiu chegar aos nossos dias por meio de um velho testamento carcomido pelo tempo. Nele está contido todo o sentido de sua vida e o que lhe coube legar aos seus, cujas trajetórias o tempo também já extinguiu. No entanto, o sangue de Eugênia Rosa segue correndo nas veias de muitos que ainda habitam a nossa velha Cachoeira.

Esta postagem insere o Arquivo Histórico do Município de Cachoeira do Sul na programação estadual dos 270 anos do povoamento açoriano no Rio Grande do Sul.

MR

Comentários

  1. Ótimo, Mirian!!, Fico tão contente em relembrar nosso envolvimento com a divulgação deste testamento. E agora? O do viúvo?

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Colégio Estadual Diva Costa Fachin: a primeira escola de área inaugurada no Brasil

No dia 1.º de outubro de 1971, Cachoeira do Sul recebeu autoridades nacionais, estaduais e regionais para inaugurar a primeira escola de área do Rio Grande do Sul e que foi também a primeira do gênero a ter a obra concluída no Brasil. Trata-se do Colégio Estadual Diva Costa Fachin, modelo implantado com recursos do Programa de Expansão e Melhoria do Ensino Médio - PREMEM, instituído pelo Decreto n.º 63.914, de 26/12/1968.  Colégio Estadual Diva Costa Fachin - Google Earth A maior autoridade educacional presente àquela solenidade foi Jarbas Passarinho, Ministro da Educação, acompanhado por Euclides Triches, governador, e pelos secretários de Educação, Coronel Mauro Costa Rodrigues, de Interior e Justiça, Octávio Germano, das Obras Públicas, Jorge Englert, e da Fazenda, José Hipólito Campos, além de representantes do Senado, de outros ministérios, estados e municípios.  Edições do Jornal do Povo noticiando a inauguração da escola (30/9/1971 e 3/10/1971, p. 1) Recepcionados na Ponte do Fa

Rainha do Carnaval de 1952

O carnaval de 1952 foi marcado por uma promoção da ZYF-4, a Rádio Cachoeira do Sul, e Associação Rural, que movimentou toda a cidade: a escolha da rainha dos festejos de Momo. Vamos conhecer esta história pelas páginas do Jornal do Povo : Absoluto êxito aguarda a sensacional iniciativa da ZYF-4 e Associação Rural - Milton Moreira (PRH-2) e a famosa dupla "Felix" da Televisão Tupi  participarão de atraente "show" Cachoeira do Sul viverá sábado à noite o maior acontecimento social dos últimos anos, com a realização do monumental "Garden-Party" promovido pela Rádio Cachoeira do Sul e Associação Rural nos jardins da ZYF-4. Rainha do Carnaval de 1952 -  Jornal do Povo, 21/2/1952, p. 1 Rádio Cachoeira do Sul - ZYF-4 - Coleção Emília Xavier Gaspary Precedido de quatro grandiosos bailes que se efetuaram nas principais entidades sociais cachoeirenses, o "Garden-Party" vem centralizando as atenções da cidade inteira, pois, assinalará o mais deslumbrante es

Cachoeira do Sul e seu rico patrimônio histórico-cultural

A história de Cachoeira do Sul, rica e longeva, afinal são 202 anos desde a sua emancipação político-administrativa, legou-nos um conjunto de bens que hoje são vistos como patrimônio histórico-cultural. Muito há ainda de testemunhos desta história que merecem a atenção pelo que representam como marcas dos diferentes ciclos históricos. Mas felizmente a comunidade e suas autoridades, desde 1981, pela criação do Conselho Municipal do Patrimônio Histórico-Cultural - COMPAHC, têm reconhecido e protegido muitas destas marcas históricas. Antes da existência do COMPAHC muitos e significativos bens foram perdidos, pois o município não dispunha de mecanismos nem legislação protetiva, tampouco de levantamento de seu patrimônio histórico-cultural. Assim, o Mercado Público, em 1957, e a Estação Ferroviária, em 1975, foram duas das maiores perdas, sendo estes dois bens seguidamente citados como omissões do poder público e da própria comunidade. Sempre importante lembrar que por ocasião do anúncio da