terça-feira, 12 de dezembro de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Os 100 Anos da Revolução Russa

O Arquivo Histórico, juntamente com a Associação Cachoeirense de Amigos da Cultura - AMICUS, está participando da programação da Semana de Cachoeira 2017 com o debate 

OS CEM ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA: IMPACTOS E DESDOBRAMENTOS AO LONGO DO SÉCULO XX,

Debatedores Ms. Andréia Duprat, Fernanda Feltes e Dr. Frederico Duarte Bartz

ONDE? Auditório do Museu Municipal - antiga Prefeitura - Rua 15 de Novembro, 364
QUANDO? 15 de dezembro, às 18 horas

PROGRAMA:

Andréia Duprat (Mestre em Artes Visuais pela UFRGS)
– Os Reflexos da Arte Revolucionária no Rio Grande do Sul dos Anos de 1950 – O Caso do Clube de Gravura de Porto Alegre

Fernanda Feltes (Mestranda em História pela UFRGS)
– Os Movimentos Revolucionários na América Latina

Frederico Duarte Bartz (Doutor em História pela UFRGS)
– O Impacto da Revolução Russa no Rio Grande do Sul



Após o debate, será comercializada e autografada a obra 

O HORIZONTE VERMELHO: O IMPACTO DA REVOLUÇÃO RUSSA NO MOVIMENTO OPERÁRIO DO RIO GRANDE DO SUL (1917-1920)
de Frederico Duarte Bartz  
(R$ 25,00).



Participe!
quinta-feira, 7 de dezembro de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Visitas educativas ao Arquivo Histórico

O Arquivo Histórico do Município de Cachoeira do Sul, especialmente no segundo semestre de 2017, tem sido alvo de várias visitas de alunos e professores que buscam na instituição o entendimento de sua organização, quais os serviços oferecidos e as informações históricas de seu interesse.

A difusão do papel do Arquivo Histórico é fundamental para o entendimento da sua importância, ao mesmo tempo que dimensiona o quanto o município de Cachoeira do Sul pode se orgulhar por manter esta instituição que já granjeou reconhecimento além-fronteiras.

No dia 28 de setembro de 2017, o professor Mateus Rosada, da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM, Campus Cachoeira do Sul, promoveu uma de suas aulas junto às dependências do Arquivo Histórico, onde também está sediado o Conselho Municipal do Patrimônio Histórico-Cultural - COMPAHC, cujo acervo documental interessa sobremaneira os acadêmicos e suas relações com os bens do patrimônio histórico local.

Alunos da UFSM 
Outro professor que buscou no Arquivo Histórico subsídios para instrumentalizar seus alunos para o Repórter por Um Dia, promoção conjunta do Jornal do Povo com 24.ª Coordenadoria Regional de Educação, foi Rui Loreto. Acompanhado de dois alunos, Loreto solicitou informações e documentos sobre Antônio Vicente da Fontoura, o Comendador da Paz, cuja história de atentado sofrido dentro da Igreja Matriz já foi tema de várias e importantes pesquisas no Arquivo Histórico. Aliás, dois trabalhos publicados na edição de 2017 do Repórter por Um Dia resultaram de pesquisas no Arquivo.

Prof. Rui Loreto e seus alunos - 13/10/2017

No último dia do mês de novembro, uma turma de alunos do 5.º ano da Escola Estadual Rio Jacuí, acompanhada pela professora Gláucia G. Sklar e estagiária Mariane Bitencourt, teve a oportunidade de conhecer todas as instalações e serviços do Arquivo Histórico, dedicando-se ao final da visita a uma pesquisa em jornais do Acervo de Imprensa. Curiosos, os alunos puderam vivenciar a experiência de buscar notícias do passado, percebendo diferenças na escrita, na abordagem das matérias e no próprio formato dos jornais.

A assessora Mirian Ritzel falando sobre o papel do Arquivo Histórico

A assessora Ucha Mór falando sobre o Serviço de Genealogia do AH

Os alunos conhecendo o trabalho de encadernação e restauro, serviço
realizado pela assessora Jussara Garske e voluntária Alba Lindemann


Os alunos pesquisando em jornais

Flagrantes da visita e registro da turma da E.E.E.F. Rio Jacuí

Tiago Janner, professor em Agudo e frequente pesquisador no Arquivo Histórico, também trouxe uma turma de alunos da Escola Érico Ferrari para conhecerem e pesquisarem no Jornal do Povo, no Acervo de Imprensa. Os temas pesquisados foram o início da II Guerra Mundial, bomba atômica em Hiroshima, a morte de Getúlio Vargas e a inauguração de Brasília.

Os alunos ouvindo explicações sobre o trabalho do AH, acompanhados
pelos professores Tiago Janner (titular da turma) e Nelson C. Fick (acompanhante)


Os alunos agudenses em busca de histórias no Arquivo
Com o registro destes visitantes o Arquivo Histórico faz um agradecimento especial a todos aqueles que o procuram em busca da documentação da história, valorizando e dando concretude a trabalho muitas vezes desconhecido por grande parte da população.

MR
sexta-feira, 24 de novembro de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Segurança - uma ânsia de todos os tempos

As questões de segurança, embora pareçam ser um problema moderno, sempre estiveram no topo das preocupações dos cidadãos cachoeirenses. Ao tempo do início da povoação, ainda no século XVIII, dentre outras, a ameaça de ataques dos índios selvagens, chamados pelos padres de infiéis, atemorizava as famílias dos primeiros moradores. 

No primeiro livro de assentos de óbitos da Diocese de Cachoeira do Sul há registros de mortes provocadas por ataques de índios, como o caso ocorrido em 9 de setembro de 1796, quando foram atacados e desgraçadamente mortos pelos infiéis tupis Maria Pedroza, viúva de 70 anos aproximadamente, a filha Luzia Garcia, viúva, e os netos Roza, solteira, e os menores Felippe, de 10 anos, e Joanna, sete anos. Como se vê, aqueles eram tempos de vida selvagem e abandono à própria sorte...

Houve períodos de revoluções, especialmente a Guerra dos Farrapos, quando por diversas vezes a vila foi tomada ora por legalistas, ora por farroupilhas. O medo andava por todos os lares e os recursos de proteção eram poucos e ineficazes. Depois veio a revolução federalista, quando o pavor espreitava todas as casas e, no primeiro quartel do século XX, todas as revoluções que faziam entrar e sair tropas da cidade, com riscos de assaltos e violações.

Mas não só para se proteger nos conflitos o povo necessitava de segurança, mas também de proteção à espoliação de seus bens. Roubos, incluindo os de escravos, são relatados em documentos da justiça preservados no Arquivo Histórico. Um deles relata o roubo de porcos ocorrido em Restinga Seca, então freguesia de Cachoeira, em 13 de maio de 1830. Naquela ocasião, João Batista de Miranda acusou Florentino Gonçalves Padilha de lhe surrupiar quinze Porcos Capados, e tres pórcas, e hum Leitão...


Auto de Corpo de Delito - Roubo de Porcos - 13/5/1830
- Documentos da Justiça

Nas décadas de 1920/1930, quando a cidade em franco desenvolvimento já ostentava belas moradias, os casos de furtos a residências e de larápios sendo surpreendidos em estabelecimentos faziam parte da rotina. Para oferecer segurança às famílias, além de assistência em emergências, foi criada a Guarda Nocturna Particular da Cidade de Cachoeira, cujo regulamento foi impresso e chegou até nossos dias graças a um arquivo particular.

Regulamento da Guarda Noturna Particular
- AP Arquivo Histórico

A Guarda Noturna Particular da Cidade de Cachoeira tinha obrigações e regras expressas em cinco artigos no seu regulamento:
1.º - A Guarda Nocturna Particular é um corpo de segurança que tem por fim prestar serviços àquelles que se inscreverem como assignantes, guardando as propriedades, bem assim, prestando aos mesmos, auxilios que, em qualquer emergencia se tornem necessarios.
2.º - Entre os serviços que a Guarda Nocturna Particular deve prestar aos seus assignantes contam-se os seguintes: Chamar medicos, parteiras, Assistencia Publica, etc.
3.º - Só será admittido ao serviço da Guarda o candidato que apresentar attestado de conducta fornecido pela Chefatura de Policia e provar saber ler e escrever e não soffrer de molestia que o impossibilite ao desempenho de suas funcções.
4.º - Durante o serviço os guardas usarão um distinctivo approvado pela Municipalidade, afim de serem facilmente identificados. Os assignantes terão tambem um distinctivo para se fazerem conhecer no momento de ser invocado o auxilio do guarda particular.
5.º - Se qualquer cousa ouver o guarda irá ao telephone mais proximo e communicar-se-á com a guarda da Sub-Prefeitura, afim de tornar mais efficaz o auxilio.

A seguir, o regulamento trata do DEVER DO GUARDA:
1.º - Logo que entrar de ronda, verificar [rasgado] portas das casas dos assignantes acham-se fechadas.
2.º - Acompanhar o assignante e despertal-o, ou pessoa de sua familia, todas as vezes que lhe for ordenado.
3.º - Transmittir recado do assignante para qualquer pessoa que resida no perimetro da quadra em que acha-se destacado.
4.º - Fazer aviar receitas na pharmacia, chamar medico ou parteira.
5.º - No caso de incendio, dar immediato aviso pelo telephone a Sub-Prefeitura.
6.º - Tratar com urbanidade a todas as pessoas que se lhe dirijam, ainda mesmo que estas procedam de modo diverso.
7.º - Levar ao posto mais proximo pessoas suspeitas que conduzirem, a noite, volumes ou objectos cuja procedencia não saibam explicar.
8.º - Não intervir em desordens, a não ser que para isso o guarda policial peça a sua intervenção.
9.º - Ter irreprehensivel conducta.
10.º - Não abandonar o serviço em que se acha destacado, sob pretexto algum.
11.º - Não falhar ao serviço sem aviso previo, sob pena de na primeira vez ser multado (10$000) e pela segunda demittido.
12.º - Havendo luz nas casas dos assignantes, horas mortas, verificar a causa.
13.º - Apresentar-se nas horas de serviço com fardamento limpo, assim como os distinctivos e convenientemente calçado, sob pena de demissão.
14.º - O guarda entrará de ronda no inverno ás 22 horas e no verão, ás 22 1/2 horas até o clarear do dia, de modo a se divulgar qualquer vulto na distancia de duas quadras.
15.º - Todos os guardas, depois de retirarem-se de seus postos terão que comparecer à Sub-Prefeitura.
16.º - Durante o serviço todos os accidentes, serão notificados para communicar ao escriptorio.
17.º - Todo o guarda que fôr encontrado dormindo ou alcoolisado, em seu posto, será punido severamente.

Como se vê, a Guarda Noturna Particular oferecia bem mais do que segurança, mas assistência e socorro nas necessidades dos contratantes de seus serviços. Longe vai na memória dos mais velhos a figura do guarda noturno, sujeito que varava as noites em vigília e, vez em quando, soava um apito, dando tranquilidade e bom sono a todos.

MR
quinta-feira, 16 de novembro de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Dr. João Neves da Fontoura - 130 anos

Há 130 anos, nascia em Cachoeira João Neves da Fontoura, filho de Isidoro Neves da Fontoura e de Adalgisa Godoy da Fontoura, um dos vultos mais ilustres e importantes desta terra.

Dr. João Neves da Fontoura - Fototeca Museu Municipal

Em 16 de novembro de 1927, por ocasião de seu 40.º aniversário, João Neves foi alvo de homenagens. A notícia que ocupou a primeira página do jornal O Commercio, edição de 23 de novembro, dá mostras do quão importante já era o jovem político, cuja trajetória futura o consagraria ainda mais. 

Dr. João Neves da Fontoura

O nosso illustre amigo dr. João Neves da Fontoura, "leader" da maioria republicana da Assembléa e candidato á vice-presidencia do Estado, recebeu, por motivo do seu anniversario natalicio, a seguinte carta de congratulações que lhe enviou o dr. Borges de Medeiros, eminente presidente do Estado e chefe do Partido Republicano Rio-Grandense.

"Porto Alegre, 16 de novembro de 1927. - Prezado amigo dr. João Neves da Fontoura. N/C.
Acceitae as minhas effusivas felicitações pelo transcurso do vosso anniversario natalicio, que os correligionarios e os admiradores do vosso peregrino talento festejam jubilosos, na data de hoje.
Fazendo votos pelo prolongamento da vossa existencia, que uma mocidade radiosa e cheia de serviços á causa publica já recommendou ao apreço dos rio-grandenses, apraz-me renovar-vos as seguranças da minha estima e consideração - Borges de Medeiros".
---
A Federação assim noticiou o seu anniversario:

"Transcorre hoje o anniversario natalicio do nosso illustre amigo dr. João Neves da Fontoura, "leader" da maioria republicana da Assembléa dos Representantes e candidato á vice-presidencia do Estado no proximo quinquennio.
O fulgor de seus peregrinos talentos, a lealdade de suas convicções, a sua permanente e efficaz actividade em funcções politicas e administrativas, em que tem revelado predicados invulgares de operosidade e competencia, fazem de João Neves na vida republicana do Rio Grande do Sul uma individualidade de remarcado relevo.
Na Assembléa dos Representantes, a sua palavra eloquente e vibrante, na defesa dos nossos principios e das realisações fecundas do governo rio-grandense, é o reflexo empolgante e persuasivo da consciencia republicana, dos seus ideaes e das suas aspirações.
O apreço e a admiração que merece João Neves do seu partido estão expressos na indicação de seu nome á vice-presidencia do Estado, feita pelo eminente chefe republicano, dr. Borges de Medeiros, com o applauso e a solidariedade dos seus correligionarios.
Ao devotado republicano e insigne parlamentar A Federação envia affectuosas saudações.

João Neves chegaria à vice-presidência do Estado, tendo como presidente Getúlio Vargas. Em 1928 entregaria a Intendência de Cachoeira para seu sucessor José Carlos Barbosa. Entrou para a história local como o administrador que mais e grandiosas obras urbanas empreendeu. 

Com esta postagem, a equipe do Arquivo Histórico do Município de Cachoeira do Sul presta sua homenagem ao homem e ao líder que disse um dia: 

"De quantas honrarias depois me couberam, dentro e fora do Brasil, nenhuma me trouxe mais alegria do que o exercício de uma modesta prefeitura do interior."

MR
sexta-feira, 10 de novembro de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Uma cápsula para daqui um século

As comemorações do centenário de criação do 3.º Batalhão de Engenharia de Combate de Cachoeira do Sul, inicialmente sediado em São Gabriel e instalado em Cachoeira em 1924, foram determinantes para que uma cápsula do tempo, assentada no dia 2 de abril de 1922, fosse localizada sob a pedra fundamental do quartel. A abertura do artefato fez emergir do passado muito da história daquele dia, com a grata surpresa do achado de exemplares raros de jornais, como A Palavra, de Fábio Leitão, casualmente falecido no dia 10 de novembro de 1924, no Barro Vermelho, em episódio histórico que envolveu este mesmo batalhão.

Militares que localizaram a cápsula de 1922 - Foto Jornal do Povo

No dia 10 de novembro de 2017, coroando as comemorações que se desenrolaram ao longo de todo ano, aconteceu a inauguração do monumento que marca os 100 anos da corporação (projetado pelo arquiteto Osni Schroeder), quando outra cápsula do tempo ocupou o lugar da primeira, desta vez portando para daqui um século os jornais de hoje, moedas, fotografias, documentos e um pendrive. 

Coronel Guilherme S. Hossmann com a cápsula de 2017
- Foto Jornal do Povo

O Arquivo Histórico participou das atividades com o apoio da Associação Cachoeirense de Amigos da Cultura - AMICUS na estabilização dos originais encontrados na cápsula de 1922, contando com a prestimosa colaboração do fotógrafo Renato F. Thomsen no registro dos conteúdos dos jornais em meio digital.

Exposição no 3.º BECmb dos materiais encontrados na cápsula de 1922
e parte do pessoal envolvido - Foto Jornal do Povo

O monumento do centenário - foto Eduardo Schroeder

Às futuras gerações caberá localizar a cápsula do tempo plantada em 10 de novembro de 2017 e ter para com ela a mesma respeitosa atitude de preservar o seu conteúdo, permitindo assim que os cachoeirenses 100 anos à frente possam compreender e ser tocados pelas ações do presente, fadadas desde então a reconstituírem uma história que pertence ao passado que acabou de acontecer.

MR
segunda-feira, 6 de novembro de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Um cemitério para a Vila

Até meados da primeira metade do século XIX era prática corrente em todo o Brasil enterrar os mortos dentro das igrejas e cabia aos padres a tarefa de registrar nos livros correspondentes os assentos de batismos, casamentos e óbitos dos fiéis, bem como providenciar os sepultamentos.

Na Vila Nova de São João da Cachoeira não era diferente e, apesar dos incômodos, especialmente o mau cheiro dos corpos em decomposição na estrutura mal vedada das paredes da Igreja Matriz, as autoridades nada faziam para solucionar a prática. Até que em 4 de outubro de 1827, o cirurgião-mor do Império, Gaspar Francisco Gonçalves, fez um alerta em sessão dos vereadores, prevenindo-os da urgente necessidade da construção de um cemitério fora da vila.

Em seu pronunciamento, Gaspar Francisco Gonçalves foi contundente, afirmando que sepultar os mortos dentro da igreja consistia em causa pestífera assaz capaz de infeccionar uma grossa cidade, quanto mais uma vila tão pequena, como se prova pelas grandes mortandades que têm grassado pelo povo, muito principalmente porque já se sepultam os cadáveres uns sobre os outros, e a entrada da igreja é uma prova evidente pelo cheiro que exala. 

Além dos sepultamentos dentro da igreja, o terreno fronteiro a ela e o dos fundos também constituíam cemitérios, sendo aquele ponto um local que exalava morte.

Em 11 de abril de 1831, o vigário Ignacio Francisco Xavier dos Santos redigiu uma carta ao presidente e demais vereadores da Câmara comunicando que havia recebido aviso para que fossem suspensos os sepultamentos dentro da igreja e efetuados em cemitérios fora das povoações. A determinação era também de que em comissão com o comandante da vila, o sargento mor Joaquim Severo Fialho de Mendonça, escolhessem um lugar, informando a Câmara da Capital, e que depois providenciassem o muramento do terreno e a ereção de um altar.



Carta do padre Ignacio F. X. dos Santos enviada à Câmara
em 11/4/1831 - CM/OF/Ofícios - Cx. 12

Na mesma carta, o vigário informava que em 1827, de comum acordo com o ouvidor Japi Assú, haviam escolhido o lugar para o cemitério no alto da Aldeia, tendo na ocasião sendo bento na forma do ritual romano. No entanto, o padre reclamava que a Câmara ainda não havia mandado amurar e erigir o altar e que mais de uma vez havia representado contra ele junto ao presidente da província. Por fim, solicitava à Câmara que cumprisse a sua parte para que, finalmente, ele pudesse cumprir a sua.

Os impasses se seguiram ainda por um tempo. A contragosto do vigário, os sepultamentos tiveram que cessar dentro e no entorno da Igreja Matriz para, finalmente, terem os mortos por destino o atual Cemitério das Irmandades, cuja chave foi entregue ao vigário Ignacio Francisco Xavier dos Santos em janeiro de 1833.

Quanto à obra do muro de cercamento do cemitério, reclamada pelo vigário à Câmara, somente em dezembro de 1853 houve a contratação do serviço de Antônio Xavier da Silva, mas ainda sem o total fechamento do terreno. Finalmente, em 11 de dezembro de 1856, por obra contratada a José Ferreira Neves, foi totalmente amurado o Cemitério das Irmandades. O padre Ignacio não testemunhou esta obra, pois passou a ocupar túmulo naquele cemitério em junho de 1844.

MR
sexta-feira, 27 de outubro de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

A pereira da Miséria

O jornal O Commercio, edição de 21 de dezembro de 1910, talvez imbuído do espírito natalino, publicou uma lenda húngara, na verdade uma parábola que tenta explicar a miséria no mundo. Eis o texto:

===== A pereira da Miséria =====
Em um logar denominado Vico, existia uma mulher, chamada Miséria, que esmolava de porta em porta, e parecia tão velha como o peccado original.
A mulher Miséria habitava em companhia de um cão, chamado Tarro, em um immundo casebre, sem moveis, tendo um bastão e uma saccola sempre vazia.
É verdade que tinha tambem um pequeno quintal, com uma unica arvore, uma pereira tão formoza que não tinha rival, a não ser no paraizo terrestre.
O unico prazer que neste mundo tinha Miséria era comer os fructos de sua pereira, mas, desgraçadamente, os rapazes lhe roubavam alguns.
Quando ella sahia a pedir, Tarro a acompanhava, menos no outomno, que ficava elle para guardar a casa e a pereira, porém com grande sentimento, pois a velha e o cão se amavam com amôr entranhavel.
II
Chegou o inverno, em que dois mezes gelava e as pedras se partiam de frio; e cahiu tanta neve, que os lobos, impellidos pela fome, entravam nas casas.
Miséria e Tarro soffriam horrivelmente. Uma noite gelava e silvava com intensidade o vento; aquelles desgraçados procuravam dar-se um pouco de calor um ao outro, junto ao logar onde fôro [sic] o fogo, quando bateram á porta.
Em vez de ladrar, como de costume, Tarro levantou a cabeça e agitou a cauda com alegria.
- Pelo amôr de Deus (disse uma voz enfraquecida), abri a um pobre que morre de frio e fome.
- Levantae a taramella, respondeu a Miséria; não se diga que eu não dou pousada a uma creatura de Deus.
O extrangeiro entrou; parecia ainda mais velho e pobre que a Miséria, e não tinha por abrigo mais do que um manto esfarrapado.
- Descançae, bom homem, disse a Miséria, pessimo logar buscastes para descançar, porém posso ainda fazer alguma cousa.
Deu ao velho umas castanhas e uns pedaços de pão que lhe ficaram.
O velho comia com appetite, e Tarro lambia-lhe os pés.
Miséria deu-lhe para dormir umas palhas, e ella recostou-se a um canto para dormir. Pela manhã foi ella a primeira a despertar.
- Nada me resta; que darei a meu hospede? Sahirei a esmolar. Deitou o nariz de fóra; não cahia neve, o céu era limpido e o sol de primavera. A velha voltou para tomar o bastão e viu o extrangeiro de pé, disposto a sahir.
- Que! Já se vae?
- Sim; minha missão acha-se terminada e della devo dar conta a meu amo. Não sou o que pareço, sou S. Lazaro e fui enviado para ver como se praticava a caridade entre este povo. Bati á porta do rico governador, de seus subalternos regedores e todos me deixaram tiritar de frio.
Tu só te compadeceste de minha miséria, sendo tão desgraçada como eu. Deus quer premiar-te; dize o que desejas nesta vida e conseguirás.
- Bemaventurado S. Lazaro, disse Miséria, persignando-se e ajoelhando. Não me admiro que Tarro lhe lambesse os pés. Eu não fiz caridade por interesse, e de cousa alguma necessito.
- Como assim dizes, se nada tens? disse S. Lazaro. Pede: que queres? Queres uma bôa casa, com grande celeiro de trigo? Queres thezouros e honras? Queres ser duqueza, rainha?
- Nada, replicou Miséria, abanando a cabeça.
- Um santo como eu não deve ficar devedor. Falla, ou eu te julgarei orgulhosa.
- Pois que exigis, glorioso santo, disse, tenho aqui uma pereira que me dá excellentes fructos, porém os garotos me os roubam. Permitti que todos que nella subam só possam descer com minha permissão.
- Assim seja, disse S. Lazaro, rindo-se daquella simplicidade. E, dando-lhe a benção, despediu-se.
III
A benção de S. Lazaro foi mais proveitosa a Miséria, que desde então nunca mais voltou á casa com a saccola vasia. Veiu a primavera e logo o verão, o outomno e o tempo das peras; vendo os rapazes que a Miséria sahira com o seu cão, subiram á arvore, colheram fructos e riram-se; mas quando quizeram descer, sentiram-se visgados.
Miséria os encontrou e para castigo os deixou em cima muito tempo, botando-lhes o cão.
Já nenhum voltava depois d'isso e até davam grande volta para evitar a arvore feiticeira.
No fim do outomno, Miséria se aquecia sob sua arvore, quando ouviu uma voz sinistra. que lhe bradava:
- Miséria, Miséria, Miséria!
Voltou-se, vendo um homem alto, secco, amarello e velho, trazendo uma faca grande e larga. Miséria conheceu que era a Morte.
- Que quereis, homem de Deus? disse com voz alterada e medrosa.
- Vamos, Miséria, chegou a tua hora.
- Já?
- Já e deverás agradecer-me, tu tão pobre, tão velha e acabrunhada.
- Não tanto assim. Tenho pão, lenha e ainda não fiz os meus noventa e cinco. Respeito a achaques, me sinto tão forte como vós.
- Ainda melhor estareis no céo.
- Sei o que perco, mas sinto deixar o Tarro.
- Tambem o cão te seguirá. Vamos.
- Permita-me então um momento para apromptar-me; não quero envergonhar-me diante da gente de lá.
- Sim, mas não se demore.
- Ah! Ocorre-me uma idéa. Emquanto me preparo, quer fazer-me um favor? disse a velha à Morte. Desejava que V. subisse á pereira e colhesse tres peras que ali ficam: eu as comeria em caminho.
- Depressa, subo.
- E a Morte subiu á pereira, colheu as peras e quiz descer, porém... que quizesse!
- Ah! Miséria, gritava, ajuda-me a descer. Não sei o que tem esta maldita pereira.
IV
Ao cabo de um mez, todo mundo se admirou de não morrer pessoa alguma, em Vico, e a admiração foi maior, quando se soube que não só em toda a comarca, como em muitos logares da circumscripção, ninguem morria. Veiu o anno novo e tanto em Portugal como na França, Belgica, Austria, Russia e nem em parte alguma morreu alguem.
Passavam-se mezes, annos e todos os enfermos ficavam bons, sem que os medicos soubessem porque.
Quando chegou segunda vez S. Silvestre, todos os homens se felicitavam da immortalidade e celebravam festas nunca vistas.
Quem suspeitaria que era obra da Miséria?
Tudo marchou regularmente.
Havia velhos de cento e dez e cento e vinte e mais annos, cheios de enfermidades, cégos, surdos, patetas insensiveis, que tinham a immortalidade como um mal.
Aqueciam-se ao sol, debeis, alquebrados, os olhos sem brilho, sob o peso de todos os incommodos.
Os fracos permaneciam em suas camas e não havia casa onde não existissem cinco ou seis velhos, que eram os maiores incommodos das familias.
Foi preciso reunir-se os velhos invalidos em grandes hospitaes, e como não morriam, não havia heranças e todos os bens pertenciam a velhos, que os não podiam desfructar.
Com reis velhos os governos se enfraqueciam e as leis se relaxavam; a gente certa de não ir ao inferno, dava-se a todos os crimes, repetiam-se os roubos, incendios, violações, porém nada podia matar nem mesmo os animaes.
Eram tantos os habitantes da terra que não havia mais alimentação; veiu uma fome horrivel e os homens, nús, sem habitação, soffriam atrozmente e não podiam morrer.
Todos buscavam a morte. Decretaram guerras formidaveis; as nações cahiram umas sobre as outras; feriam, mas não conseguiam matar um só homem.
Os venenos e os instrumentos de destruição apenas faziam soffrer; não tiravam a vida.
Os medicos das cinco partes do mundo, para descobrir um remedio contra a vida, propuzeram um premio de muitos mil contos para aquelle que o descobrisse; escreveram-se mais livros do que sobre o colera, mas tudo foi inutil.
Era uma calamidade mais espantosa do que o diluvio, porque não tinha fim.
V
Nesse tempo existia em Vienna um medico mui sabio, que quasi sempre fallava em latim, e chamava-se o Dr. De Profundis.
Uma noite que voltava para casa, de uma palestra em casa do presidente da camara, um pouco alegre, ou distrahido, perdeu-se e foi dar á casa da Miséria, e ouviu uma queixa que dizia:
- Ah! quem livrará a terra da immortalidade, peior que a peste?
O Dr. levantou os olhos e viu a Morte.
- Como? és tú, meu amigo, meu camarada? lhe perguntou: Que fazes, te remechendo nesses ramos?
- Nada, Dr. De Profundis, e é o que me afflige, respondeu a Morte. Dê-me a mão para que eu desça.
- Toma.
E o bom doutor lhe estendeu a mão, porém a Morte deu-lhe tal arranco que levantando-o ficaram ambos presos á arvore, sendo inuteis todos os esforços para descerem.
Os habitantes de Vico observaram que o Dr. De Profundis não apparecia, e, sendo sua falta sensivel, fizeram annuncios por todos os jornaes que dariam grande premio a quem o descobrisse.
Muitos homens sahiram á sua procura e chegaram até á casa da Miséria.
O Doutor os viu e chamou, fazendo signaes com o lenço e gritando:
- Para aqui! para aqui! já tenho a Morte porém... non possumos descendere desta maldita pereira.
- Viva a Morte! gritaram todos.
Davam a mão á Morte e ao doutor, mas estes puxavam e eram todos suspensos, ficando assim a pereira em poucos momentos cheia de homens.
Alguns que ficaram na terra tiveram a idéa de deitar abaixo a arvore, mas debalde.
Olhavam-se boquiabertos e lamentando a sorte dos infelizes, quando foi pelo barulho despertada a Miséria, que foi ver a causa de tal algazarra.
Explicaram-lhe tudo e então comprehendeu o mal que fez sem o querer.
- Eu só posso libertar a Morte e o farei com uma condição. Quero que a Morte não venha buscar nem a mim, nem a Tarro, até que a chame tres vezes.
- Dá-me a mão, disse a Morte. Eu conseguirei que S. Lazaro regule a questão com Deus.
- Descei, repetiram a Miséria e a Morte.
O Doutor, com todos, cahiram como peras maduras.
A Morte se poz a gritar, e todos queriam ser os primeiros, de modo que ella não sabia como entender-se; resolveu crear um exercito de medicos para ajudal-a, nomeando capitão general Dr. De Profundis.
Alguns dias bastaram para que tudo entrasse na furada.
A Miséria continua calada e ainda não chamou as tres vezes pela Morte.
Eis porque a miséria se acha no mundo.
(Duma lenda hungara)


Parte do texto publicado pelo O Commercio - Acervo de Imprensa

Como se vê, tudo tem um propósito no mundo, até mesmo a morte!

MR
sexta-feira, 20 de outubro de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Arquivo Histórico registrado na XII Semana de Museus de Franca

Foi com satisfação que a equipe do Arquivo Histórico recebeu a publicação Museus e histórias controversas: dizer o indizível em museus, resultado de uma reflexão proposta pelo Instituto Brasileiro de Museus - IBRAM sobre "quais as histórias que nossos museus estão contando? Como eles colaboram para a construção ou para o questionamento das versões oficiais dos grupos dominantes? Quais outras histórias precisam ser lembradas? Como trabalhar na expografia o confronto entre lembranças e esquecimento?" 

Capa da publicação de Franca - SP

Uma das histórias retratadas na publicação, que contém outros onze textos, traz a vida de um personagem que se ligou a Cachoeira, mais especificamente ao comando da Guarda Nacional. Trata-se de José Pinheiro de Ulhoa Cintra, natural de Jacuí, Minas Gerais, e que foi coronel da República Rio-Grandense. A pesquisa, assinada por Sônia Regina Belato de Freitas Lelis e Walter Antônio Marques Lelis, foi publicada com o título Mineiros na Guerra dos Farrapos - Um filho de Jacuí - MG, Coronel da República Farroupilha, em cujas referências de consulta consta o Arquivo Histórico do Município de Cachoeira do Sul. 

Segundo os autores, José Pinheiro de Ulhoa Cintra teria vindo para o Rio Grande do Sul em 1826, como alferes do 1.º Corpo de Artilharia, sediado em São Gabriel. De lá foi para Rio Pardo, onde constituiu família com a cachoeirense Ricarda Elisea da Silva, prima-irmã do General Manuel Luís Osório. O casal teria tido seis filhos, sendo um único homem, Jayme Pinheiro de Ulhoa Cintra. Durante a Revolução Farroupilha, em que teve participação importante, sua casa em Caçapava sediava reuniões dos farrapos. Conhecida por "Casa dos Ministérios", é tombada pelo IPHAE - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado. Naquela cidade, Ulhoa Cintra foi vulto político importante, tendo desempenhado as funções de vereador e juiz municipal, dentre outras. Foi ainda deputado provincial nas legislaturas de 1848/1849, de 1854/1855 e de 1863/1866. Seu falecimento, em Caçapava, se deu em 24 de julho de 1883.

Dados de José Pinheiro de Ulhoa Cintra na publicação

O arquivo de documentos da Guarda Nacional existente no Arquivo Histórico possui várias correspondências destinadas ou geradas pelo Major José Pinheiro de Ulhoa Cintra, oficial do comando da região de Cachoeira e Caçapava. Há neste arquivo também documentos que citam o tenente-coronel Jayme Pinheiro de Ulhoa Cintra, seu filho.

Em um destes documentos, o Major José Pinheiro oficia de Caçapava ao Tenente Coronel Balthazar Francisco de Bem, Chefe do Estado Maior e Comandante Superior interino da Guarda Nacional, remetendo  por portador o pequeno arquivo que estava em seu poder, esclarecendo que por estar dispensado do exercício de major e doente, estava impossibilitado de prestar-se a qualquer exigência feita pela Guarda Nacional. O ofício traz a data de 4 de fevereiro de 1865.

Arquivo Guarda Nacional - 4/2/1865

Documentos são suportes do tempo. Guardam histórias, muitas vezes indizíveis, termo muito apropriadamente empregado pelo IBRAM para trazer à tona histórias e diferentes versões, ou pontos de vista, fazendo emergir do passado personagens e fatos que poderiam seguir adormecidos até que alguém buscasse por eles. Ou não.

Os arquivos históricos, assim como os museus, podem ser depositários de acervos que se desdobram em diferentes possibilidades de narrativa e dialética. São instituições afins e complementares, oferecendo inúmeras e diferentes formas de leitura do passado.

Nota: agradecimentos aos pesquisadores Sônia Regina Belato de Freitas Lelis e Walter Antônio Marques Lelis pela oferta da publicação.

MR
sexta-feira, 13 de outubro de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Encontrada a cápsula do tempo do 3.º BECmb

Na manhã do dia 6 de outubro de 2017, soldados do 3.º Batalhão de Engenharia e Combate de Cachoeira do Sul fizeram o passado emergir da terra quando localizaram a cápsula do tempo que foi depositada sob a pedra fundamental dos quartéis, festivamente lançada em 2 de abril de 1922.

Naquele dia 2 de abril, estiveram em Cachoeira o Ministro da Guerra, João Pandiá Calógeras, General Cândido Rondon, chefe da Diretoria de Engenharia do Exército, outros oficiais e representantes da Companhia Construtora de Santos, empresa executora das obras.

João Pandiá Calógeras - Ministro da Guerra
Cândido Rondon - Diretor de Engenharia do Exército

Recebidas pelo intendente Aníbal Loureiro, as autoridades foram levadas para conhecerem o terreno em que se assentariam os quartéis, cedidos pela Intendência ao Ministério da Guerra depois de terem sido adquiridos por compra a Virgílio Carvalho de Abreu e Virgilino Carvalho Bernardes.

Intendente Annibal Loureiro

O jornal O Commercio, edição de 5 de abril de 1922, traz a notícia da grande movimentação daquele dia 2:

Lançamento festivo da pedra inicial dos trabalhos da construcção do quartel de Engenharia
A visita do Ministro da Guerra

Conforme estava annunciado chegou ás 17 horas de 2, em trem especial, a esta cidade, o dr. João Pandiá Calogeras, Ministro da Guerra, que foi recebido na Estação da Via Ferrea por todas as auctoridades locaes e povo, dando-lhe as boas vindas, em nome da cidade, o dr. Annibal Loureiro, Intendente Municipal.
O dr. Calogeras viaja acompanhado de sua exma. esposa e dos snrs. Generaes Candido Rondon, Abilio Noronha e varios outros distinctos officiaes de varias patentes. Com S. Exa. tambem viajam o dr. Roberto Simonsen e exma. esposa e o dr. Ernani Azevedo, respectivamente presidente e chefe do departamento deste Estado da Companhia Constructora de Santos, sob cuja administração estão sendo construidos varios quarteis no Rio Grande, em São Paulo, S. Catharina e Matto Grosso.
Feitas as apresentações protocollares, S. Exa. o Ministro da Guerra e o dr. Annibal Loureiro, em landaulet, acompanhados de varios automoveis occupados pela comitiva ministerial, seguiram em rapido passeio pela cidade, dirigindo-se em seguida, pela rua Andrade Neves e caminho do Seringa, rumo ao terreno escolhido para construcção do quartel do 3.º Batalhão de Engenharia.
Este terreno, que é localisado proximo á cidade, em optima situação topographica, foi adquirido pela municipalidade e doado ao Governo Federal.
Após percorrer cuidadosamente todo o terreno e examinar o rio Jacuhy, S. Exa. muito bem impressionado, approvou o projecto da locação dos edificios, autorisando o inicio dos trabalhos.
Foi, então, pelo nosso amigo Emiliano Carpes, nomeado secretario ad-hoc, lavrado, em pergaminho, uma acta commemorativa do inicio dos trabalhos; após sua assignatura pelo Ministro e demais pessoas gradas o dr. Roberto Simonsen, em nome da Companhia Constructora de Santos, offereceu aos presentes uma taça de “champagne” e saudou em termos encomiasticos o sr. Ministro da Guerra pela fecunda actividade desenvolvida neste importante departamento governamental.
Terminou levantando sua taça em honra de S. Exa., no que foi correspondido por todos os presentes.
Fallou em seguida o dr. Annibal Loureiro que disse, em resumo, que a cidade se ufanava com a visita do sr. Ministro e que o municipio tinha immensa satisfação em offerecer ao Governo Federal a área de terreno necessaria á construcção de quarteis, para o abrigo de suas tropas; que era justamente proclamada e por todos reconhecida a sua extraordinaria operosidade na pasta da guerra; que a reorganisação do exercito constituia obra de tamanha magnitude que a sua realisação ou simples emprehendimento valia por um justo titulo de benemerencia publica, de admiração e reconhecimento das gerações presentes e futuras; a ella nos associariamos, com todo o ardor patriotico, prestando sincera coadjuvação; que era bem possivel que após a conflagração mundial, pela dura licção dos factos demonstrativos de que nas guerras nem mesmo a victoria por mais resplandecente que seja compensa os ingentes sacrificios despendidos, para obtel-a, venham os povos a desfructar uma longa era de pacificação; mas, emquanto a Humanidade não atingir a um elevado grau de aperfeiçoamento, pelas tristes contingencias humanas e sociaes e mesmo em face da acção pouco efficiente da Liga das Nações e dos congressos de desarmamentos, estariamos ainda, quem sabe até quando, sujeitos a uma vida de paz armada, synthetisada pelos latinos, com admiravel concisão, na maxima se vis pacem para bellum; que, por isso, a Nação que compõe o proprio exercito applaudia a sua acção e acompanhava jubilosa a sua jornada através do territorio patrio, no afan patriotico de implantar marcos que assignalariam as linhas de defesa nacional, dentro das quaes o Brasil saberia manter respeitadas a sua integridade e soberania.
Terminou, levantando sua taça em homenagem ao snr. Ministro e á grandeza e prosperidade da Patria, sendo suas ultimas palavras cobertas por uma salva de palmas.
A esta saudação respondeu o dr. Pandiá Calogeras em eloquente saudação, cuja summula deixamos de transmittir aos nossos leitores, receiosos de trahir o seu pensamento, na impossibilidade em que nos encontramos de submettel-a á sua revisão.
Recordamos, porém, que Sua Exa., agradecendo, em nome do Governo Federal, a doação feita pelo Municipio dos terrenos destinados á construcção dos quarteis, referiu-se encomiasticamente á solicitude da Municipalidade e á cooperação patriotica que, neste sentido, tem encontrado em todos os elementos sulriograndenses.
Finalisou o seu discurso, entregando as obras á actividades dos constructores, á competencia da Directoria de Engenharia do Exercito, representada naquelle acto pelo seu respeitavel chefe, General Candido Rondon e finalmente ao carinho da população de Cachoeira.     
Suas ultimas palavras provocaram na numerosa assistencia prolongados applausos.
Em seguida, dirigiram-se todos para o local do marco inicial das obras, afim de se proceder á cerimonia de sua implantação, tendo S. Exa. lançado a primeira pá de cimento.
Terminada a solemnidade, o Ministro e sua comitiva dirigiram-se para a estação da Viação Ferrea, afim de prosseguirem viagem para Rio Pardo e Caxias.
Á hora da partida, o dr. Annibal Loureiro offereceu a Mme. Calogeras um ramalhete de flores naturaes e a pequena pá de prata com que o snr. Ministro lançou a primeira argamassa de cimento sobre a pedra fundamental das obras.
Sua Exa. partiu ás 19 horas, agradavelmente impressionado não só com o acolhimento que teve como tambem com o estado de vitalidade e progresso que notou na cidade.
Á noite, em regosijo pela inauguração da construcção dos quarteis que muito contribuirão para o progresso e desenvolvimento local, o dr. Annibal Loureiro offereceu um jantar intimo a varias pessoas das suas relações, sendo ao dessert saudado pelo dr. Balthazar de Bem e advogado Antunes de Araujo, que enalteceram a sua administração.
Agradecendo, o dr. Annibal levantou o brinde de honra ao dr. Borges de Medeiros, a quem, disse, Cachoeira muito devia, no que foi calorosamente applaudido.
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As obras da construcção do quartel para o 3º Batalhão de Engenharia estão, como dissemos acima, a cargo da Companhia Constructora de Santos, estando aqui, ha varios dias, incumbidos dos trabalhos iniciaes os srs. dr. Victor Cavagnari, engenheiro, e Ernani Oliveira, almoxarife.
Estão feitos no campo todos os trabalhos de locação de edificios, que são em numero de quatorze. Muito breve serão iniciados os trabalhos de abertura dos alicerces, sendo as obras em seguida atacadas vigorosamente, pois o Ministro da Guerra pretende vel-as terminadas em Novembro proximo.

Um dos momentos daquele memorável dia, embora a notícia do O Commercio não refira, foi a colocação, junto à pedra fundamental, de uma cápsula do tempo contendo jornais e moedas da época. O incrível é que, 95 anos depois, a cápsula foi encontrada quase intacta! No interior da caixa de metal, exemplares dos jornais locais O Commerciode 15 de março de 1922, Cachoeirense, de 1.º de abril de 1922, A Palavra, de 2 de abril de 1922, A Manhã, de Porto Alegre, de 1.º de abril de 1922,  A Federação, de Porto Alegre, de 30 de março de 1922, Correio do Povo, de Porto Alegre, de 2 de abril de 1922, e Diario do Interior, de Santa Maria, de 1.º de abril de 1922. Há também, bastante deteriorada, parte do relatório da Companhia Constructora de Santos, de 1919-1920, provavelmente ilustrado com as obras empreendidas pela companhia naquele biênio.  Integravam ainda a caixa, quatro moedas de diferentes valores de réis, que era o dinheiro da época.

O conteúdo se revela

Trazida ao Arquivo Histórico por Osni Schroeder, presidente da Associação Cachoeirense de Amigos da Cultura - AMICUS, para ser analisada, a cápsula acabou revelando um conteúdo com alta significação histórica não apenas por proporcionar uma viagem no tempo, mas também por permitir que viessem à luz exemplares de jornais que se tornaram muito raros em nossos dias, caso de A Palavra, de cunho político dirigido por Fábio Leitão e de existência efêmera, como seu diretor, cuja coleção se perdeu, e o Cachoeirense, que porta um título que se repetiu na história da imprensa cachoeirense e que circulou por pouco mais de 10 anos, editado por Francisco Antônio Dias.

Osni Schroeder e a cápsula
O conteúdo da cápsula se revela
Raro jornal A Palavra
Igualmente raro jornal Cachoeirense
O Arquivo Histórico, como instituição de memória documental, agradece ao Comandante do 3.º BECmb, Coronel Guilherme Stagi Hossmann, que confiou na equipe da instituição para custodiar temporariamente o importante e inédito achado, dando-lhe o tratamento inicial conveniente.

A cápsula do tempo, tal como nos filmes de ficção científica, literalmente permite uma viagem ao passado, encontrando nele os vestígios de um dia que entrou para a história.

2/4/1922 - um dia para a história - Foto de Benjamin Camozato
- Grande Álbum de Cachoeira - 1922

MR
segunda-feira, 9 de outubro de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

60 anos do edifício-sede do Clube Comercial

No dia 5 de setembro de 2017 transcorreram os 60 anos da inauguração do edifício que serve de sede ao Clube Comercial, uma das sociedades mais tradicionais de Cachoeira do Sul.

Edifício do Clube Comercial - Rua 7 de Setembro
- foto institucional
A construção da sede própria foi sonho acalentado por gerações de associados, o que começou a se concretizar em 1945, quando um terreno e prédios localizados na Rua Sete de Setembro, esquina General Portinho foram adquiridos do casal Dr. Arthur Frederico Decker e Célia Decker. Em junho de 1949 foi lançada a pedra fundamental do edifício, com projeto desenvolvido pelo desenhista Ervino Brandt. A obra foi executada pela firma construtora Roberto Jagnow & Cia. Ltda., sob a direção técnica do engenheiro Hugo Schreiner.

Planta do edifício do Clube Comercial, projeto de Ervino Brandt
 - Acervo Arquivo Histórico
Símbolo do Clube Comercial
inserido no frontão do prédio 

Os jornais O Comércio e Jornal do Povo noticiaram largamente a movimentação local em torno das solenidades inaugurais da nova sede, marcadas para 5 de setembro de 1957:

As festividades inaugurais da nova sede do Clube Comercial. Sessão solene oficial amanhã, às 20 hs. - Banquete - Grandes bailes, dizia O Comércio, edição de 4/9/1957, p. 1.


O Comércio , edição de 4/9/1957 - Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico

Acontecimento auspicioso para Cachoeira do Sul. Imponente e Magestosa inaugura-se a nova sede social do Clube Comercial - Fruto grandioso da tenacidade, trabalho profícuo e denôdo de seus dirigentes e associados, publicou o Jornal do Povo em sua edição de 7 de setembro de 1957, p. 4, com sequência na seguinte:



Engalana-se a sociedade cachoeirense ao ensejo da festa inaugural da nova sede do CLUBE COMERCIAL. Acontecimento faustuoso de elevada significação dos anais sociais da Princesa do Jacuí - Vibram os associados comercialinos por tão grato ensejo - A programação.




O discurso inaugural foi pronunciado pelo Dr. Mário Godoy Ilha, escolhido por sua condição de mais antigo presidente vivo da sociedade. O presidente à época, Edwino Schneider, encontrava-se em excursão pela Europa. Os vice-presidentes eram Mário F. Ghignatti (1.º) e Dr. Ângelo da Cunha Carlos (2.º).

Dr. Mário Godoy Ilha - fototeca Museu Municipal

Há 60 anos o imponente prédio do Clube Comercial domina tradicional esquina da Rua Sete de Setembro. Ponto de encontro da sociedade cachoeirense por muitos anos, o endereço viveu dias de glória e encantamento, servindo suas dependências e artístico salão como cenários para momentos inesquecíveis.

Inventariado como patrimônio histórico-cultural, o prédio mantém características únicas no cenário urbano, refletindo tendências arquitetônicas próprias do final da década de 1950, início da de 1960, quando a estética da moda era a modernista, tendo Brasília como inspiração.

MR
quarta-feira, 27 de setembro de 2017 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

A escrava que foi a pé até Rio Pardo

Uma série de documentos advindos dos aparelhos da justiça, com datas anteriores à Revolução Farroupilha e que estão cuidadosamente preservados no Arquivo Histórico, começaram a passar por processo de transcrição. Sob o olhar atento da assessora Maria Lúcia Mór Castagnino, a Ucha, as urdiduras do passado têm vindo à tona. E as situações são surpreendentes e às vezes inusitadas, revelando aspectos de um tempo distante e absolutamente distinto do atual.

Ucha em atento trabalho de transcrição

O documento em transcrição é um auto cível de averiguação, datado de 16 de dezembro de 1829, cujo suplicante era Jozé Raimundo da Cunha, senhor da escrava Matildes, que estivera desaparecida desde setembro daquele ano. A audiência e lavratura dos correspondentes registros foram feitas

em caza de morada do Juis de Pás Suplente o Capitão Bernardo Moreira Lirio onde Escrivão do seu Cargo adiante nomeado e asignado foi vindo e sendo ahi tão bem prezente o Capitão Jozé Raimundo da Cunha (...). 


Primeira página dos Autos - Acervo Justiça

Perguntado pelo juiz se a escrava era sua e a quantos anos, Jozé Raimundo respondeu que Matildes era de sua propriedade há 34 anos, havida por dote de sua sogra, D. Jacinta Maria de Jesus, viúva de Antonio Simoins Teixeira, e que estava desaparecida desde setembro de 1829. Inquerido sobre o motivo da fuga,

Respondeu que sabia que Niceto Ferreira Lopes a tinha ceduzido para a fuga dizendo-lhe que ella hera Liberta no batismo que elle Aniceto tinha vendido para Porto Alegre a Jozé Francisco Duarte a certidão de edade e dinheiro que dela tinha recebido para promover a sua Liberdade.

Passando a interrogar a escrava, acompanhada pelo curador para isto nomeado, Jozé do Prado Lima, o juiz perguntou-lhe se de fato havia sido escrava do casal da

Finada dona Jacinta Maria de Jesus e se tinha passado ao poder do suplicante e como. Respondeu que tinha sido Escrava de Joze Ramos morador na Capella de Viamão que dele passou ao poder de Dona Jacinta Maria de Jesus e que desta passou ao poder do Suplicante em dote por se aver cazado com dona Angelica filha da mesma Dona Jacinta Maria de Jesus. 

O juiz perguntou ainda se durante todo esse tempo ela estava

serta de que hera captiva e como tal o servira. Respondeu que nunca duvidou do seu captiveiro e que porisso sempre servio bem a seus Senhores sem que tivese praticado alguma fuga senão a prezente. Preguntoulhe porque tendo ella sido sempre boa Escrava e servido bem a seus Senhores agora lhe tinha fugido de caza. Respondeu que tendo seu Senhor justado ao Carpinteiro Aniceto Ferreira Lopes para trabalhar nas Cazas que edeficou nesta villa e axandoce ella Interogada na mesma obra para Cuzinhar e fazer os mais serviços Nesessarios para o dito Carpinteiro e mais trabalhadores o mesmo Aniceto a entrou a ceduzir dezendo lhe que ella héra Liberta no Batismo e que elle sabe disso pela sua Certidão de Idade ese lhe oferecia para Cuidar na sua Liberdade e que por este principio lhe for alcanssando algum dinheiro que ella tinha adequirido de suas quitandas athe a quantia pouco mais ou menos de sete do Blas, e que afinal lhe dera um Papel dizendo ser asua Certidão de Batismo o qual tornou a receber no fim de tres dias a Conselhando-a que devia hir para Porto Alegre porque aqui se não poderia arumar e que ella Interogada Convencida de que odito Aniceto lhe falara verdade tratou com elle seguir para a dita Cidade e então elle lhe dice que seguice e se aprezentace a Joze Francisco Duarte que elle Aniceto Já lhe tinha enviado dinheiro e os Papeis para se lhe fazer o requerimento ao Senhor Prezidente. E que ela Interogada convencida de tudo a couza de dois mezes e meio se auzentou da Caza de seu Senhor siguindo a pé athe a Villa do Rio Pardo e dali embarcada athe Porto Alegre. 

A pobre escrava iludida foi a pé até Rio Pardo e de lá embarcou para Porto Alegre atrás da sua liberdade! Tal trajeto, certamente eivado de toda sorte de situações, ganha aos olhos de hoje um caráter fantástico. Quanto tempo teria levado para percorrer a distância entre a Vila da Cachoeira e a Vila do Rio Pardo? Que tipo de obstáculos encontrou? Como e onde dormiu? Alimentou-se de que forma? Que suspeitas despertou, sendo uma cativa? Perguntas que o documento não responde, abrindo espaço para a imaginação dos leitores.

Em seu depoimento, Matildes contou que chegando em Porto Alegre procurou o indicado Joze Francisco Duarte que disse

qui não tinha recebido papeis nem dinheiro algum e que tinha recebido uma carta mais que não a achava. E que ella Interogada entrando no conhecimento de que tinha sido Lograda só esperava o momento de vir para caza de seu Senhor por ter procurado certificarce da Verdade athé pasando a Capela de Viamão e examinando o asento do seu Batismo que veio achar na Camara Ecleziastica da mesma Cidade de Porto Alegre, e que assim desemganada e aparecendo lhe ali seu Senhor moço Zeferino Jozé da Cunha com elle voltou a caza de seu Senhor onde se acha. 

Última página dos Autos - Acervo Justiça

Triste a sina da escrava Matildes. Sonhando com a liberdade, saiu estrada afora. Frustrada em seu intento, só lhe restou voltar para casa e para o cativeiro. Mal ou bem, a casa de seu senhor era o seu único porto seguro.

Quanto ao sedutor da escrava Matildes, Aniceto Ferreira Lopes... Sumiu! Sabe-se lá se não foi aplicar o mesmo golpe em outra freguesia.

MR