segunda-feira, 21 de dezembro de 2015 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Mensagem de Boas Festas

Cartão natalino da equipe do Arquivo Histórico
- Arte: Neiva Köhler

Que em 2016 nossas boas ações perdurem,
deixando registros para a posteridade.
São os votos da Equipe do Arquivo Histórico.

Dezembro/2015
sexta-feira, 18 de dezembro de 2015 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Mazelas do Passado

Cumpre-me levar ao conhecimento de VV. S.S.ªs. que aparecendo um caso de bexigas em um menino, e convindo evitar que se deseinvolva a epedimia, e em vista do Art.º 116 das posturas Municipaes, resolvi esolar o bexigento, allugando p.ª isso a chacara de D. Senhorinha de Carvalho Ilha, justando tambem uma peçôa p.ª ajudar a cuidar no enfermo, e allugando a M.el Homem d'Oliveira carroças p.ª transporta o bexigento, trastes e viveres, e obrigando-me a que o medico fosse vêr o enfermo as vezes necessarias, e fornecendo remedios, dieta, e alimentos para as pessôas que forão cuidar no menino. De combinação com o Illm.º Sr. Presidente desta Camara fiz dar e dei estas providencias, e espero que esta Illm.ª Camara tomando na consideração que lhe parecer justa, mando saptisfazer aos interessados em tempo opportuno, o que communicarei a esta Illm.ª Camara.
Deos Guarde a VVSS.ªs
Delegacia de Policia do Termo da Cachoeira
21 de Maio de 1874

Ofício de 21/5/1874
CM/S/SE/CR - Caixa 11
Esta correspondência do Delegado de Polícia, Hilario José de Barcellos, nos remete a uma questão de saúde pública e que envolvia uma doença assustadora no século XIX, responsável por epidemias e muitas mortes: a bexiga, mais conhecida hoje como varíola.
A varíola é uma doença infecto-contagiosa que assolou e assombrou a humanidade por milhares de anos, sendo considerada erradicada pela Organização Mundial de Saúde desde o final da década de 1970 em razão da única forma de controle possível, a vacinação.
Em 2015 as autoridades brasileiras têm se deparado com um grande desafio que, a exemplo da dor de cabeça que a varíola dava às autoridades do século XIX, o mosquito Aedes Aegypti tem provocado como transmissor de três doenças: a dengue, a febre Chikungunya e o vírus Zika
Guardados a evolução científica e o número de recursos que hoje estão à disposição da medicina, o panorama social verificado em 1874 não difere muito do que se encontra em 2015. Se no século XIX a luta contra a bexiga só tinha chances de ser vencida com o isolamento do paciente, ainda que com parcos recursos materiais e profissionais, no século XXI o desafio é aprimorar a educação no Brasil, especialmente no manejo e cuidado com os ambientes em que as pessoas vivem. O Aedes Aegypti encontra espaço para proliferação livre porque as pessoas não são educadas para manterem os ambientes em que vivem sem os agentes criatórios do mosquito.
Bexiga ou zika, não importa o nome da mazela que nos atinja. O que é preciso é encontrar fórmulas que mantenham estas mazelas no passado.

MR
quinta-feira, 10 de dezembro de 2015 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Jornal O Correio Rumo a Uma Nova Era

O Arquivo Histórico é o depositário das coleções dos jornais cachoeirenses e fonte de consulta das notícias veiculadas na nossa imprensa desde 1900, ano em que teve início a publicação do semanário O Commercio, órgão que registrou o cotidiano local durante 66 anos. Oferece também alguns exemplares do jornal Rio Grande, menos conhecido por ter circulado por período mais curto, entre 1904 e 1915, e do Jornal do Povo, fundado em 1929, diário que já atinge 86 anos de circulação ininterrupta.
O mais jovem dos jornais que estão depositados no Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico, o O Correio, com circulação desde 1992, é o primeiro a mudar o formato, abandonando a mídia impressa para circular somente em ambiente virtual. É uma nova era que se impõe à imprensa e que já tinha sido adotada pelos dois jornais diários da cidade, o Jornal do Povo e o próprio O Correio, concomitantemente à publicação em meio físico. 
Ainda que o universo da WEB seja cada vez mais habitado, é de se lamentar a não impressão de um jornal que ensejava consultas e pesquisas entre os frequentadores do Arquivo Histórico, embora a capacidade de acompanhar o dia a dia da cidade não se esgote pelo caráter de instantaneidade que o meio digital permite e pela facilidade de acesso, já que os leitores podem buscar os conteúdos de onde estiverem apenas com um clique no link www.ocorreio.com.br

Um pouco da história de O Correio

O primeiro exemplar, a chamada edição de número zero do então Correio Popular, de 22 de março de 1992, dizia que teria linha editorial independente, sem submissões de qualquer espécie e nem concessões a fatores estranhos à melhor qualidade do jornalismo. O fato social, político, econômico será analisado segundo os rigorosos limites de isenção a plano ético, apanágio do bom jornalismo. (...) Lutaremos pelos desígnios de progresso da comunidade cachoeirense, incentivando todas as iniciativas, partam de onde partirem, no sentido do engrandecimento desta terra. Este será nosso rumo agora e no futuro. É a nossa promessa. À época da fundação era o diretor geral o Dr. Pedro Germano.



Edição número zero do jornal Correio Popular - 22/3/1992
- Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico
Em novembro de 1997 o jornal trocou de nome, passando a se chamar O Correio. Por esta época também começava a investir em mais cores na impressão.

Primeira edição com o novo nome: O Correio - 15-16/11/1997
- Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico
E, finalmente, na última edição do mês de novembro de 2015, O Correio anunciou aos assinantes e leitores que passaria a investir em Inovação, notícia em tempo real e com acesso gratuito. Esse é o novo perfil do jornal O CORREIO a partir de agora, que passa da versão impressa para ONLINE (www.ocorreio.com.br), com as notícias ao alcance da mão, a qualquer tempo, em qualquer lugar. Sejam bem-vindos a esse novo jeito de ler jornal! 
Viramos a página, diz a manchete da última edição impressa, pondo fim a uma sequência de 23 anos de circulação.


Última edição impressa de O Correio - 28-29/11/2015
- Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico
O Correio e seus exemplares já históricos
- Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico

As máquinas de impressão de O Correio cessaram sua azáfama diária, mas o ambiente virtual seguirá abastecendo a comunidade das informações que registram o cotidiano, das indagações que permeiam o mundo e dos desafios que a comunicação em seus mais diversos meios e formatos enfrenta numa sociedade que, mais do que tudo, quer acompanhar instantaneamente a evolução do seu meio e do mundo que a cerca.
Ao Arquivo Histórico, na condição de guardião da memória jornalística de Cachoeira do Sul, caberá seguir oferecendo aos seus usuários e pesquisadores a oportunidade de "virarem as páginas" do jornal O Correio. Literalmente!

MR
sexta-feira, 27 de novembro de 2015 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Levantamento dos Cegos na Província

A preocupação em levantar os cidadãos portadores de deficiência visual e oferecer-lhes educação já era manifesta pelas autoridades em meados do século XIX. Portanto, o que parece ser atitude contemporânea é muito mais antiga do que se imagina.

Em 1854, a Câmara Municipal recebeu a cópia de um ofício circular do Palácio da Presidência da Província, em Porto Alegre, datado de 3 de março, em que o Ministro dos Negócios do Império determinava que fosse apresentada uma estatistica aproximativa dos cegos que existem no Imperio, visto estar a crear-se na Côrte hum instituto destinado á educação dos jovens cegos. Além dessas informações, sobretudo o ministro tinha interesse de saber o numero das familias que possuem crianças em estado de serem admittidas no dito estabelecimento, e se fôr possivel devem taes dados estatisticos hirem com documentos assignados pelos Medicos e authoridades civis das Parochias, as quaes certifiquem que a criança he céga, que a cegueira não tem cura, que não he idiota, nem tem lesão organica, e bem assim o estado de fortuna de seus Pais (...)


CM/S/SE/CR/Cx. 17

Em 17 de abril do mesmo ano, o Subdelegado Isaias Baptista Roiz’ Pereira respondeu à Câmara o que a circular de 3 de março solicitava: (...) não consta haverem jovens cégos neste Destrito e que não obtive a informação p.los respectivos Inspectores como a Camara exigia porque os não há.

CM/S/SE/CR/Cx. 17

O Juiz de Paz Jozé Gomes Porto, em ofício de 10 de maio de 1854 também respondeu à Câmara que cumpre-me scientificar a V.S.ª, q.’ nem nesta Freguesia, e nem no seo 2.º Destricto ha jovem algum dos mencionados na Circular de S. Ex.ª de 3 de Março do corr.e anno.

CM/S/SE/CR/Cx. 17

Oliverio Antonio de Athaydes, Subdelegado de Polícia do 3.º distrito da Vila também respondeu à solicitação da Câmara, dizendo que já obtive as percizas informaçoens dos Inspetores dos Quarteirões, de todo este Destricto, e que, não há um só Jovem cego, especialm.e com as qualidades comforme a Circular de Ex.mo Senr" Prezid.e da Prov.ª.

E finalmente, em 9 de junho de 1854, o Delegado de Polícia Jacintho Franco de Godoy informou que só me consta existir neste 1.º Destricto nas circunstancias especificadas na sobredita Circular o Jovem cego de nome Rufino Carneiro da Silva, de idade de oito annos, filho de Quiteria Carneiro da Silva, summam.e pobre que não me parece ser idiota nem ter lesão organica, porem que não sei se a enfermidade que o priva da vista terá ou não cura.

CM/S/SE/CR/Cx. 17

Interessantíssimos tais documentos! Não só por trazerem à luz de nossos dias a intenção de favorecer educacionalmente os portadores de deficiência visual, quando ainda os ditos normais não tinham acesso universal à educação, e por revelar a identidade do único portador de deficiência visual localizado em Cachoeira: um menino de oito anos, de nome Rufino Carneiro da Silva. Os ofícios de resposta das autoridades dos principais distritos revelam também a rede de informações que estava disponível, mostrando-se eficiente no atendimento da solicitação vinda do Império, dentro da lógica e do emprego de tempo possíveis na época.

*O Estado Brasileiro reconhecia apenas duas deficiências no século XIX: a cegueira e a surdez. Em 1854 foi fundado, no Rio de Janeiro, capital do Império, o Imperial Instituto dos Meninos Cegos, atual Instituto Benjamin Constant. Esta instituição, assim como O Imperial Instituto dos Surdos-Mudos, criado dois anos após, funcionavam como internatos e inspiravam-se nos ideais iluministas, objetivando inserir os alunos na sociedade e ensinar-lhes sobre as letras, as ciências e a religião. Na Europa, as instituições congêneres eram normalmente assistenciais ou de caridade. No Império do Brasil, não. Eram consideradas instituições de ensino e, portanto, afeitas à organização da instrução pública.

*(Fonte: www.bengalalegal.com)

MR
sexta-feira, 20 de novembro de 2015 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

O Oráculo do Retiro do Irapuazinho

Foi fundado em Cachoeira do Sul, no dia do aniversário natalício do homenageado, 19 de novembro, o Instituto Histórico Borges de Medeiros, iniciativa de Suzana Luderitz Saldanha, bisneta do político que por mais tempo governou o Rio Grande do Sul.

A Estância do Irapuazinho, propriedade rural de Antônio Augusto Borges de Medeiros e sua família, no interior de Cachoeira do Sul, foi o local escolhido por ele para o descanso quando afastou-se definitivamente da política. Para lá correram muitos políticos ou seus enviados, não só do Rio Grande, mas do Brasil, atrás de aconselhamentos e pareceres sobre o cenário estadual e nacional. Repórteres de vários jornais também buscavam por ele, ávidos de impressões do velho líder.

Em 1931, ano que antecedeu a Revolução Constitucionalista, o jornal Correio do Povo, de Porto Alegre, enviou para Cachoeira, no mês de julho, um jornalista para acompanhar a visita que Flôres da Cunha, Interventor Federal, e Oswaldo Aranha, Ministro da Justiça, fizeram ao chefe do Partido Republicano, Dr. Borges de Medeiros. O jornal local, O Commercio, reproduziu em suas páginas trechos da reportagem feita pelo profissional de Porto Alegre: 

SEIS HORAS DE PERMANENCIA NO RETIRO DO IRAPUAZINHO
Impressões de um redactor do “Correio do Povo”

Um dos nossos brilhantes collegas do “Correio do Povo”, que se tem assinalado nestes ultimos tempos por uma serie de entrevistas de alto valor, acompanhou a comitiva do sr. dr. Oswaldo Aranha, ministro da Justiça e general Flôres da Cunha, Interventor Federal, á visita feita por ss. exas. ao egregio chefe do Partido Republicano sr. dr. Borges de Medeiros.
É desse trabalho que ainda mais salienta as qualidades jornalisticas do reporter que resumimos e extractamos o que se segue.
“Passavam 15 minutos da meia noite quando o trem sahiu á gare da estação de Porto Alegre. A viagem decorreu animada e sem incidentes de especie alguma. “Dir-se-ia que esta viagem, commenta o redactor, vae transformar-se numa licção pratica da campanha da boa vontade.”
E apreciando a obra do interventor, salienta:
“O general Flôres da Cunha, expondo a situação do Estado ao sr. Oswaldo Aranha confessa com melancholia:
A situação é tal que minha tarefa, no governo, está condemnada a isto: manutenção da ordem e arrecadação. Não tenho margem para iniciativas, para um governo constructor.
O ministro da Justiça interrompe-o:
- E você quer obra mais necessaria, no momento, do que essa? Um governo que, sob a imposição das circumstancias financeiras e economicas, se vota á defesa da estabilidade moral e material da sua terra, para que os seus successores possam construir sobre alicerces tão firmes, é um governo digno do respeito collectivo.
O interventor deplora a não realização de um largo programma de emprehendimentos. Por temperamento, elle sente o dynamismo da raça dos construcotes. Mas é um prisioneiro das circumstancias.
As palavras que, horas depois, ouviria do sr. Borges de Medeiros, já lhe dissiparam, por certo, a tristeza de não poder traduzir em factos o seu sonho de realizador energico...”
E continua, depois de uma digressão sobre a palestra que, no salão, encurtou as horas de viagem:
“Após quatro horas de viagem, na estrada mediocremente carroçavel, avista-se, no topo de uma coxilha, a fazenda de Irapuazinho.


Casa onde viveu Borges de Medeiros no Irapuazinho
- Imagem: Divinut Empresa - 19/11/2015
- Lá está a casa, - informa-nos o general Flôres da Cunha. Á medida que nos approximamos da fazenda, a nossa curiosidade augmenta. Como será esse homem que, ainda fóra do poder, representa uma força moral incontrastavel? Haverá exagero nos perfis que lhe traça a imaginação literaria dos seus entrevistadores? Um passado não distante acode-nos á memoria. Dentro da atmosphera de exaltação partidaria em que nos criámos, o lexico politico do tempo reservava uma palavra aspera para caracterizar o antigo presidente do Rio Grande do Sul: “dictador”. Ahi um dictador, naquelles tempos, era um monstro, uma entidade apocalyptica, que devorava a Liberdade (com inicial maiuscula) com um appetite rabelaiseano. Essa impressão de dictador, de um modo generico, até há menos de um anno, nos feria a sensibilidade. Foi o sr. Getulio Vargas o cavalleiro sem medo que nos desencantou o castello onde vivia o temivel dragão. A dictadura agora é uma cousa tão lyrica como a propria democracia. O monstro tornou-se um bicho tão domestico, aos olhos das gerações actuaes, que os homens de imprensa passam hoje a matar o seu tempo, no jogo innocente de cravar-lhe alfinetes no couro macio. Á perspectiva do trato com o sr. Borges de Medeiros, não era a reminiscencia dictatorial que nos fazia bater o coração. Era, acima de tudo, a sua projecção actual. Para elle, como para um oraculo, correm os homens, em busca de uma palavra orientadora ou de um conselho definitivo. Irapuassinho [sic], já dissemos e repetimos agora, é uma instancia oracular, cujas sentenças os correligionarios do sr. Borges de Medeiros acceitam como um artigo de fé e os adversarios do chefe do Partido Republicano respeitam, como uma lição de bom-senso e sabedoria. Aquella casa modestissima, que está deante de nós, em certos momentos da segunda Republica, se transforma no “centro da terra”, exactamente como o templo de Delphos para os pythios das delegações spartanas. Por que? Por uma necessidade peculiar á natureza humana, em todas as phases de civilização? Esta explicação, meramente psychologica, não basta. O phenomeno revela um dos aspectos curiosos da democracia, em todas as épocas: a necessidade da existencia dos “chefes”, dos conductores de massas. A soberania popular, em ultima analyse, se reduz a isto: a evidencia da sua fragmentação através de vontades individuaes directoras ou inspiradoras. Em resumo o chefe, o guia, o “leader”, como centros de gravitação das aspirações colectivas.

DEANTE DO SR. BORGES DE MEDEIROS

Deante do sr. Borges de Medeiros, após uma acolhida cordealissima, continuamos a interrogar-nos mudamente:
- Mas é esse homem franzino, de uma suavidade de tratamento que logo nos torna familiar a sua presença, que estende o seu governo moral a todo o territorio da Republica?



Não ha duvida nenhuma, é elle mesmo: aqui estão, para ouvil-o, um ministro e um interventor...
Meia hora depois da nossa chegada, se o sr. Borges de Medeiros não nos impressionára pela ausencia da dureza glacial das suas atitudes, desmentindo o retrato feito pela imaginação, nos commovia em face da simplicidade dos seus habitos, da quase humildade da sua vida, naquella vivenda rustica. Custava-nos crêr que um homem, depois de haver enfeixado nas mãos uma somma tão grande de poder, se resignasse a viver numa obscuridade tão flagrante. Nessa renuncia há um fremito de silencioso mas formidavel heroismo. Pouco e pouco, aquella obscuridade heroica se transforma, para surgir no seu verdadeiro sentido, para surgir como expressão de grandeza. Se, politicamente, nos sentimos tão separados hoje do sr. Borges de Medeiros como hontem, no torvelinho da lucta, comprehendemos que ao jornalista, num momento em que ensaia o papel chronista,  lhe incumbe o dever de proclamar esse traço de grandeza na personalidade do chefe republicano.
Durante o almoço, as nossas observações se enriquecem. O illustre chefe republicano é um conservador sobrio mas interessantissimo. Insulado no ermo, elle está em dia com o mundo e com a sua época. Apesar da sua feição moral conservadora – reflexo da longa passagem pelo governo – o solitario de Irapuazinho não crystalisou num grau de cultura refractaria ás acquisições progressivas reveladas pela evolução intellectual. Elle acompanha mentalmente a sua época. Homem de experiencia, de agil apprehensão de fórmas vivas da realidade, as ideologias passam pelo seu espirito sem lhe produzirem damno. Aceita o que a verdade experimental indica ser aceitavel, sem o feiticismo das abstracções doutrinarias. Querem uma prova? Eil-a: a sua recente entrevista ao “Estado do Rio Grande”.
Depois do café, o sr. Oswaldo Aranha offereceu-lhe um cigarro. O sr. Borges de Medeiros pergunta:
- Cigarros do Rio?
- Sim.
- Pois aceito, não só por ser do Rio, como por se tratar de um cigarro ministerial...
O ministro da Justiça passa para o gabinete onde o sr. Borges de Medeiros, fóra do governo, continua a dar as suas audiencias. Uma saleta inundada de claridade e com um armario de livros.
Retiramo-nos, comprehendendo que se ia tratar de assumpto de grande transcendencia politica. O general Flôres, o coronel Lucio Esteves e o major Alberto Bins acompanharam-nos. Dentro de alguns minutos, uma voz forte chama pelo nome do interventor:
- José Antonio!
É o ministro da Justiça que chama o general Flôres da Cunha para o gabinete do ex-presidente.
A entrevista entre os srs. Borges de Medeiros, Flôres da Cunha e Oswaldo Aranha se prolonga até ás 4 horas da tarde. A essa hora, é interrompida para o café. Observamos as physionomias: todas revelam satisfação. O conclave vae, naturalmente, ás maravilhas...
- Vamos recomeçar a nossa palestra?
O ministro e o interventor acompanham o chefe do Partido Republicano até á bibliotheca. Sahimos para fóra, novamente, repousando o olhar na linha sonhadora das serras azuladas de Caçapava.
A conferencia, no interior da saleta, decorre tranquilla. A’s cinco horas, dão-na por terminada. Chega a vez do prefeito. Elle marcha, calmo, para a audiencia, a fim de examinar com o chefe, a crise do arroz e a posição do Syndicato dos Arrozeiros deante dos interesses da produção cachoeirense. Depois o coronel Lucio Esteves, entretem num “tête-á-tête” de 15 minutos com o sr. Borges de Medeiros. Chega a nossa vez. Seis horas da tarde. Devemos regressar incontinente, segundo o convite do interventor.
O sr. Borges de Medeiros acolhe-nos com um sorriso se bondade.
- Como lamento não ter podido conversar, como eu desejava, com o senhor!
Agradecemo-lhe a delicadeza das palavras, respondendo-lhe tambem:
- Não viemos entrevistal-o, pois a sua ultima entrevista é recentissima e dahi até hoje nada surgiu que lhe possa merecer novas declarações. Contentamo-nos com a honra de conhecel-o pessoalmente...
O chefe republicano é liberal para com o jornalista:
- Já disse ao Oswaldo a ao Flôres que lhe déssem um resumo do meu pensamento.
- Muito agradecido.
A’ hora da despedida, o sr. Borges de Medeiros tem uma palavra para cada um.
Ao sr. Oswaldo Aranha elle abraça carinhosamente e pede transmittir um abraço ao sr. Getulio Vargas.
Abraçando o general Flôres da Cunha, diz:
- Tens que continuar no governo até o fim. Tu és o melhor interventor que o Brasil tem no modelo dos interventores.
Partimos. Rapidamente, as sombras da noite envolvem e fazem desapparecer fundida na treva, a casa pobre do cidadão que, sendo, no seu afastamento do mundo, um paradygma de nobre desinteresse, é uma alta lição de belleza moral, dentro da historia do regime.


Imagem: Divinut Empresa - 19/11/2015
O trem especial em plena marcha, a caminho de Porto Alegre, lembramos ao sr. Oswaldo Aranha a promessa do chefe do Partido Republicano.
O ministro da Justiça declara-nos:
- Voltamos, tanto eu como o interventor, satisfeitissimos do encontro com o dr. Borges de Medeiros. Resumo as minhas impressões nesta phrase do general Flôres, proferida após a nossa entrevista com o chefe: “Estamos, mais do que nunca, solidarios com o governo provisorio da Republica”.
Prossegue:
- O dr. Borges de Medeiros expressou a sua solidariedade com a obra administrativa e politica do governo provisorio. Essa solidariedade representa um voto de indispensavel confiança, de que precisamos para a realização dos compromissos que assumimos perante o Brasil. Ou inspiramos confiança ou não. Se a inspiramos, levaremos a cabo a obra a que estamos dedicando todas as energias. Volto, portanto, mais do que satisfeito, com o que ouvi do eminente chefe do meu Partido. A elle falei com a maxima franqueza, com a maior sinceridade. E é ainda com essa maior sinceridade e essa franqueza que irei falar agora aos libertadores, por intermedio do dr. Raul Pilla.
O governo provisorio conta então com o apoio decidido do dr. Borges de Medeiros para realizar as finalidades do seu programma?
- Sem duvida. Não ha divergencias.
- Mas o chefe republicano é pela reconstitucionalização immediata do paiz...
- Ninguem é contra a reconstitucionalização. Apenas nenhum de nós quer que se faça obra apressada. As declarações do sr. Assis Brasil, de chegada ao Rio, são bem expressivas.
(...)
O ministro da Justiça depois de mencionar a palavra do sr. Assis Brasil, accrescenta:
- O dr. Borges de Medeiros acha que um anno é o prazo razoavel para a normalização da vida politica nacional. Quanto á constituição, elle não é partidario da outorga de uma lei suprema ao povo brasileiro. O que elle suggére é que se elabore uma constituição provisoria, uma especie de ante-projecto da carta fundamental, para ser submettida ao exame das varias correntes de opinião. A constituinte póde adoptar ou regeitar essa constituição provisoria, aceitando-a em parte ou substituindo-a por outra”.
Termina o “Correio do Povo” a sua exposição com  esta nota:
“Já estavam escriptas estas impressões da viagem a Irapuazinho, quando tivemos noticia da conferencia que se effectuou, ainda hontem, numa das salas do palacio do governo, entre o ministro da Justiça e o dr. Rual [sic] Pilla, presidente do directorio Central do Partido Libertador. A entrevista, que foi longa, decorreu num ambiente de grande cordealidade. Entre os srs. Oswaldo Aranha e Raul Pilla ficaram definitivamente combinadas as directivas da acção do Rio Grande do Sul deante da obra a realizar pelo governo provisorio da Republica. Depois do entendimento de Irapuazinho, a conferencia de hontem entre o titular da pasta da Justiça e o chefe libertador veiu encerrar a phase das “démarches” motivadas pela viagem do primeiro ao Rio Grande do Sul.


Flôres da Cunha, João Neves da Fontoura,
Dr. Borges de Medeiros e Raul Pilla - Conclave de Cachoeira,
-acontecido um ano depois da matéria jornalística do Correio do Povo - 28/3/1932
- Fototeca Museu Municipal
O general Flôres da Cunha, com quem falamos depois da meia noite, nos declarou a proposito:
- A coordenação dos pontos de vista entre os dois partidos politicos do Rio Grande foi definitivamente assentada nestas duas ultimas conferencias. Pode o “Correio do Povo” declarar que foi completamente coroada de exito a missão que trouxe o ministro Oswaldo Aranha ao Rio Grande do Sul”.

(Publicado no jornal O Commercio, Cachoeira, Ano XXXII, N.º 1651, 22/7/1931, p. 3.)
 
MR
quinta-feira, 12 de novembro de 2015 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

"O mestre-sala dos mares" - cidadão cachoeirense

Há muito tempo nas águas
Da Guanabara

O dragão no mar reapareceu

Na figura de um bravo

Feiticeiro

A quem a história

Não esqueceu
Conhecido como
Navegante negro
Tinha a dignidade de um
Mestre-sala
E ao acenar pelo mar
Na alegria das regatas
Foi saudado no porto
Pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por
Batalhões de mulatas
Rubras cascatas jorravam
Das costas
Dos santos entre cantos
E chibatas
Inundando o coração,
Do pessoal do porão
Que a exemplo do feiticeiro
Gritava então
Glória aos piratas, às
Mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça,
Às baleias
Glórias a todas as lutas
Inglórias
Que através da
Nossa história
Não esquecemos jamais
Salve o navegante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais.



"O Mestre-sala dos mares", música de João Bosco e Aldir Blanc, pouca gente sabe, homenageia o marinheiro encruzilhadense João Cândido Felisberto, líder da Revolta da Chibata, ocorrida no Rio de Janeiro em novembro de 1910. Motivado pelo descontentamento com os castigos com chibata infligidos aos marinheiros pela Marinha do Brasil, João Cândido tomou a frente do movimento, exigindo do governo a abolição do uso da chibata. Por vários dias, amotinados, os marinheiros miraram os canhões dos navios de guerra Minas Gerais, São Paulo, Bahia e Deodoro para a cidade do Rio de Janeiro, então capital federal. Depois de negociações, o governo brasileiro comprometeu-se a abolir os castigos físicos na Marinha e a conceder anistia aos revoltosos. No entanto, logo depois disto, João Cândido foi expulso da Marinha do Brasil.





No ano de 1959, a Câmara de Vereadores de Cachoeira do Sul, numa proposição do vereador José Nicolau Barbosa, o "Almirante Negro" João Cândido foi agraciado com o título de Cidadão Cachoeirense. A ata da reunião da Câmara que registrou a proposta faz alusão ao pronunciamento do vereador Nilo Diniz Savi que, dentre outras coisas, manifestou o descontentamento com a Câmara de Vereadores de Porto Alegre que negou-se a conceder o Título de Cidadão Porto-alegrense a João Cândido.

No dia previsto para a homenagem, 22 de setembro de 1959, conforme registro feito pelo Jornal do Povo na edição do dia 24, ocorreu o que segue:

Sob a Presidência do Dr. Mário Ilha Filho e com a presença da quase totalidade dos vereadores, realizou-se, terça-feira última, a Sessão Magna Extraordinária da Câmara Municipal, convocada pela Presidência com a finalidade especial de ser procedida entrega do título de "Cidadão Cachoeirense" ao sr. João Cândido, líder da revolta de 1910, na Armada brasileira, que acabou com a chamada "Lei da Chibata".
Diversas autoridades dêste Município estiveram presentes nesse ato solene do Legislativo cachoeirense, destacando-se o sr. Arnoldo Paulo Fürstenau, Prefeito Municipal, que acompanhou o "Almirante Negro" até à Mesa.
Abertos os trabalhos, o Presidente disse da razão daquela sessão solene e dos motivos que levaram a Câmara a conceder ao sr. João Cândido o título honorífico de "Cidadão Cachoeirense". Em seguida passou a palavra ao vereador José Nicolau Barbosa para, em nome da Casa, saudar o ilustre visitante, o qual, em bonita oração, ressaltou o feito heróico de João Cândido, do qual resultou maior liberdade dentro da Armada Brasileira e um melhor tratamento para aqueles que a integram. Concluindo, disse que João Cândido era um verdadeiro símbolo da raça que aprendeu, juntamente com todos os brasileiros, a respeitá-lo e admirá-lo, pela bravura e patriotismo demonstrados na aniquilação da odiosa "Lei da Chibata", sob a qual tantos patrícios suportaram castigos desumanos e crueis.
Agradecendo em nome do homenageado, fez uso da palavra o Vice-Presidente da Comissão Organizadora da Recepção de João Cândido, o qual, em comovidas palavras, disse da emoção que invadiu o velho "Almirante Negro" ao ser distinguido com o honroso título que lhe foi concedido pelo Legislativo Cachoeirense, integrado pelos mais legítimos representantes do povo desta terra.
O Presidente Mário Ilha Filho convidou o sr. Arnoldo Paulo Fürstenau, Prefeito Municipal, para fazer a entrega do título ao sr. João Cândido, o que foi feito sob intensa salva de palmas da numerosa assistência.

Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico


Após a solenidade na Câmara, o "Almirante Negro" foi recepcionado no Clube União Independente. 

Com esta rememoração, o Arquivo Histórico presta uma homenagem à memória de João Cândido, o "Almirante Negro", relembrando neste mês de comemorações da Consciência Negra todos aqueles que, como ele, lutaram pela igualdade e humanização de nossas instituições. Sua morte, ocorrida dez anos depois, em 6 de dezembro de 1969, no esquecimento e na pobreza, não apagou da memória uma página emblemática da história brasileira que, ao ser recontada, faz aparecer Cachoeira do Sul como a cidade que homenageou a personalidade controversa daquele que, como diz a música de João Bosco e Aldir Blanc, tinha a dignidade de um Mestre-sala.

(MR)
sexta-feira, 23 de outubro de 2015 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

A enchente de 1941

As grandes enchentes de 2015 remetem o interesse para eventos climáticos semelhantes ocorridos em outras épocas. De imediato, a grande enchente de 1941, referência para a magnitude deste tipo de calamidade, vem para as rodas de conversa, recheia as notícias da imprensa e, já mais raramente, ainda encontra testemunhas oculares para darem suas impressões.

O jornal O Commercio, edição do dia 14 de maio de 1941, constante da coleção de imprensa do Arquivo Histórico, traz na primeira página a repercussão da grande cheia, refere os prejuízos na economia, especialmente no setor orizícola, e dá ciência das primeiras providências das autoridades após a verificação dos estragos:

Apezar das ultimas chuvas continúa baixando o nivel das águas

Jamais o coração dos riograndenses se sentiram tão cheios de tristeza, de aflição, de tantas apreensões, como por ocasião dessa catástrofe imensamente incalculaveis nos prejuizos, estragos e fatalidades, derivados das incessantes e cerradas chuvaradas, que, caíndo, impiedosamente sobre o sólo dos pampas, fizeram transbordar arroios e rios, irrompendo suas aguas por logares onde nunca tinham chegado, ficando submersos campos, fazendas, lavouras, estradas de rodagem e de ferro, e muitissimas partes de localidades e de cidades e ainda cortadas quasi todas as comunicações.

Os arroios afluentes do rio Jacuí, por espaço de cerca de vinte dias ininterruptos, se avolumaram de tal fórma que se estenderam como si fossem verdadeiros rios, destroçando todo o esforço dinâmico da mão do homem, desabrigando infinidades de lares pobres, levando-lhes a ruina, a desgraça, o luto e a fome.

As esperanças e as melhores perspectivas para o risicultor, para todas as classes laboriosas do nosso e de todos os municipios da gléba gaúcha, ficaram na dolorosa e fria estupefação de verem desfeitas as suas mais acariciantes aspirações, as quaes, si fossem realizadas, culminariam em brindar ao Rio Grande do Sul o conforto e o beneficio em favor de sua vida economica e, désta forma,  enriquecer o seu patrimonio de progresso e desenvolvimento em todos os setôres de sua atividade.

A produção de arroz, em nosso municipio, que era calculada em 1 milhão e 200 mil sacos, com os prejuizos, agora, evidenciados , atingirá,  quando muito, a 800 mil sacos, acrescentando-se, ainda, o fáto de que embora se empregue todo o zêlo e esforço possivel, o arroz será escassamente de primeira qualidade.

Ao meio dia de 6 do vigente o nivel das aguas, que antes tinham baixado, começou alterar-se, subindo 35 centimetros a mais, atingindo as aguas, na Praia, o primeiro pavimento do Engenho Central, assim como a séde do Grêmio Nautico Tamandaré, localisado um pouco mais acima, ficando, em parte, submersa.

Foto das águas da enchente atingindo o primeiro pavimento do Engenho Central
- Fototeca Museu Municipal
As águas atingiram a sede do Grêmio Náutico Tamandaré
e de armazéns dos arredores do porto - Fototeca Museu Municipal
Apezar de estar situado no logar alto, o Posto de captação da Hidráulica Municipal, que se acha na margem do rio Jacuí, na varzea de Nossa Senhora, tambem sofreu a influência da inundação, o que não se completou devido o reforçamento de sua parte de emergencia, prejudicando, entretanto, o funcionamento dos motores das bombas, de tal maneira que ficou interrompida a captação das aguas, utilizando-se, em seu logar, outros recursos, motivo porque foi reduzido o fornecimento de agua á população.

Grandes foram os prejuizos ocasionados na “Olaria Progresso”, de propriedade do sr. Antonio da Cunha Reis, que foram calculados em mais de 30 contos de réis. Dos tres galpões, de cerca de 100 metros de comprimento, só restou uma parte, sendo levadas pelas aguas as demais, assim como 180 mil tijolos e 800 metros de lenha.

A ação das tremendas chuvaradas se fez sentir tambem no paredão da maxambomba da Agencia local da Cia. de Navegação Becker Ltda., cujo piso de terra afundou em um dos lados do referido paredão, ficando um tanto partido.

Com referencia ás zonas avassaladas pela enchente, uma grande caravana constituida de autoridades civis, medicos, altos elementos representativos da lavoura risicola, do comercio, funcionarios prefeiturais, e outras pessoas representativas de todas as classes sociais de Cachoeira, embarcados em gazolinas, estiveram socorrendo as vitimas do tremendo flagélo da enchente.

Uma commissão composta dos srs. Cyro da Cunha Carlos, prefeito municipal; Floriano Neves da Fontoura, membro do Conselho Administrativo do Instituto do Arroz, Luiz Gonzaga Quites, gerente, nesta cidade, da filial do Banco do Brasil, José Joaquim de Carvalho, presidente da União Central dos Risicultores, representantes da imprensa e outras pessoas gradas, excursionou, numa lancha á gazolina, ás zonas devastadas pelas aguas, sob as quaes jaziam grande numero de lavouras, espetaculo esse que contristou á todos os excursionistas, pois o que só se lhes deparavam eram destroços de casas, galpões, cercados, objectos de lavoura, etc.

Comissão de verificação das cheias, vendo-se o Prefeito Cyro da Cunha Carlos (em primeiro plano,
o quarto), Floriano Neves da Fontoura (em primeiro plano, o terceiro)
- Fototeca Museu Municipal
O calculo de elementos sem serviço attingiu, sem contar suas familias, á 1.500 trabalhadores, e centenas de pessoas que viram suas moradias arrastadas pela correnteza e tiveram que se refugiarem nas coxilhas, ante a furiosa invasão das aguas.
(...)

Fotografia da enchente
Acham-se em exposição nos Studios Aurora e di Marco, innumneras fotografias apanhadas dos locaes onde a enchente das aguas mais se fizeram sentir, e que atestam mais ainda a enormidade dessa catastrofe, que inundou quasi todo o Rio Grande e que foram batidas quando o sr. Prefeito Ciro [sic] Carlos, acompanhado de diversas pessoas de representação, estiveram percorrendo diversos trechos do rio Jacuí.

Mesmo decorridos 74 anos daquela grande enchente de 1941, muito pouco nossas cidades evoluíram no sentido de minimizar os efeitos de uma calamidade deste gênero. Apesar dos avanços tecnológicos, o homem segue refém da natureza...

(MR)
quinta-feira, 8 de outubro de 2015 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Arquivos Públicos Municipais: Preservação da Memória, Transparência e Acesso à Informação

O Arquivo Histórico do Município de Cachoeira do Sul fez-se representar no Seminário Arquivos Públicos Municipais: Preservação da Memória, Transparência e Acesso à Informação, na Cinemateca Capitólio, em Porto Alegre, dia 7 de outubro de 2015, representado pelo Chefe Eliseu Machado e as assessoras Ione Rosa, Mirian Ritzel e Neiva Köhler.

Cinemateca Capitólio - Porto Alegre - foto Mirian Ritzel
Equipe representante do Arquivo Histórico:
Ione Rosa, Mirian Ritzel, Neiva Köhler e Eliseu Machado
O evento, promovido pela Secretaria da Cultura, Coordenação da Memória Cultural e Arquivo Histórico de Porto Alegre Moysés Vellinho, foi coroado pelo lançamento do Guia de Fundos das Câmaras Municipais do Rio Grande do Sul: período Colonial e Imperial - 1747 a 1889, do qual Cachoeira do Sul fez parte por ter documentação destes dois períodos, e pela assinatura de convênio entre a Prefeitura Municipal de Porto Alegre, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo - CAU/RS e o Sindicato dos Arquitetos/RS para captação de recursos com vistas à digitalização dos acervos dos municípios participantes do Projeto Câmaras Coloniais e Imperiais. Cachoeira do Sul foi signatária do convênio, representada no ato por Eliseu Machado.
No programa do evento, importantes debates envolvendo a problemática dos arquivos públicos municipais no que se refere ao seu papel de preservar a memória e garantir o acesso às informações contidas em seus acervos: Política Nacional de Arquivos, por representante do Conselho Nacional de Arquivos- CONARQ; Acesso à Informação e Transparência Ativa através da Plataforma Arquivística em Software Livre para Arquivos na Internet, pelo professor Daniel Flores, da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM; Arquivos, Transparência e Acesso I, por Jorge Eduardo Enriquez Vivar - UFRGS; A Importância da Documentação das Câmaras Municipais para a História do Brasil, por Helen Osório - UFRGS e Jorge Alberto Soares Barcellos, historiador do Memorial da Câmara Municipal de Porto Alegre, e 2.º Encontro dos Municípios Criados no Período Colonial e Imperial - Apresentação dos Resultados do Projeto Câmaras Coloniais e Imperiais.

Representantes dos municípios signatários do convênio
com o Secretário de Cultura de Porto Alegre, Roque Jacoby,
e a Diretora do Arquivo Moysés Vellinho, Rosani Feron
domingo, 27 de setembro de 2015 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

As Comemorações do Centenário Farroupilha em Cachoeira - 1935

Em 20 de setembro de 1935, como em todo o Estado, também Cachoeira desenvolveu um vasto programa para comemorar o centenário farroupilha, que constou de A grande parada das forças federaes e dos collegios. - A inauguração do monumento a Antonio Vicente da Fontoura. - Uma sessão no Consistorio das Irmandades Conjunctas. - conforme estampou a primeira página do jornal O Commercio em sua edição do dia 25 de setembro de 1935:

Jornal O Commercio, edição de 25/9/1935, p. 1
- acervo de imprensa do Arquivo Histórico
A's 6 horas, uma banda de clarins percorreu as principaes ruas da cidade, sendo celebrada, ás 8 horas, na Igreja Matriz, uma missa solemne, a qual foi concorridissima, e assistida pelos collegios e autoridades civis e militares.
A's 9 horas foi inaugurada a herma do heroico farroupilha Antonio Vicente da Fontoura, falando, em nome do municipio, e como representante do prefeito, o sr. Virgilio de Abreu, que, dando o monumento por inaugurado, fez sua entrega á cidade, como patrimonio moral, dizendo da grande significação daquelle acto em que se homenageava um dos expoentes maximos da Epopéa Farroupilha, sendo muito applaudido.
Após, fallou em nome da Escola Complementar "João Neves da Fontoura" e Collegio Elementar "Antonio Vicente da Fontoura", a senhorita Dora Abreu, merecendo a sua oração calorosos applausos.
Por ultimo, em nome da mocidade de Cachoeira, o dr. José Patricio de Albuquerque proferiu uma bela oração.
[...]
Em seguida, foram cantados os hymnos Rio Grandense e Nacional, vocalisados pelos alumnos e professoras da Escola Complementar e Collegio Elementar e, após o desfile das forças militares da Guarnição Federal e Destacamento da Brigada Militar desta cidade, bem como dos athletas da Sociedade Atiradores Concordia, Gymnasio Roque Gonçalves, Collegio Brasileiro-Allemão, Collegio Elementar, Escola Complementar e Grupo Escolar e alumnos dos collegios Immaculada Conceição, das Missionarias de Jesus Crucificado e da União de Moços Catholicos, que foi assistido pelas autoridades civis, militares e eclesiasticas da Tribuna de Honra especialmente levantada enfrente a Herma, que tem os seguintes dizeres:

"1835. A' Antonio Vicente da Fontoura, Homenagem do Municipio de Cachoeira, 1935"

e logo abaixo as armas do Estado. 
No Consistorio das Irmandades do S. S. e Nossa Senhora da Conceição, realizou-se, ás 14 horas, uma sessão solemne, na qual foi inaugurado o retrato do Provedor Honorario, o estimado cidadão João Carlos Brandes, e homenageado Antonio Vicente da Fontoura, tendo sido a sessão aberta pelo sr. Achylles Figueiredo, actual provedor [...]
Em seguida a senhorita Marina Brandes, filha do homenageado, descerrou a cortina do quadro, o que foi feito entre calorosas palmas da selecta assistencia, sendo o sr. Brandes muito felicitado, por aquella demonstração de apreço e gratidão que lhe tributava a veneravel Irmandade, o que, em breves palavras agradeceu, commovido.
Falou, após, o orador oficial, dr. Balthazar Gama Barbosa, que discorreu sobre a personalidade de Antonio Vicente da Fontoura, que foi provedor das Irmandades em 1845, e em cuja mesa historica, que é uma reliquia daquella casa, e na qual se realizou a sessão solemne, foi assassinado naquelle mesmo recinto, dizendo o dr. Barbosa magistral peça oratoria que causou funda impressão no selecto auditorio, sendo o orador cumprimentado por todas as pessoas presentes, entre as quaes muitos netos do Commendador Fontoura, que, muito commovidos, agradeceram aquella homenagem ao saudoso ascendente tronco da grande arvore das familias Porto, Xavier e Fontoura, desta cidade.
Como mais ninguem quizesse fazer uso da palavra, o sr. Achylles Figueiredo, convidou o revmo. monsenhor Armando Teixeira, vigario da parochia, a encerrar a sessão, em nome de Deus, o que foi feito, com as phrases do estylo, acompanhadas por todos os presentes "Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo".
Estiveram ali representadas todas as associações religiosas, autoridades civis, e militares e ecclesiasticas [...]

Mons. Armando Teixeira
- fototeca Museu Municipal
sexta-feira, 18 de setembro de 2015 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Um documento farroupilha

Setembro é mês de relembrar a história da Revolução Farroupilha, confronto ocorrido há 180 anos e que convulsionou o Rio Grande do Sul durante dez anos.

Cachoeira foi um dos 14 municípios farroupilhas e como tal vivenciou momentos de grande tensão e de indecisão, pois por vezes abraçou a causa dos revolucionários por outras manteve postura conservadora.

Desse período  memorável há farta documentação preservada no acervo do Arquivo Histórico, na qual estão incluídos os livros que registravam os termos e autos de juramentos e posses dos vereadores, que então eram os dirigentes da Vila Nova de São João da Cachoeira. Pois estes livros apresentam uma lacuna no período referente aos anos de 1836 a 1840 em razão da ordem do Major de Brigada Jozé Victor de Oliveira Pinto de que fossem arrancadas as folhas que continham negócios "com o Governo rebelde".

As páginas arrancadas roubaram detalhes da história, mas existem muitos documentos avulsos que contam episódios interessantes da época ou simplesmente retratam rotinas administrativas, como um ofício do vereador Antonio Joaquim Barboza, empossado em 27 de junho de 1835, poucos meses antes de estourar a revolução. Em 11 de janeiro de 1836, alegando problemas de saúde, Barboza cumpriu um ritual exigido aos faltosos às sessões ordinárias: apresentar atestado médico para justificar-se.

Carta do vereador encaminhando atestado médico
11/1/1836 - CM/S/SE/CR/Cx. 16
Ill.mos Senr.s

Tendo partecipado a essa Camara no dia 7 do corr.e q' m.e achava imcomodado, eque p.r isso não podia comparecér nas prez.es Secçoens Ordinr.ªs; dignarão=se VS.ªs não acreditarem mª partecipação, etive hum avizo verbal dado p.lo porteiro dessa Camara, q' m.e ordenava juntasse Sertidão de mollestia, o que cumpro; e VS.ªs Se dignarão rezolver como for de Justiça. Deus Guarde aVS.ªs. Cachoeira 11 de Janr.º de 1836.

Ill.mos Senr.s Priz.e, e mais Vereadores
da Camara Municipal desta V.ª


Antonio Joaq.m Barboza


E apresentou junto o atestado emitido pelo cirurgião Joze Francisco Alves Malveiro, rico em detalhes:

Atestado do cirurgião Joze Francisco Alves Malveiro
11/1/1836 - CM/S/SE/CR/Cx. 16
Joze Francisco Alves Malv.r
cirurgião aprovado em cirurgia
anathomia e operações

Atesto que Antonio Joaquim Barboza continua apadeçer de retenções de urinas pelo tropeço, ao encalhe que tem no canal da ureta; e como molestia cronica, he incapaz de ezercicios ativos, tanto corporaes, como mentaes oq.e deve evitar ropas apertadas sol forte e toda a claçe de estimolos, q.e tudo lhe he nocivo, p.r aumentar reptições de suas emfermid.es; alem de nóvament.e achar-se con os dedos do pé contusos p.r violencia externa q.e sofreu e o inpocebelita de calçado apertado; e p.r todas estas rezões não pode ezerçer Actos publicos: O referido he verd.e q.e juro aos S.tos evangellios Caxoeira 7 de Janr.º de 1836.

Joze Fran.co Alves Malveiro

Os documentos acima, com quase 180 anos, remetem a um período histórico ímpar, ilustrando um fato que está longe de ser singular, uma vez que a prática da justificativa com atestado médico é corrente até hoje. O valor destes documentos está também no fato de que eles demonstram o quão importante é ter uma instituição cultural como o Arquivo Histórico, capaz de guardar e difundir detalhes de uma época tão longínqua, trazendo à luz personagens que não protagonizaram grandes feitos, mas que viveram e enfrentaram situações típicas da condição humana. Em qualquer tempo!

(MR)
terça-feira, 15 de setembro de 2015 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Prédio antigo a perigo

Todos os lugares, em sua conformação urbana, lidam com questões que envolvem a segurança dos seus moradores não somente ao que tange à sua integridade enquanto pessoas, mas também quanto aos ambientes em que elas circulam e desenvolvem suas atividades. E tais questões sempre foram desafios às autoridades, exigindo a elaboração de códigos urbanos que as regessem, determinando posturas do aparato público e dos cidadãos.

Interessante o conteúdo de um ofício datado de 20 de janeiro de 1890, período em que o município de Cachoeira era regido por uma junta administrativa, denominada Junta Municipal, em que está expressa a preocupação dos administradores com um prédio antigo localizado na Rua 7 de Setembro, cujo estado de ruínas demandava atenção de todos. 

Ofício assinado pelos membros da comissão - 20/1/1890
(JM/OM/Ofícios - Caixa 1)
Para analisar a questão e emitir parecer a fim de que os integrantes da Junta Municipal tomassem as providências necessárias, foi nomeada uma comissão composta por João d'Araujo Bastos e Manoel Gomes Pereira*. Eis o conteúdo do ofício e o resultado do exame procedido pela comissão:

Cachoeira 20 de Janeiro de 1890

Sessão de 31 de Janeiro


Nos abaixo assignados nomeados, por essa Adminstração para examinar o predio sito a rua 7 de Setembro, esquina da rua Conde de Porto Alegre. Respondemos que hoje de accordo examinamos o dito predio e de facto se acha em grande ruinas, do que julgamos necessidade de completa demolição, visto que, já foi arriado o espigão do lado do sul e retirado o material, e com este trabalho ficou desloucada a linha da comieira e os freixaes, ficando assim muitas paredes fora de prumo, que será enivitavel a quéda do resto do predio, do que resultará o prejuizo de materiaes e alguma vida. Pensamos ter cumprido a missiva que nos confiarão.

                                                                Saude e Fraternidade

Aos Cidadãos Administradores
d'este Municipio.

João d'Araujo Bastos
Manoel Gomes Pereira

A Cachoeira de 1890, por ser menor e menos complexa, fiscalizava e resolvia as questões urbanas com aparente maior rapidez. O prédio em ruínas, referido no ofício, não foi identificado. Pode ter cedido espaço para uma das casas que ocupam hoje os quadrantes da Rua 7 de Setembro com a Conde de Porto Alegre...

*Manoel Gomes Pereira foi, mais tarde, o construtor do prédio do primeiro Hospital, hoje sede da Escola de Saúde do HCB.

(MR)
sexta-feira, 28 de agosto de 2015 | By: Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul

Escravo Fujão

O acervo do Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul guarda verdadeiros tesouros. Muitas destas jóias seguem ainda inéditas, aguardando o olhar criterioso de quem, primeiramente,  se disponha a decifrar a arcaica caligrafia e, muitas vezes, a pouca clareza do escriba...

Recentemente, em averiguação de documentos guardados em um arquivo denominado Justiça, não classificado como integrante do Fundo Câmara Municipal e por isto mesmo apartado deste conjunto documental, foi localizado um interessante depoimento de um negro fujão, datado de 4 de maio de 1829.

Transcrito minuciosamente pela assessora técnica Maria Lúcia Mór Castagnino, a Ucha, o documento trouxe à luz do século XXI uma situação certamente corriqueira naquela primeira metade do século XIX, tempo de senhores, de escravos, de fugas e de guerras.

A assessora Ucha Mór em trabalho de transcrição

1829"             Autto de Pregunta
Mº 4
N.º 8              Juizo de Paz                                             J. (?)
                                                                                       Almeida

Antonio Bagamundo natural da Costa forro

Anno de Nassimento de Nosso Jesus Christo de mil oito centos e vinte nove aos quatro Dias do mes de Maio do dito anno em Caza da residencia do Capitãn Bernardo Moreira Lirio Juiz de Páz desta Friguezia e seu Termo onde eu Escrivão vim esendo prezente Antonio Bagamundo para cer perguntado a causa da sua fuga e o Escravo Miguel Escravo de Guilherme Antonio de Athaides e Maria Escrava de Antonio Vicente da Fontoura Disse o seguinte = que sechama Antonio Bragamundo e que sendo Soldado de Artigas fora Prizioneiro no Artaque de Taquarembo e vindo Prizioneiro para Capital sentara Praça no Batalham dos Anriques da Cidade de Porto Alegre onde esteve no Serviço seis mezes seno seu Comandante o Sargento Mor Lourenço Junior de Castro, por tanto Dezertara para seir transportando a Santa fe e que xegando n esta villa encontrara com a Negra Maria, Escrava de Antonio Vicente da Fontoura e lhe preguntara o que Andara fazendo e que ella lhe respondera que seandava aprontando para fugir e que elle dito Antonio Bagamundo que visto ser afim e ella o quizera acompanhar que irião para Santa fe ao que ella respondera que sim e estava pronta como de fato comigo foi e estavão juntos. Quando nos prenderão os Capitains do Mato nos Matos do Otro Lado de Santa Barbara, e Enquanto o Negro Miguel Escravo de Guilherme Antonio de Athaidez hu meu Patricio e foi Prizioneiro no Ataque de Taquarembo Junto comigo, Elogo que elle aqui mevio e convercemos, Eproguntando me elle para onde hia eu lhe dice que tinha Dezertado e que hia Caminhando para Santa fe ao que elle merespondeu que o não deixace pois me quiria a Companhar para o que hia buscar a sua ropa como defato veio e seguimos Junto com a dita negra e fomos todos os tres prezos no mesmo lugar assima dito. E para constar mandou o Juiz Lavrar este de Termo de pregunta em que assinarão perante mim João Alvarez de Almeida. Eu escrivão de Juizo de Paz que o escrevy e a Signey

Lirio.
Custodio Manoel Gomes
Antonio Joze de Almada
Sinal de Antonio Bagamundo
João Alvarez de Almeida
Primeira página do documento - sem classificação


Verso da segunda página - com assinaturas